A HISTÓRIA DE UM BOTÃO

Em um colorido jardim voavam borboletas lindas... Possuíam todos os tons daquelas flores e neste festival de cores, mal se percebia quem voava ou quem se prendia a uma haste verde.

Dentre as borboletas, uma havia em cujas asas delicadas predominava o amarelo. Porisso era chamada DOURADA. Vivia de flor em flor, sem nunca demorar-se em nenhuma delas. Sentia o perfume, saciava-se da vida e da beleza que elas lhe ofertavam e depois, partia, sem conservar siquer, uma recordação. Era amiga de todos os pássaros,de todas as árvores e amada por todas as flores...

Um dia, Dourada notou em um de seus jardins prediletos, um botão de rosa amarela. As folhas verdes ocultavam ainda a sua cor, mas Dourada conseguiu perceber a beleza futura daquele pequenino botão. E já sonhava, com as horas agradáveis que com ele passaria, quando se tornasse aveludada flor...

Porque lhe chamou a atenção aquele simples e inseguro botãozinho, que se curvava a mais leve brisa? Talvez porque em todos os jardins que percorrera, outro não havia, amarelo, como a cor maior de suas asas... Dourada esperava, mas o botão não se abria. Parecia até que as folhinhas verdes mais o cobriam. E quantos espinhos, no frágil galho que o sustentava!

Intrigada, Dourada resolveu ali pousar e conversar com o botão. Este, assustado, balançou o galho e feriu Dourada com um de seus espinhos. E a linda borboleta afastou-se... Percorreu muitos outros jardins, pousou em outros galhos, conquistou outras flores...

Um dia, sem que nem soubesse como, Dourada voltou a pousar naquele galho. O botão ainda ali permanecia: verde, tenro, fechado como antes...

A borboleta falante, desta vez, conseguiu, aos poucos,vencer a resistência do botão. E foi desvendando os seus segredos... Ficou sabendo que o botão não se abria, porque a roseira temia que o retirassem de seus galhos, quando se tornasse linda rosa amarela, única naquelas paragens. Havia ainda o sol forte, o vento impiedoso, insetos destruidores, que poderiam acabar com a beleza de suas pétalas... O botão falava e Dourada, escutava.

Então, a borboleta resolveu ajudar o botão. Explicou-lhe que em outros jardins existiam rosas amarelas, e em grande quantidade; que era absurdo e egoísta, o ciúme da roseira. Falou-lhe da suavidade da brisa ao entardecer; da beleza do céu e das estrelas; das delícias que a luz do sol proporcionava trazendo calor; do orvalho...

O botão ouvia Dourada e dia a dia, sem querer, ia forçando suas pétalas e preparando seu colorido, com carinho. O botão começou a se abrir e a roseira foi ficando triste...
Mas Dourada não se importava. Estava feliz com sua obra! O botão, dia a dia mais se aproximava de uma linda rosa. Às vezes relutava e chorava orvalho, mas Dourada secava as lágrimas, com o bater gracioso de suas asas.

O botão se transformava... Seu perfume já se fazia sentir, suas pétalas já encantavam os que as fitavam. O botão estava feliz! Como gostava de ouvir Dourada contar das terras por que passava, dos jardins que freqüentava, de toda a beleza que estava farta de conhecer...
E o botão sonhava com o dia, em que transformado em rosa, abandonaria o seu galho e nas costas da borboleta correria mundo.

Só o botão sabia, que se abandonara sua concha verde e resolvera enfrentar a chuva, o vento e o sol, fora porque sonhava estar sempre com Dourada. Por ela, não se incomodaria perder, uma a uma, suas pétalas lindas, se pudesse permanecer ao seu lado e ser por ela amada.

Faltava muito pouco, um quase nada, para que o botão já fosse rosa... Ele contava a todos a sua ventura, como seria seu futuro com Dourada, como viveriam livres e felizes...
Numa dessas eloqüentes e esperançosas palestras, não notou que o Vento Norte havia parado para ouvir a sua história.
Quando calou, o Vento irônico falou:

- "Botão idiota és tu! Quiseste ser protegido e não te abriste. Ao fazê-lo agora, segues palavras ocas da mais inconstante borboleta dessas terras. Antes, presa: agora,livre e bela pra sofrer... Ou acaso julgas que Dourada não se cansará de ti, jogando-te à tua sorte, no primeiro momento em que quiser voar mais alto?... Esqueceste também que existem outras rosas, mais experientes que tu, em agradar borboletas? Elas não ficaram, como tu fizeste, presas num nicho de folhas. Desde pequeninas buscaram descobrir o mundo e suas histórias. E é disso que Dourada gosta e que tu não podes a ela oferecer. Louco e idiota botão amarelo!..."

O botão, já quase flor, calou-se. Ele sentiu verdade nas palavras do Vento... E o botão chorou muito naquela noite: suas primeiras lágrimas de rosa...
Na manhã seguinte, Dourada encontrou, ao chegar, mais bela e suave a sua já rosa amarela. E sorriu para ela, ternamente...
A rosa não disse nada. Bem dentro de seu coraçãozinho de flor decidira que mais vale sonhar e lutar por este sonho, que encerrar-se em um mundo irreal, onde não se tem nem mesmo o direito de pensar...

CALEM-SE OS VENTOS E AS ROSEIRAS, POIS SOMENTE O AMOR, PODE TORNAR EM ROSA, UM BOTÃO AMARELO.
ONDE EXISTIR AMOR HAVERÁ ESPERANÇA E A FLOR, SEGUIRÁ, SEM TEMOR, A BORBOLETA DOURADA...

Autora: Mª Auxiliadora Mota G. Vieira (Maux)
"Risos e Lágrimas de Mulher"

 

 

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