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NOVELA NO SERTÃO Há
décadas, a influência da telenovela sobre o povo brasileiro é muito
marcante. Em função do incipiente uso da novela como publicidade, encontrávamos desde as meias e camisetas coloridas e brilhantes, com lantejoulas e strass para discotecas, aos calçados parecidos com sapatilhas de ballet. Isto sem falar das coloridas roupas da gafieira de Ana Preta, tão bem representada por Glória Menezes. Também nas lojas de discos, a miscelânea era enorme: discoteca, clássicos, sambas de gafieira... Foi por
este tempo que dona Raimunda deixou o seu interior e veio para
Fortaleza "se consultar de rutura". Seu vestido de estampa miúda e desbotada, assemelhava-se a todos os vestidos de nossas mulheres pobres do interior: mangas curtas, sempre presentes; cintura marcada; saia um pouco franzida, abaixo dos joelhos. Mas ela estava moderna! ! ! Em seus pés, uma sapatilha Carina vermelha; nos seus cabelos escuros e lisos, onde a idade já prateava, presas num coque antiquado faiscavam duas presilhas de strass. Dona Raimunda falava sem parar, nesta talvez primeira vez, que estivesse sendo ouvida. - Meu marido bebe muito, dona menina. Se eu não for atrás dele, quando der fé, já gastou tudo na cachaça. Mas eu já conheço a peça e não facilito. Dia de pagamento do Funrural não arredo do pé dele. Só desgrudo com o dinheiro na mão. A gente tem dez filhos vivos que ele tem a obrigação de dar o de comer. Não foi ele quem me pôs as barrigas? Pediu para fazer prevenção do câncer. - Nunca fiz, dona doutora, mas agora eu vou cuidar de mim. Minha vida inté hoje, foi só parir menino, carregar água, trabalhar no roçado e passar percisão das coisas. Já disse prá ele que não vou mais me assujeitar a machão... Baixando o tom de voz, acrescentou: - A gente já está dormindo em rede separada. Ele reclama, diz que eu devo de ter outro homem, mas eu não deixo ele folgar comigo mais. Só serve prá botá bucho... Quero o quê, dona menina. Ele diz que vai arranjar outra mulher, mas quem vai querer aquele caco velho? Além de tudo, pobre... Por mim, ele pode inté arranjar mesmo, mas nóis ele vai ter que sustentar, inté morrer. Casamos, foi no padre e no juiz, não se amiguemos não. Os meninos tudinho tem registro... Quem mandou me tirar da casa de meu pai? Eu tinha treze anos, era fresquinha, carne nova. Tinha até um primo meu, que arribou para São Paulo, que queria me levar mais ele. Só não fui porque ainda nao tinha sangrado. Antes tivesse... Terra boa é por lá, São Paulo, Rio de Janeiro. Lá, mulher tem vez, alevanta a cabeça. Mas estou aprendendo. Sou agora que nem a Carina; não me curvo prá homem. Tem de me arrespeitar. Afinal, dona, nao sou um objeto, tenho meu valor próprio... Dona Raimunda jogou a cabeça para trás, empertigou os ombros e me pareceu mais convincente que a Savallas, não fosse sua boca desdentada e seu corpo miúdo e maltratado. Voltando de seus devaneios feministas, concluiu: - Sabe, doutora, eu nao ligo para este negócio de homem não. O povo fala deste tal de gozo, mas eu nunca tive isto, não. O que eu gostava mesmo, era quando via na novela, aqueles beijo do Cacá com a Júlia. Meu coraçao batia aqui em baixo... Ouvindo seu prolongado suspiro final, percebi que a telenovela conseguira até provocar orgasmos no interior do Ceará. Autora: Mª Auxiliadora Mota G. Vieira
(Maux)
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