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A fotografia
como registro histórico
Através dos tempos, os homens sempre se preocuparam com o
registro de seus feitos em imagens gravadas. Com o advento da fotografia,
esta, enquanto documento iconográfico, passou a ter valor histórico, uma
vez que ressuscita épocas, fatos e feitos muitas vezes distantes e, por
intermédio da memória, nos proporciona várias releituras. Quando se olha
para uma fotografia, as reações provocadas são as mais variadas, indo-se
do simples olhar contemplativo ao inquiridor, inquieto, curioso,
descobridor... Sentimo-nos atraídos pela imagem, tornamo-nos presos, como
que hipnotizados, e penetramos na estampa gravada. É impossível ficarmos
indiferentes diante de fotografias amareladas, muitas vezes evanescidas
pelo tempo, principalmente quando reproduzem nosso espaço mítico-afetivo e
nos suscitam múltiplas emoções. A fotografia evoca lembranças, resgata
sentimentos e emoções há muito adormecidos. Faz o indivíduo reviver fatos
guardados nos arquivos da memória e por muitos anos esquecidos. Nesse
momento, a foto age como um estopim que detona mecanismos de lembranças e
transforma-se num passaporte que nos possibilita uma viagem pelos ontens.
Por meio delas tomamos conhecimento de muitos fatos: as relações humanas,
a ocupação dos espaços físicos, os encontros e desencontros, a
religiosidade do povo e sua interação com o meio ambiente, o trabalho e o
poder. Alcançamos, portanto, seu cotidiano. A Fundação Christiano Rosa
mantém um acervo fotográfico colecionado ao longo de anos, objetivando não
apenas recuperar nossa memória fotográfica, mas entender e divulgar as
mudanças operadas na paisagem durante a história de Piquete. São fotos de
pessoas, eventos, construções e vistas da cidade em processo de
urbanização: seu casario, igrejas, ruas e praças. Procura-se, assim,
resgatar e preservar antigas fotografias que permitem uma visão panorâmica
do crescimento e desenvolvimento da antiga Vila Vieira do Piquete até os
dias atuais. A origem de Piquete remonta ao século dezoito, quando da
abertura de um caminho para as Minas Gerais. Às margens dessa via foi
instalado, em 1764, um Registro para controle fiscal que, com sua guarda,
deu origem ao Bairro do Piquete, cujo crescimento espontâneo ocorreu
paulatinamente. Ainda no século 19, construiu-se uma capela sob a
invocação de São Miguel e Almas. A comunidade articulou-se politicamente e
o bairro emancipou-se em 1891. Vila pequena e pobre, Teodoro Sampaio,
eminente geógrafo, ao passar por aqui em 1893, a descreve como localizada
“em sítio cujo relevo topográfico não é dos mais favorecidos, não se
distingue senão pelo aspecto da paisagem que o rodeia. Modestas casas ao
longo de ruas tortuosas e desniveladas que a pequena Igreja domina do alto
de uma colina, algumas fazendas de risonha aparência, com pastagens que
vêm morrer à entrada do povoado...” A vila só se modificaria em 1902, com
a vinda do Mal. Mallet que, a convite do Barão da Bocaina, deveria
escolher na região o local para construção de obras militares.
Edificou-se, de imediato, o Sanatório Militar no alto da serra; em
seqüência, o ramal férreo Lorena-Benfica e a Fábrica de Pólvoras sem
Fumaça. Tais obras trouxeram desenvolvimento ao povoado. As fotos deste
acervo retratam o bucolismo da antiga Vila Vieira do Piquete que, como
“enternecedor presépio”, foi gradativamente subindo encostas e ocupando as
orlas do caminho, até a Vila de São José, construída pelos operários, e o
“bairro chic” da Vila da Estrela, estruturada com planejamento, servida
por água, luz, troles e bondes. Esses três núcleos, com o passar dos anos,
foram interligados com a construção da Praça da Bandeira e da Vila Duque
de Caxias. A cidade cresceu expandindo-se em direção à serra. Surgiram
novos bairros. O acervo fotográfico da Fundação Christiano Rosa propõe-se
a resgatar a história deste rincão engastado na Serra da
Mantiqueira.
Editorial do Jornal "O Estafeta" - Junho de
2009 |