O VESTIDO

A maioria das pessoas teme a morte
por nada terem feito com as suas vidas.
(Peter Ustinov)

Suzana largou o estetoscópio, a caneta, o bloco de receituários, empurrou a cadeira e apanhando a sua bolsa, saiu pelo corredor imenso do ambulatório. Acenou a um taxi que passava e nele entrou, apressada.
Enquanto o taxista iniciava o seu trajeto, recordou sua infância de menina acarinhada e mimada, pertencente a uma família de recursos e bem situada socialmente que, sobretudo, valorizava a inteligência e a capacidade individual. Talvez porque a vida já lhes fornecera cobertura para as outras necessidades...

Adolescente, continuou a receber essa orientação em sua trajetória. Sua mãe lhe dizia:

- Você é inteligente demais para somente cuidar de fraldas e panelas. Desenvolva seu potencial; faça um curso universitário. Casamento já, já, deixará de ser profissão.

Educada desta forma, sentia-se acima dos pequenos interesses de suas colegas, preocupadas somente com o tecido e a cor dos vestidos para o próximo baile; instruidas pelos colunistas sociais, avidamente lidos, sobre os bons partidos da cidade; inteiradas dos namoros iniciados e noivados esboçados.

Possuía uma amiga intima, com tão díspares interesses, que ninguém entendia a amizade que as unia. Sônia era de origem humilde, mas extremamente ambiciosa. Filha de uma viúva, professora de um colégio de freiras que educava as moças da sociedade, Sônia ali estudava gratuitamente. No entanto, só aproveitava a sua boa sorte, estabelecendo contatos com as colegas de turma, sempre arrumando um jeitinho de ser convidada para as festas e passeios, paquerando os irmãos, primos e amigos das companheiras, procurando alguém que com ela assumisse um relacionamento.

Prestativa e gentil, sempre disponível e pronta a solucionar os problemas inesperados, tornou-se uma figura aceita pelo grupo, meio imposta - por ter se tornado necessária -, mas presente sempre. Não estudava nunca e só passava na "cola". Sentava-se atrás de Suzana e reproduzia a prova da amiga. Detestava esforço, dedicação a algum objetivo sério, desempenho sem retorno material objetivo. Buscava todas as formas possíveis para ascender e acreditava firmemente que o casamento seria a solução de seus problemas.

- Só existem duas formas de sair do buraco: nascer rica ou casar com um homem rico. Como eu já nasci perdendo, só me resta a segunda possibilidade.

Aos protestos da amiga, retrucava:

- Prá você é fácil, pois nasceu em berço de ouro. Não pode falar do que não entende. Pensa que eu não noto como as freiras puxam o seu saco? E como me escarram? Adoram lembrar que eu estudo de graça, que deveria aproveitar a oportunidade que a vida me deu.
Porra de oportunidade esta: órfã de pai taxista que morreu sem me deixar um tostão; mãe, professora de gente rica, mas que não pode nem me comprar um vestido novo para ir às festas. Se não fossem as roupas que você me dá nem sei como ia me virar
.

E acrescentava:

- Eu me sinto humilhada ao usar os vestidos que você não quer mais. Tenho ódio de vesti-los e só faço isso porque não tenho outros.

Suzana, penalizada, respondia como se tivesse culpa de ter mais posses que Sônia:

- Mas eu nunca lhe dou roupas velhas. São vestidos que usei pouquíssimas vezes.

- Mas que todo mundo viu com você. E sabem que estou usando restos.
Riem pelas minhas costas, pensa que não sei disso? Deixa estar que não vai ser sempre assim. Ainda viro este disco
.

Suzana insistia:
-
Você tem mesmo é que estudar, preparar-se para ter uma profissão, uma carreira
.

Sônia gargalhava:

- Você parece as freiras falando. Não entendeu ainda que eu detesto estudar? Não nasci para isso, pode crer. Não entendo como você consegue ler um livro inteiro...Escute o que estou dizendo: vou me casar cedo, com alguém que me dê de um tudo.

Findo o curso ginasial, Sônia matriculou-se na Escola Doméstica.

- Porque não na Escola Normal?, perguntava a mãe.
-
Pode ser professora, fazer uma faculdade de letras ou de pedagogia; é uma profissão digna. Há a possibilidade de se tornar diretora de um colégio, ter prestígio.
Escola Doméstica é curso espera-marido. Nem diploma dá
.

