A RATA BRANCA

Maria da Graça sempre foi uma pessoa de trato difícil. Desconfiada e arredia, esperava sempre o pior da vida e das pessoas. Adolescente, envergonhava-se da pobreza dos pais, das risadas escandalosas das irmãs, das cachaçadas dos irmãos mais velhos.

Esta família, no entanto, da qual ela tanto se envergonhava, considerava-a muito. Nascera com uma pele muito alva e cabelos alourados, diferentemente da morenice dos pais e irmãos. Seus cílios também louros, ocultando uns olhinhos amendoados e miúdos, sensíveis ao sol, fotofóbicos, revelavam que sua cor especial era causada por um defeito de pigmentação. Sua família, no entanto, considerava essa alvura um acontecimento extraordinário naquele lar de pele quase escura; com o apelido de Branca ela cresceu...

Os traços de marcada ascendência indígena, apesar da cor clara, tornavam-na uma moça muito feia. Os cabelos pesados e lisos, escorridos, não possuíam brilho: eram mesmo desbotados e secos. O que mais a enfeava contudo, era sua personalidade com atitudes mesquinhas, competitivas e destrutivas.

Irritadiça, grosseira e atrevida, julgava-se muito inteligente. A convivência com pessoas humildes e despreparadas, realçava seu pouco brilho, fazendo-a parecer extremamente capaz e a família investiu tudo, na formação daquela jovem, para eles promissora.

Maria da Graça estudou francês, com uma bolsa de estudos obtida por sua mãe, empregada doméstica na residência do proprietário do curso de línguas. A moça não se cansava de exaltar esse feito, considerando-se cultíssima por saber falar e escrever uma língua tão especial.

Suas amigas chamavam-na, pelas costas, de Rata Branca – ela realmente parecia-se com esses animais arredios e desconfiados, que com seus olhinhos pretos e inteligentes, vasculhavam os ambientes, verificando ladinamente onde atacar e como se refugiar do perigo. Maria da Graça sempre esperava o ataque e fugia covardemente das situações, mas quando podia destruir, perseguir, mentir, fazia isso rápido e sorrateiramente, como uma ratazana.

O apelido muito a incomodava, pois temia que fosse uma referência a sua origem humilde e pobre, que tentava ocultar de todos. Detestava ratos – talvez pela sua semelhança com eles ou pelo apelido. Armava ratoeiras em pontos estratégicos. Não permitia que seu pai utilizasse o veneno.

Acabar com os ratos era uma obsessão para Maria da Graça e quando os via presos ainda com vida nas ratoeiras, torturava-os, afogando-os lentamente numa lata d’água, delirando com seu suplício, extinguindo-os aos poucos. Seus olhos brilhavam e ela sorria muito feliz, parecendo ser essa destruição a sua maior ventura.

Quando verificava que seu pai havia comprado veneno zangava-se com ele; afirmava que os ratos precisavam morrer lentamente para expiarem o crime de serem imundos, nojentos e traidores. Matá-los com veneno era abençoá-los, poupá-los do castigo merecido.

- Os ratos tem que sofrer para morrer, pois são maus, destruidores e sorrateiros, afirmava, continuando a afogá-los e brigando com quem colocasse veneno na casa.

Concluindo o colegial, Maria da Graça precisava trabalhar, mas a família acreditando nela, permitiu que continuasse seus estudos. Após três tentativas frustradas, Maria da Graça passou no vestibular da faculdade de letras e tripudiou sobre as irmãs, humilhando-as:

- Eu vou ser professora de línguas, porque eu sei falar francês... Vocês, coitadas, nunca vão ser nada na vida. Se tivessem nascido com a minha inteligência...

As pobres moças, caladas, tocavam a vida como podiam. Para elas, cursar o Pedagógico ou trabalhar no comércio, era a única opção possível. Até gostariam de dar outro rumo às suas vidas, mas consideravam não possuir a capacidade e o saber de Branca. Ressentiam-se, contudo, com as atitudes da irmã e reclamavam entre si:

- Ela não precisava nos humilhar tanto. Não temos culpa de não termos nascido com a cabeça dela! Mas é assim mesmo que são as pessoas muito inteligentes: não percebem que estão ferindo os outros...

