PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
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Maria Beraldo Castanho

 


Na foto de Dogmar Brasilino, Maria Beraldo Castanho como Verônica em 1957. O sudário foi pintado pelo artista Otávio Cândido.

O Plangente Canto da Verônica

Sexta-feira Santa: a matraca assinala a saída da procissão, na frente um crucifixo ladeado de luminárias e castiçais, logo atrás uma grande massa de fiéis, um esquife todo ornamentado com a imagem do Senhor morto. Sobre o esquife, um dossel roxo. Assim que o esquife do Senhor chega à rua, à porta da matriz aparecem quatro vultos de preto, todas com véu e três coroadas de espinhos. A quarta mulher sobe em uma banqueta e começa um canto triste desenrolando um pedaço de pano onde está estampado o rosto de Jesus. Findo o canto, a procissão inicia seu cortejo. Em alguns pontos a mulher de preto volta a cantar, tendo por coro os vultos coroados de espinhos, e por fim, antes que a imagem entre na igreja, faz sua última apresentação e se recolhe; é a Verônica que, acompanhada das Marias Beus, desaparece no interior da igreja. Mas quem é esta personagem que povoa a imaginação? O canto da Verônica vem por muitos anos fazendo parte da nossa tradição. Sabe-se que nos Evangelhos não aparece mencionada a Verônica. Entre as várias mulheres que acompanhavam Jesus, o nome dela não é referido. Pensa-se, por isso, que o nome possa exprimir, sobretudo, o que a mulher fez. Segundo a tradição, no caminho para o Calvário, uma mulher passou por entre os soldados que escoltavam Jesus e com um véu enxugou-lhe o suor e o sangue do rosto. Aquele rosto ficou gravado no véu: um reflexo fiel, uma verdadeira imagem. O canto triste da Verônica, na Sexta-Feira da Paixão, está presente na nossa região, onde criou forças e atravessou séculos de existência. Cantado em latim o verseto 12 de Lamentações de Jeremias, esta curiosa personagem vestida de preto desenrola o sudário com o rosto de Jesus em frente ao esquife do Senhor na Sexta-Feira da Paixão:

 “Ó vós omnes, qui transitis per viam
Attendi-te et videte
Si est dolor, similis
Sicut dolor meus”.

Seu curto e lamentoso cântico somente pode ser apreciado neste dia e sua intérprete orgulha-se de poder fazê-lo, chegando a exercer por décadas este honroso ofício. De acordo com o pesquisador salesiano Pe. José Geraldo de Souza, em seu estudo intitulado “O Plangente Canto da Verônica no Vale do Paraíba”, os atos Apócrifos de Pilatos designavam este pano por Berônica, Bernice ou Berenice. Desta forma, originou-se “Verônica”, palavra derivada de “Vera Eicón”, ou seja, “Verdadeira Imagem”, sendo este termo de uso bizantino a partir da Idade Média. Portanto, o nome Verônica foi também atribuído, por extensão, à mulher que acompanhou o sofrimento de Jesus Cristo. Na Semana Santa de 2000, o Pe. José Geraldo de Souza aos 87 anos esteve em Piquete pesquisando. Com doutorado em Roma pelo Instituto Pontifício de Música Sacra, pesquisador de nosso folclore, por anos estudou os vários aspectos desta tradição nas procissões de Sexta-Feira da Paixão em diversas cidades da região. Na ocasião ficou hospedado no Hotel Brasil, na Praça da Bandeira. Veio para conhecer, analisar e detalhar o canto de Maria Beraldo Castanho, a Verônica que por mais de vinte e cinco anos emprestou sua voz para a personagem. Para Beraldo, era um privilégio interpretar o Canto da Verônica. Era uma oportunidade de mostrar sua devoção e a beleza de seu canto nas apresentações. Dizia ser este um momento muito importante e que cantava com sentimento. Na ocasião, Beraldo já se preocupava com a continuidade desta tradição. Encontrou em Jovanir Andreia Santos quem a substituísse à altura. Em 2002 cantou pela última vez. Na Paróquia de São Miguel, em Piquete, tivemos, ao longo dos anos, as seguintes Verônicas: Zezé do Carlos Vieira, Adília Guimarães, Aidê Encarnação, Lídia Paulino, Heloísa Soares, Lavínia Oliveira, Doquinha, Clélia D’Amico, Maria Beraldo Castanho e Jovanir Andreia Santos. Segundo o padre José Geraldo, Verônica é considerada a patrona dos fotógrafos, pois conseguiu moldar em uma chapa (lenço de linho) os traços fisionômicos de Jesus. A Verônica representa a compaixão, a piedade, a comoção, o amor para como o próximo.