Para a mãe ela não respondia mas para Suzana, Sônia explicava, zombeteira:

- É muita coisa para minha cabeça. Psicologia, filosofia, pedagogia, essas gias todas mais aritmética; não dou para isso. E depois nunca que vou ser professora. Estou mesmo esperando um marido. E daí? E marido rico, pois de pé-rapado quero distância. Não me consigo enxergar sem ser madame, queridinha dos colunistas, a Soninha. Vão me chamar assim, você vai ver. Sem sobrenome. Só Soninha - e todo mundo vai saber que sou eu


Suzana ria, penalizada, dos delírios da amiga, pois pareciam bem distantes de serem realizados. Sem ser muito bonita, apenas agradável à vista, Sônia possuía, contudo, um riso fácil e uma vitalidade exuberante. Esportiva, tornara-se atleta de basquete e, desta forma, entre as outras jogadoras formava seu grupo social. Adorava também um carteado e passava tardes inteiras jogando e fumando, com as outras garotas que não queriam nada com o estudo. Embora tivesse sempre estudado em colégio de freiras e convivido com jovens distintas como Suzana, Sônia não era uma moça requintada e educada. Possuía o detestável costume de falar palavrões aos borbotões, incontrolavelmente.

A mãe de Suzana não se conformava com a amizade da filha.

- Coprolalia, minha filha, é como se chama o defeito de expressão desta moça. Mas na realidade o que ela não tem mesmo é educação. Além de ser uma representante pura do que se chama "papagaio de pirata", que se encosta nas pessoas de destaque para aparecer nas fotografias dos colunistas. Ela está usando você, suas amizades, seus contatos, para ver se encontra um marido decente. Só que eu duvido que os rapazes da nossa sociedade venham a se envolver com uma criatura assim. Por meu gosto, essa moça não pisava mais aqui em casa. Faz vergonha com seus modos e seus palavrões.

As duas moças realmente se afastaram. Suzana decidira cursar Medicina e a este objetivo dedicara seus jovens anos.

Enquanto o táxi corria, perdido no trânsito confuso, a médica relembrou os últimos anos de adolescência, preparando-se para o vestibular de medicina. Recordou as festas às quais deixou de comparecer, namoricos que afogou nos livros de Biologia e Química, anseios amorosos substituídos pelos exercícios de Física e de Matemática.
Sentiu saudades da adolescência que não foi vivida plenamente, da beleza juvenil que não foi elogiada, pois sempre a inteligência é que lhe era exaltada. Tentou recuperar seus sentimentos de lagarta transmutando-se em borboleta, mas não conseguiu perceber quando lhe ocorrera a metamorfose, pois não estivera entre canteiros de rosas e de cores, mas sempre junto aos livros e cadernos de cheiros imperceptíveis e cores indefinidas.
Não desfilara em passarelas a sua beleza, nem recebera aplausos de uma platéia, a não ser quando da entrega de seus prêmios de desempenho em literatura ou medalhas por conquistas escolares.

Na curva apressada feita pelo taxista, com sua buzina zangada, sentiu o vento frio das madrugadas, vividas não em bailes ruidosos, mas estudando para o vestibular. Enquanto o taxímetro tiquetaqueava, reviveu sua chegada ao Rio de Janeiro para a realização das provas: a Avenida Presidente Vargas colorida com os restos da folia do Carnaval mostrava, através da janela do hotel, o asfalto molhado, ainda salpicado de confetes, trazendo um cheiro de esperança. Maracanã imenso, lotado, com seu campo verde centrando uma multidão de jovens nervosos, cansados, tensos.

- Passei, passei, papai... É a primeira grande vitória de minha vida.

Tudo isso girou em sua cabeça como giravam as rodas do táxi que a conduzia. A primeira noite só em seu apartamento de estudante; uma festa de aniversário no andar térreo com risos, alegria, fados de Francisco José: Teus olhos castanhos, de encantos tamanhos, são a minha luz...

