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UM RETÂNGULO DE CÉU
AZUL Quis rever
lugares de antanho, para quê? Derrubaram a casa velha de que eu tanto
gostava. Chão que já foi meu, é hoje chão de ninguém. A goiabeira ficava
pegada à varanda, onde às refeições a gente se reunia olhando o
mar. O vento carregava
cheiro de goiaba e maresia. Pois a goiabeira fazia sombra cá no oitão.
Existe ainda toda retorcida, sem flores e sem frutos. Mas, cadê os
coqueiros-anões, duas sentinelas postadas à entrada da vila? O fiscal da
Prefeitura (que vê em cada moleque um ladrão de cocos) vai me contando o
cataclismo, eu não sabia hein!, aquele riacho, o maceió, a praia comeu com
fúria de maré cheia e ribanceiras foi criando, os coqueiros
derrubando. A contragosto,
instalei-me em edifício recém construído de frente para a avenida. Fosse
eu lá ver o asfalto fazendo miragem na claridade do meio-dia... Achei o
brilho esquisito, e na poupança a meus olhos experimentei deitar-me à hora
da sesta. Não era raro um sussurro de conversa por baixo da minha janela,
gente moça a externar-se num palavreado que de mim se distanciava em anos
de vivência. Havia também, mais alto e mais incomodativo, o barulho de uma
irradiadora. Até que de
repente tudo se aquietava. A música ia baixando. A meninada perdia o
embalo. E naquele instante diminuto eu olhava admirada um retângulo de céu
azul, delineado entre pontas de telhado. O pedaço de céu continuava
parado. E só por analogia de imagens - que ali tudo se junta e completa -
eu pressentia o mar a estirar-se na areia ou as folhas do coqueiral se
baloiçando em acenos de ternura, ora ao mar, ora ao
céu. Os
cabeças-vermelhas e as graúnas davam trinados no lamaçal do velho mangue:
ia o Maceió abrindo passagem, invadindo casebres e deles carregando uma
porção de coisas tristes. Sabia eu que o riacho engrossara, misturara as
águas da chuva às águas das grandes marés, tivera seu momento de
afirmação. Quantos coqueiros derrubara? Um coqueiro-anão? Dois? Ou três?
Vã jactância na sua penúria de só pobreza levar ao
mar. A irradiadora
recomeçava. |
Texto formatado em 15/04/2015

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