UMA CARTA DO OUTRO LADO 

 

"Caro Silvio 

Eu me sinto muito constrangida em ter que lhe enviar esta carta. Talvez, teria sido melhor se nós conversássemos pessoalmente, sobre este assunto. Acontece que, eu tenho certeza, no seu afã de me ver longe de você, não escutaria metade do que eu tenho para lhe dizer. Não pense: lá vai ela começar tudo de novo, porque na realidade eu nunca comecei nem mesmo terminei nada...

Existe uma situação da qual não se pode fugir. Não importa o que houve entre nós; se foi importante para mim, para você, para nós dois ou para nenhum dos dois. Faz tanto tempo, que isto já não mais interessa. Só que restou uma criança. Não importa se você não a queria, nem que eu a tenha desejado, de teimosa, burra, complicada, enfim todos os adjetivos que você me dedicou na época. Não interessa também se eu me sentia só, e aos quarenta anos, aquela talvez fosse a minha última oportunidade de ser mãe. Muito menos você há de querer saber, se eu precisava de alguém só meu, para me dedicar, para preencher o vazio que restava dos encontros ocasionais e namorados temporários, nem como me senti importante por trazer à vida, aquela criança tão linda. Criança que hoje é mocinha, linda e inteligente. E é nossa filha.

Não só a filha da Lucivânia - minha filha sim, da qual eu muito me orgulho e a quem amo acima de tudo neste mundo -, mas também se trata da filha do Silvio. Durante todos esses anos eu criei Silvana sozinha. Não pense que foi fácil; não julgue que, com meu travesseiro, eu não chorei muitas vezes pelo peso do encargo que assumi. Mas o amor e o carinho de minha filha, a sua vozinha meiga sempre me deram forças para continuar. Se não participou dos problemas, também dessas regalias você não usufruiu, porque nunca quis. Deixou de receber o seu afeto, presenciar seu desenvolvimento, responder às suas perguntas.

Algumas vezes, procurei você, lembra-se? Nunca para exigir ou pedir algo. Sempre que pude, solicitei o seu concurso como pai, sua presença apenas, seu afeto para ela. Na sua formatura de Doutora do ABC, na sua primeira apresentação de ballet, nas festinhas de final de ano do colégio quando ela arrebatava todas as medalhas, sempre convidei você. Também lhe comuniquei orgulhosa sobre aquele prêmio de redação de um jornal local, mas embora ela mesma tenha lhe telefonado, pedindo sua presença, você se omitiu; isso sem falar das festinhas de aniversário, quando desde a manhã me perguntava ansiosa: 'Meu pai vem este ano, não vem?' Eu ficava engasgada, porque sabia, de antemão, a resposta.

Cansei de inventar viagens, trabalho demais, doenças, para justificar sua ausência constante. Em todas as vezes, você falhou, negou-se, fugiu. Eu passei a me considerar incômoda, um peso para você, um problema que desejava retirar de sua vida. Nessa época, eu pensava mais em mim: na sua rejeição à minha pessoa. E achei que era isso mesmo. Misturei a figura da mãe com a da filha e decidi que se você não nos queria, eu não lhe procuraria mais. Pensando nas necessidades da minha filha, resolvi que ela, assim como eu, não precisaria de você, porque amor ela tinha de sobra e o resto eu sempre proveria. Pensei até, em dizer que você havia morrido num desastre de carro, mas uma psicóloga não me deixou contar esta mentira.

Não vou criticá-lo. Não é este o objetivo desta carta. Deve ter tido suas razões, seus medos, seus egoísmos. Talvez tenha sempre pensado nela como a filha da Lucivânia, esquecido que ela não nasceu de um prolongamento meu, como uma ameba, sem o concurso do macho. Talvez por eu não ter concordado com o aborto, nem aceitado o seu dinheiro para faze-lo, você se considere livre de qualquer responsabilidade para com a filha da Lucivânia; uma coisa incômoda, uma situação difícil com a qual você nada tem a ver... Se eu não a abortei - talvez você pense assim - o "abacaxi" é todo meu.