Suzana, sozinha, fitando o céu estrelado, esperava o futuro, a vida nova que começaria, aos dezoito anos lindos e promissores. Vesti azul, minha sorte então mudou, tocava o rádio da vizinha tentando abafar os ruídos dos fados. E Suzana pensava que, talvez, pudesse agora encontrar, perdidos nos seus, alguns olhos castanhos, verdes ou azuis que lhe trouxessem a ternura e o amor até então adiados e para os quais já se encontrava preparada.
Lamentou não poder estar naquela noite em sua cidade, pois era o casamento de Sônia.

A antiga amiga havia conseguido realizar seu sonho e desposava um herdeiro, pertencente a uma das famílias mais poderosas locais. Como conseguira? Ela mesma lhe contara:

- Ele pensou que eu fosse fácil. Tentou muito, mas como não conseguiu tirar minha virgindade, o jeito foi me pedir em casamento... A família bem que acha que eu não estou à altura dele, mas não podem fazer nada porque ele está muito gamadão em mim.

E contava, ironizando, a "frescura" da família para a qual entrava:

- Lembra do irmão mais velho de Haroldo, o Arnaldo? Aquele camarada é um saco, metido a intelectual; pensa que tem o rei na barriga. Claro que caia bem com você, até andou lhe paquerando... Pois olhe que eu já noiva e de casamento marcado, ele aprontou comigo. Tinha acabado de chegar da França e quando soube que o Haroldo estava noivo de "uma ilustre desconhecida" ficou puto da vida com ele. Disse-lhe que deveria se valorizar mais, que eu não era mulher para ele. Ai, num sábado, Haroldo tinha ido comigo a um piquenique e foi em casa tomar banho, para irmos a uma festa. Fiquei assistindo televisão com a mãe dele, as duas caladas, mal se suportando, quando o Arnaldo chegou. Olhou para mim de cima a baixo, nem me cumprimentou e com o maior desprezo começou a conversar com a mãe em francês, ignorando solenemente a minha presença. Crente que arrebenta... Mas ele vai ver quem sou eu. Deixa só eu me casar. Vingança é prato que se come frio e ele ainda vai me pagar esta desfeita um dia.

Não possuindo sua família recursos para realizar a festa de casamento, Sônia estava se casando no dia das bodas de prata dos sogros, aproveitando o evento...

- E daí se a festa não é minha? Sei que a cidade inteira está comentando que a noiva é tão pobre que não pode fazer festa e que o vestido é emprestado. E é mesmo. Uma prima do Haroldo casou no Recife e me arranjou o vestido. Grande coisa isso. Será a última vez na minha vida que vou usar vestido de segunda mão. Mas taí: fisguei um noivo rico. Vão ver só agora, estas molecas cheias de pose... Passei a perna nelas todas e agarrei o melhor partido da cidade. Quero ver se vão rir pelas minhas costas agora; zombar da minha pobreza, dos meus vestidos de segunda mão. Não dou um ano para estarem puxando o meu saco. Vou casar na frente de todinhas – e casar bem – vou ser rica!!! E estou casando com comunhão de bens. Não sou boba. O avô dele sugeriu separação de bens, mas eu disse que não aceitaria uma humilhação destas. E o besta, ó... Doido para me desvirginar, aceitou tudo.

Parada no engarrafamento do trânsito, Suzana rememorava os telefonemas de sua mãe contando as novidades da terra: sentindo-se segura pelo casamento, Sônia começou a demonstrar sua verdadeira personalidade. Consumidora desenfreada afirmava sempre que não conseguia parar de gastar, como se esta compulsão fosse uma qualidade. Envergonhava o marido nos salões da cidade, gargalhando escandalosa e ferindo os ouvidos da sociedade local com seus palavrões, sendo aceita apenas pelo prestígio da família do marido e, posteriormente, pelo brilho dele próprio que só era obscurecido pela companheira escolhida.

Enquanto isso, Suzana dedicava-se ao desenvolvimento de sua carreira. Suspirou pelas recordações das aulas, provas, plantões, dissecações de cadáveres, partos e cirurgias, feridas abertas sangrantes, gangrenas malcheirosas, queimaduras, suicidas, crianças morrendo com o câncer maldito e incontrolado; mulheres expulsando voluntariamente os fetos indefesos, que ocupavam seus ventres como inquilinos indesejados. Outras, desesperadas, tentando reter em suas entranhas as pequenas vidas que sangravam, copiosamente, partindo para o nada... Seis anos imensos e completos. Seis anos de trabalho e estudos, de amadurecimento, de contato com uma realidade dura, por vezes cruel e assustadora. Seis anos nos quais foi preciso vencer a timidez, o titubeio, pois em um momento de hesitação perde-se uma vida. Seis anos que sepultaram a sua adolescência e os primórdios de sua juventude, sob o cheiro do éter e formol e o peso dos tratados de Patologia e Clínica.

