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PIQUETE -
CIDADE PAISAGEM Luiz Carlos Beraldo Leite |

O jovem Luiz Carlos
Beraldo Leite
Polêmico ele
sempre foi... Criativo, inteligente, mordaz; carinhoso também. Era uma
personalidade marcante, capaz de suscitar amores eternos e ódios
terríveis. Não havia meio termo: ou o amávamos ou o odiávamos.
Ele era assim:
poderoso em suas emoções e em seus desejos. Feliz e sofredor. Amigo e
inimigo. Sempre fez parte de minha vida e dele só recebi carinho e afeto.
Nem todos podem dizer isso, mas eu sim. Nós nos amamos com ternura e
carinho de irmão, mas ele nunca me permitiu deixar de chamá-lo de tio,
apesar da pequena diferença de idade entre nós.
Quando nasci, Carlinhos, Suzana (minha tia Zanha) e José Sílvio (meu tio Sico, meu irmão de leite - o Martelo) já lá estavam a minha espera. Tios que eram quase irmãos, companheiros das correrias entre os casarões da Rua Major Carlos Ribeiro. Tornei-me a bonequinha deles, alvo de seu carinho e brincadeiras. Assim crescemos juntos os quatro, entre batizados de bonecas, pecinhas de teatro, revistinhas e gibis.
Dividíamos
nossos brinquedos, nossas revistas e repartíamos nossos sonhos. Sempre!!!
Até na idade adulta. Meus tios atuaram como irmãos mais velhos, meus
companheiros também nas festas. Não desejo aqui falar das conquistas políticas e profissionais de Luiz Carlos, sobre sua biografia pública e impessoal. A minha proposta é discorrer sobre o meu tio Carlinhos, coração e emoção, com impressões e opiniões saudosas de uma sobrinha-irmã.
Luiz Carlos
Beraldo Leite nasceu em Piquete, em 31 de julho de 1942, filho de Maria de
Lourdes Beraldo Leite e Horácio Pereira Leite. Horácio casara-se em
segundas núpcias com uma mulher bem mais jovem do que ele. Seus três
últimos filhos eram ainda pequenos quando ele faleceu inesperadamente,
acometido de uma leucemia complicada por uma tuberculose miliar.
Carlinhos, entrando na adolescência, trouxe-lhe um problema que para outras mulheres de sua geração seria um terrível transtorno: era homossexual e não queria fingir ser diferente. Segundo ele mesmo me contou, massacrado pelos preconceitos de uma cidade pequena e até por pessoas de sua própria família, conversou com ela de forma aberta, expondo-se por inteiro. Queria sair de Piquete, ir para um local onde não sofresse tantas agressões morais e até mesmo físicas.
Lourdes deixou-o partir, acrescentando que sempre teria um lugar para ele em sua casa e em seu coração, quando quisesse voltar e no momento que desejasse fazê-lo; que procurasse ser feliz, da forma que Deus o havia concebido. O jovem Luiz Carlos precisava se encontrar, aferir seus valores, descobrir o seu destino. Partiu, sabendo que sua mãe o acolheria no momento em que desejasse retornar. E Carlinhos voltou.
Concluiu o
curso na Escola Normal "Duque de Caxias", arrebatando o Troféu "Rui
Barbosa", destinado ao professorando primeiro classificado nos três anos
do curso. Declamador brilhante, oratória poderosa e vibrante, representou
Piquete em vários concursos de declamação no Vale do Paraíba e Sul de
Minas. De Piquete voltou para São Paulo, onde continuou os estudos; como
pedagogo e posteriormente advogado desenvolveu sua atividade profissional
até a aposentadoria. Eu me encontrava em Piquete, por um acaso, quando de sua vitória. Sai com ele, percorrendo os diversos cantos e locais de reunião da cidade. Onde chegava, meu tio era aclamado como futuro prefeito de Piquete, antes mesmo de assumir o seu cargo de vereador. Perguntei suas pretensões políticas e ele me respondeu que seria o próximo Prefeito de Piquete. Afirmou com segurança, com certeza, com fortaleza. Disse que me queria para sua Secretária de Saúde. Naquele momento mesmo lhe respondi que não poderia aceitar o cargo. Minha vida profissional e familiar, todas as minhas atividades prendiam-me ao Ceará, mas eu o ajudaria no que pudesse, com informações e orientações sobre saúde pública. Ao redigir esse texto, parei para pensar como éramos parceiros e "delirantes", pois ele me oferecia uma função no seu mandato como prefeito, quando estava apenas sendo eleito vereador da cidade, mesmo em se tratando do mais votado nas urnas...
