SÃO MIGUEL

Havia o São Miguel grande e o São Miguel pequeno. O grande ficava o ano todo trancafiado no quarto dos santos, em meio a andores, estandartes, alfaias e caixa de flores, de onde saía apenas para a procissão de 29 de setembro.

Dava gosto admirá-lo. Solene percorria as ruas da cidadezinha, nos ombros dos soldados do Contingente da Fábrica Presidente Vargas, impecáveis nas fardas e nas atitudes. São Benedito à testa do cortejo, para não chover. Anjinhos e mais anjinhos - afinal era festa de anjo - humildes; asas de filó, túnicas de lamê.

 Devotos descalços: cumprimento de promessas. Dobrados da banda, alegres, marciais. Tapetes de folhas verdes. Linho e renda nas janelas. Ele seguia como um príncipe guerreiro, combativo e defensor, o sol morrente, para abençoar o povo. Se ele travara uma luta no céu contra Lúcifer, que livrasse a cidade dos espíritos malignos e das explosões na Fábrica, pediam suplicantes os olhares dos piquetenses.

 O São Miguel pequeno, ou São Miguelzinho, ficava no altar-mor, sua morada permanente, num nicho acima do Sacrário. Parecia um menino. De madeira, estilo barroco, as vestes coloridas, leve como uma palha, na mão direita a balança da Justiça para pesar as boas e as más obras dos cristãos. Quase desaparecia no meio das flores.

Diziam que viera de Portugal, esculpido por mãos sensíveis. Sua história perde-se no tempo. Com a reforma da velha matriz, ele desapareceu. Não se sabe onde e com quem está. Alguns, em tom de brincadeira, diziam: - Bateu asas e voou.

Havia um terceiro São Miguel. Pintado, em tela, no forro da nave. Esvoaçante, imperioso, o semblante viril, os gestos decididos. "Quis ut Deus?" Os demônios cor de fuligem subjugados por sua espada, precipitados no fogo do inferno.

Polarizava os olhares das crianças, num misto de respeito, curiosidade e medo. No dia 29 de setembro, a igreja ficava alegre, enfeitada com flores de papel crepom e festões de cedrinho, que a deixavam perfumada. Minha mãe, festeira, década de quarenta, as flores confeccionadas na zona rural, pelas irmãs Maria e Ana Rodrigues de Souza, moças solteiras e prendadas.

 Lá no silêncio do Itabaquara, dos seus dedos brotaram milhares de flores cor-de-rosa. E as pessoas comentavam, com emoção: - A igreja parece um jardim, parece um doce! Dinheiro para a festa conseguido com muito esforço.

 Uma folha de papel almaço e lá ia o casal de festeiros a bater de porta em porta. Recusa de alguns: ar sisudo, palavras descorteses. Mas como era tudo para a glória de Deus e do Arcanjo padroeiro, valia o sacrifício.

O dia começava festivo. Alvorada às cinco horas da manhã, os músicos num caminhão. Depois as missas, o leilão de garrotes e a quermessinha na Praça João Pessoa, atual Leonor Guimarães. A música do coreto. Arcos de bambu. Bandeirinhas coloridas.

 Muita gente da roça: vestidinhos de chita, ternos de brim, botinas reluzentes. Vinham a pé, a cavalo, de charrete, acolhida em casa de parentes e amigos. E nunca chegavam de mãos vazias: um franguinho para o almoço, um queijinho para o café da tarde.

Um alvoroço de sinos e foguetes de vara: em revoada as andorinhas do campanário. Solene a missa das dez horas: a brancura perfumada do incenso, as sonoridades do Latim. Ao Evangelho, reflexões teológicas sobre os anjos.

Se aquela gente roceira nada entendia, valia a simplicidade da fé, a crença no mistério, os olhos cravados como setas na pequena imagem do altar e a prece até hoje cantada por todos:

São Miguel Arcanjo, do céu sois farol,
espada de fogo, de um raio de sol!
Padroeiro glorioso de nossa cidade,
fazei-a repleta de paz e bondade!

Chico Máximo
Texto publicado no Jornal "O Estafeta" - Coluna do Chico Máximo
Página formatada em 07 set 2004
Fundo musical dessa página: Hino de São Miguel
Coral Santa Cecília - Piquete, SP

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