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Roupa Nova Desbotada
Éramos todas de branco. Fita amarela ao pescoço e a
ingenuidade que só as crianças possuem. Desfilávamos, brancas,
engomadas, feito soldados angélicos. Nas procissões, cantávamos. Nas
vigílias, rezávamos.
Primeiras sextas-feiras do mês, missa e todas de
uniforme. E o jejum que fazíamos aos domingos, para podermos,
durante a Santa Missa, comungar! E quantos desmaios! Santa Missa
rezada em latim, o padre de costas, como se quisesse esconder um
grande mistério. Pontuais, brancas, engomadas.
Mas
estas lembranças não são as únicas que ficaram de um cruzadinha que
eu era. Eu me lembro, com saudades, que ao lado da igreja jogava-se
queimada para se aquecer do frio, balançava-se em galhos de árvores
arriscando-se uma queda mais grave. Além disso, os protestos,
repreensões e castigos às mais levadas.
Começo de novembro: alvoroço - começavam as escolhas
para os "atores" do presépio vivo. Era festa, algazarra; silêncio,
quando exigido e muita concentração para decorar os papéis.
Infatigavelmente, horas após horas, ensaiávamos. Ainda hoje, lembro-
me de alguns "atores": Cidinha era São José; Áurea Lúcia, arauto do
rei; Elisinha era um anjo; Emeli, Herodes; Dora Félix, o sumo
sacerdote. Eu fui moço do templo, arauto, sumo sacerdote e soldado.
Tão soldado em minhas estripulias de criança que, num dos ensaios,
de lança em punho, brincando nos degraus do altar, quebrei a asa de
um dos anjos que guardavam o Tabernáculo.
Escrevendo sobre esses fatos, coloco-me dentro da velha
Matriz de São Miguel. A Matriz que me ensinou as primeiras orações
colocou-me junto à pessoas de quem aprendi a gostar. A igreja que
era beleza, majestade e imperava sobre nossas cabecinhas. Ajoelhados
ou sentados, estávamos sempre lendo nos bancos as placas que diziam
"Lembrança de Tita Cardoso". Placas brancas com letras azuis. Como o
azul do teto que estampava a majestosa imagem de São Miguel,
vencedor sobre o dragão do mal.
Maravilhosa imagem que me distraía nos momentos em que
a missa - criança que eu era e sem nada entender do latim - se
tornava monótona. As paredes laterais, com as imagens da Via Crucis,
tão antigas quanto a própria igreja. Quase perto do altar, as
paredes se abriam em oratórios enormes para acolher as imagens do
Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora. No altar principal, os
dois anjos, guardiões das promessas e mistérios de Deus. E hoje é a
Igreja das Almas. Pela proximidade que tem com o
cemitério?
Não
sei. Nem atino com o porquê. Que mãos, meu Deus, que olhos e que
cabeças poderiam ter transformado assim a nossa matriz? Paredes sem
cor, sem santos, estilizada. Chega a ser fria por dentro. Dos sinos
que repicavam juntos ontem, restou um só - que chora e se
lamenta.
Tudo frio e impessoal. É certo, minha fé não residia
nas formas e adornos do que foi a Matriz de São Miguel, mas as
imagens que sobraram sentem-se frustradas. O modernismo da
restauração, as cores que se fazem opacas, sem vida, gelam minhas
imagens - recordações.
Ao
mesmo tempo que ergueram a nova Matriz, eu me sinto órfã de igreja.
Sem nunca ter me desacostumado com a velha e sabendo que a nova
nunca será como a outra. Pois as paredes, as escadarias da "outra"
têm vida escondida, lembranças abafadas, memórias em suas antigas
cores.
Que
me perdoem os restauradores, mas chego a ficar triste, lembrando-me
da velha Matriz. Vocês não a deixaram cair, é certo, mas deram-lhe,
entre outras coisas, uma nova roupa desbotada. Só não mudou o velho
latim de sua porta, que continua a nos dizer: "QUIS UT
DEUS".
Eunice
Ferreira Publicado no Jornal "O Estafeta" de julho de
2000 Página formatada em 02 set 2004
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