A universitária envergonhava-se da profissão da mãe e procurava nada saber sobre o que ela fazia. Quando o dono do curso de línguas faleceu e a esposa mudou-se para outra cidade, doméstica competente, cozinheira de forno e fogão, capaz de organizar banquetes e festas de alto nível, pois sempre labutara com famílias abastadas, Rita logo arrumou outro emprego. Maria da Graça nem procurou saber nada a respeito, mas pensava que devia ser uma família rica, pois a filha da patroa sempre dava à velha empregada, as roupas que não queria mais. Eram muitas roupas, roupas de grife e semi-novas. Maria da Graça escolhia as peças mais conservadas e bonitas, alegando que precisava de roupas para a faculdade. Os rebotalhos deixava para as irmãs, que continuavam considerando ser direito de Branca escolher as peças melhores.

Uma tarde, saindo da faculdade, uma colega convidou Maria da Graça:

- Preciso ir na casa de minha tia, apanhar um livro para o nosso trabalho. Vamos lá, Graça. A empregada dela fez um doce de banana que é uma delícia...

Graça adorava esse doce, que sua mãe sempre fazia para ela, com muito carinho.

- Mas é claro que doce de banana da Aldeota deve ser muito mais gostoso, pensou a moça.

Já instalada na copa da casa da prima de sua amiga, só teve olhos para a linda compoteira de cristal, repleta das bolinhas vermelhas do doce, boiando numa calda maravilhosa.

- Rita, traga aquele queijo provolone fresquinho, para a gente comer com o doce, disse a dona da casa.

Maria da Graça deparou-se com sua mãe que, feliz por ver sua filha na casa dos patrões, sorriu para ela. A moça ignorou-a, sem conseguir tirar os olhos da compoteira, da calda tão conhecida, das rodinhas de banana. Não moveu um músculo. A amiga insistia:

- Está uma delícia, Graça. E esse queijo também... Tio Zeca trouxe ontem, de Minas. É bem diferente, porque aqui no Ceará a gente só encontra queijo provolone curado. Esse é fresquinho; muito gostoso.

Após muito esforço, a moça grunhiu com ódio: - Detesto doce de banana de rodinha. Tenho nojo dele...

Saindo dali, Maria da Graça não queria voltar para casa. Não suportava mais aquela vida. Envergonhava-se da sua família, da casinha de cinco comodos; odiava dividir o quarto com suas irmãs ignorantes. Não queria mais sapatos e bolsas baratas que destoavam das usadas por suas amigas.
Não podia mais usar as roupas doadas pela filha da patroa da mãe, que ela agora sabia ser prima de sua amiga: elas poderiam ser reconhecidas!!!
Desesperada, sem saber o que fazer com essa vida miserável, não tendo onde dormir, sem dinheiro, inconsolada, retornou para sua casa.

Encontrou sua mãe preparando o jantar. Era sua noite de folga.
Rita nada comentou com ela, não a recriminou nem alterou a forma de tratá-la.
Findo o jantar, trouxe a sobremesa: doce de banana de rodinha.

- Branca, eu pedi pra minha patroa e trouxe um pedacinho de queijo provolone, só para você, para comer com seu doce predileto.

Maria da Graça começou a gritar:

- Não quero!!!! Detesto doce de banana. Não quero queijo – quem gosta de queijo é rato e eu sou gente! Não quero ser dessa casa nem pertencer a essa família...

Quebrou todos os pratos e louças da casa, gritando raivosa e desesperada:

- Eu não sou daqui. Não pertenço a esse meio. Detesto queijo. Odeio ratos. Tenho nojo de todos vocês.

Uma ambulância chamada às pressas, conduziu Maria da Graça a um hospital psiquiátrico. De agressiva, passou para a catatonia e seus olhinhos pretos perderam o brilho e a luz. Quarenta dias depois, na manhã seguinte após receber alta, foi encontrada morta ao lado de um pratinho com doce de banana de rodinha.

Na análise do Instituto Médico Legal, descobriram que ingerira juntamente com o doce o veneno 1001, adquirido, às escondidas dela, por seu pai, para matar os ratos de sua humilde casa...

Autora: Mª Auxiliadora Mota G. Vieira (Maux)
"Risos e Lágrimas de Mulher"
Página formatada em 05 jul 2003

Voltar

 

Envie esta página para:

Digite o seu e-mail

Coloque seu nome

E-mail de quem a receberá