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O nosso
Ribeirão do Piquete Da janela do velho casarão eu contemplava, emocionado, a fúria desencadeada que chegava da serra e trazia noticias de tromba d'água. Era um desfile desordenado de coisas vivas e mortas: cercas desmanteladas, pequenas árvores de raízes aduncas e nervosas, bananeiras-flechas no ar, tufos de capim, tudo enlaçado no estrangulamento dos cordames de cipós. As vezes passavam troncos alvoroçados de orquídeas. Eu ouvia o barulho oco das pedras e temia por supostos ninhos na friagem das correntezas. Tinha dó das galinhas aflitas, boiando desajeitadas. Lembro-me daquele animalzinho comprido, lustroso, ziguezagueante. Ouvi, pela primeira vez, o seu nome, era um lontra (vinha de que longes?), tão descontraída e ligeira, elástica e versátil. Ancorou numa das margens e diluiu-se nas sombras de um quintal. Ficou o desejo de pegá-la, correr- lhe os dedos pelo dorso luzidio e guardá-la como brinquedo ou bichinho de estimação, figura reluzente no livro da meninice. Punha-me a pensar no Paraíba, ele também se dilatando na loucura de tantas águas. A enchente não respeitava nada: derrubava muros, carregava pontes, destruía hortas e jardins, profanava o interior das casas e despejava nas ruas seu ímpeto desenfreado. No antigo casarão, meu avô Chiquinho Máximo, tranqüilo e solene, distribuía a paz e a calma, dissipava os medos e controlava as emoções. E isso o fazia grande diante dos meus olhos. Na rua, meninos aplaudiam o espetáculo das coisas passantes naufragadas e surpresamente gritavam: "Lá vem um cachorro morto!" "Olha lá, uma cobra nadando!" Uma alegria temerosa provocava inquietação, desassossego. Pessoas vinham de longe para ver aquela multidão de águas caminhantes. Algumas lembravam o dilúvio, outras conversavam com Santa Bárbara. Mas, ficavam a distância, cautelosas, cochichando rezas e superstições. Pareço ver ainda um grupo de rapazes munidos de cordas, na tentativa de laçar os troncos que rolavam estonteados de cambalhotas e mergulhos. Minha avó contava que certa vez uma mulher rolava na enchente, mas fora salva graças à habilidade de um rapaz que manejava o laço com destreza e prontidão. Durante vários dias, ela ficou alheia a tudo, afogada na melancolia, como se não pertencesse mais a este mundo. Após a enchente vinha um repouso sobre as coisas, um silêncio na paisagem: o capim amassado, de cabeça inclinada, verdinhando no sossego; o ribeirão, cansado de tanto esforço, parava no Poço do Vidinho e no Poço Fundo, convidando a molecada para o banho. Ali e acolá, ramos espetados nos barrancos com promessas de raízes e rebentos; areias fofas, pedras lavadas, transparências de vidro, voejos coloridos... Alguns mendigos vasculhavam o caminho das águas e recolhiam destroços atirados: lenha para o fogo, brinquedos sem dono, coisas arrancadas dos quintais. Os adultos lastimavam os danos sofridos, mas em nós, crianças, ficava uma ponta de saudade e um desejo secreto e irreverente de chuvarada na serra, com prenúncios de novas cheias. Esse meu ribeirão tem uma história para contar... Com o tempo, porém, foi ficando miudinho e raquítico. Hoje, sem a dignidade de outrora, desliza acanhado, espremido entre pedras e capins, pasto de urubus vadios e vacas madrugantes. Poluído e sujo, arrasta-se sem a poesia de peixes e moleques. Lembra um espantalho molhado, manchado de nódoas, com remendos de podridão. Morrente a cada dia, mais parece córrego que Ribeirão. Um poeta, nosso irmão, nascido aqui, Carlos Alberto Caetano, compôs-lhe um réquiem: "...
carcomido pelo passar-vida, Mas ele
sempre correrá na nossa geografia interior, conduzindo-nos às margens da
infância e nos banhando das velhas alegrias,que o tempo não consegue
apodrecer. |
Background by Vânia

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