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CHÁ DE ALFACE Ivete poderia ser personagem de Balzac, uma digna representante da "Comédia Humana". Metro e meio de altura, gordinha, pernas ligeiramente tortas, cara de cachorrinho pequinês, extremamente agitada, raciocínio rápido e desconfiada, assemelhava-se mais a um pequenino furacão do que a um ser humano. Profissional séria e competente, Ivete galgou todos os postos possíveis em sua área, através de concursos e provas de capacitação profissional. Venceu em sua carreira, mas o mesmo não ocorreu em relação a sua vida pessoal e familiar. Teimosa e beligerante, relegada na infância e adolescência por esses defeitos, considerava-se, então, preterida por seus pais e irmãos, por ser a mais feia da família. Ao obter sucesso profissional tentou comprar afeto e respeito. Prepotente e independente, queria dirigir e mandar, ser a provedora de todos mas garantindo o controle das situações, não suportando discordância e opinião diversa da sua. A rutura fatalmente aconteceu. Sem enxergar suas dificuldades, refugiou-se na desculpa encontrada na adolescência, colocando sua feiura como a responsável por não ser bem aceita no ambiente familiar. Tornou-se cada vez mais rígida, seca, incapaz de um carinho ou de uma delicadeza. Não sabia amar nem conseguia ser terna. Concentrava toda a sua afetividade no ato sexual puro e simples, sem exigir preâmbulos ou solicitar fantasias; sem buscar romance e carinho. Rotulava os parceiros eventuais de inconstantes, sem perceber que ela própria nada mais lhes oferecia que a conjunção carnal. A única pessoa com quem Ivete se comunicava, mostrava suas fragilidades e falava de suas dores e mágoas, era com sua ginecologista. A médica, penalizada com as crises e sofrimentos da pobre mulher, aconselhou Ivete a procurar um terapeuta, com quem pudesse trabalhar seus problemas emocionais, mas ela refugou o conselho, julgando-o desnecessário. Preenchia sua carência afetiva buscando parceiros indiscriminadamente, até mesmo nos serviços telefônicos tipo Disque-Amizade, saindo com pessoas totalmente desconhecidas, que nunca mais veria. Como não poderia deixar de acontecer, ocorreram acidentes e tentativas de assalto; provocou abortos e contraiu doenças sexuais; seu carro foi roubado por um jovem rapaz, encontrado numa boite conhecida na cidade como "recanto da menopausa", para onde se dirigiam as mulheres sós e mal-amadas, em busca de companhia. Com o
surgimento da AIDS, Ivete começou a se preocupar, temendo adquirir um mal
que não mais seria resolvido com uma injeção, uma dose maciça de
antibióticos e que poderia até mesmo conduzi-la à morte. Adotou, então, um
rígido padrão de comportamento na escolha de seus parceiros sexuais: só
transava com médicos. Justificava esta recém nascida preferência, por
considerá-los de mais fácil acesso e por julgá-los protegidos da
contaminação de doenças. Suas técnicas de abordagem eram variadas, mas na essência, uma só. Ligara-se a vários planos privados de saúde mas também freqüentava a rede pública. Marcava consultas nos consultórios particulares; nos ambulatórios públicos apanhava fichas e entrava nas filas de espera; nos finais de semana procurava os plantonistas dos serviços de emergência solicitando ajuda. A queixa era sempre a mesma: insônia, dor de cabeça persistente, vontade de chorar. A causa: - "Faz muito tempo que eu não transo, doutor. Sinto muita falta... Sou muito quente! Eu tenho medo de sair com qualquer um, pegar alguma doença. Sou uma mulher muito limpa, muito asseada, não vou me meter com qualquer pessoa. Se fosse irresponsável com a minha saúde estaria bem. Não me faltaria companhia, porque além de quente eu não tenho preconceito: dentro de quatro paredes tudo pode acontecer. O difícil é encontrar um homem confiável, que eu tenha certeza que é sadio e limpo, assim como o doutor. Tenho muito medo de doenças." Segundo
ela, a técnica era infalível. A conversa continuava, o encontro era sempre
marcado. Às vezes, acontecia até mesmo nos próprios consultórios – só que
assim ela não gostava. Uma tarde,
Ivete telefonou para o seu consultório: - "Doutora, espere por mim.
