Varandões de Outrora

Várias vezes tenho passado por uma velha casa, em ruínas, num bairro afastado entre as cidades de São Bento do Sapucaí e Santo Antônio do Pinhal. Olho admirada para os restos da bela varanda da frente envolvendo a casa e dando vistas para um límpido riacho.

Sempre alimentei a idéia de um dia parar ali. Um dia consegui. Piso na varanda abandonada. As tábuas rangem sob meus pés, vasculho toda a velha casa como procurando algo. E talvez procure mesmo. Meus pensamentos volvem-me à lembrança da varanda da casa de minha avó; larga, com grandes colunas. Como gostávamos, eu, irmãos e primos, de lá gozar as férias!

Em tempos idos, a varanda da frente era a parte central da casa. Também, a chamávamos "varandão". Nas tardes quentes de verão, meus avós ali ficavam debulhando milho, alimentando as galinhas, ensacando grãos de café ou fazendo outras atividades de rotina diária.

A varanda era o posto de comando para os pais, tios e avós, que ficavam nos vigiando enquanto brincávamos pela redondeza. Nos dias de chuva, ela se transformava num "playground". Na nossa imaginação as colunas e vigas que a sustentavam se transformavam em belos castelos, possantes navios, rodas-gigantes...

Para nossa alegria e dissipação dos sonhos, vovó nos servia pipocas quentinhas, bolinhos de chuva e café saboroso. Que delícia! Todos os domingos vovô ficava ali, desfrutando da beleza do local, sentado sozinho em sua cadeira de balanço, tocando viola, cantarolando e lançando no gramado pontas de cigarro de palha.

Talvez sejam essas recordações que me levem a explorar a antiga varanda da casa abandonada. Hoje, nossas varandas, em geral, encontram-se vazias. Jovens namorados gostam mais de barezinhos, cinemas ou "shoppings". Adultos estão dentro de casa; a televisão absorve suas horas de lazer, exercendo a magia que entorpece os espíritos.

 As casas modernas raramente são construídas com varandas: têm alpendres fechados por altas grades para dar maior privacidade e, principalmente, evitar a invasão de assaltantes. Vivemos engaiolados, sujeitos a violências! Mesmo assim, morando em cidade do interior, vez ou outra vejo alguém na varanda - uma pessoa mais velha, olhar perdido a distância, crianças entretidas com algum jogo.

Sinto vontade de parar, ir até à varanda e ficar junto delas contemplando a vida lá fora, à velocidade de uma cadeira de balanço. Um carro buzina. O motorista acena, como velho amigo. Então me pergunto: será que também ele está recordando algum dia de verão em que ficou vendo as horas passarem, sentado à toa numa varanda?


Autora: Eunice Fernandes
Texto publicado em "O Estafeta" - abril de 2001
Página formatada em 25 ago 2004
 

Envie esta página para:

Digite o seu e-mail

Coloque seu nome

E-mail de quem a receberá

 

voltar