- Vocês tem que saber o Harrison de cabo a rabo e o Cécil de fio a pavio, repetia sempre o rígido professor de Clínica Médica.

Seis anos... Ao final o diploma, "o canudo de papel", como cantava Martinho da Vila em "O Pequeno Burguês". A festa de formatura, o juramento de Hipócrates, a separação dos amigos de jornada, cada qual trilhando a sua própria estrada - e a certeza do muito ainda por fazer... Residência médica por três anos mais. Médica já, mas ainda estudante e aprendiz, carga horária puxada, dedicação exclusiva. Depois os empregos, a realidade do serviço público desequipado, a falta de leitos para internação, recursos para a saúde desviados por políticos corruptos e irresponsáveis, sempre impunes, mesmo quando denunciados. A dignidade da profissão ridicularizada por um governadorzinho qualquer; o médico rotulado de "açougueiro" e "saquinho de sal" – branco, barato e fácil de encontrar – por um político oportunista. Uma realidade tão distante do sonho idealizado...

No entanto, considerava-se uma mulher realizada. Apesar das decepções do serviço público, mantinha o seu consultório, possuía um casamento estável e equilibrado, uma família feliz e amorosa, amizades sinceras e respeitosas.

Perdida nesse torvelinho de lembranças, chegou em casa. Pagou a corrida e entrou. O telefone a tocar lhe deu as boas vindas.

- Então, você consultou a minha empregada? Telefonei para seu emprego e me disseram que você já havia saído. Porra, fiquei preocupada. Se você não atendeu aquela merda vou ter que dispensá-la outra tarde. E eu fico de pés e mãos atadas sem ela. Já tive que faltar ao biriba. E olhe que a reunião de hoje é super badalada, com direito a foto para jornal e o caralho pois é comemoração do aniversário da Conceição. Vou ver se dou um pulinho lá no final, só para a sessão de fotos. Não posso ficar fora dos acontecimentos da city, né?

Sim, Suzana havia atendido a empregada de Sônia.

- Não tinha amostras grátis para dar a ela? Deus que me livre de ter que gastar dinheiro com este povo...Já chega a quantidade de presentes de casamento que terei que comprar este mês. Todo mundo convida a gente, para tudo e para todos os acontecimentos. Haja dinheiro. Ainda bem que o Haroldo se garante...

À medida que Sônia desfiava palavrões, contando suas mais recentes aparições de "socialite" badalada, Suzana persistia em suas lembranças.

Após a formatura e concluída sua especialização, retornara a sua cidade. No ambiente social que lhe pertencia por nascimento, reencontrou Sônia, a ele guindada pelo casamento. Embora não aceita pela sociedade tradicional mais requintada e restrita, extremamente exigente, Sônia circulava e era realmente a Soninha de alguns colunistas, como sonhara na adolescência. Vangloriava-se ostensiva e zombeteiramente de "não ter alisado banco de faculdade" e mesmo assim se dera bem na vida.

Não cuidava dos filhos; seu tempo era preenchido por chás, jogos, reuniões, sempre ocupada com sua extensa agenda social. Sônia era uma gastadora voraz. Vestia-se de forma exuberante e colorida, no rigor da moda, fazendo questão absoluta de marcas conhecidas, até mesmo para as calcinhas. Bolsas e sapatos eram também sua tara. Desfilava-as com prazer assumido, mas não comprava jóias. Considerava as bijuterias coloridas e extravagantes, mais chamativas e interessantes.

- Nasci para brilhar e brilho como eu quero, jóia não dá. É pouco para mim.

Seus brincos eram sempre enormes, com pedras muito vivas e brilhosas. Aliados aos longos cabelos, esses brincos compunham a imagem da jovem emergente. Sônia, inculta, além dos palavrões, falava muita besteira, envergonhava as amigas.

