INOCENTE CONIVÊNCIA

Alberto, jovem médico com razoável habilidade cirúrgica, possuía como principais qualidades a simpatia e a fácil comunicação. Formado há três anos, concluíra residência médica em uma capital do Sul do país e se instalara numa cidadezinha de interior. Conhecera o local em sua lua de mel, num hotel-fazenda das proximidades. Sem rumo e sem dinheiro, ao observar que a região era desprovida de cirurgiões decidiu ocupar este vácuo.

Apreciava serestas e nelas dedilhava seu violão, acompanhado pela voz suave de sua esposa Ana, moça bonita, disposta a ajudar o marido na conquista de seu espaço. Comunicativa e simpática como Alberto, adaptou-se como um camaleão aos costumes da cidade.

Desde o momento em que suspeitou de sua primeira gravidez, Ana envolveu as mulheres da cidade no acontecimento. Pediu conselhos sobre tricô e bordados, onde conseguir o bercinho e o cortinado, como esterilizar fraldas e mamadeiras. Todas se tornaram avós ou tias do filho do médico mais moço daquelas paragens. Os presentes chegavam quase que diariamente: fraldinhas pintadas, camisinhas requintadamente bordadas, lençóizinhos caprichados. Os móveis do bebê, a pintura da parede, eram mimos oferecidos ao casal, que agradecia com sua simpatia e charme.

As mocinhas da cidade faziam fila para candidatar-se a babá do bebê que ainda nem se movimentava no ventre da mãe. Os homens, à princípio arredios, também se deixaram envolver pelo encanto da meiga gestante e pela felicidade estampada na face do médico. Consertavam o encanamento da casa, carregavam seus pacotes, trocavam o pneu de seus carros, embelezavam seu jardim, traziam frutas e verduras fresquinhas, especialmente colhidas para a alimentação de Ana, acrescida da melhor carne, da manteiga e dos queijos especiais. Todos curtiam o jovem casal e o futuro rebento que seria um ilustre filho da cidade.

Joana foi mais uma conquista. Estudante de Medicina, a moça era filha da terra, idealista e sonhadora. Desejava retornar para a cidade após a formatura, pois acreditava que conhecedora das necessidades de seu povo carente, seria mais atuante na resolução dos problemas, minorando seu sofrimento. Discutia sempre isso com seus colegas de turma: - Se a gente, que é de lá, não voltar, quem é que vai querer ir? É obrigação nossa. Lá estão nossas raízes, nossos pais e amigos de infância

Desejando inteirar-se dos problemas e carências da região, preparando-se para o retorno, Joana freqüentava, nas férias, o único hospital da cidade. Ali conhecera Alberto. Ana já circulava por sua casa, amiga de sua irmã e paparicada por sua mãe. Os laços de amizade estreitaram-se e a estudante participava das serestas, passeava com Ana, ajudava-a na decoração do quartinho do bebê, discutia casos clínicos com Alberto.

Apesar da amizade que dedicava ao casal, Joana incomodava-se com a forma leviana e mercantilista com que Alberto, na intimidade e julgando que ela corroborava suas idéias, referia-se ao exercício da Medicina: - Estou no interior porque não sou bom. Quem é bom fica na capital. Se eu fosse um médico excelente o que viria fazer num lugar sem um laboratório decente, onde o único aparelho de Raios X fica na cidade vizinha e assim mesmo é só para abreugrafias? Onde o anestesista nem é médico, mas apenas um enfermeiro treinado?

Afirmava, contudo, que o interior tinha as suas vantagens: - A gente pode enrolar estes matutos endinheirados à vontade. Acreditam no que a gente fala e juram em cima. Peguei um monte de certificados, daqueles cursinhos bestas de dois, três dias de duração que só servem para encher lingüiça em currículo, emoldurei e cobri as paredes do consultório com eles. Esses fazendeiros semi-analfabetos pensam que eles valem alguma coisa e ficam olhando embasbacados... Coloquei uma estante atrás de minha mesa com os livros da faculdade e eles me perguntam se eu li todos aqueles livros tão grossos. Eu me acabo de rir... Vou amealhar um bom pé de meia e depois pensar no que fazer da minha vida e da buchudinha ai.

Alisando a barriga da mulher acrescentava: - Sabe que estão querendo me lançar candidato a prefeito? Dois partidos estão me disputando. Mas eu queria mesmo é mais um tempo para me candidatar a deputado, porque não pretendo esquentar cadeira numa cidadezinha de vinte mil habitantes. Como estou ficando conhecido na região, acho que tenho chance de sair candidato a deputado estadual. Não agora, mais adiante. Se Deus ajudar, viro, no mínimo, um fazendeiro...

