BALADA DA MARIA BRASILEIRA
Que estão aí a olhar? Para mim?!!! Para o quê?
Estão a
olhar o quê?...
Prá mim eu já sei, mas... porquê?
Estou pensando
sim. É permitido!
Pensar aqui já não é proibido
nem paga imposto
como tudo o mais.
Querem saber o quê?
Conhecem, por acaso, a cura dos meus males?
Vão pegar minha mão,
acarinhar-me a face?
Então não olhem para mim, queridos.
Deixem-me
só com os meus pensamentos.
Vão cuidar dos outros por aí perdidos;
eu fico bem aqui com esses meus tormentos...
Mas não vão
parar, não é?
Estou ficando encabulada...
Por acaso a roupa está
rasgada?
Ou suja? Talvez meio mal lavada...
Bonita eu não sou nem
bem feita...
Estou um pouco, então, descabelada,
ou mal maquilada?
Querem é ouvir a minha história!...
Prá que saber quem eu sou?
Minha história é uma história tão igual
às outras tantas que
chegam a esse final...
Mas sabem que eu até pensava...
eu juro,
acreditava que era diferente...
Desde menina eu queria saber
dos feitos das mulheres valorosas,
tão brilhantes, tão lindas de
se ver.
Quis ser Sarah Bernhard, Lina Cavalieri;
Greta Garbo eu
sempre suplantava!
Como Marlene, mais belas as minhas pernas,
sobre
um barril sentava, sensual.
Quando Marta perdeu prá
americana,
o cetro da beleza universal,
eu jurava:
teria as polegadas tais.
Já mocinha notei que a natureza
os
meus sonhos traíra; não me ofertara
para assim triunfar predicados
reais...
Quis então eu usar a inteligência:
Curie e o Nobel, ser
Simone de um Sartre,
George Sand de um Chopin.
Bem cedo descobri
que em meu país,
bastava só meu nome eu assinar,
prá um casamento
em frente do juiz
ou para um deputado sufragar...
Mas quis ser
diferente e debandei.
Saí do interior prá capital.
Gastei massa
cinzenta a procurar
ser aprovada no vestibular.
E eu consegui
sabia?
Só que a minha faculdade
era particular...
Cadê a grana
prá poder pagar?
Outro ano queimei estas pestanas
e então, por
fim, eu consegui passar
prá uma faculdade federal...
E eis que
então tudo se revirou!
Esse ano foi o tal que não acabou...
Barricadas e mil pancadarias,
cavalos, tiros, tanto fumacê...
"Mataram um estudante", ressoava
aos quatro cantos tão
maravilhosos
do Rio de Janeiro...
Houve enterro brilhante,
passeata,
missa na Candelária, mais pancadaria...
Anos depois
se soube, por suprema ironia,
que este Edson Luiz mal estudava.
Um
bóia fria paraense e pobre,
no Calabouço a fome mitigava;
levou
bala de graça e foi usado:
MÁRTIR DA REPRESSÃO,
tão homenageado...
Eis que é mesmo assim esse nosso Brasil...
Só existe pobre,
gente bem sofrida,
que vive triste e sempre atrapalhada,
servindo
de joguete ao Deus-Dará...
Aqui vira estudante; ali descamisado;
às vezes é somente mais um aposentado,
pela direita ou esquerda
sempre manipulado.
Mas em 68 eu lá estava...
Antes,
sonhava eu a musa ser
de um centro acadêmico.
Escrever, rimar meus
versos
e poder cantá-los
prá juventude, então estupefata
com meu
brilho e saber.
Só que fecharam o meu anfiteatro.
Cerraram as
portas, calaram os jornais.
Teatros censuraram - coisa
triste...
Taparam os gritos em nossas gargantas...
Mas saibam
que EU não fiz revolução.
Não fui prá luta armada
nem prá
procissão...
Quando marcavam uma passeata
fugia eu depressa para a
minha casa,
prá minha terra pequenina e bela
e lá, eu me escondia
a ver televisão...
Minha vida corria inocente e bem pura.
Fingia não saber do que acontecia.
De Vandré, Caetano, Chico, Gil,
sorria...
