Trio Dinâmico

Justino Luiz, volta e meia vai à cidade de Parati, litoral sul  do Rio de Janeiro. Adquiriu um terreno naquelas plagas e passou a freqüentá-las com assiduidade. Conquistou a amizade dos caiçaras através de complacência e simpatia. Toda vez que desce a serra, um garrafão da danada viaja junto. À beira mar, no bairro do Corumbê, ele costuma alugar uma casa onde  seus amigos se reúnem. O papo vai até altas horas da noite; entre um gole e outro, peixinho frito e camarão à paulistinha, causos são contados com gracejos pelo Sgto. Edinho do bombeiro e pelo pescador Bequinho. Certa tardinha, o vento brando vindo do mar amenizava um pouco o mormaço e as ondas barulhentas quebravam-se na areia alvacenta. O pessoal estava lá, na casa do Justino Luiz, tomando “mé”. O pescador tinha passado pela vendinha e comprado açúcar, arroz, feijão, macarrão, óleo e material de limpeza. O bombeiro useiramente lhe dava algo, e nesse dia  lhe trouxe calça, camisa, botas e sapatos. Bequinho pegou tudo e colocou dentro da caixa, junto com os alimentos. Causos vêm, risos vão. Bequinho precisou ir. Colocou a caixa no ombro, despediu-se do pessoal e subiu o morro que dá acesso à estrada. Quando estava lá em cima, o Justino Luiz, brincalhão, gritou pra ele:
- Bequinho, Bequinho, chega aqui! Eu peguei um pacote de macarrão da caixa.
Bequinho não titubeou, largou a caixa na beira da estrada e desceu o morro em disparada. Meio sem fôlego, pegou o macarrão e aproveitou pra dar mais uma bebericada na canjebrina, a famosa saideira. Esqueceu-se da vida.  Ao chegar à estrada, cadê a caixa com os alimentos e as roupas? O caminhão do lixo tinha passado e levado tudo. Bequinho gritou pro Justino Luiz:
- Hem Justino, hem Justino, o caminhão do lixo levou a caixa!
Justino Luiz, acompanhado do bombeiro, pegou o Bequinho e numa Parati-86 partiram rumo ao lixão. Chegaram no instante em que o motorista se preparava para soltar a carga. O Justino Luiz, o Bequinho e o bombeiro começaram a falar com o motorista e este não entendia nada: três falando ao mesmo tempo é dose.
- Bequinho, fala você! disse o motorista.
- Sabe, eu larguei uma caixa com alimentos e roupas na beira da estrada, aí o caminhão passou e ela foi jogada na caçamba, segundo testemunha!
- Ah,  Bequinho, agora não tem jeito mais! Veja!
Na traseira, do lado direito da caçamba, o motorista acionou uma alavanca, e o lixo, completamente fragmentado, começou a ser vasculhado. Entre o açúcar refinado, o arroz e o macarrão, misturados aos detritos estavam também as botas e os sapatos totalmente esmagados, calça e camisa dilaceradas. Bequinho olhou pro Justino Luiz, olhou pro bombeiro e  lágrimas escorreram pelo seu rosto e foram juntar-se à fedidez do lixo. Cabisbaixo e com voz roufenha, Bequinho falou:
- É, a saideira saiu caro!

Edival da Silva Castro
Crônica enviada gentilmente pelo autor

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