UMA VIDA INFELIZ!

Marília era filha única, mimada, paparicada. Mocinha bonita, não estava contudo entre as mais belas de sua turma. Possuía aquela beleza que todas tem aos 13 anos, quando o corpo muda, os sonhos desabrocham e a força da juventude, o vigor das primeiras esperanças, ornamenta a vida e as ruas.

Marília apaixonou-se por Gileno, aos treze anos. Mais velho vinte anos, ele arrastava por trás de sua lambreta o olhar de toda uma geração de moças. Marília não pertencia a esta geração, a não ser no que se referia ao seu sentimento por aquele playboy barato de uma cidadezinha no interior do estado...

Marília servia de chacota para Gileno pois sabia da paixão que gerara na adolescente. Zombava dizendo que era o "Lobo Mau" que ia papar a "Chapeuzinho Vermelho". Marília nunca duvidou que Gileno seria seu, mesmo quando lhe contavam as suas monumentais farras. Ele sempre dizia que iria esperar que ela crescesse - e Marília acreditava. Pensava:  ele está vivendo a vida, preparando-se para o dia em que será só meu...

Marília cresceu e Gileno não havia ainda cansado de viver... Formou-se professora, fez concurso, passou uma temporada fora da sua cidadezinha. Um ano depois voltou, transferida para o melhor colégio da cidade - em frente da loja de tecidos de Gileno. No seu primeiro dia de aula, à saída, foi abordada pelo rapaz, que insistiu em acompanhá-la até sua casa. Talvez nem mesmo Gileno soubesse porque, mas ao devolver-lhe os cadernos de seus alunos, beijou Marília. De surpresa. Sem preâmbulos. Sem magia...

- Eu disse que ia esperar você crescer...

- Eu sempre soube que você iria me esperar...

Um ano depois casaram-se, contra a vontade dos pais de Marília, sob oposição cerrada de todas as pessoas amigas, das colegas que conheciam as mil presepadas do rapaz. Mas Marília estava feliz. Cumpria o seu destino...

Preparou sua casa com capricho e carinho. Iriam morar ao lado da loja de Gileno, bem próximo ao seu colégio. Marília só não gostou da empregada. Uma prima distante de Gileno, vinda da roça, viúva moça e sem filhos. Tentou dizer que não queria ninguém em sua casa, a não ser quando os filhos viessem. Mas Gileno insistiu: não queria vê-la cansada, já chegava o seu trabalho na escola. E depois, era uma caridade para com a pobre prima viúva e só...

Lua de Mel em Bariloche por um mês longo, frio e deslumbrantemente feliz - bancado pelo pai de Marília que queria vê-la feliz, muito feliz... Ele pressentia o sofrimento que a vida reservava a sua filha.

Primeiro dia de aula, a professorinha viu-se no meio de uma greve. Voltou cedo para casa: Gileno estava na loja, iria se arrumar toda e fazer-lhe companhia. Ouviu ruídos no quarto, não viu a empregada na cozinha.

- Vou mandar esta criatura embora. Ela não tem nada a fazer no meu quarto a esta hora...

Estarrecida, Marilia deparou-se com o marido e a empregada na cama, na SUA cama... Saiu correndo para a casa de seu pai, em prantos. O velho Antônio que não queria o casamento, também não aceitava a idéia de ter uma filha separada. Seria mal falada, todos iriam querer se aproveitar... Marília bateu o pé. Não queria voltar. O coração doía com uma dor que ela nunca sentira antes... Uns dias depois, começou a vomitar e as regras não vieram... Seu pai quase que a expulsou de volta para o marido.

Marília voltou, guardando no fundo dos olhos uma enorme dor... Aquela primeira traição não foi a última. Gileno cada vez descia mais baixo. Prostitutas, rameiras de porta aberta e depois de fundo de rua e beira de calçada. Perfumes baratos, marcas de batom, corrimentos e infecções ginecológicas que lhe passava, parasitas vergonhosos... Brigas com gigolôs, ameaçado de surra por agiotas... E muitas dívidas, cobradores na porta, indo até o colégio atrás dela, envergonhando-a na frente das amigas.

Marília criava sua filha, calada e sofredora. Não quis mais filhos e também... Gileno a procurava tão pouco...Seus pais morreram deixando-lhe alguns bens que Gileno rapidamente dilapidou nas farras.

Moema já estava mocinha e era a única alegria de Marília. Namorava um bom rapaz, respeitador, atencioso, louco por ela. Noivaram e marcaram o casamento. Moema só tinha dezoito anos, mas estava apaixonada e Marília apaixonara-se também pelo amor que sua filha vivia...

Gileno adoeceu. Diarréias constantes, pneumonias freqüentes. O médico da cidadezinha desconfiava de um câncer de intestino. Gileno foi para São Paulo e lá o diagnóstico:

- Dona Marilia, seu marido está com AIDS.

Marília não acreditou, à princípio. Uma doença nova, desconhecida, doença de "bichas"... Gileno era safado mas só gostava de mulher. E Deus, como gostava...

- Dona Marília, não é só homossexual que tem a doença. Todos os promíscuos podem se contaminar. Seu marido teve uma vida muito irregular, sem cuidados maiores. AIDS não tem cura. E a senhora pode estar contaminada também...

 Marília negou-se a fazer os exames. Precisava cuidar de Gileno e isso é que era o mais importante. Disse a todos na cidadezinha e também para o noivo de Moema que sua doença era um câncer de intestino. Adiaram o casamento. Marília cuidou de Gileno por dois anos, com ternura e muito carinho, mas não derramou uma só lágrima quando ele morreu.

No dia seguinte ao enterro foi para São Paulo com sua filha. - Arrumar uns papéis pendentes, dissera a todos, mas na realidade fora fazer os exames que os médicos cobravam dela desde o diagnóstico firmado da doença do marido.

Soro positivo, não foi surpresa para ela. - Não fiz o exame antes, doutor, porque precisava cuidar dele...

Moema voltou para sua cidade e Marília permaneceu ainda três dias em São Paulo. Ao chegar em casa estranhou a escuridão, o silêncio. Chamou Moema e a moça não respondeu. Ao entrar no quarto da filha, Marília se encontrou no meio de tecidos picotados bem minúsculos: Moema cortava em tiras pequeninas o seu enxoval todinho. A moça não respondia ao chamado da mãe, completamente absorta em sua faina. Moema foi internada em um hospital psiquiátrico, completamente transtornada. Tentou suicídio algumas vezes, até conseguir realizar o seu intento.

A moça confidenciara ao noivo a verdadeira causa da morte de seu pai, que a mãe também estava contaminada e ele, não satisfeito em romper o compromisso, espalhara pela cidade toda a verdade sobre a doença do quase sogro.

Marília já morreu. Ao ser confortada, dias antes de seu falecimento, retrucou:

- Doutora, a única coisa que me faz rezar ainda, é para pedir a Deus, que se houver vida depois da morte, não me deixe encontrar com o Gileno...  

Autora: Mª Auxiliadora Mota G. Vieira (Maux)
"Risos e Lágrimas de Mulher"

 

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