PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
SUA GENTE

Genário da Silva Coelho
"Seu" Vidinho


Seu Vidinho

Em Piquete, após a instalação da Fábrica Presidente Vargas (15/03/1909) tomou-se comum aos homens trabalhar no citado estabelecimento fabril bélico. Raras as famílias das quais um ou mais componentes masculinos não tenham ali trabalhado, até porque era praticamente a principal fonte de emprego, exceção feita aos cargos da burocracia municipal e estatal, educação, comércio, serviços de saúde patrocinados pelo Estado e transportes. Entretanto, numericamente, a maior parte da mão de obra empregada pertencia aos quadros da Fábrica, acrescida dos que se engajavam nos seus departamentos educacionais e sociais, de saúde, esportes e lazer. Assim, é interessante observar a participação dos elementos produtivos que se manifestaram paralelamente a essas atividades e tomaram-se representantes das forças vivas da comunidade. Aqui tratamos de um desses. Referimo-nos ao Sr. Genário da Silva Coelho, cujas filhas, duas damas piquetenses, fizeram-me várias considerações que enriquecem este texto.


Dona Adelaide Coelho

As duas, Terezinha da Silva Coelho (Nenê), solteira, e Maria Aparecida da Silva Coelho Souza, professora, casada com o Sr. João Gomes de Souza, estão entre os seis filhos do casal. Casal constituído pelo Sr. Genário, acima citado, e Dona Adelaide da Silva Coelho, com os seis filhos distribuídos cronologicamente na seguinte ordem: Hugo da Silva Coelho, nascido a 27/08/1925, já falecido, Moacir da Silva Coelho, nascido a 03/02/1927, Terezinha da Silva Coelho, nascida a 10/09/1929, Paulo da Silva Coelho, nascido a 14/2/1931, Darci da Silva Coelho, nascido a 13/02/1938 e Maria Aparecida da Silva Coelho, nascida a 04/09/1939. O Sr. Genário da Silva Coelho, mais conhecido como Seu Vidinho, era filho do português Isaías Lima Coelho, fazendeiro em Aparecida, e Dona Corina Lima Coelho, irmã do Capitão José de Brito, proprietário de fazenda em Piquete (a antiga fazenda do Barão de Santa Eulália). Seu Vidinho era proprietário de terras, dedicado à agropecuária e ao comércio em Piquete. Dona Adelaide, natural de Piquete, era filha de D. Edwirges, moradora do Itabaquara e dedicada a atender parturientes, além de ser daquelas mulheres de muitos afazeres requeridos pela vida rural. O marido era o Sr. Paulo Gabriel da Silva Leite. O casal com os filhos mudaram-se posteriormente do Itabaquara para a fazenda Santa Isabel, em Piquete, de propriedade do Sr. Heitor Vilela Nunes. Ali exerciam atividades da faina agrária. O Sr. Genário da Silva Coelho, que era proprietário e comerciante, nasceu a 20/09/1893, em Guaratinguetá, e morreu em Piquete a 21/04/1978. Sua esposa, Dona Adelaide da Silva Coelho, nasceu no Itabaquara (zona rural de Piquete) a 9 de novembro de 1905 e morreu a 18 de junho de 1995, na cidade de Piquete, às vésperas de completar 90 anos. Segundo Nenê, o pai, entre as muitas atividades, caçava serpentes para serem enviadas ao Instituto Butantã, onde eram objeto de estudo e de experiências na obtenção do soro antiofídico. Registrou que o Sr. Genário recebia, para tal atividade, uma caixa própria devidamente etiquetada a ser embarcada na ferrovia com destino a São Paulo. Fez questão de salientar o seu zelo e cuidado em preparar a embalagem para que estivesse bem fechada com a cobra aprisionada, e sem perigo de escape. Descreve o laço que era enviado para caça ao ofídio e a atenção meticulosa dedicada à execução desse trabalho. Nenê e Cida, em descrição detalhada, falam da vida e labuta de trabalho de seu pai na criação e venda de animais, e de produtos dos afazeres para suprir as necessidades próprias e locais. Era um tempo de produção para subsistência ou auto-suficiência. Comercializava-se o excedente. A lembrança da vida rude da população na época, na primeira metade do século passado, centrou-se nas etapas do trabalho, desde a própria construção da casas de moradia, o auto-abastecimento, o envolvimento em todos as atividades e a preparação dos filhos para a faina diária. Os relatos vivos da descrição da vida familiar, desde os casamentos, os nascimentos, a hierarquia familiar e a vida cotidiana do trabalho intensivo eram marcados por um tempo de memória cuja força se alicerça na união do grupo familiar. Como esteios de uma sociedade regrada pela participação produtiva, a obediência, a retidão dos costumes e a sinalização de fortes elos domésticos. Reservado a cada um o papel de desempenho das funções estipuladas pelo grupo de pertencimento, cujas afinidade eletivas se conformavam a um padrão afinado por normas éticas e respeitado por habituidade e costume. Minhas entrevistadas repetiam em uníssono o que testemunharam e vivenciaram. Na memória ativada, referência especial foi para a Revolução de 1932, por ter marcado indelevelmente a vida da cidade de Piquete na primeira metade do século XX. De como as famílias se retiraram para fugir do avanços das tropas federais. E de como a família de seu Vidinho permaneceu nas atividades da casa comercial de sua propriedade, onde fornecia o que era requisitado pelos oficiais graduados. E de como na cozinha a família dava conta dos pedidos por uma comida mais condimentada ao gosto das tropas de Getúlio, composta de nordestinos saudosos dos locais de origem a solicitar sabores mais acentuados e apimentados. Tempos de guerra e de ter cuidados, até que a paz se restabelecesse e a vida voltasse ao compasso normal das relações das amizades e compadrios.