Eu consegui, com pessoas amigas, como o meu cunhado, substituir a figura masculina que faltava na vida da Silvana. Pensei, aliás, que tinha conseguido. Eu sempre senti muito orgulho dela: garota estudiosa, esforçada, obsessivamente atrás do sucesso nos estudos, alegre - e que eu julgava feliz. Acontece, Silvio, que esta mocinha de quatorze anos que está aí, pensa, sente, sonha e sofre... Não puxou da mãe, a passividade nem o desprendimento. Talvez tenha saído ao pai, na sua ânsia de conquistar as coisas da vida, não sei. Só espero que ela nunca atropele as pessoas nem pisoteie os sentimentos alheios, tentando atingir seus objetivos. E que também nunca fuja de suas responsabilidades ou tente minimizar seus erros, culpando outras pessoas.

Silvio, você é um homem inteligente, já trabalhou com crianças e jovens. Como foi esquecer que criança cresce e que jovem pensa? Eu, sinceramente, não me dei conta disso, até que a minha filha começou a fazer exigências. Exigências não materiais. Nenhuma bolsa nova ou vestido mais elegante. Nenhuma excursão a Disney ou abadás para as micaretas. Nem mesmo livros ou um computador. Estas seriam exigências entendíveis e até necessárias para a sua posição entre as coleguinhas. Ela começou a exigir de mim uma atitude em relação a você.

Silvio, a Silvana diz que eu devo isso a ela. Com uma mágoa que eu não julguei pudesse haver em seu coraçãozinho de forma tão intensa, contou-me de sua dor, por você nunca ter estado presente nem para um abraço; relatou-me que sentiu falta de um pai a vida toda, que pudesse levá-la ao cinema ou para tomar um sorvete, no shopping; queixou-se da vergonha de ter que utilizar sempre um pai emprestado, como na sua primeira comunhão, sabendo que o seu próprio é vivo; falou-me do vazio que sentia ao comparecer às comemorações do colégio onde sempre se destacava, sem a mão e o abraço forte do pai, incentivando-a. Confidenciou-me que se esforçava para ser bem sucedida, na esperança que você aparecesse e ela pudesse dizer: 'Olha, papai, como eu sou brilhante. Mereço o seu amor. Nunca vou envergonhar você. Pode ter orgulho de sua filha.'

Ela me perguntou se você já era casado quando ela nasceu. Não entendeu porque, sendo solteiro na época e ainda nem namorado de sua esposa, você não contou para ela, quando casaram, que tinha uma filha. Silvio, ela estuda no mesmo colégio de seus dois filhos pequenos, mas ela já estava lá quando eles foram matriculados. Eu não armei a situação. Você deveria ter se informado onde ela estudava, mas nem isso você nunca procurou saber...

Outro dia, seu garotinho mais velho caiu no colégio e machucou-se. Silvana o socorreu e quando sua esposa chegou, vendo o menino no colo dela, pois ele ficou agarradinho o tempo todo com minha filha, ela agradeceu e deu-lhe um Sonho de Valsa. Você não pode imaginar como Silvana chorou neste dia, por não poder dizer ao menino que era sua irmã e que sempre estaria ali para protege-lo, que não precisava de bombom nenhum e só desejava amor. Todos os dias, no recreio, seu filho procura por Silvana e os dois ficam brincando. Agora, o pequenininho também se apegou a ela, mas Silvana sofre por não poder abraça-los como irmã.

Sua esposa convidou Silvana para a festinha de aniversário de seu filho, sábado passado. Ela ficou chorando a noite toda, pois sabia que não deveria comparecer, para não constrangê-lo, receosa que pudesse pensar que ela estava armando pra cima de você e de sua família. Ela não quis se impor de forma sorrateira. Quando o menino viu que ela não aparecia, ligou do buffet aqui para casa. Silvana inventou que estava muito gripada. Ele acreditou, porque a vozinha dela estava mesmo diferente por causa do choro. Sua esposa também falou com ela, pois o Silvinho não queria cantar os parabéns, antes que sua amiguinha chegasse. Tudo isso acontecendo e ninguém sabe quem é ela... Você mesmo, talvez tenha tido conhecimento desta história, sem saber que a amiguinha de seu filho é a sua filha, ou melhor é a filha da Lucivânia...