Este tipo de comentário chocava Joana, mas Alberto falava rindo, irradiando simpatia. Ana era gentilíssima sempre; a cidadezinha que tanto amava não possuía muitos atrativos antes da chegada dos dois... Ela não conseguia ou talvez não queria admitir que Alberto realmente acreditasse no que falava. - Conversa de seresteiro, papo de madrugada, pensava a jovem e deixava passar...

Uma tarde, Joana encontrava-se no hospital procurando o que fazer, num animado bate-papo com Irmã Encarnação, uma freira salesiana sorridente e dedicada, há muitos anos chefe da Enfermagem, quando Alberto entrou apressado pela Maternidade. Ele mesmo puxava a maca onde se encontrava uma paciente pálida e gemente. Os lençóis ensangüentados fizeram com que as duas mulheres corressem para ajudá-lo. Reconhecendo a doente, Joana aproximou-se pressurosa, tomando-lhe as mãos. Antes que as duas se falassem, Alberto afirmou rispidamente: - Não preciso de você, Joana. Nem da senhora, Irmã. Resolvo este caso sozinho.

A paciente agarrou-se às mãos de Joana, pediu-lhe que ficasse com ela; sentia dores, muitas dores, sangrava demais e estava com medo.
-
Alberto, eu não vou deixá-la sozinha. Clélia é minha amiga desde o jardim da infância. Não vou interferir no seu procedimento. Quero apenas confortá-la.

A contragosto, o médico anuiu: - Mas da senhora eu não preciso, Irmã. Pode se retirar.
A freira acariciou, hesitante, a cabeça de Clélia. Numa mensagem muda, apertou o braço de Joana, retirando-se obediente e silenciosa da sala, sem esconder um ar preocupado e aflito.

Joana não percebeu a intenção da freira e, mesmo que houvesse notado algo, consideraria apenas o fato de Irmã Encarnação conhecer todos da região, amando e sendo amada. Cada família possuía em seu folclore particular uma história sobre a delicadeza e humanidade da freira. Seria esperada sua atenção para com uma jovem que vira nascer.

Após a saída da Irmã, Alberto sussurrou para Joana, entre dentes: - Não diga nada a ela. Fique calada que eu explico depois, tintim por tintim.

Clélia estava abortando espontaneamente: três a quatro meses de gestação. O médico apanhou rapidamente o feto eliminado e o escondeu entre as compressas. Aos aflitos pedidos da paciente de um esclarecimento sobre o que lhe estava acontecendo, Alberto respondia esbravejando: - Fique quieta senão vai sangrar ainda mais. Seu caso é muito difícil e não é hora para perguntas.
Após a expulsão da placenta, Alberto aplicou-lhe um sedativo e desapareceu do hospital.

Apesar do sono profundo da amiga, Joana não se animava a deixá-la. Haviam crescido na mesma rua, estudado no mesmo colégio, na mesma turma. Dançaram nas mesmas festas e paqueraram os mesmos rapazes. Ao concluir a Escola Normal, Clélia casara-se com Francisco, outro amigo de infância, filho de abastado fazendeiro da região. Dois meninos haviam nascido dessa união.

Joana decidida a cursar Medicina deixara a cidadezinha, mas se fazia presente em todas as reuniões, casamentos, batizados, aniversários. Apreciava o convívio com as antigas amigas e estava sempre disposta a ajudá-las em momentos angustiantes como esse, agora vivido por Clélia.

À noite, um Alberto nervoso, meio gago, intimidado, humilde e sem brilho, procurou Joana em sua casa, acompanhado de Ana no seu avantajado abdômen de final de gestação.
-
Eu errei o diagnóstico. Disse que ela estava com um mioma e teria que tirar o útero. Como você viu era uma gravidez. Estes erros que só acontecem em uma cidade pequena e sem recursos. O exame de urina dava negativo todo o tempo, ela sangrava: o erro aconteceu. Não conte a ela, Joana. POR FAVOR! Estou começando a vida. O marido é influente, família poderosa, cheia de políticos e de dinheiro. Se você contar, o único jeito é arrumar as trouxas e me mandar daqui.
 

- E logo agora que o nenen está para nascer... O que vai ser de nós três? - choramingava Ana, reforçando os lamentos do marido e acariciando a barriga por sobre o vestido.

A moça, constrangida, não sabia o que dizer, conflitada entre as duas amizades, debatendo-se com seus princípios, sua ética, sua honestidade profissional.

- Digo que ela abortou o mioma, insistia o médico. Vai ficar tão feliz que não fará nenhuma pergunta. Estava com medo de se operar e ainda queria outros filhos.