Dóli de Castro Ferreira
Entrevista em 25 de julho de 2007
Memorial dos Moradores de Piquete - 21
Jornal "O Estafeta" - outubro de 2007


Seu Vidinho, dona Adelaide, sua filha Cida e as netas Adelaide Maria e Tereza Cristina

Uma História de Amor

Lembrar antigos moradores da cidade é objeto da memória, da reconstituição de suas histórias de vida que se associam às nossas, no tecido das relações sociais e na referência às tradições. Lembrar dessas pessoas pelo depoimento de familiares é atividade prazerosa, cuja recorrência, pelo aspecto testemunhal que contém, faz retomar o curso interrompido do tempo dos que já se afastaram de nosso convívio, temporariamente, ou para sempre. Retomar esses depoimentos faz parte do que constitui, historicizado, o relato oral, que, sendo de memória, tem caráter seletivo. A seleção depende dos afetos e dos modos pelos quais, por razões pessoais, familiares, de juízo e de interpretação, tornam as referências citadas, e muitas vezes repetidas pelas reiterações, tanto mais comuns quanto mais idosas as pessoas. É assim que, na memória afetiva das filhas do casal Genário da Silva Coelho e de dona Adelaide, a rememoração do primeiro encontro dos dois é cercada de uma aura poética. Foi em Piquete. Local em que, pela primeira vez, o Sr. Genário (Vidinho) viu Adelaide (Lalá), muito jovens os dois. Ela estava no alto de uma escada colocando tijolos em uma construção. As pessoas trabalhavam em toda a atividade requerida; portanto, Adelaide ajudava a construir a casa familiar. Vidinho encantou-se. Amor à primeira vista -"isto que é amor", repete uma das filhas ! Mergulhado no tempo, esse momento é de beleza única. Sem dúvida, no tempo que tal acontecia, recatados os protagonistas desta história. Continham-se em suas posições. Como se o tempo das fadas fosse. Para construir sonhos na eternidade do momento. O aguardo da licença dos pais para se aproximar de Adelaide, namorar, noivar, casar e constituir família demandava paciência e diplomacia de Vidinho, bem orientado pela própria família. Não é, portanto, irrelevante lembrar o que a construção de uma casa, simbólica da construção de uma família pelos seus participantes, revela, na singularidade do exemplo, a trama dos eventos que dão base a uma comunidade. E, pelo seu reconhecimento; do recorte em conexão na qual os fios do tecido social de longa duração são elaborados. Para marcar a temporalidade e a vida. Para deixar rastros. Entre os fios dos relatos que nos ajudam a nos orientar no labirinto da realidade. Num inventário de reconhecimento de nossas próprias identidades.

Dóli de Castro Ferreira
Jornal "O Estafeta" - Piquete, SP
Novembro de 2007
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Dona Adelaide

 

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