Como Vereador foi nomeado para compor a Comissão de Justiça e Redação e a Comissão de Educação, Cultura, Saúde e Meio Ambiente, sendo eleito Presidente das mesmas. Participou ainda de outras comissões especiais, bem como do Fórum do Meio Ambiente nos anos de 1997 e 1998. Carlinhos cumpriu o que se determinara fazer: candidatou-se a prefeito de Piquete, usando como pseudônimo político "Carlinhos Sessão". Esse apelido jocoso e pejorativo lhe havia sido colocado na adolescência e muito sofreramos com isso, ele e nós que tanto lhe queríamos bem. Certa feita, menina ainda, no Curso de Admissão do Professor Leopoldo, após as aulas, um cortejo composto por meninos e algumas meninas sem classe e sem educação, resolveu me insultar gratuitamente e por pura maldade, magoando-me através da homossexualidade de meu tio. Provavelmente invejosos de meu destaque nos estudos e em outras atividades que me conduziam a certa visibilidade na cidade, seguiram-me até quase a porta de minha casa gritando: "Atenção, atenção! O tio Sessão vai tirar o calção..." Meu avô já havia falecido, mas papai assumiu a cobrança ao nosso diretor, de castigo a esses insultadores e aconteceu um festival de punições e suspensões na escola. Entre as meninas, uma das mais atuantes no acontecimento, chamada Célia, veio me pedir para retirar a queixa: ela não havia feito por mal aquilo, era apenas uma brincadeira. Carlinhos gostava de cantar, de recitar, era um artista. Dai o apelido "Carlinhos Sessão". Respondi-lhe simplesmente que a situação se encontrava agora nas mãos do diretor Professor Leopoldo. Eu e meu pai não tínhamos poder para interferir nas punições. Perguntei-lhe ainda se considerava aquela uma "simples brincadeira" mesmo ou se estava apenas querendo fugir do castigo. A garota calou-se encabulada. Deve ter me odiado, mas se isso ocorresse nos dias de hoje o que aconteceria a esse grupo maldoso e discriminador? Lembrei a ele essa dentre tantas outras histórias e lhe pedi para não usar "Carlinhos Sessão" como pseudônimo. Meu tio me respondeu que iria lutar pelas minorias, que o sofrimento passado poderia impulsioná-lo a ajudar na mudança da ordem das coisas. Segundo ele, o Brasil só melhoraria se as pessoas tivessem a coragem de "dar a cara a tapa". Fizera isso a vida toda e continuaria sua luta. Afirmou também que as pessoas a ele se referiam às ocultas como "Carlinhos Sessão" - então ele assumiria o pseudônimo e o transformaria em um apelido respeitável. Não concordei com ele, mas respeitei sua decisão. Até hoje eu me nego, contudo, em aceitar com facilidade quando referem-se a ele como "Carlinhos Sessão". Mas foi assim que ele foi eleito, tornando-se prefeito de Piquete e deixando grafada sua atuação na política vale-paraibana.
Posteriormente, disse-me que como não podia contar com a ajuda de mamãe, por problemas de saúde dela, Rita Junqueira assumiria como sua Secretária de Educação. Ninguém melhor do que Rita para ajudá-lo a atingir o seu objetivo. Sua meta maior seria investir na educação das crianças de Piquete, oferecendo-lhes oportunidade de crescimento na vida. Não havia secretarias em Piquete, mas departamentos diversos. Quando foram criadas as secretarias, Rita Junqueira ao assumir a função, tornou-se a primeira Secretária de Educação da cidade.
