Conto de Natal dentro da Noite Suja

Jesus Cristo entrou no botequim e pediu um cafezinho. "Bem carioca, companheiro...fraquinho..."
O português ou o baiano ou o cearense serviu a xícara fumegante com o pires de metal...
Vieram dois pivetes: "Me dá um trocado aí... moço, pelo amor de Deus..."
Jesus Cristo nem olhou: "Passa fora, garoto!...", disse, batendo no fundo do açucareiro de bico, de onde o açúcar saía, custoso, com moscas grudadas no topo.
Ali, embaixo do Minhocão, uns mendigos acendiam fogueiras... Uma velha louca gritava no meio dos caminhões que jogavam fumaça na cara das pessoas, enquanto Jesus Cristo tomava o cafezinho para enganar o estômago... Não comia há dois dias... Não tinha dinheiro nem para os ônibus, que passavam lotados...

Jesus Cristo seguiu a pé ao longo do imenso viaduto que se afundava no corpo da cidade, passou por mendigos dormindo, passou por montes de lixo, passou por uma fila de sopa-para-pobres , mas não parou nem quis nada, gostou de ter fome, como um jejum sacramental, sentindo uma grande leveza no corpo, continuou andando, quase flutuando por praças vazias, estátuas pichadas, carros de polícia rondando, bancas de jornal fechadas, taxistas dormindo, ratos passeando sem pressa, gente roncando dentro de caixas de papelão e cobertores de aniagem, até que, debaixo de uma marquise, entre altas pilhas de caixotes, encontrou uma mulher levando à boca o cachimbo de crack, uma mulher jovem, pálida - "talvez do sul", pensou Jesus Cristo - vendo a mulher com o corpo meio à mostra, coxas aparecendo sob o vestido rasgado, os cabelos revoltos e ruivos, quase tão ruivos como as fogueiras que crepitavam ali perto.

A mulher acendia o cachimbo de crack, sugando-o com força e tragou a fumaça bem fundo, sentindo o ansiado baque, o vertiginoso calor no peito e a zoeira dentro da cabeça, justamente na hora em que Cristo se aproximou dela, quase deitada na calçada suja, sendo que, para ela, Cristo pareceu uma nuvem azulada e brilhante se deitando sobre ela e, então, ela sentiu um outro baque também, vendo o rosto de Cristo se aproximando, a zoeira batendo e ela sentindo Cristo tocando seus lábios. Ao longe, para além do viaduto, atrás da fábrica, a mulher via a estrela de néon da cervejaria que piscava prateada e ficou contemplando a estrela, enquanto ele segurava seus cabelos de fogo, misturando sua boca na sua boca ainda cheia de crack.

Ela ainda olhava a estrela branca, quando Cristo se ergueu e se afastou, sorrindo para ela, e sumiu sob o viaduto negro, sendo que a mulher de cabelos de fogo achou estranho que o baque do crack não passava, durando como um barato raro, longo, que lhe dava a sensação de boiar acima da calçada. A mulher ficou deitada a noite toda, sem fome nem sede, sentindo dentro do corpo uma grande paz.

Meses depois, nasceu-lhe um filho debaixo do viaduto, que foi colocado dentro de um caixote de maçãs argentinas. Alguns vagabundos ajudaram no parto, juntamente com uma velha que tinha sido enfermeira e, em seguida, levaram o menino para o hospital, na caixa de maçãs que, como afirmou um dos mendigos depois, "parecia um barco todo iluminado, o caixote de maçãs!" - se bem que isso pode ter sido efeito do crack que também baqueara o dito mendigo.

O menino era a cara do pai e cresceu por ali. Pediu esmola junto ao escapamento dos carros, nadou nos laguinhos das praças públicas, limpou pára-brisas na rua, cheirou cola na Praça da Sé como todo menino da sua turma, com a diferença que ele gostava de ficar olhando a estrela da cervejaria que brilhava no céu sujo. Um dia, com eficiência milagrosa, com elegância de malabarista, ele passou a extrair dinheiro do bolso dos otários, sem que nenhum deles percebesse. As carteiras voavam para suas mãos, as pastas se ofereciam abertas, as notas fugiam dos bolsos dos passantes, relógios se desatavam no ar e choviam-lhe nas mãos como frutas maduras e, jamais, os policiais conseguiam pegá-lo, pois ele escapava dos camburões como Mercúrio, parecia ter asas ou motor nos calcanhares.

Cresceu pelas ruas e passou a viver nos bordéis e strips do Centro, onde conversava muito com as prostitutas jovens, que adoravam sua palidez, sua barba macia, seus olhos negros e fundos. As meninas gostavam de lhe dar o corpo e até o dinheiro ganho dos fregueses, se bem que ele nunca pediu, apenas agradecia sob as luzes vermelhas e verdes, ao som dos boleros românticos. Até que, um dia, ele sumiu e seu cadáver foi encontrado num poste, amarrado, com os braços abertos, seminu, todo furado de faca.

As meninas choraram muito, queriam enterrá-lo, mas o rabecão chegou e o corpo sumiu. Tempos depois, várias mulheres do La Vie en Rose, bem como algumas meninas do Crazy Love Relax for Men - onde ele trabalhou como garçom - apareceram grávidas. Algumas pensaram em tirar, mas todas acabaram dando à luz meninos que eram a cara do pai assassinado no poste. E eles também vieram a correr sob os viadutos, roubaram carteiras e relógios, com grande perícia e elegância, cheiraram cola e, nas nuvens da zoeira, olhavam a estrela de néon no céu cor-de-café.

Eram pivetes estranhos: policiais atiravam neles, grupos de extermínio cercavam-nos, mas as balas e facas e cacetes se desviavam de seus corpos, as algemas se partiam e eles sumiam na distância, pulando fogueiras e galgando muretas. Passou o tempo e eles também cresceram e se multiplicaram, sendo que todos os meninos que deles nasceram eram muito parecidos com o pai. E com o pai do pai.

Texto enviado por Luiz Henrique Mignone

 

 

 

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