Jornal "O Estafeta" - abril de 2011



Beraldo cantando no Coral Santa Cecília.

 

Não vos comove isto, a todos vós que passais pelo caminho? Considerai e vede, se há dor igual a minha, que veio sobre mim.
(Lamentações de Jeremias - 1:12)

Sexta-feira Santa, a matraca assinala a saída da procissão, seguem a frente um crucifixo ladeado de luminárias e castiçais, logo atrás a grande massa de fiéis, onde um esquife todo ornamentado traz a imagem do Senhor Morto; sobre o esquife um dossel roxo. Assim que o esquife do Senhor chega a rua, na escadaria aparecem quatro vultos de preto, todas com véu e três coroadas de espinhos, a quarta mulher sobe em uma banqueta e começa um canto triste desenrolando um pedaço de pano, um pergaminho onde está estampado o rosto de Jesus. Findo o canto, a procissão inicia seu triste cortejo. Em alguns pontos a mulher de preto volta a cantar tendo por coro os vultos coroados de espinhos e por fim antes que as imagens entrem na igreja faz sua última apresentação e se recolhe; é a Verônica que acompanhada das Marias Beús desaparecem no interior da igreja. Esta tradição se espalha por quase todo o Brasil, em especial Vale do Paraíba e Sul de Minas Gerais. Mas, o que existe por trás desta personagem vestida de preto, no meio da multidão? Quem foi este ser de luto eterno a vibrar a voz num pranto constante no alto da escadaria? Segundo o pesquisador Padre dr. José Geraldo de Souza, em "O Plangente Canto da Verônica no Vale do Paraíba", (Folclore Guarujá-SP, agosto/1991 nº 16), nos Atos Apócrifos (não autênticos) de Pilatos, designavam este pano por Berônica, Bernice ou Berenice. Destas formas originou-se "Verônica" derivada de raízes etimológicas grega e latina formando "VERA EICÓN" = VERDADEIRA IMAGEM, sendo este termo de uso bizantino a partir da Idade Média. Portanto o nome Verônica diz respeito ao tecido, no qual estampou-se o rosto de Cristo e mais tarde passou a designar a personagem que teria enxugado o rosto do mesmo. Por volta do século XII, Pedro di Nallio, comenta sobre uma antiga tradição, na qual Jesus permitiu a impressão de seu rosto em um lenço de linho chamado Sudário (da raiz latina sudorem - suor) no momento do encontro com as piedosas mulheres de Jerusalém (Seguia-o numerosa multidão de povo e também mulheres que batiam no peito e o lamentavam - Lucas 23:27). Deste linho (verônica ou sudário) foram feitas diversas cópias, como a da Basílica de São Pedro (Roma), da Biblioteca Nacional de Paris, da Igreja de São Bartolomeu dos Armênios (Gênova-Itália) e o da Igreja Del Gesú em Roma, venerado desde os tempos de Gregório XV (1621-1623). Todavia, já existia na Basílica de Roma, uma edícula destinada a relíquia, feita pelo papa João VII (705-707), a qual foi destruída em 1606, sendo erigido outro nicho logo em seguida. A cópia atual na tribuna da cúpula de São Pedro, foi posta em 21 de maio de 1606, estando em uma urna de prata, protegida por lâminas de cristal e véu de seda. De acordo com o cronista Grimaldi, o sudário foi entregue por testamento a Clemente I, por volta do ano 92 a 101, porém o mesmo estava em Roma desde o ano 34. Conta-se ainda que o Imperador Tibério foi curado de lepra através desta verônica (verdadeira imagem) de Cristo. Atribui-se ao Papa João XXII (1316-1334) o hino "Salve Sancta Facies" (salve santa face) consentindo indulgência a quem o recitasse olhando para ao sudário. Na matéria "O Canto Religioso no Brasil "(Folclore 1988, nº 13, pag. 27) o autor acima citado, ressalta a veneração da Verônica na Sexta Estação da Via Crucis, numa viela da atual Jerusalém percorrida por todos os peregrinos. Além disso, cita a existência de um monumento de mármore na Basílica de São Pedro, retratando a personagem com o sudário e a inscrição de S. Verônica de Jerusalém. A citação da Verônica está presente não apenas em textos religiosos, o próprio Dante Alighieri em "A Divina Comédia" (1307 e 1313) faz citação sobre ela ou ainda Francisco Petrarca (1304-1374) também a cita no "Canzoniere". O padre José Geraldo de Souza (primeiro doutor em musicologia do Brasil) ainda comenta que a Verônica é considerada a Patrona dos Fotógrafos, pois conseguiu moldar em uma chapa (lenço de linho) os traços fisionômicos de Jesus. A Verônica representa a compaixão, a piedade, a comoção, o amor para com o próximo. Talvez esta representação seja ainda muito necessária num mundo tão individualista em que as pessoas pouco se importam com o sofrimento alheio. Talvez precisamos deste exemplo de amor e compaixão, para que possamos enxugar o nosso próprio rosto para delinearmos melhor o nosso caminho e quem sabe ao fazermos isso nele não estará estampado a Verdadeira Imagem, ou seja, o semblante do nosso Criador. Transcrição do Canto da Verônica de Joanópolis-SP (cone leste Paulista) 

