Verde que te quero verde

Ingressei no exército em 1949 e dei baixa somente na última turma de 1950, sempre na dúvida se isso foi prêmio ou punição. Após uma pequena temporada no  5° RI, vim transferido para o nosso Contingente velho sem guerra.

O que tinha de cachorro no quartel não era brincadeira! Se havia algum interesse maior do que a bóia, desconheço, pois cachorro não era convocado. Devia ser o MCSB - movimento dos cachorros sem bóia. Fria ou não. Cão sem casa própria bastava pintar por lá, que conseguia alojamento.

Entre a cachorrada um era líder absoluto, o dono da cocada verde: o Meganha. Mereceu até reportagem no O LABOR, com foto e tudo! Em 1960, faleceu (ante seu "status", jamais diria "bateu as botas", "abotoou o paletó" ou qualquer outra coisa menos formal).

Todos nós soldados éramos amigos do Meganha. Um tiozão: ouvia, calmo e paciente, nossas lamúrias e problemas, sem emitir opinião. Confidente seguro. Gente finíssima (cachorro também é gente, diria mais tarde o Magri). Sangue bom.

Havia, contudo, no Meganha um excesso de discriminação. Odiava paisano. Quem não vestisse verde oliva, o cão punha para correr. Só não atacava os civis que se aproximavam do quartel por ação gritada por fardados.

No carnaval de 1950, sei lá porque, estávamos de prontidão. Para quem não sabe, ninguém poderia retirar-se do quartel. Eu e mais três malucos por Momo, praças velhos, cismamos de fugir e cair na farra. Saímos por trás e pelo morro,  à paisana, rumamos para a folia.

Conseguimos driblar as patrulhas numa boa e tudo foi divino, maravilhoso. Pelas quatro da madrugada retornamos. Ao invés de voltarmos por onde saímos, fomos pela avenida que segue até à fábrica. Ao chegar, atravessamos a linha do trem e subimos a escada até o Contingente.

Com trajes civis, meio trincados, íamos de degrau em degrau, quando, de repente, surge, no topo da escada... Quem? Ele, o Meganha, com pose de general americano dos filmes de II Guerra.

Mostrava os dentes que pareciam uma formação de baionetas caladas. E rosnava qual leão. À paisana não adiantava parlamentar com o Meganha. Civil ali nem morto, ou só morto.

Um dos nossos, teve que dar a volta por baixo e procurar a sentinela para ordenar ao cão que nos permitisse passar. Não entramos em cana porque o guarda estava dormindo quando foi encontrado. Como vêem, o Meganha não entrava em escala de serviço.

 Ele era a própria, viva! Tiro o chapéu para você, Meganha!...
Desculpe. Bato continência!

José Palmyro Masiero
Texto publicado no Jornal "O Estafeta"
Página formatada em 06 set 2004

 

 

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