Nós éramos oitenta...
Doralice, uma paciente internada no Hospital Psiquiátrico Pedro II, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. Ela assistia a todas as nossas aulas, atenta e assídua.

Um dos alunos deu-lhe o número 81. Quando a aula estava muito chata ele gritava do fundo da sala: "OITENTA E UM!"
Doralice vinha para a frente dizendo, insistentemente: "Presente, Professor. Presente!" Só se sentava quando o mestre lhe respondia.

Esta brincadeira despertava-nos dos inevitáveis cochilos provocados pelos cansativos plantões. Doralice fez parte de nossa história e vive na saudade de toda uma turma de médicos, não apenas nas minhas lembranças...

Este poema, composto no encontro de vinte anos de minha turma de Medicina, em 1993, homenageia através dela, os indigentes desconhecidos que participam da formação dos médicos de sempre...

 

VAI FALTAR O OITENTA E UM!...

Amigos, já há algum tempo,
pensando neste reencontro,
uma frase bem constante,
um pensamento insistente,
entristecia a minh’alma.

- "VAI FALTAR O OITENTA E UM”,
sussurrava a voz do vento,
pelas copas verdejantes
dos coqueiros a valsar.
- "VAI FALTAR O OITENTA E UM”,
lembrava-me a aragem fresca,
com gosto de sal ainda,
com cheiro do verde-mar.

- "VAI FALTAR O OITENTA E UM”,
eu pensava em meu cismar.
Ao tentar compor uns versos
prá estes momentos gravar,
busquei rimas, rascunhei,
mas enfim, desiludida,
só consegui esboçar:
- "VAI FALTAR O OITENTA E UM."

Deixei que o meu coração
traçasse o verso perdido;
que a mão no papel largada,
apenas guiasse a pena...
Só que insistente me vinha
a frase tão comovida,
como um soluço incontido,
num gemido bem sentido:
- "VAI FALTAR O OITENTA E UM...”

Recriei 68 em minha imaginação.
Jovens, belos, sonhadores,
sem rugas, com destemor...
Na face, o riso brilhante;
no olhar, o sonho sorrindo.
Jovens, tão moços, tão lindos 
- que a JUVENTUDE é BELEZA -
enfrentávamos a vida 
sem dor, sem desilusão...

Foram seis anos corridos
que juntos sempre vivemos.
Foram seis anos tão longos
que ora buscamos reter. 
Seis anos só, mas profundos...
No escaninho da memória
lembranças envelopadas
com registros indeléveis,
vibrantes, brilhantes, fortes.

A vida nos separou.
Seguindo nosso destino
vivemos risos e prantos;
nossa face envelheceu...
Nosso sorriso marcado
pela vivência enrugou.
Nosso olhar perdeu o brilho.
O cabelo encaneceu. 

Aqui voltamos, amigos,
buscando, enfim, reviver
a mocidade esquecida;
a amizade construida 
naqueles anos tão lindos,
que o tempo não apagou...
Compreendi então a frase
que a brisa me sussurrou;
que a espuma do mar me trouxe 
com gosto de sal e sol.

DORALICE, o "OITENTA E UM",
a brincadeira sem peias,
a irreverência infantil,
tenacidade, alegria;
tão doida e pura, tão VIVA...
DORALICE, pobrezinha, 
 perdida em nossas lembranças,
por certo, morreu sozinha.

DORALICE, revivida
 nestes momentos felizes,
lá se foi com suas flores,
bolsa, baton, seu vestido.
Não afirma estar "PRESENTE"
por mais que se clame e grite.
Lá se foi o "OITENTA E UM"...
Levou nossa juventude
com o tempo que passou. 

DORALICE, o "OITENTA E UM",
recupera uma pureza,
o sonho de ser feliz;
a gargalhada gostosa,
o irresponsável sorriso.
Traz de volta a inconsequência
que não se pode mais ter...

Hoje, maduros, senhores,
somos brilhantes doutores,
com filhos, lares, clientes;
bem sucedidos ou infelizes...
 Mas o nosso olhar errante, 
voltado para o passado,
espelha, ao fundo, a saudade
do "OITENTA E UM" que faltou...  

Autora: Mª Auxiliadora Mota G. Vieira (Maux)
"Poemas de uma Vida"

Voltar

 

Envie esta página para:

Digite o seu e-mail

Coloque seu nome

E-mail de quem a receberá