A vida era tão bela, porisso não valia
ser perseguida
por uma paixão.
Cantei nos festivais todinhos da Canção!
Vibrei
com o TRI! Seguia a minha vida;
meu dia-a-dia sempre sem mudança,
de uma juventude já sem liderança
mas rica de esperança...
Muita gente brigava, isto eu sabia...
Também, até às vezes
desaparecia...
Só que isto tudo pouco me importava,
pois minha
formatura já chegava.
Então, 73 virei doutora.
De canudo, de
beca, que ventura!
Aulas, cursos, plantões,
mais livros caros...
Congressos e jornadas,
quantas convenções...
De residência
três anos passei.
Um currículo lindo enfim formei!
Primeiro
emprego, que decepção:
só me veio através de um pistolão.
Meu
salário eu não digo,
faz vergonha contar.
Tanto esforço e mais
luta,
noites mal dormidas,
prá ganhar menos, eu lhe juro, até
que o bodegueiro a quem ninguém dá fé...
Que mais querem
saber?
Já não disse de tudo?
Já não falei até do que estava
mudo,
encerrado em meu peito,
embotado, perdido?
Meu
filho diz que eu fui alienada,
parte da geração que produziu um nada,
pois houve quem lutasse,
quem até roubasse,
seqüestrasse,
matasse.
Estes, se foram certos, eu não sei dizer.
Prá mim,
matar é crime, seqüestrar e roubar;
não importa a ideologia nem de que
lado está.
Mas quem fez isto hoje é badalado.
Se foi um terrorista
é homenageado:
personagem brilhante, um expoente,
neste imundo
cenário nacional!
E, sabem que alguns foram até prá Brasília
e
estão deputados na maior mordomia?
Vejam logo que terra é este meu
Brasil:
quem estudou, trabalhou e tanto se esforçou,
recebe
hoje um salário tão vil,
enquanto os outros cantam em hino
varonil
as guerrilhas, o exílio e ganham mais de mil,
MAIS DE
MIL VEZES O QUE EU GANHO AQUI...
Hoje estão eles bem refestelados
no ar refrigerado do Congresso,
enquanto nós outros cá marcamos
passo,
nas salas sufocantes dos ambulatórios
dos institutos deste
mau país;
tendo vazios os nossos consultórios
pois o povo não tem
grana prá pagar.
E quem faz mais para o povo, pela pátria:
aquele deputado a BLA-BLA-BLAR
ou o doutor que a dor vai minorar?
Terá sido, então, falha a nossa escolha
pela ordem e o trabalho,
pelo estudo e o dever?
Mas não foi isto dito e nem é
reclamado...
Quem foi prá luta armado,
que bancos assaltou e
criou confusão,
diz que foi pelo povo, por esta nação...
Se foram
torturados e pisoteados,
exilados e até desesperados
deixaram os
seus pais,
este foi o caminho que escolheram.
Puderam decidir o seu
destino.
Mas exigem que se pague pelas suas baixas,
num
país que só tem vazias as suas caixas
para a saúde e para a educação,
prá saciar a fome ou para a irrigação...
Quem partiu para a luta
escolheu sua trilha.
Sabia dos perigos que teria em frente.
E nós,
que trabalhamos, nós não somos gente!?
Não foi este o caminho que
tínhamos traçado.
Não foi nossa opção e nem ideologia.
Caímos na
arapuca desta insensatez
onde o trabalho honesto não tem vez.
Só
progride o safado e só ganha o ladrão.
Nós também fomos
jovens...
Também fomos brilhantes!
Se em armas não pegamos,
trabalhando lutamos por nossa liberdade.
Mestrados,
doutorados, perdidos na verdade,
pois afundamos hoje
na
mediocridade de um país sem razão.
E vem aquele bando de
empresários,
que sempre sonegaram e repassaram
seus custos para um
povo já precário.
E surge assim tão forte este patrão,
posando de
moderno democrata,
querendo consertar este rincão.
Mas que lindos
os nossos salvadores...
Se são bem eles as causas destas dores,
da
desgraça que fazem com a ambição
de terem, em rédeas curtas, esta
nação.
E eis que surge, falante, um tal de operário,
com seu
jeito manhoso...
