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Semeadoras de Vidas Dia 12 de novembro, pela manhã, recebemos a notícia da morte de Dona Finoca e, à tarde, assistimos às núpcias do seu corpo, quase octogenário e exaurido, com a terra, sempre antiga e sempre jovem. Dona Finoca, cujo nome de batismo desconheço, foi gente do nosso Piquete antigo, amiga íntima dos nossos pais e avós, pessoa de respeitosa e conceituada tradição. Seu nome - um símbolo, e o barulho de seus passos - anúncio de vida e criança pra chegar. Foi parteira do nosso povo naqueles dias em que maternidade e obstetra eram, para nossos ancestrais, coisas ainda distantes, coisas da capital e cidades adiantadas. Ela pertence a uma série de mulheres-heroínas já desaparecidas no tempo, incumbidas de colocar vidas dentro da Vida. Era uma sombra amena que atravessava as solidões noturnas e as madrugadas com respingos de estrelas ou fios de chuva, sem inspirar medos fantasmais, pois levava nas mãos notícias alvissareiras de recém-nascidos. Pelas suas mãos deslizaram dezenas de crianças, embrulhadas ainda na paz uterina e quentinhas do aconchego materno. As suas mãos contiveram, dezenas de vezes, o mistério extraordinário da vida e os segredos palpitantes e insondáveis do novo ser. As suas mãos, dezenas de vezes, foram a caixa de ressonância dos primeiros sussurros e dos primeiros choros ante o impacto da nova realidade. As suas mãos, dezenas de vezes, tocaram a intimidade e sacralizaram-se com o indelével perfume da vida. As suas mãos, dezenas de vezes, apararam a criança frágil e delicada e a transportaram para o mundo cá de fora. Há profissões que trazem "a marca do sagrado" e merecem, nesse mundo tão dessacralizado, respeito e admiração. O grave e solene oficio de parteira, como o de enfermeiro e médico, situa-se numa dimensão que transcende o meramente material, pois além das feridas, do pus e do sangue, mora a dor, a expectativa de morte ou a perspectiva de vida. Há pessoas que passam pelo mundo e conosco convivem no dia-a-dia, no vida-a-vida e, infelizmente, não temos o dom de sentir com os olhos do espírito a elevada missão que resolveram abraçar. Por coincidência, naquele dia dos funerais, veio ao meu encontro uma crônica de Carlos Drumonnd, intitulada "A lixeira", em que o escritor fala de uma menina encontrada numa lixeira de apartamento, ali jogada para morrer, sem qualquer cuidado higiênico ou resquício de conforto. Chegou o faxineiro e, segundo o escritor, "tirou daquelas entranhas estranhas a recém-nascida, como o obstetra faz o parto". A volta de Dona Finoca para ser sepultada aqui em Piquete e o relato do cronista itabirano contêm verdades que servem para motivo de reflexão - "a lição de respeito à vida" -, numa época em que o aborto, a eutanásia e os atos similares estão se tornando lugares-comuns na linguagem dos homens. Uns semeiam a morte, outros semeiam a vida. Dona Finoca passou por nossa gente humilde e simples, como semeadora de vidas, vulto bom e amigo, "madrinha-avó" daqueles que sentiram o toque dos dedos quentes de amor e ansiedade. Nem todos compareceram, dispersos por aí. Mas carregam no corpo as lembranças do primeiro tapa provocador do choro, da água morna escorrendo na pele macia e tenra, do contacto da velha tesoura cortando o cordão umbilical, das carícias envolventes das fraldas virginais... Eu quis
revê-la, naquela tarde de muito sol, ao lado dos seus filhos, meus amigos.
Impressionou-me a beleza da paz no seu rosto. Não parecia morta. Parecia
sonhar com todas as vidas que tivera nas mãos. |
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