Pois bem. Silvio, ela está agora exigindo de mim, que abra um processo de paternidade contra você. Ela lê, Silvio; ela assiste televisão e sabe quais são os seus direitos. E quer usar o seu nome na certidão de nascimento. Ela faz questão... Quer que o mundo saiba que é sua filha. Tentei dissuadi-la, falei que não precisava disso e muito menos de você, mas está intransigente. Disse-lhe que temia pela sua atitude, pois você a rejeitou toda a vida e provavelmente continuaria fazendo isso, o que desencadearia mais sofrimento. Retrucou dizendo que lei é lei (parecia até uma advogada falando), que o que queria de você, era só amor, mas você não deu. Portanto, teria que cumprir agora, o que a lei exige. Afirmou que eu tenho a obrigação de ir atrás disso para ela, porque senão, quando completar dezoito anos vai ser a sua primeira atitude na vida.

Isto me convenceu, pois até que complete a maioridade, não consigo imaginar o estrago psicológico desta mágoa. Nunca quis isso. Você me conhece o suficiente para saber que eu jamais tomaria esta atitude. Mas, como disse acima, ela não herdou o meu conformismo e passividade. Talvez seja herança sua. Então, o "abacaxi" é seu... Porque a minha parte eu sempre cumpri e continuarei desempenhando o meu papel de mãe e provedora de suas necessidades.

Acontece que eu sei como é constrangedor um processo desse. Porisso estou escrevendo esta carta. Pode ser que se resolva esta situação, sem um processo. Até o DNA, se necessário, podemos fazer, sem colocar o caso na justiça. Mas agora é uma situação irreversível. Não é a Lucivânia que está criando problemas para você. É a sua filha que está reivindicando o esclarecimento legal de sua paternidade.

Só lamento, Silvio, QUE TENHAMOS CHEGADO A ESTE PONTO. Teria bastado um telefonema nos aniversários, um abraço nas vitórias que ela alcançava, um mimo qualquer, até mesmo bombons, nos Natais. Ela não precisava nem queria mais do que isso. Mas você se omitiu. E ela cresceu. E cobra. E exige. E sabe que tem direito. Não eu. Eu nem queria que nada mudasse...

Um abraço, Silvio e aguardo uma posição sua.
Lucivânia"

 

"Silvana" foi registrada pelo seu pai após uma carta de sua mãe, parecida com esta. Ele nunca mais deixou de telefonar para a filha nem presenteá-la nos aniversários. Mas nunca a apresentou aos filhos nem à mulher como deveria. Também não saia com ela para lugares públicos.
A menina, a princípio, encantada com o pai, aceitou isso. À medida que crescia, entendia que tinha apenas um pai "de esmola" como me falou certa feita.

Ao saber do resultado do vestibular, onde fora aprovada em primeiro lugar para a faculdade de Direito de uma universidade federal, telefonou ao pai, feliz, para comunicar sua vitória. A esposa dele atendeu o celular e "Silvana", sem pensar nas conseqüências, disse que era a filha dele e que queria lhe dar uma notícia maravilhosa. Ao atendê-la, "Sílvio" lhe perguntou que doida era essa que afirmava ser sua filha: "Vá se catar, menina. Eu nunca tive filha!" e desligou.

Nesta noite "Silvana" tentou suicídio, tomando trinta comprimidos de Lexotan. Socorrida a tempo, nunca mais quis saber do pai nem sequer matriculou-se na Faculdade de Direito, onde seguiria a carreira de "Silvio". No ano seguinte prestou vestibular para Medicina, na mesma Universidade, sendo aprovada em segundo lugar.

"Silvio" lhe telefonou e ela respondeu: "Vá se catar, seu louco. Meu pai morreu antes do meu nascimento..."
Esta é uma história verídica. "Silvana" concluiu recentemente o curso de Medicina.

Autora: Mª Auxiliadora Mota G. Vieira (Maux)
"Risos e Lágrimas de Mulher"

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