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MEUS RICOS OLHOS! Meus olhos! Oh! Meus ricos olhos! Já viram tantas coisas bonitas e algumas feias, desagradáveis. Olhos vivos de menino, que bisbilhotavam tudo, que preguiçosamente aprenderam o valor das letras e me mostravam sempre a beleza das coisas. Coisas que a gente enxerga e transforma em coloridas visões transmitidas pelo cérebro que as guarda carinhosamente. “Papai aguenta tudo”. “Besteira Jorge”, como se dizia no Ceará do meu tempo, para ridicularizar o filho do governador, cuja filha era apelidada de Muriçoca. Bons tempos! Ceará-Moleque pobre, simples, ingênuo! Quem atravessasse a Praça do Ferreira que não o fizesse com roupas espalhafatosas ou de moda muito avançada, pois a Praça vaiava. Até o Sol, depois de alguns dias de chuva, quando timidamente apareceu entre as nuvens, foi estrondosa e demoradamente vaiado. E o foguetório? Para comemorar as vitórias e as derrotas dos amigos ou inimigos, soltavam-se girândolas de foguetes. Quando espocavam ficava-se sabendo quem acertara no milhar ou qual o político de prestígio estava chegando à Capital. Tudo eu via e ouvia. Invejava os moleques que corriam atrás dos bondes que faziam a volta na Praça do Ferreira, para pegar uma bochecha, trepados nos estribos e que saltavam quando o cobrador aparecia em seu encalço. Eu vi também da torre da Igreja do Patrocínio, o hidroavião de Pinto Martins que vinha de Nova Iorque, cruzar os céus de Fortaleza para ir pousar no rio Jaguaribe, em Aracati, onde depois morreriam os alemães que por aqui também passaram, numa infeliz decolagem. Meus olhos se encantaram pelos céus, pela afoiteza daqueles jovens que sabiam voar. Colecionava notícias e figuras de todos os grandes raides que se realizavam e dos grandes aviadores que pilotavam os aeroplanos, dirigíveis e balões. Meus olhos! Deus lhes permitiu ver coisas indescritíveis. Vi meu Ceará, pobre e forte, cheio de encantos - que o coração vê mais que os próprios olhos - morrendo e renascendo a cada inverno. Vi a chuva caindo e a vegetação brotando quase no mesmo instante. Vi os vaqueiros, cujo lamentoso aboio, à noite, ficou gravado para sempre, e é tão triste, quanto alegre pode ser e o é, a saída das jangadas, de velas enfunadas, nas manhãs doiradas de sol. O menino viu o Chagas dos Carneiros. Seus olhos viram o que os dele não viam: suas obedientes e amestradas ovelhas, correndo, deitando, simulando uma batalha. Eu vi duas maravilhosas avós: uma, cheia de nobreza; a outra só modéstia e bondade. Uma logo se foi e a outra viveu para dar muito carinho. Tanto quanto os que haveria de receber de meus pais, irmãos, tios e sogros. Ah! O que
estes meus olhos viram! Do Realengo fugíamos para o Campo dos Afonsos a
fim de “peruar” um voo com os cadetes que já voavam “solo”. Paraquedas
ajustado, tomei assento na nacele da frente e vi o biplano correr pelo
capinzal da pista, deixar o chão e subir, subir serenamente, até que ao
longe se apresentou o Cristo Redentor. Quanta coisa já viram estes meus olhos! O gelo e a neve nos Apeninos, os hospitais de Campanha cheios de feridos. A madrugada nos Alpes Dolomitas, com o canto maravilhoso de um pássaro que não vi. O reverbero da catinga abrasante. O por do Sol e o nascer da Lua cheia. O afago de mãos em praias prateadas pelo luar. A ansiedade que se transforma em prazer quando se vê a pessoa amada. Tudo meus olhos viram e só viam o que o coração guardava, porque sentia. Sempre gostei de viajar e ver tudo de perto. Achava bom andar de trem, mas tinha medo da locomotiva. Um dia, vi-a arrastar o comboio e ultrapassar a agulha do desvio sem soltar o carro em que me encontrava, que costumava ser desengatado e desligar sozinho, de volta à estação. Meus olhos choraram e meus gritos mostravam meu desespero. Crescendo, meus olhos se apaixonaram pelo mar e pelos navios. E, na Ponte Metálica, era bonito ver a onda trazendo a lancha até os degraus da escada e, no momento preciso, deixar que o Pé de Brasa, com segurança e firmeza, transferisse o passageiro de uma para outra. Natal e