Durante seu mandato conversávamos muito, à distância, por telefone. As pessoas me reclamavam dele por telefonemas e e-mails e eu ia checar o que acontecera, de verdade. Ele se irritava, mas me explicava sempre os motivos de seus atos. Encontrara uma prefeitura cheia de funcionários fantasmas e demitira todos os servidores desnecessários. Em resposta, os opositores disseram que ele estava tirando o pão da boca dos piquetenses... Acostumada com
o serviço público tive que concordar com ele. Depois, iniciou a cobrança
dos impostos que ninguém pagava. Outra medida acertada! Irreverente,
Carlinhos cobrava os inadimplentes ao encontrá-los, em qualquer lugar, até
mesmo em meio às festas e reuniões. "Passe lá na prefeitura para
regularizar a sua situação", dizia. Um dia me escreveram: "Seu tio fechou o Hospital". Telefonei para ele: como podia ter feito isso? Ele me respondeu: "Dora, eu não sou hipócrita. A FPV entregou o hospital para o município e ninguém fez nada desde que isso aconteceu. O hospital precisa de reforma, de ambulância, de funcionar como hospital de verdade. Atualmente, toda aquela estrutura estragada e abandonada só existe para funcionar como posto de saúde. Nem a Maternidade funciona: as gestantes vão para Lorena ter seus filhos. Fechei mesmo. Fechei para recuperar. Quando puder voltar como hospital você virá para a inauguração". Isso nunca aconteceu, infelizmente. No carnaval de 2004, uma reportagem intitulada "O Samba e o Prefeito", em um jornal local, ironizava sua presença como folião na festa de Carnaval. Ele me mandou um exemplar para Fortaleza, zombando das críticas. O artigo dizia: "Na segunda feira de Momo, à noite, em cima do palanque, de calça branca e camisa verde prateadas, bota de cano longo, mecha loira no cabelo, enroscando-se numa fita abóbora, emplumava-se o folião. Para quem o conhece era o mesmo Carlinhos de muitos e muitos carnavais. Há seis décadas distribuindo samba, alegria e ondulações. Explodindo de alegria e serpentina, a autoridade trocava o palanque pela avenida e pelo carro alegórico, quase roubando o cetro do rei". Perguntei-lhe porque fora assim à festa, afinal era o prefeito. Ele me respondeu: "Primeiro eu sou o Carlinhos, o indivíduo alegre, feliz; só depois sou o Prefeito. Não devo nada a ninguém, não fiz nada demais e sempre gostei de Carnaval. Estou pouco me lixando para os opositores". Tive novamente que concordar com ele...
O final de seu mandato se aproximava e soube que não tentaria uma reeleição. Não acreditei e telefonei para ele. Pensava que meu tio ainda poderia realizar muita coisa na cidade. Encontrei-o deprimido, angustiado, decepcionado e cansado... Julguei que fosse um sentimento passageiro , que ele voltaria atrás na sua decisão de não concorrer a outro mandato. Logo após as
eleições a bomba: encontrava-se com um câncer de estomago invasivo, letal.
Compreendi, então, as razões de seu afastamento...
Certo dia me telefonou, feliz como há muito não se mostrava: "Quero você em Piquete no aniversário da cidade. O Hugo Soares me convidou para uma homenagem na Câmara. Vou discursar, falar sobre a nossa família e sua atuação na política e cultura da cidade. Vou contar do papai, do tio Ovídio, da sua mãe. Quero você aqui comigo. Escolha um poema da sua mãe para declamar também." Estava muito feliz mesmo; posso até afirmar que nosso amigo Hugo lhe permitiu a última grande felicidade de sua vida. Telefonou-me várias vezes, em função da data comemorativa. Contou-me que doaria à Câmara Municipal uma caneta histórica que tio Ovídio lhe dera, com a qual fora assinada a ata da emancipação político-administrativa de Piquete, em 15 de junho de 1891.
Pretendia declamar um poema épico da autoria de mamãe chamado "Tudo Passa", com o qual arrebatara muitos prêmios em concursos de declamação. Sempre solicitava a minha presença nessa festa. Sabendo que piorava dia a dia, telefonei ao meu tio José Silvio e recebi a resposta que, provavelmente, ele não chegaria vivo ao dia da homenagem. Em seu último telefonema para mim afirmou que a memória resolvera lhe faltar e o que eu achava dele ler o poema (muito longo e difícil), em vez de tentar declamá-lo. Concordei com ele e não mais nos falamos. Não houve tempo!
Em 27 de maio de 2006 seu brilho se apagou. A doação da relíquia histórica à Câmara Municipal aconteceu em seu nome; inauguraram o prédio da Secretaria de Educação, Cultura, Esporte e Lazer com a denominação de Edifício Luiz Carlos Beraldo Leite. Carlinhos se
foi: partiu com suas dores, suas alegrias, suas conquistas e suas
derrotas. Morreu como viveu: lutando para ser feliz, enfrentando com garra
e determinação os preconceitos e os desafios. Deixou-nos a lembrança de
seu sorriso, de sua alegria, de sua mordacidade, de sua firmeza e
principalmente de sua autenticidade. |

José Silvio Beraldo
Leite entrega caneta histórica ao
presidente da Câmara Municipal, vereador
Hugo Soares.
