O Morro do Santo Cruzeiro

No morro em frente à velha matriz de São Miguel uma cruz de concreto brilha nas noites piquetenses. Ela substitui outra, de madeira, fincada lá no alto em 1900 e benta por Frei Silvério, frade franciscano que aqui estava em missão apostólica, conforme o livro "Rememorando...", de autoria de Carlos Vieira Soares.

Afirma ainda o nosso cronista e historiador que "o lenho desse cruzeiro era o de uma caviúna derrubada e lavrada no próprio morro pelo famoso madeireiro José Serrador." Uma tosca e humilde capelinha de tijolo lá foi erguida em 1930. O transporte de tijolos, pedras e latas de areia e água nos ombros de dedicados trabalhadores.

Sua inauguração em 3 de maio, festa de Santa Cruz - arcos de bambu, bandeirinhas, foguetes de vara, cantos e preces. Ela brotou do chão graças ao trabalho de uma comissão composta por Auzelino de Castro, Odilon Soares da Costa, Benedito Pereira, Nourival Crispim de Castro e Benedito José de Oliveira. O terreno foi doado por Dona Domiciana Relvas, esposa do Coronel Luiz Relvas, mulher de destaque na sociedade da época.

O tempo carcomeu a cruz, carcomeu os instrumentos da Paixão, todos de madeira - os cravos, a coroa-de-espinhos, a lança, o martelo. E um galo - dolorosa lembrança da traição de Simão Pedro. A igrejinha também desapareceu. Ela faz parte da minha infância.

 De uma das janelas do casarão de meu avô Chiquinho Máximo eu a contemplava desafiando as chuvas, os sóis e os ventos. Eu e meus amigos subíamos a encosta à cata de passarinhos ou por espírito de andança. Éramos inseparáveis, colegas de escola, de catecismo e de acolitato. Caminhávamos descalços, sem pressa de chegar. Dava gosto ver borboletas dançarinas, gafanhotos saltitantes - tão verdes que pareciam folhas, dormideiras sempre melindrosas aos nossos toques, juazeiros carregados de florinhas e frutinhos coloridos - poesia viva na aspereza do caminho pedregoso e esburacado. Além das cercas de arame farpado vacas nos observavam espantadas, orelhas em pé, caudas pendulares.

À medida que subíamos contemplávamos a cidadezinha, Piquete parecia um presépio. Bois na fartura do capim. Pessoas que nem formigas. Apito do trem dos operários. Cantiga de carros-de-boi. Gritos e vozes. O azul da Mantiqueira. A imponência do Pico dos Marins. A solenidade da vetusta Matriz de S. Miguel.

Sentávamos-nos junto à cruz. Lá respirávamos a paz e o frescor da paisagem. Aos seus pés, pedras levadas pela fé: pagamento de promessas ou espírito de penitência. Imagens quebradas, às quais a devoção exigia muito respeito. Bilhetes com pedidos de benesses do céu.

Na festa de Santa Cruz ou na Sexta-feira maior abria-se a pesada porta da capela. Cheiro de coisa velha. Um altar de madeira, santos de gesso, flores de papel crepom. Mulheres rezadeiras. Crianças barulhentas. Namorados de mãos dadas.

Certa vez, o morro foi palco de uma tragédia: o suicídio de dois jovens enamorados com formicida. Ele de farda - soldado do Contingente da Fábrica Presidente Vargas. Ela - apenas quinze anos, linda no rosado do rosto moreno. Morreram abraçadinhos. Ungidos de amor. Banhados de luar. Orvalhados da madrugada, iluminados da manhã. Muita conversa rolou em torno dos amantes.

Voz corrente que as famílias reprovavam o namoro. Até de gravidez falaram. Disse-me, porem, uma senhora que fora amiga da desventurada adolescente que ela morreu virgem, "moça donzela", como se falava na época.

Eu menino, marcou-me outro acontecimento funesto - a morte de Tarcísio, seis anos de idade, os pais "seu" Aníbal Roque e dona Maria da Palma, antigos moradores do pé do morro. Foi triste vê-lo eletrocutado, a mãozinha esquerda colada a um poste de ferro da rede pública de iluminação.

Era o entardecer de um sábado chuvoso. No domingo, o enterro - o caixãozinho branco, muitas crianças, flores dos quintais. O morro de luto. Parecia que o garoto era filho de todas as famílias que lá moravam, gente amiga e solidária: "seu" Leopoldino Gabriel, prole numerosa; "seu" Olegário de Almeida, raizeiro, com suas "garrafadas" para curar doenças e picadas de bichos peçonhentos; dona Laurinda de Almeida, lavadeira; Dona Edwirges Tereza Ramos, ajudante de parteira, e tia Venância, cozinheira pra ninguém botar defeito.

Quando contemplo o Cruzeiro, em meio às lembranças avulta o rosto de Nhá Dita, preta velha da antiga estrada do Itabaquara, que fizera a promessa de iluminar com velas a íngreme colina. Seria comovente o espetáculo das luzes tremulantes!

Coluna do Chico Máximo
Jornal "O Estafeta" - setembro de 2005

 

 

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