Cabedelo tinham tranquilos rios que na sua foz serviam de ancoradouro para
os navios. Recife e Salvador eram portos adiantados, onde a embarcação
acostava-se ao cais. Porém o desembarque mais bonito, mais afoito, era o
de Fortaleza. Meu Bom
Deus! Quanta coisa eu vi! Numa inesquecível viagem de férias, em pleno
mar, no balanço de um “Ita”, meus olhos viram a moça bonita que viria a
ser minha mulher e que aqui está ao meu lado, cercando-me de cuidados e de
carinho. Ah! Meus olhos abençoados por Deus, quantas coisas viram junto, os dois. Ambos foram envelhecendo comigo e sofrendo como eu, o desgaste do tempo. Aprendi que eles estavam sujeitos ao perigo da pressão intraocular que herdei de meus pais e que os colírios já não conseguiam controlar. E o meu Exército, que me mandou para tantos lugares, dessa vez me proporcionou uma consulta ao famoso Instituto Hilton Rocha, em Belo Horizonte. Lá o veredicto veio seco e sem apelação: “Para seu glaucoma só a cirurgia”. Espere
Doutor! O casal tem que assistir e apadrinhar o casamento de mais uma das
tão queridas sobrinhas que Deus nos deu! Decorridos cerca de cinco meses, sempre apoiado em minha dedicada esposa, repeti a operação no olho esquerdo. E regressamos ao Ceará com a frase do operador sempre ressoando em meus ouvidos: “O senhor tem olhos para cem anos”. Na ocasião ri e respondi, satisfeito, que era tempo demais para quem já contava setenta e sete. Decorridos trinta e oito dias, na calmaria da Praia do Iguape, açoitada pelas fortes ondas da lua de janeiro, quando já havia visto meus protegidos e ceguinhos Lucia e José, que saíram felizes com suas redes e alguns trocados, comecei a sentir certa dificuldade na leitura. Corri para Fortaleza e voei para Belo Horizonte. Ai, meus olhos! Ai meu olho esquerdo, tão cheio de vida, tão ávido de procurar a beleza em torno de mim, nas menores coisas, nos detalhes mais insignificantes, nas colorações mais variadas em seus matizes. Cada dia que passava mais me diminuía a visão. O que ocorrera? Na clínica já não encontrei o médico que me operara. Os outros não conheciam o meu caso. Só às seis horas da noite fui examinado, mesmo tendo falado sobre o meu caso com o velho professor Hilton Rocha. Na manhã seguinte, finalmente, a ecografia mostrou a razão de tudo a um jovem médico: descolamento da coroide. Já não enxergava nem minha própria mão, quando três
dias mais tarde me submeti à cirurgia para a recomposição do meu olho, com
a câmara anterior reduzida, a catarata cegando, a íris quase colada à
córnea. Operação delicada e demorada. Ali permaneci cerca de hora e meia a duas horas e comigo a confiança de Deus. “ELE que me deu a vida, a luz, o sol, a lua, as estrelas, sabe o que fazer de meus olhos, meus ricos olhos”, pensava eu. Não me faltaram, em instante nenhum, a presença e os cuidados de minha Yolanda, o interesse e o carinho dos irmãos, cunhados e sobrinhos. Em nenhum instante nos sentimos sós. Não voltei a enxergar pelo olho esquerdo, o que me provocou um instante de insatisfação, mas me afiançam que voltarei a recupera-la, quando operar a catarata, daqui a três meses. Que seja feita a vontade de Deus! Tácito
Theophilo Gaspar de Oliveira
Obs. Ele sobreviveu vinte anos a essa cirurgia,
vindo a falecer com 97 anos de idade. |

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