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A BANHEIRA Durante toda a sua vida ela sonhou com uma banheira. O banheiro de sua primeira casa era pequeno, escuro e frio. O box sem cortina, com um chuveiro preso no cano enferrujado, as paredes sem ladrilhos, apenas cimentadas, sem pia; um vaso sanitário encardido e sem tampa, deixava-o pior do que esses banheiros de estrada, bem humildes, somente utilizados por caminhoneiros. Não havia lâmpadas e como se tratava de um espaço fechado, sem janela, era permanentemente escuro. Além disso, por falta de ventilação, os odores permaneciam todos misturados, indefinidos e insuportáveis. As crianças da casa eram banhadas numa imensa bacia de alumínio, colocada no chão da cozinha ou do quarto, pois o banheiro apertado não a comportava. Ela detestava aquilo. Considerava ridícula e anti-higiênica, aquela bacia enorme, embora a água fosse trocada para cada criança. Odiava a negra retardada que auxiliava sua mãe nesses cuidados, em troca de um prato de comida e de uma rede no fundo da cozinha, perto do fogão de lenha, onde ficava pitando nas frias noites de inverno. Quando, à noite, precisava ir ao banheiro, a menina entrava naquele quarto escuro, sussurrando, num pedido de proteção, uma ave-maria, temerosa de ser atacada por ratos, cobras, baratas e todos os monstros que povoavam sua imaginação fértil. Lavar os cabelos era outra tortura. Muito longos – e assim deveria conservá-los até os quatorze anos, por causa de uma promessa que sua mãe fizera quando quase morrera com pneumonia pós-sarampo – eles precisavam de muito tempo sob a torneira. Demorava demais para sair toda a espuma do sabão de coco que a mãe lhe dava para lavá-los, em vez dos xampus acetinados e cremes perfumados que ela via no balcão das farmácias e que o salário do pai não permitia comprar. Nas tardes muito quentes, era permitido às crianças banharem-se no tanque de cimento enorme nos fundos do quintal, utilizado por sua mãe para lavar as roupas das madames, suas freguesas. Ali era uma festa! Enchiam o tanque de água e a menina brincava como se fosse uma banheira colorida, semelhante àquelas dos filmes, em que a mocinha ficava glamurosamente coberta de espuma. A menina morou em várias casas, todas muito parecidas entre si. Paredes nuas, pinturas descascadas, quartos enormes mas desconfortáveis. E sempre banheiros simples, sem tapetes, sem colorido, sem banheira... A menina crescia, nessa sucessão de casas alugadas, sonhando sempre. Se percebia que a família cada vez mudava para uma casa melhor, nada transparecia. As salas de chão de cimento foram substituídas por outras de tacos, depois de tábuas largas e corridas. As paredes passaram a cheirar tinta recente. O fogão à lenha desapareceu de suas vidas e, com ele, as horríveis e pretas panelas de ferro. Não havia mais ratos e baratas e todos os compartimentos eram iluminados. Para a menina, contudo, era a mesma coisa: faltava a única peça sonhada!!! Ah! sim, ela ainda teria uma banheira... Um dia, a
família em ascensão comprou uma casa. Muito feliz, o pai reuniu os filhos:
"- Local bom, preço de ocasião. Enfim teremos um lugar só nosso para
morar." Os pais, sem esconder a sua felicidade pela conquista, levaram a família para conhecer a habitação recém adquirida. Como ainda não estavam com as chaves, a menina correu a sua volta, tentando descobrir, através dos vitrôs, onde ficava o banheiro e se dentro dele havia a tão sonhada peça. A sala grande, a copa aconchegante, a cozinha com belos armários e pia de inox, os quartos confortáveis, tudo perdeu a graça quando ela viu o banheiro. Mosaicos desgraciosos, de cor amarela, forravam sua parede; uma pia branca, um vaso sanitário também branco - e o chuveiro: elétrico mas sem graça, solitário... A menina não conseguiu esconder sua decepção! Nem teve pena de sua mãe, quando uma amiga, invejosa de sua aquisição, disse-lhe: "- Esta casa requer móveis novos". Móveis que ela não podia comprar pois a família colocara toda a sua capacidade financeira na compra do imóvel próprio. Para a menina pouco importava tudo isso: não havia banheiro - e isso era definitivo pois seus pais não mais sairiam daquela residência. Anos passados, a menina fez-se moça e casou. O noivo lhe prometera uma casa com um banheiro só dela, da cor que quisesse, da forma que desejasse. Enfim, ela teria a sua banheira perfumada... A casa era muito bonita: belos jardins a circundavam, os salões atapetados ostentavam esvoaçantes cortinas, os quartos eram espaçosos e bem decorados, a cozinha majestosa. Mas o que ela adorava, o local do qual não se cansava era o seu banheiro. Enquanto o marido saia para o trabalho, ela passava horas de enlevo e felicidade, naquele quarto rosa, perfumado, espelhado, trocando de lugar as suas peças, polindo seus cristais... Realizada como nunca em toda a sua vida, quando engravidou permanecia dias inteiros no seu banheiro, cuidando mais dele do que do quartinho do bebê. Retornando da maternidade, após dois longos dias, trancou-se toda uma tarde no seu banheiro, imersa em sua banheira de água quente, olorificada por bolinhas de óleo coloridas, enquanto sua filhinha chorava de fome, nos braços da babá... Autora: Mª Auxiliadora Mota G. Vieira (Maux) |
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