Foto escaneada do Jornal "Cidade
Paisagem"
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Ações da
Secretaria de Educação Projeto Guri Criado em 1995 pela Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Implantado em Piquete em setembro de 2004. Atende a 90 crianças em três modalidades: violão, percussão e coral. Funciona no antigo “Salão da Banda”— imóvel que pertence, atualmente, à Prefeitura Municipal. O primeiro concerto foi realizado dia 8 de dezembro, com apenas três meses de aula. Transporte Escolar Aquisição de 5 microônibus e reforma do ônibus de 45 lugares. São transportados 243 alunos residentes na Zona Rural. Sede da Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Esporte e Lazer Inaugurada em 2003 a sede da Secretaria de Educação, Cultura, Esporte e Lazer, na Rua Cel. Luiz Relvas, 213 – Centro. Além do gabinete do secretário, possui duas salas para as subsecretarias, sala de reuniões e copa, garagem para os microônibus, depósito para material de limpeza e escolar. Material Escolar É fornecido material escolar completo, desde lápis até material para educação artística, durante todo o ano, aos alunos da Rede Municipal de Ensino. Uniforme Escolar O aluno recebe uniforme de inverno e de verão, além de tênis. Municipalização Foi municipalizada a E.E. Antônio João. Assim, a Prefeitura tornou-se responsável pelo ensino público das séries iniciais do Ensino Fundamental, além da Educação Infantil, que já era de sua responsabilidade. Plano de Carreira Atendendo à Constituição Federal e à LDB, foi criado o Plano de Carreira do Magistério em 4-6-2003. Cursos para os
professores Curso Básico de
Informática - 2001 Todas as
carteiras foram substituídas por carteiras de modelo
anatômico. Aquisição de
terreno para a construção de creche dentro da lei vigente. Fornece 2667
merendas para os alunos das redes estadual e
municipal. |
A CÂMARA MUNICIPAL DE PIQUETE APROVA:
Artigo 1º –
Fica denominado Edifício “Prefeito Luiz Carlos Beraldo Leite” o prédio da
Secretaria Municipal de Educação,
Cultura, Esporte e Lazer, localizado na Rua
Cel. Luiz Relvas, nº 213, centro, de propriedade da Prefeitura Municipal de
Piquete.

Dulce Maia e Rita
Junqueira, vice-prefeita e Secretária da Educação de Carlinhos,
descerram a
placa da inauguração do prédio que passou a levar o seu
nome.
Foto
escaneada do Jornal "Cidade Paisagem".
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Carta Aberta a Luiz Carlos Beraldo Leite Piquete, 20 de maio de 2006 Amigo: Longe vão os dias do encontro feliz de meus avós paternos com seu pai Horácio Pereira Leite. Doces lembranças restaram da convivência de minha mãe com sua irmã Maria Leite. A vida põe uns diante dos outros nas mais incríveis circunstâncias. No trabalho, na escola, na igreja. Até na guerra. Eu me vi diante de você na poesia. A poeta e declamadora Mariinha Mota, sua irmã e guia. Você, menino e adolescente, já encaminhado para a beleza traduzida em palavras. Os dois respondendo presente. Nos recitais. Nos concursos de declamação. O poeta é um "sentidor". Muitas criaturas enxergam uma nuvem de pó no fim do atalho da vida. O poeta vai caminhando ofuscado pela luz que o chama, afastando-se a cada passo que dá. Entre todos os "mal-te-vis" encarapitados nas árvores da estrada, o poeta escuta a saudação do bem-te-vi ao espreguiçar da aurora. Entre bocas de esgoto e voçorocas, o poeta se delicia com o ingá debruçado na correnteza do regato. Voltado mais para as sinapses do cérebro-alma, muitas vezes é acusado de descuidar-se das atividades do cérebro-cabeça. Homero, Virgílio, Camões, Taunay estavam atentos aos feitos de seu povo. Castro Alves - que você fez conhecer com suas magníficas interpretações - não ficou chorando diante de uma folha de papel. Foi à praça exigir justiça. Meu amigo poeta, ainda estamos em tempo de luta. A luta não vai fugir de você. Ela é sua. O atalho se faz pedregoso. Mas, agora mesmo, um lagarto verde-azul escorregou por entre os seixos na direção do sol nascente. Aguce os olhos! Atente os ouvidos! As aves de arribação gritam enquanto procuram calor. E existem bem-te-vis depois da curva da tristeza. Da amiga Léa Jornal "O Estafeta" - maio de 2006 |

Prefeito e Vice:
Luiz Carlos Beraldo Leite e Dulce Maia dos Reis.
Foto do encarte "Piquete,
111 anos", enviado por Lety.

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