A TOALHA DE NATAL

 

Há muitos anos havia uma menina alegre e feliz que morava em uma pequenina cidade. Era considerada por todos muito inteligente, com capacidade acima de sua idade - uma garota prodígio, diziam...

A cidade, pequena demais para ela, não conseguiu contê-la. A menina tornou-se conhecida por toda a região, através de seus dotes artísticos e seu brilho nato. Mas ela não se envaidecia com isso nem se julgava melhor que ninguém: apenas DIFERENTE. Acreditava que só realizava todas aquelas coisas, por seu esforço e persistência, lendo e estudando muito.

Na sua casa, todos os anos, aconteciam lindas festas de Natal, reunindo os amigos e parentes. Havia música e poesia; a noite se prolongava linda e gostosa. A menina pensava que em todas as casas acontecia assim. Não valorizava aquilo pois considerava tudo normal e uma dádiva de Deus. Num destes Natais, sua avó, uma mulher muito terna e meiga, que possuía a qualidade de encarar sempre a realidade, deu-lhe um presente dizendo:

" Minha netinha, a riqueza maior que se pode obter na vida, a única glória, o presente mais gratificante, é o amor em família e a certeza do carinho dos seus. Nunca deixe de cultivar isto e lutar para ter uma família unida e amorosa. Nada que você construir terá sentido sem o aconchego de um lar. Estes Natais que nós vivemos, não são comuns às outras famílias. Nós somos diferentes. A gente não se reúne apenas por um compromisso social, para ganhar presentes, por obrigação... Existe amor de verdade, identidade de interesses, muita ternura e paz em nossos relacionamentos. Cultive isto, pois somente assim você será feliz."

A menina abriu o seu presente. Uma linda toalha azul com motivos natalinos: estrelas douradas, árvores verdes com bolas coloridas, Papai Noel com sua barba branquinha e roupa vermelha, sinos dourados e anjinhos delicados...

" Bordei esta toalha para você. Quando tiver o seu lar e seus filhos, talvez eu não mais esteja aqui. Coloque esta toalha em sua mesa, por todos os seus Natais. Ao fazer isso, pense em sua avozinha. Onde eu estiver, velarei para que a sua família seja preservada dos males do mundo, para que você possa ser sempre feliz, possuidora desta única riqueza válida, que é a família."

Os anos passaram e a menina nunca esqueceu as palavras de sua avó. Guardou a toalha com muito carinho. Deixou sua cidade, batalhou por uma profissão, encontrou o amor de sua vida, casou-se e teve um filhinho. Desde o nascimento deste filho, a menina, agora mulher e mãe, estendia a toalha azul em sua mesa, todos os Natais. Nasceram-lhes outros filhos e a menina sempre continuou colocando a toalha de sua avó na mesa de Natal, repetindo aos meninos a sua história, valorizando a riqueza legada por sua avó e que ela tentava cultivar: uma família feliz.

A menina também realizava lindas festas de Natal, com seus filhos e sobrinhos, da mesma forma que sua mãe fizera em sua infância. Mas... a vida não é exatamente linda, como nos contos de fadas. Ao casar-se a menina deparou-se, na nova família, com um ambiente sem amor, sem ternura, de extrema rivalidade e competição pelas menores coisas. A menina não foi entendida, justamente por ser diferente e acreditar em outros valores mais simples e profundos.

Ofereceu carinho e lhe devolveram desdém. Quis ajudar e pensaram que buscava ocupar o espaço dos outros. Mostrou arte e zombaram dela. Apresentou ternura e lhe responderam com rispidez. Sua vida foi exposta sem seu consentimento e criticada sem piedade; fecharam-lhe as portas, caluniaram, interpretaram as suas atitudes como interessava a eles; tornaram-na o bode expiatório de um ambiente doentio; tentaram destruir o que lhe era mais caro: a sua família, o respeito de seus filhos, o amor de seu marido.

A menina continuava a sua trajetória de vida já não acreditando nela mesma, incorporando a destruição que buscavam fazer de sua vida e de seus valores. Nos seus Natais de dor, ela continuava a colocar a toalha de sua avó e orava, pedindo à velhinha, já do outro lado da vida, que conseguisse fazê-la entender porque sua vida dera errado.

