O SOPRO MITRAL

Liana não conseguia encaixar-se no cotidiano. Nela, tudo era superlativo; o conforto precisava ser excessivo e o luxo desmedido. Regida pela estética e pelo prazer, não se permitia frustrações. Necessitava ter tudo, obter o melhor sempre em qualquer área e a qualquer preço.

Egocêntrica, não permitia que ninguém ocupasse os seus espaços. Delimitava, arrogantemente, o seu território mas invadia as reentrâncias do mundo a sua volta, julgando ter direito a isso, recebendo as primazias e benesses da vida.

Disfarçada numa capa de elegância e boas maneiras, confundia educação e fineza com arrogância e prepotência. O "resto do mundo", aqueles que ousavam combater os seus privilégios e direitos únicos, eram rotulados de "grossos", de mal educados e até de invejosos.

Liana sempre foi assim. Pisou em quem quis e como bem desejou. Humilhou, agrediu e se resguardou dos naturais revides, como se houvesse um complô contra ela, por sua origem, sua família e seu dinheiro. Na realidade, a origem não era tão nobre como ela queria fazer crer, a família não possuía muita hombridade e até mesmo o dinheiro já não era tanto...

Liana possuía ascendentes ricos e poderosos mas, atualmente, nada mais restava a não ser a lembrança de um passado digno e de prestígio, obscurecido por dívidas, falências e vergonhosas maracutaias. Talvez Liana esperasse um rico herdeiro que restaurasse e até mesmo reinventasse o brilho de sua casa. Infelizmente para ela, o noivo encontrado, embora pudesse lhe oferecer um nome honrado, não possuía o suficiente para realizar seu delírio de luxo e riqueza.

O tempo passando, as rugas pregueando-lhe a face e o pescoço, perdendo o viço da mocidade, Liana deixou de ser perdoada. Seus defeitos começaram a ser execrados por aqueles que, outrora, aceitavam com benevolência suas ironias e desculpavam suas impertinências, julgando que a vida lhe ensinaria a amabilidade.

Ainda jovem, vendo que o marido não poderia prover o seu luxo, Liana resolveu ser médica. - Para os meus alfinetes, disse ao tolerante marido, trate você de sustentar a casa... Temerosa de não lograr êxito num vestibular difícil, prestou exames em uma universidade de outro estado, de mais fácil aprovação e depois, utilizando seus contatos, transferiu-se para a sua cidade.

Como sempre ocorre nessas situações, Liana foi marginalizada pelos colegas de faculdade. Os que ali haviam ingressado legitimamente, sentiam-se prejudicados por essas manobras que desvalorizavam o seu esforço e a sua capacidade.

Liana também não ajudava! Continuava arrogante mas não agredia diretamente. Com charme e maneiras delicadas, disfarçadamente, como se estivesse distraída e não percebesse que havia outras pessoas por perto, dizia o que queria para alguns colegas, sempre de forma que os outros ouvissem, mas que não pudessem retrucar suas opiniões por não serem participantes da conversa:

- Não sei o que estou fazendo aqui. As pessoas que pertencem ao meu nível social, as minhas amigas de infância e de adolescência, nunca freqüentariam esse ambiente. São pessoas ricas, bonitas, charmosas, qualidades que eu olho em volta e não encontro. As minha colegas de turma, em sua maioria, não têm nada a ver comigo. Jamais entenderiam as minhas aspirações e necessidades, pois nunca tiveram a oportunidade de conhecer ao menos de leve, o que é conforto, luxo e prazer.

Jogava para trás os longos cabelos negros, ajeitava sobre o nariz os enormes óculos escuros - sua marca registrada, com os quais escondia sua miopia de alto grau - e prosseguia:

- Eu amo a beleza, o charme, o sucesso; adoro pessoas bem vestidas e perfumadas; preciso estar próxima de quem é leve, de bem com vida... É muito difícil estar aqui; não encontro ressonância em quase ninguém. Se eu não estudasse aqui, a maioria da turma só me conheceria pelos jornais. Medicina é uma carreira de proletário com nível superior e os estudantes são muito limitados e humildes em suas pretensões na vida. Não pensam grande; nem sabem o que é ter poder e dinheiro.

Indagada sobre o porquê de não abandonar o curso, adotava uma voz cavernosa, balançava a cabeça e num tom meio cantado, enfático, pausado e lento, justificava:

- Claro que as minhas possibilidades são diferentes. Eu vou enriquecer com a Medicina. Tenho contatos, amizades, possibilidades de crescer profissionalmente. Diferente da maioria da turma, com raras e honrosas exceções...

Olhava em volta, discretamente. Percebendo que estava sendo ouvida, acrescentava:

- As pessoas acham o máximo ser médico. Justamente aquelas que não terão chance alguma na vida! Para mim, ser médica não é lá essas coisas. Sei, no entanto, que as minhas oportunidades são outras. As pessoas me invejam porisso, porque EU TENHO FAMÍLIA. E a maior parte da turma NÃO TEM. Simples assim!

- Realmente, nós nascemos de chocadeira alguns e fomos apanhados debaixo da árvore outros, respondeu-lhe, de certa feita, uma das colegas de turma que não se conformava com as atitudes arrogantes e os delírios megalomaníacos da estudante. Vá estudar, menina. Sem esforço ninguém vence na vida, principalmente numa profissão tão difícil como a nossa.

