UMA MENTIRA PIEDOSA

Uma tarde, no consultório de um serviço público, atendi a uma "vitalina", como são chamadas no Ceará, as moças solteiras de certa idade. Seu rosto era redondo e achatado, os contornos pareciam ter se perdido, estatelados, de encontro a uma superfície lisa e dura. Os olhos oblíquos possuíam algum brilho, mas o exagero do rímel, a linha da sobrancelha realçada fartamente pelo crayon preto, contrastando com o verde berrante da sombra nas pálpebras, desviava a atenção deles.

A pele bexigosa completava o emplastramento de nariz, boca, testa, baton, rouge e pós. Seus cabelos pretos e sedosos eram até bonitos, mas ela os prendia em duas ridículas "maria-chiquinhas". De estatura baixa, pernas finas, franzina, busto reto e quadris murchos, sua aparência era mais que humilde: servil.

Tratava-se de uma mulher de quarenta e cinco anos, muito feia e que nunca, em sua vida, poderia ter tido traços ao menos agradáveis à vista. Nem caricatura parecia. Era uma máscara feia – e só... Falava baixo, como que pedindo desculpas por violar o silêncio.

Apresentava-se com uma forte gripe e viera em busca, não de uma consulta, pois não tinha mesmo dinheiro para comprar remédios: 
- Gripe se cura com lambedor de mastruz ou mel com limão. O que eu quero, doutora, – e isso eu percebi como era vital para ela – é mesmo o atestado, senão eu perco o dia. A gente já ganha tão pouco e eles descontam mesmo.

Dei-lhe o atestado e procurei conversar com ela. Tímida, desconfiada, acabou cedendo a minha insistência. Vinha do interior do Ceará, possuía muitas irmãs, todas casadas, cada qual com uma "ruma" de filhos. Ela, a única solteira, cuidava da mãe velhinha e ainda "dava de um tudo" para duas sobrinhas. Trabalhava numa fábrica de castanhas.

- A senhora não sabia que as castanhas se separam na mão? - ela sentiu-se importante, face a minha ignorância - É uma a uma. Primeiro a cortadeira corta as castanhas em duas, na máquina. Depois, vem a tiradeira e separa os pedaços quebrados dos inteiros e tira a castanha da casca. Ai, vai para tostar e então vem a perita. Senta num banquinho e vai separando: as brancas das morenas e das vermelhas; as graúdas, que a gente chama de lage, das médias e das pequenas que são os brotinhos. Aí é que vão para enlatar. No fim do dia, a gente só vê castanha na frente, os olhos doem. O pior, prá mim que sou perita, é tirar as peles. Dá muito estalicismo e a gente fica espirrando sem ver nem prá que...

Ela fez uma pausa para coçar o nariz, como se estivesse no meio das castanhas e continuou: 

- Mas é bom, doutora. Emprego está difícil prá quem é analfabeto. No sertão ninguém não estuda, porque trabalha no roçado e nas farinhadas, desde que nasce. Vem a seca e acaba com tudo. Prá não morrer de fome, o jeito é vir prá Fortaleza. Esse meu emprego até que é bom. Ele paga o salário, prá quem fizer até quarenta quilos de castanha. Quem fizer mais, ganha dobrado pela produção. É difícil mas a gente faz por percisão. Eu mesma faço uns quarenta e dois, por obra e graça do meu Padim Padre Ciço.

Interrompeu sua exposição para beijar, contrita, a fitinha roxo-encardida amarrada em seu pulso, vinda diretamente de Juazeiro do Norte. Após esse ato de devoção continuou:

- Tenho pena é de uma colega minha. Ela é tiradeira, que é a pior parte. O leite da castanha crua queima os braços que nem água fervente. Ela já tá dum jeito que nem o leite de mamona não protege mais. Mas ela não tem homem, que o marido dela arribou prá São Paulo de pedreiro e por lá ficou. No começo ainda mandava algum; uns seis meses depois nem notícia. Ninguém sabe se está vivo ou se foi morto. Pode de estar preso também, porque era muito esquentado. Ladrão ele num era mas já furou um. Teve sorte do cabra não morrer mas ficou jurado de morte; ai foi prá São Paulo.

Essa minha colega agüenta de tudo porque tem sete filhos prá criar sozinha; ela age de pai e mãe dos meninos, sem ajuda de ninguém porque o povo dela não tem serventia prá nada. Os irmão também arribaram prá São Paulo procurando vida melhor e sumiram no mundo; nem dão notícia. Ainda bem que a mãe dela tem aposentadoria do Funrural senão era outra boca. Mas a aposentadoria da velha nem serve prá ela, porque tem uma ruma de netos sem pai que destrói os mil réis que ela ganha do governo.

Outro dia, fui lá na hora do almoço e fiquei morrendo de pena. A velha que não pode mais andá, fica sentada na cama e os netos comendo do prato dela. Não dá prá pobre comer nada, porque os menino devoram tudinho antes.

Minha vitalina foi embora com seu atestado e algumas amostras grátis de vitaminas e "remédio de verme". Dias passados, retornou, mais confiante e próxima.

Queixas imprecisas: menstruação irregular, dores de cabeça "quando os tempos estão prá vir". Percebi que ela queria me dizer alguma coisa mas não teve coragem. Pedi alguns exames laboratoriais e ela se foi, visivelmente insatisfeita, deixando-me curiosa. Demorou muito para voltar, talvez travando alguma luta íntima...