Muitas histórias eram contadas, evidenciando o ridículo a que ela se expunha sempre. Ao descrever uma viagem à Europa, afirmara categoricamente ter passeado com Haroldo de "gônadas" em Veneza. Repetira o fato, insistentemente, até que Suzana, condoída, alertara-a sobre o erro.

Outra situação desastrosa: numa festa só para mulheres, contando o caso de um político conhecido, enfatizara o fato dele ser heterossexual. Algumas pessoas da reunião, rindo, perguntaram insistentemente: - Como é Sônia, ele é o que mesmo?

E ela respondera, enfática:
- Heterossexual. Hetero mesmo. A mulher o pegou com outro.

Sônia só notara o ridículo quando Suzana, com pena da amiga, chamando-a de lado, esclarecera:
- Mulher, você está querendo dizer que ele é bissexual. Heterossexual é homem que gosta de mulher, como nossos maridos...

Essas e outras histórias compunham o folclore da sociedade sobre Sônia. Mas ela não percebia ou pouco se incomodava com isso. O marido, já há algum tempo, acomodara-se àquela parceira que sua juventude escolhera, tão desastradamente, buscando em outros braços o consolo de seu engano; atitude aceita, sem melindres, por Sônia, que só não podia abdicar de seu "status" de esposa do fulano, cartão de visita necessário as suas badalações. A administração de sua casa e os cuidados com os filhos eram repassados e "bem pagos" como ela afirmava sempre, à empregada competente que Suzana atendera naquela tarde.

Desligando o telefone, após Sônia desfiar um rosário de banalidades, pensou quem era, na verdade, a sua amiga. Uma "perua" enfeitada, fútil, mal suportada por um grupo social mais sofisticado, ridicularizada pelas amantes do marido, ansiosa em parecer jovem sempre, desesperadamente, apesar dos anos que se acumulavam e das rugas que surgiam.

- Será que Sônia considera-se uma vencedora, porque pode comprar vestidos novos e sair nas colunas sociais? Será que ela é feliz?, indagou-se a médica.
E perguntou a si mesma se também o era... Concluiu que sim: quando a juventude se esvai, nos momentos da vida que se seguem, você tem que apresentar um conteúdo, ser algo por você mesma, apresentar credibilidade e respeito.

Lembrou-se da consulta com a empregada de Sônia. Maria de Fátima demorara-se conversando com ela, adulando-a. Contara sobre o último baile ao qual sua patroa comparecera; descrevera o lindo vestido comprado num atelier local, por cinco mil cruzeiros. E acrescentara:

- A senhora, tão bonita, educada e bem nascida – porque a gente sabe o seu berço – nunca sai nem se mostra. Pouco vai às festas, sempre vestida tão simples. A senhora é uma MÉDICA!!! Não se enfeita e nem luxa...

Suzana despachara a doméstica com um riso brincalhão, dizendo ter ainda muita gente para atender. Maria de Fátima saíra balançando a cabeça, como a lamentar o desinteresse da médica por coisas tão importantes...

Nesse momento, o contínuo entrara em seu consultório para entregar-lhe o contra-cheque, que registrava quanto valia seu trabalho mensal no serviço público. Para salvar vidas e aliviar dores, num país sem valores nem verdades; onde a cultura, os ideais e a luta são menosprezados - um erro do país, não dela - seu preço era oitocentos cruzeiros, correspondente à sexta parte de um traje de baile, daquela moça que, outrora, envergonhava-se por usar seus vestidos abandonados.

A médica, já a sair, dirigira-se à sua atendente, sem que esta compreendesse o significado de suas palavras:

- Dona Hiroita, a vida é muito longa; ninguém consegue enganar todo mundo por todo o tempo. O futuro é implacável. Além de nos tomar a juventude, a beleza e a saúde, sempre mostra quem realmente construiu algo em sua estrada.

Apresentando seu contra-cheque, à velha senhora que a encarava, confusa, concluíra:

- Pode acreditar: eu prefiro estar desse outro lado da vida. Pelo menos, não temo a velhice, o vazio e o desamor.

Autora: Mª Auxiliadora Mota G. Vieira (Maux)
"Risos e Lágrimas de Mulher"
Página formatada em 21 jun 2003

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