Estou muito chateada e preciso falar com a senhora. Não vá embora sem me
atender, por favor". Ivete chegou revoltada, zangada, parecendo querer chutar tudo a sua frente. Tropeçou no batente da porta e quase caiu. Resmungou, lamentou-se por algum tempo pela topada, como mais uma das desgraças do dia e resolveu contar sua história. - "Eu soube lá na minha Secretaria que no nosso Instituto tem um médico lindo de morrer, delicadíssimo com os pacientes e que não usa aliança. Raciocinei logo que só podia ser solteiro ou separado. Resolvi conferir. Mandei fazer uma saia de linho preto, bem justa, lascada do lado, mostrando até o meio da minha coxa; uma blusa de organdi branca, transparente, com a frente toda bordada em labirinto, bem decotada. A senhora sabe que eu tenho bom busto". Ivete
parou seu relato e apalpou os seios que, realmente, não lhe mostravam a
idade. Verificando que eles continuavam no mesmo lugar, prosseguiu: Ivete parou o relato, narinas infladas, pensativa, como se ainda inalasse o aroma decantado. - "Eu tremia, doutora, igualzinho a menina moça no primeiro encontro. Quando a atendente dele me mandou entrar, fiquei muda de emoção. Ele me perguntou o que eu desejava, o que estava sentindo, e eu lá, calada... Ai, não sei como, comecei a falar de minhas vontades, da minha falta, essas coisas que eu digo sempre e que a senhora já está careca de saber. Mas eu lhe juro, minha doutorinha, que eu estava até acreditando mesmo no que falava, aérea, no outro mundo... Ele ali, impassível, escutando com a mão no queixo, nem se abalava. Falei, falei, e ele quieto. Não dizia que sim, que não e nem um talvez! Outros, nessa altura, já estariam na minha, se enxirindo. Mas ele não! Imperturbável, sério, calado, pedra de gelo... Eu não estou acostumada com isso, a senhora sabe. Daí que eu me afobei." Neste ponto da narrativa, Ivete em pé, gesticulava zangada: - "Cansei daquela estátua e perguntei: - Então, doutor, quando é que o senhor vai me ajudar a resolver esse problema? O senhor sabe que tem o remédio que eu quero, que eu preciso..." Ivete sentou-se. Ficou calada uns segundos, talvez para absorver novamente o que lhe acontecera e que ainda tanto a surpreendia. - "Sabe o que o desgraçado me disse, sem tirar a mão do queixo, sem se mexer na cadeira, bem tranqüilão? – Tenho sim, o remédio para a senhora. Vá para casa, faça um chá de talo de alface bem forte e tome toda noite antes de deitar. Vai ficar boazinha..." Ivete ficou em pé novamente, abriu os braços em cruz e olhando para o teto da sala, como se procurasse respostas, balançou a cabeça e murmurou entredentes: - "Eu mereço isso?" - "E o que você fez, foi embora?", perguntou a médica, com um meio sorriso. - "Antes tivesse ido que a decepção seria menor. Só que eu não sou mulher para me entregar no primeiro round. Insisti e perguntei: - Mas é para eu tomar sozinha, sem companhia, sem um doutor para me ajudar? Ele com a cara mais santa do mundo me respondeu: - É sim, sozinha, senão não faz efeito. Levantou-se, apertou minha mão e me levou até a porta, com a maior classe do mundo. Acredita que eu levei este fora federal?" - "Chá de alface... Esse ai e para isso eu nunca ouvi falar, juro!!! Quem foi, mulher, o médico que resistiu ao seu assédio, e mandou você tomar esse tal chá de alface?" perguntou, curiosa, a ginecologista. - "O nome dele é meio enrolado. Está aqui na ficha". Ivete jogou o pequeno pedaço de papel com raiva e despeito sobre a mesa do consultório. Quando a médica leu o nome do colega, começou a rir, incontrolavelmente. Ivete zangou-se. Falta de respeito com seus sentimentos, sua frustração, sua perda de tempo e seus gastos vãos. - "Gay eu sei que ele não é. Conheço de longe este povo. Do que é que a doutora está rindo? A senhora o conhece?", perguntou irritada, mas um pouco esperançosa de obter alguma informação que pudesse orientá-la em uma nova investida. - "Conheço, sim. Ele realmente não é gay. É muito gato mesmo, tudo isso que você falou. Só que é casado..." - "Isso nunca foi empecilho para doutor sair comigo... O que foi que eu fiz de errado, desta vez, minha santinha?" - "No que errou eu não sei, mas você nem imagina quem é este seu doutor tão lindo e cheiroso? Pois ele é, nada mais, nada menos, que o MEU MARIDO!" Autora: Mª
Auxiliadora Mota G. Vieira (Maux) |
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