Banzo

Minha terra, sem palmeiras,
exibe mil bambuzais
que ao som do vento balançam.
Ao reclinar sobre o leito
minha face envelhecida,
eu chupo canção de amora
nas palavras florestais
vindas no canto brejeiro
desse pequeno sabiá.

Minha terra, sem limites,
é cercada, toda inteira,
pela Serra Mantiqueira.
Subo essa vida pequena
pela goiabeira da Vida
e, na pontinha dos pés,
enxergo tudo que alcanço
bem na avidez dessa infância,
que no final da fronteira
feita de sol e de céu,
de neblina ou cerração,
jamais será transportada
dos limites da ilusão.

Minha terra, sem palmeiras,
minha terra, sem limites,
minha terra, tem perdão,
pois eu fugi da sua força
que me detinha em prisão.
Minha terra, eu precisava,
procurar sonho de vida
aprisionado na Vida,
num engodo do destino,
longe dessa proteção.

Minha terra, era preciso,
sacudir toda essa infância,
    grudada,                  
teimosa,        
insana,
na paisagem do fadário
e deixá-la descansando
no seu berço visceral.

Minha terra, eu hoje choro,
o choro da despedida
que só você me entregou
nas estradas percorridas
no rumo à libertação.
Minha terra, eu hoje choro,
com saudades das esquinas,
da rua de baixo e a de cima,
do parque, do bangalô,
das retretas aos domingos,
do portão da minha casa
donde jamais consegui
em lugar nenhum do mundo
sentir-me tão protegida.

Minha terra, hoje confesso,
descalçada de pureza,
agarrada na esperança
e perdida tal a criança
que num dia lhe machucou,
ter jamais nunca entendido
qual o segredo afinado
desse som inexplicável,
desse vai e vem incessante
do vento dançando forte,
nesta terra sem palmeiras
onde canta o bambuzal.
Minha terra, sem limites,
é cercada, toda inteira,
pela Serra Mantiqueira.

Sílvia Mota
Página formatada em 17 jul 2004

 

 

 

 

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