Contos das Mil e uma Noites 


 

O Jardim dos Encantos

Há muitos e muitos anos, o rei que governava a Pérsia casou-se com a mais nova de três irmãs. As duas irmãs mais velhas morreram de inveja da nova rainha e passaram a odiá-la, fazendo planos terríveis para acabar com sua felicidade. Quando a rainha teve seu primeiro filho, elas colocaram o recém-nascido em um cesto e o soltaram no rio. À rainha, apresentaram um animal morto no lugar do bebê.

Nas duas outras vezes em que ela ficou grávida, as irmãs agiram da mesma forma. O rei, horrorizado, achou que a culpa era de sua esposa e ordenou que ela fosse trancafiada em um quarto do palácio, ficando isolada de todos. No entanto, os três bebês - dois meninos e uma menina - foram encontrados pelo jardineiro do palácio que, não tendo filhos, criou-os como se fossem seus.

Depois da morte do pai, os três irmãos - Farid, Faruz e Farizade - continuaram morando juntos em uma casa de campo com um belíssimo jardim, e estavam muito bem até receberem a visita de uma senhora muçulmana que tirou o sossego da casa. Quando viu o jardim, ela disse a Farizade que era maravilhoso, mas para ser perfeito precisava de três coisas: o Pássaro Falante, a Árvore Canora e a Água Dourada.

Depois de saber que aquelas coisas maravilhosas existiam, Farizade e seus irmãos não conseguiram mais sossegar e resolveram procurá-las. Como a senhora tinha avisado que o caminho era muito perigoso, Farid, o irmão mais velho, partiu sozinho para a Índia, onde encontraria, de acordo com a senhora muçulmana, um velho santo que indicaria o caminho dos tesouros.

Farid deixou seu punhal com os irmãos, dizendo que, se algo de mal lhe acontecesse, sangue escorreria de sua lâmina. E foi o que aconteceu no vigésimo primeiro dia após sua viagem. Faruz partiu então para socorrer o irmão, deixando com Farizade um colar de pérolas, que continuaria brilhando enquanto ele estivesse vivo. Porém, no vigésimo primeiro dia, o colar ficou opaco como osso. Farizade não perdeu tempo: disfarçou-se de guerreiro e foi atrás dos irmãos.

Chegou à Índia após vinte dias de viagem e, encontrando o velho santo, perguntou-lhe de seus irmãos e das três maravilhas. Ele quis convencê-la a desistir de sua busca, mas, não conseguindo, apontou para uma montanha e disse que os tesouros estavam no topo. No caminho, porém, ela ouviria gritos pavorosos suplicando por sua ajuda e insultando-a. Ela teria que ignorar essas vozes invisíveis a todo custo; caso se voltasse para trás, viraria pedra imediatamente, como havia acontecido com todos os outros.

Farizade, percebendo o terrível risco que corria, teve uma idéia: resolveu tapar os ouvidos com algodão. Assim, na medida em que foi subindo, bem concentrada, as vozes não a incomodaram tanto. Ela conseguiu, enfim, chegar ao topo.

A primeira coisa que encontrou foi o Pássaro Falante, em uma gaiola. Ele mostrou onde estavam a Árvore Canora e a fonte de Água Dourada e disse para ela levar um ramo da árvore para plantar no jardim e um jarro bem cheio da água amarela, que faria milagres! Na descida da montanha, o pássaro mandou Farizade jogar um pouco da água em todas as pedras que visse.

Todas elas viraram pessoas! E, para sua imensa felicidade, Farid e Faruz estavam entre elas. Novamente reunidos, os três irmãos voltaram para casa, levando consigo as três coisas maravilhosas. Foi assim que o jardim dos filhos do rei passou a ter um pássaro que falava, uma árvore que fazia músicas maravilhosas e uma fonte cheia de água dourada (a água aumentou de volume assim que Farizade a colocou no tanque).

A notícia dos encantos do jardim logo se espalhou, até chegar aos ouvidos do próprio rei, que ficou intrigado e quis conhecê-lo. Muito honrados, os irmãos prepararam um grande banquete. Seguindo o conselho do Pássaro Falante, que era muito sábio, Farizade preparou um prato muito estranho para o rei: pepinos recheados de pérolas. O rei também achou aquilo muito estranho e, quando partiu os pepinos, disse que não havia pessoa que comesse pérolas!

O pássaro perguntou então ao rei como ele poderia estranhar um simples recheio de pérolas, se tinha acreditado que sua esposa, a rainha, havia dado à luz a animais mortos. E pôs-se a contar a história das irmãs invejosas e da troca dos bebês.

Quando olhou para os três irmãos, o rei teve certeza de que o pássaro estava falando a verdade. Depois de muitos abraços e lágrimas, correu para o palácio e, de joelhos, pediu perdão à rainha por ter sido tão injusto, contando-lhe a incrível novidade. Os dois foram então buscar os filhos para que, finalmente, todos vivessem juntos no palácio. A noite foi toda de festas e comemorações.

Reproduzido de Aladim e outros contos de As mil e uma noites, de Rosalind Kerven (Companhia das Letrinhas)

 

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