Após muita hesitação, Joana respondeu: - Mas eu quero estar presente quando você falar com ela amanhã...

Ana abraçou a amiga, agradecida: - Eu queria mesmo lhe pedir isso, pois sua presença dará maior credibilidade ao que ele falar. Vamos ficar lhe devendo esta...

Joana não estava muito certa de ter tomado a decisão correta, mas pensou que talvez Alberto não fosse assim tão culpado; responsabilizou a falta de recursos da cidade e da região, conduzindo a um diagnóstico errado, embora bem primário...

No dia seguinte, após as explicações do médico, Joana demorou-se com os amigos, revivendo os anos risonhos que compartilharam, as brincadeiras inocentes, os piqueniques, o afeto que os unira sempre, os sonhos e esperanças, a confiança no futuro.

- Você sempre quis sair daqui, estudar fora, relembrou Francisco.  É uma surpresa para a gente você querer voltar, mas para nós é ótimo. Você não é forasteira e sendo uma das nossas não vai nos tapear, querer enriquecer às nossas custas.

- Não sei como agradecer a Deus você estar aqui ontem, suspirou Clélia, enfraquecida. Francisco duvidava do Dr. Alberto, achava que ele não estava bem seguro do meu caso. Queria que eu fosse a outro médico e ouvisse opinião diversa. No começo eu relutei, mas quando o meu mioma começou a mexer como um menino, também fiquei na dúvida se ele estaria mesmo certo. Marquei consulta com outro médico na capital; seria segunda-feira agora, mas não deu tempo.

- E ele estava pedindo um absurdo pela operação, reforçou o marido.  Além de duvidar do diagnóstico, porque ele ficava todo enrolado quando a gente pedia explicação, achei que também estava querendo nos explorar. Sei que ele é seu amigo, seu colega, mas o pessoal tem ai umas historinhas sobre ele. É meio salgado, exagerado nas cobranças. A filha do Zé do Bar fez uma operação com ele e a Conceição do Fecha Nunca operou da mesma coisa com outro doutor na capital, na mesma ocasião. O Dr. Alberto cobrou duas vezes mais que o outro. A gente já está ficando com a pulga atrás da orelha. Pagar ninguém se incomoda, mas tem que ser um preço justo. Ele parece pensar que todo mundo aqui é matuto e não entende de nada. Esquece que nós somos fazendeiros porque herdamos as terras dos nossos pais, mas grande parte de nós cursou alguma faculdade, como eu que sou veterinário. Dos meus irmãos, um é agrônomo e o outro administrador. Ninguém fez medicina porque não era a nossa praia, mas a gente lê muito, está por dentro da política e da economia do país. Ninguém consegue manter poder e dinheiro, hoje em dia, se não for atualizado.

 Mas tudo já passou; podemos começar a pensar de novo na menininha, disse Clélia. A madrinha vai ser você, Joana. Veja se arranja logo um padrinho para nossa filha.

- Se ela não arranjar, a gente convida o Joãozinho. Está solteiro e sempre foi meio gamadão nela. Quem sabe você não se acerta com ele e ainda acaba sendo minha prima? Já que quer mesmo voltar para cá nada melhor do que um marido que também seja daqui, brincou Francisco com a jovem universitária que mal disfarçava seu constrangimento.

As aulas de Joana recomeçaram. Julgando a amiga protegida, prometeu a si mesma observar mais de perto o colega. Ano pesado, final de curso, internato exigindo muita dedicação, preparando-se para o concurso de residência médica, Joana afastou-se de sua cidade, sem saber das novidades da terra.

Em dezembro, retornou por alguns dias para entregar, pessoalmente, os convites de formatura, aos amigos mais queridos. Na casa de Clélia, assustou-se com a aparência da amiga. Encontrou-a abatida e pálida, passos lentos de convalescente.

- Estou tão deprimida, Joaninha. Francisco ainda consegue estar pior que eu. Faz pena! Não sei se sofro mais por mim ou por ele. A gente queria outros filhos, tentar uma menina. Comecei a sangrar, nem era muito. Parecia só uma menstruação abundante, mas o Dr. Alberto disse que meu mioma havia voltado violento, que esse era muito grande e meu organismo não agüentaria abortá-lo, como da outra vez. Não dava para esperar nem um dia mais, senão eu ia sangrar até morrer. Francisco estava viajando; não consegui telefonar para você e a irmã Encarnação encontrava-se num retiro. Precisei decidir sozinha e rápido. Ele tirou meu útero faz hoje quinze dias...

Autora: Mª Auxiliadora Mota G. Vieira (Maux)
"Risos e Lágrimas de Mulher"
Página formatada em 30 out 2003

 

 

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