Um Poeminha Meu

Quem dera num momento apenas,
de posse de um carvão negro,
transformar o que foi esquecido pelo fogo
em palavras que se encaixam em versos.

Rabiscá-las em muros e calçadas,
tornar vivos os pensamentos mortos,
do carvão frio à brasa incandescente
iluminando as vielas tortas.

Ao malandro errante, uma dor.
Ao transeunte triste, um sorriso.
À prostituta velha, amor.
À mulher linda, à mulher linda,
à mulher linda, nada...

Pra que servem versos póstumos,
epitáfios do carvão?
Se não alimentam ao fogo!
Se não alegram à beleza!
De que servem então?

Se faz alegre um pequenino,
serve.
Se faz triste ao solitário,
serve.
O verso a tudo serve,
sem rima.
Incompreendido e sem métrica,
serve à alma do poeta.

Como são tristes os fotógrafos,
ansiosos de flagrar um momento mágico.
Perdem a poesia dos versos que não se captam.
Ali ficam na busca da imagem,
daqueles versos à carvão,
gravados em becos e vielas,
que abrasam os corações.

O poeta feliz segue a gravar
dedos negros de carvão;
escreve seus versos desconexos,
pichando corações e almas;
fere a beleza das cidades
e, então, num momento apenas,
queima a mão na brasa que se acende.

Por um momento apenas...

Luiz Flávio Rodrigues

 

 

 

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