Sem trabalhar, sem ter sequer horário,
roliço e
bem lustroso...
que esbraveja e reclama,
que grita aos quatro
ventos,
que proclama ter na sua bandeira,
o sangue de
Jesus!
Diz isto sem corar, fala sem ter vergonha,
ao povo que
carrega a mais pesada cruz
da fome, da incerteza e da desesperança...
Não, nada mais eu digo. Falei tanto,
até o que calar me era
devido.
O que me dói mais ainda é ter ouvido
meu filho me chamar
de alienada.
Na verdade eu o fui, mas pertenci
a uma geração que
foi enganada,
iludida, pisada, ora destroçada...
E o destino
desta geração
que ora emerge e se acha diferente,
julga ter
destronado um presidente,
será melhor que o nosso?
São jovens que
cantando contra o vento
caminharam pintados pela rua.
Só agora
percebem que a luta sua
virou apenas um grande Festival,
com
Caetano e Vandré de novo pelo ar.
Ladrões também os líderes pintados
de um país amoral...
Mostram que a face colorida e bela,
sem
rugas, sem temor e sem decepção,
esconde a conhecida marca da
corrupção
deste imenso país do Carnaval...
Que querem saber
mais?
Meu nome? Minha idade?
Se é que massa informe tem identidade
meu nome é MARIA BRASILEIRA...
Nasci após a 2ª Guerra Mundial,
no país do café e do cacau,
no país que perdeu o seu fanal.
Idade? Tenho perto de cinqüenta.
O certo eu não invento não...
Sou casada. Bem casada!
Até quando? Só Deus sabe...
Filhos?
Tenho. São tão lindos...
Felizes por não saberem
(DIREITO E AINDA)
onde nasceram e prá quê...
Esta é minha identidade ,
CPF,
pago imposto,
pago tudo que se vê...
Meu nome? Eu disse: é MARIA.
Sou Maria como a Virgem.
Sou Maria como tantas
marias que há
por aí...
Maria, só Maria, por favor.
Perguntam sempre de
quê...
Maria de Qualquer Coisa:
da Paz, das Dores, da Fé,
Ana,
Rosa, Aparecida,
de Fátima ou Conceição.
Chega gente, eu sou
MARIA!!!
MARIA só. Sou, apenas,
uma mais entre outras tantas
brasileiras tão marias.
Marias, lindas Marias,
sem sonhos, sem
alegrias.
Meu sexo? Mas que pergunta!...
Feminino, é evidente!
A profissão? Sou doutora em Medicina.
Trabalho muito? É VERDADE...
mas ganho menos por mês
que o traficante safado
fatura, por
cada vez
que um jovem cheira o seu pó...
E este grande
marginal
desfila em carro importado,
usa escopeta e Rolex,
só
toma uísque escocês.
Possui ele um grande sonho,
breve o irá
realizar:
será pelo povo eleito deputado federal.
Prá trabalhar
pela gente?
Que ingênuo é isto sonhar...
O que ele quer, na
verdade,
é obter, com presteza,
a imunidade indecente,
que
este país ideal,
confere ao parlamentar.
Sou MARIA
BRASILEIRA
da terra do Sabiá,
das palmeiras verdejantes,
lindas
praias, verde-mar,
coqueiros e pantanais...
Da fome, seca, miséria,
do roubo, da impunidade,
onde não existe verdade...
MARIA eu
sou, brasileira.
Como eu queria acordar
vendo o céu, o sol, o
mar...
emprego prá toda gente,
salário pro aposentado...
meu
povo de mesa farta,
doutor sendo respeitado...
um sonho, eu sei, já
de lado.
Queria sentir orgulho
ao falar do meu país.
Sou MARIA BRASILEIRA,
nem última, nem a primeira.
Maria só, tão somente...
Maria bem
como as outras
que se arrastam por aí...
Este poema foi composto em 1993, mas ainda é bem
atual...
Não é auto biográfico. Surgiu de um mosaico de mulheres e de
vivências, formando a Maria Brasileira.
Autora: Mª
Auxiliadora Mota G. Vieira (Maux)
"Poemas de uma Vida"
Página
formatada em 03 mar
2003