Aos muxoxos de Liana, Celina acrescentou: - E a profissão não é NOSSA? Ou você pensa que será a única médica a se formar nesta turma? Cuide pelo menos de tornar-se uma boa profissional; até agora você só conseguiu ser a mais chata, arrogante e ... maluca!!! Acho que está precisando de uns choquezinhos. Qualquer dia, sugiro que internem você no Hospital Psiquiátrico para num tratamento intensivo, encarar a realidade... Aliás, já tomou seu Haloperidol hoje?

Com esta pergunta, Celina passou a cumprimentar Liana diariamente. Em vez do tradicional bom dia, indagava sempre: - Não esqueceu não, não é mocinha, de tomar o seu haloperidolzinho do dia?

Justamente por contestá-la e por essa piadinha diária, a moça tornou-se o bode expiatório de Liana. De forma sempre camuflada, parecendo um comentário qualquer, como se estivesse penalizada com a situação de Celina, criticava suas roupas, seus sapatos e bolsas de baixa qualidade.

- Comprados em feira livre, podem crer, dizia. Coitada! Com esta falta do básico ela nunca se tornará alguém na vida...

Quando os ouvintes discordavam, realçando a inteligência, esforço e capacidade de Celina, a estudante respondia: - Em que mundo vocês vivem? Sem boa aparência, roupas caras e bons contatos sociais ninguém vence. Este é o país do Quem Indica – e mesmo que ela tenha potencial, quem é que vai indicar essa pobre criatura para alguma coisa?"

Fartos dessa atitude sempre prepotente, alunos e mestres decidiram dar a Liana, uma lição inesquecível. O professor de Clínica Médica, numa certa tarde, após discorrer sobre sopros cardíacos, acrescentou:

- Estamos na enfermaria com um caso bem didático de sopro mitral. Coisa de livro. Amanhã apresentarei o paciente a vocês. Leiam a teoria em casa, mas saibam que a prática é diferente. Pode ser que vocês não distingüam bem o que eu desejo mostrar. É necessária certa sensibilidade auditiva.

Liana não pode se conter: - Vai ser difícil para as pessoas que só tem sensibilidade auditiva para tiro e forró.

Celina retrucou: - Para forró eu até entendo e assumo. Mas tiro?!!!

Liana respondeu, esclarecedora: - Tiro trocado entre a polícia e os marginais, guerra de gangues... Sinfonia da periferia onde muita gente daqui mora...

No dia seguinte, na enfermaria, a turma estava completa. Ninguém faltou àquela aula! Liana chegou esfuziante e perfumada, em seu conjunto de linho branco, pasta marrom de cromo italiano. Tomou logo a frente dos colegas que – SURPRESA!!! – abriram espaço para ela sem reclamar.

- Estão se educando, murmurou entredentes, também sem que ninguém respondesse a esse comentário à meia voz.

Liana olhou para Celina e a moça estava impassível – nem parecia ter ouvido o que dissera. Não lhe deu bom dia, nem lhe indagou sobre o uso da medicação psiquiátrica.

- "Você está doente?", perguntou à colega. Esta respondeu negativamente, com a cabeça, sem esconder um sorriso indefinido.

Liana pensou: - Deve estar percebendo que estou muito acima dela e que não consegue me atingir com suas piadinhas...

O mestre entregou o estetoscópio a Liana:

- Vamos começar por você. Tente ouvir o sopro e descreva APENAS o que conseguir perceber.

A acadêmica dirigiu-se ao paciente com tal segurança e desenvoltura que quem não a conhecesse julgaria ser ela PhD em cardiologia. Após alguns segundos de ausculta, jogou para trás os longos cabelos, sorriu sedutora para o mestre e olhou, poderosa, para os colegas:

- Estou ouvindo perfeitamente este sopro. Posso descrevê-lo, com certeza.

O mestre ouviu a jovem, atentamente, com um sorriso indecifrável afivelado ao rosto, balançando a cabeça em concordância. Ao final da exposição, com o mesmo sorriso, tomou a palavra. - Parabéns, doutora, por sua brilhante descrição do sopro ouvido...

Liana exultou. Esse era um dos mais exigentes professores da faculdade, além de que ela pretendia especializar-se em Cardiologia. Meio caminho andado se caísse nas boas graças do titular da cadeira...

Jogou mais uma vez os longos cabelos negros para trás, coquetemente, e sorriu, novamente, para a "plebe rude", sem perceber o ar de troça, antecipando a gargalhada que, em segundos, ecoaria pela enfermaria, deixando o acontecimento registrado no anedotário daquela escola médica.

O professor apanhou o estetoscópio das mãos da acadêmica, auscultou o paciente, retirou o aparelho do ouvido, recolocou-o novamente, deu-lhe um piparote e sorriu. Virou seu encaixe, dando um novo piparote e, satisfeito, dirigiu-se à Liana:

- Doutora, eu gostaria que você explicasse para seus colegas e principalmente para mim – já que pretende ser cardiologista e terá que passar pelo meu crivo - como conseguiu ouvir este sopro e tão brilhantemente descrevê-lo, se ao entregar o estetoscópio para você, enganei-me e, sem querer, virei o encaixe dele tornando-o irremediavelmente SURDO!!!

Autora: Mª Auxiliadora Mota G. Vieira (Maux)
"Risos e Lágrimas de Mulher"
Página formatada em 30 nov 2003

 

 

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