Quando retornou, antes de me entregar os resultados dos exames, respirou fundo e começou a falar de um só fôlego, olhando de esguelha, os lábios trementes, como se temesse parar e não ter coragem de prosseguir:

- Dona Doutora, eu carrego uma tristeza muito grande mesmo aqui prá dentro de mim. Nunca namorei por causa disso. Já teve muito rapaz querendo falar comigo, mas eu nunca aceitei. Ninguém sabe, nem a mãe. Só vou dizer prá senhora...

Fez uma pausa. Os olhos encheram-se de lágrimas e ela retirou de sua surrada bolsa-mochila, um pequeno e puído lenço branco; assoou o nariz, enxugando junto o pranto e prosseguiu:

- Eu era menina velha, assim com uns seis anos; fui morar com meu padrinho que também é meu tio, irmão do pai. Ele tinha um filho duns quinze anos. Não me alembro direito do que aconteceu, só que ele bateu em mim e tapou minha boca prá eu não gritar. Eu era bem pouquinha e ele já tinha tamanho de homem. Corri dele mas cai e levei uma pancada na cabeça. Olhe só aqui a cicatriz...

Levantando da cadeira, chegou-se a mim, mostrando uma cicatriz pequena bem próxima da nuca, disfarçada pelos cabelos. Sentou-se novamente e seguiu, angustiadamente, a sua história, com a voz cada vez sumindo mais, já quase inaudível.

- O que eu lembro mesmo é que escorreu muito sangue das minhas pernas. Fiquei andando que nem pata, de perna aberta, um tempão. Quando ia na fossa fazer as necessidades, saia tudo junto: cocô e xixi, tudo misturado mais sangue, e ardia muito... Ele disse que era prá eu dizer prá minha madrinha que tinha caído, senão me matava de peia. Mas eu acho que ela mesmo não tava nem ai para saber das verdade. Assim que eu comecei a andar normal, ela armou um balaio comigo, que eu estava muito respondona, mentirosa, inventando histórias ruins de todo mundo, saídas da minha cabeça de jerico, e me mandou de volta prá casa. Ainda levei uma surra da mãe; era tempos de seca braba e uma boca a mais ia pesar muito. Só que eu não inventei nada de ninguém e nem nunca fui respondona. Até hoje eu num sou de falar muito...

A pobre mulher calou-se por um largo período de tempo, alheada na sua dor e nas injustiças que sofrera.

- Doutora, eu só queria mesmo era saber se ainda tenho a minha honra. Ele fez isso comigo de ruindade mas tenho fé em Deus que ele paga. Ele tem filha fêmea!

A pobre mulher se benzeu com o sinal da cruz e começou a chorar baixinho:

- Não estou agourando ninguém, não. Coitada das moça... Mas ele foi muito ruim demais mesmo comigo...

Depois de um choro prolongado, quase silencioso, continuou:

- Nunca disse prá ninguém isso. Tinha medo de namorar e aproveitarem de mim. O povo diz que os home conhece se a gente é moça só pelo jeito de andar. Eu tinha medo deles se aperceber e abusar dessa desgraça. Eu sei que não tive culpa mas tenho esta sina ruim.

Queria só saber direito o que sucedeu; eu era muito menina e não me alembro certo das coisas. Vejo todo mundo namorando, casando e só eu não tenho o direito de fazer isso. Esse é o único valor da mulher; se eu me desgracei num valho mais de nada...

Doutora, eu queria exigir que a senhora me examinasse prá eu saber se sou furada mesmo. É melhor saber logo da verdade do que guardar isso só prá dentro de mim, sem ter certeza se ainda sou moça ou se já fui descabaçada...

Coloquei-a na mesa ginecológica. Amedrontada, ela queria fechar as pernas, cobrir com as mãos a sua "vergonha". Pacientemente, consegui relaxá-la e realizei o exame. Possuía uma cicatriz extensa no intróito vaginal indo até o ânus. Após os toques vaginal e retal - dificultados pela estenose, principalmente do orifício vaginal -, percebi que por algum milagre de cicatrização da natureza, esses milagres que acontecem pelo miserável Brasil afora, os planos musculares, as mucosas e a pele haviam conseguido se recompor desordenadamente, separando, sem fístulas, os canais excretores e a vagina. Como aconteceu isso? Só o nosso bom Deus brasileiro poderia esclarecer o fato...

Sentei-me à mesa, aguardando que ela se vestisse. Coitadinha... Ser virgem ou não, era para ela sinônimo de ser feliz ou desgraçada. Não se incomodava com sua feiúra, sua pobreza, nem com a limitação de uma vida sem possibilidades de progresso. Nem imaginava que mesmo que nada tivesse impedido ela poderia não ter encontrado amor e casamento.

À minha frente, angustiada, os olhos interrogativos fixados em minha boca, aguardava minhas palavras como se espera uma sentença. Sentença que a condenaria eternamente ou a libertaria do pesadelo de toda uma vida...

- Então, doutora? Ainda tenho a minha honra?

Pensei no código de ética, tentei lembrar se Hipócrates citara algo parecido. Notei que aquela mulher só conseguiria manter uma relação sexual após uma intervenção cirúrgica, pois a entrada da vagina estava estrangulada por uma inacreditável cicatrização fibrótica que misturara todas aquelas estruturas. Era o mesmo que ainda ser virgem...
Resolvi, então, tomar a minha decisão sozinha e mandar tudo para "as cucuias", como se diz no Ceará.

- Vai em paz, mulher. Sua honra está inteira!

Autora: Mª Auxiliadora Mota G. Vieira (Maux)
"Risos e Lágrimas de Mulher"
Página formatada em 30 nov 2003

 

 

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