Não satisfeitos com as mentiras, com as deformações dos fatos, com as zombarias e humilhações, com a altivez e superioridade que dirigiam àquela mulher indefesa, tomaram-lhe até mesmo o prazer de realizar uma linda festa de Natal.

Certo ano, ela tentara fazer com que uma das crianças entendesse que havia agido de forma muito errada e que deveria pedir desculpas pelos seus atos. Em vez de punirem o menino, pelo comportamento deformado para a idade, apoiaram-no, como se ele nada tivesse feito demais. Céus, como adultos inconseqüentes e irresponsáveis, deseducam uma criança, sem temer os resultados futuros desta leviandade...

Em apoio ao garoto, como se ela fosse a errada, sabotaram sua festa, conclamando as outras crianças a não cooperarem com os já tradicionais festejos de Natal. Uma das garotas, sua predileta, zombeteira e atrevida, disse-lhe que não participaria de uma festa que não faria falta, porque "ninguém gostava mesmo" das representações natalinas que ela organizava.

A menina, já mulher madura, magoou-se e chorou muito. Nunca esperara uma atitude desta - dos adultos sim, mas não de uma criança, que deveria ser pura e sem maldade. Parou frente à mesa em que estava a toalha de sua avó e chorou mais ainda, sem conseguir realmente compreender o que consentira que fizessem com a sua vida e porque se sentia tão destruída. Exausta, adormeceu e sonhou com sua avó:  

"Minha filha, porque você está chorando? Há muitos anos, eu lhe disse que o mundo era diferente de nós. Porque se deixou destruir? Porque permitiu que a maldade, a inveja, a competição barata instalassem a dor em seu coração? Você sempre pensou que todos são iguais. Eu avisei você. Não são!!!

Existem pessoas sem brilho, sem possibilidade de realizar algo por si sós e que, então, tentam apagar a estrela radiante de quem ousa ser diferente de sua mediocridade. Nem todos são bons: procuram destruir a pureza e a ternura, pois sofrem pela própria incapacidade de tê-las.

Existem pessoas que não encontram amor real em suas vidas, e mantém uma relação de aparência, com interesses materiais apenas, a uni-las.

Muitas mulheres prosseguem em seus casamentos, mesmo sabendo que não são respeitadas nem amadas, apenas pelo status que lhes é oferecido em troca de traições e um amor de mentira.

Existem homens que mal suportam suas esposas, conhecem a defasagem cultural existente, até envergonham-se delas, mas continuam seu casamento por comodismo, por ser mais simples manter uma união de fachada ou por ser mais proveitoso socialmente.

Há filhos que não amam seus pais, pois nunca viram neles o bruxulear rápido de um afeto real.

Não permita que destruam o que você possui de mais precioso e raro: o seu lar, um marido que ama você e que respeita a pureza do sentimento que os une; filhos maravilhosos, brilhantes como você era, capazes de construir um futuro sem medo. Eu disse para você, há anos, que esta era a maior riqueza.

Porque não me acreditou? Não adianta colocar esta toalha azul em sua mesa nos Natais, se não incorporar os ensinamentos que eu quis deixar para você. A toalha é apenas um lembrete para não se esquecer que o que vale é a sua família.
Mas uma família de verdade. Não um amontoado de gente com o mesmo sobrenome.
"

Ela acordou de seu sonho. Lágrimas ainda banhavam sua face, mas agora eram lágrimas de paz. Nunca mais organizou festas de Natal. Não teria mais sentido fazê-las. Prometeu a si mesma que só voltaria a realizá-las, quando seus netos nascessem e que ela pudesse transmitir a eles, o valor da família e os sentimentos de um amor real.

Mas, em todos os Natais, ela continuou colocando em sua mesa, a toalha de sua avó...

Autora: Mª Auxiliadora Mota G. Vieira (Maux)
"Risos e Lágrimas de Mulher"
Página formatada em 14 fev 2003



 

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