Ó vós omnes, qui transitis per viam (O vós todos que transitam pela via),
Attendi-te et videte (atente e veja),
Si est dolor, similis (Se existe dor, semelhante),
Sicut dolor meus. (como a minha dor).
Attendi-te, Attendi-te (atente, atente...),
Si est dolor, similis (Se existe dor, semelhante)
Sicut dolor meus (como a minha dor).

As Marias Beús (três) respondem:

Heus! Heus! Heus!(olha! olha! olha!)
Dominus Salvator Nostri (Nosso Senhor Salvador).

(extraído da partitura de 02-4-49 de Claro Henrique de Moraes, em poder de sua filha dona Djanira Cuoco - na pequena cidade de Joanópolis, interpretado por Maria Lucia Alexandre - Verônica por mais de trinta anos)
 
Valter Cassalho
Professor e historiador da cidade de Joanópolis, jornalista, folclorista e membro da Comissão Paulista de Folclore (Ibecc/Unesco) e Associação Brasileira de Folclore. Atual presidente da Associação dos Criadores de Lobisomens.


Beraldo cantando no Coral Santa Cecília.

O Canto da Beralda

Era sexta-feira santa.
Noite a dentro,
Beralda deixava para a sucessora
seu canto pungente.
Verônica era.
Era Verônica pela última vez.

Subia Beralda a alameda
João Rodrigues Ramos.
Mágoas e lágrimas contidas.
Em negro ia.
Um desenho nublado
em noite enevoada.
Antecipava-se à chegada da procissão.
Solitária, Beralda ia
para o seu último solo,
de missão cumprida.
Carregava na bruma, a espuma
de um sonho que, por ser humano,
se desfazia.

Ia Beralda cumprir seu desígnio...
Pela última vez,
plenificou os pulmões.
Cantou soprano - dramática.
Afinou-se...
Foi um lamento exaltado.
As névoas fecharam
os cumes da serra.
As aves noturnas,
mudas, ouviram.
As musas estremeceram
no aconchego dos tempos...

Dóli de Castro Ferreira

 

 

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