A Última Gargalhada

Estava cansada de descumprir promessas que fazia para si mesma. Tinha vontade de ir até o espelho, olhar-se e esbofetear-se:
- Imbecil, você não tem caráter, fraca!
Mas como se tratava de si mesma e, no fundo, conhecia sobejamente as razões, penteava o cabelo e deixava pra lá. O seu dia começara assim. Fora se arrastando para o trabalho e intimamente protestando: as leis trabalhistas deveriam ser mais humanas,  deveriam permitir que a falta ao trabalho fosse justificada quando o faltante estivesse, real e profundamente, triste (como era o seu caso). Trabalhar o dia todo, com atenção e competência, com a alma em frangalhos e o coração dilacerado era, no mínimo, tortura chinesa (das mais baixas e brutais), pior do que obturar os dentes sem anestesia. Até as horas daquele dia fatídico contribuíram para o seu desespero. Lentas e monótonas, num  concerto desafinado, entoando lembranças boas e ruins na sua cabeça.
Perto do meio da tarde a telefonista anunciou sua amiga e, antes que pudesse inventar uma desculpa, passou a ligação.
- Oi querida só liguei pra convidar você pra um jantar hoje, acho que vai ser bom e todos os nossos amigos estão aderindo. 
- Hoje? Não sei, assim em cima da hora! 
- Olha tenta dar um jeito, acho que vai gostar e depois tem música ao vivo e sei que adora dançar. Faz uma forcinha.
Apesar de não estar com a mínima vontade de sair e conversar (e muito menos dançar),  pegou o endereço, apenas por educação, mas na certeza de que não iria. Chegou em casa pesando toneladas. Comeu qualquer coisa e ligou a tv, mas não conseguia ouvir nem ver nada. Porque não ficou quieta no seu canto?, dizia-se. Tinha que telefonar? E bater com o nariz na porta, ou melhor, no telefone? O aniversario dele não era desculpa, simplesmente deveria ter ignorado. Se não tivesse ouvido a voz dele certamente não estaria assim, no caco. Amava aquele homem, meu Deus como amava! Tanto tempo e ainda ficava naquele estado lastimável só de ouvir a voz dele na secretaria eletrônica, imagine se fosse ao vivo. Despencaria, no mínimo. Revoltou-se, consigo mesma.
- Larga dessa vida mulher, tome tento, vá a luta, saia, anda, fale. A vida está ai, escancarada, anda, vá !
Obedeceu-se. As 22 horas estava na porta do bar, toda esplendorosa (adjetivo antigo, mas apropriado para a ocasião). Os cumprimentos costumeiros, os amigos todos ali, alegres (ou aparentando, como ela). Sentou-se à mesa e, diferentemente do costume, pediu uma bebida. Odiava beber, mas afinal, gostava de tanta coisa e não dava certo, melhor ficar com alguma coisa que detestava, o contraponto. Duas horas depois, as pessoas iam e vinham a sua frente, como se fosse num filme. A voz não chegava à garganta. Resumindo, estava literalmente de fogo, bêbada, alcoolizada. No dia seguinte, acordou com a primeira e única ressaca da sua vida. Doía-lhe tudo, até os poros. Resolveu: não vou trabalhar! Que o mundo se acabe, como eu! Voltou a dormir, ou melhor, desfaleceu.
O telefone tocou, acordando-a. Com um certo torpor, atendeu. Era ele! Seu coração tropeçou no peito! Sentou-se abruptamente na cama e tentou responder com uma voz que não fosse sonolenta. 
- Oi, liguei pro escritório, você não foi trabalhar. Tudo bem?
 - Sim e você, como foi de aniversário? 
- Bem. Você me ligou, não? 
- Sim. Antes que ela dissesse que havia deixado recado na secretaria eletrônica, ele interrompeu. 
- AH... Mas, sinceramente, fiquei triste, me dizer tudo o que disse, logo no dia do meu aniversário? 
- Eu? Pensou rapidamente, droga, não lembrava nada, na certa tinha ligado pra ele naquela bebedeira. Nunca mais na vida, nunca mais tocaria num copo de cerveja. Resolveu fazer de conta que sabia o que tinha dito. Dizer que estava bêbada, nunca! 
- Ok. Falei tá falado. Tem alguma coisa pra contradizer? 
- Bem, na verdade, a verdade dói, e está doendo até agora. 
- Sinto muito. 
- Tenho outra oportunidade? 
- Como? 
- Ora... me aceita de volta? Me ama ainda, apesar de tudo?
Meu Deus, não acredita nos próprios ouvidos. Era ele mesmo... Tudo o que desejava na vida era ele, estar com ele. O que responder? O que tinha falado? Não lembrava nada. Maldita bebida, maldita! 
- Olha  podemos nos encontrar, porém tenho um pedido, vamos fazer de conta que eu não liguei e que não disse nada, vamos botar uma pedra nisso tudo.
- Poxa ! Eu gostaria que você repetisse novamente tudo o que me disse e que pudéssemos conversar com mais calma. 
- Já disse, falei tá falado. Não temos mais nada a falar sobre o que falei. Vamos começar de novo, como se nunca tivéssemos começado nem terminado nada. 
- Então significa que me aceita de volta? 
- Sim, sob a condição de não voltarmos mais ao assunto. 
-Tô chegando aí!!!

Viveram felizes e infelizes para sempre. Jamais ela permitiu que ele voltasse ao assunto. Mas morria de curiosidade! Os minutos de sua vida já estavam se esgotando, sabia disso. Caminhava para o fim, com a tranqüilidade dos anos vividos.
Ele estava ali, perto dela, olhando-a. Achou que tinha o direito de perguntar, agora: 
- Meu bem, você lembra o que foi que  eu disse naquela madrugada que fez com que você voltasse pra mim? 
- Não, não dá! 
- Esqueceu? Bem, faz tanto tempo, não tem importância. 
- Não, não esqueci. Apenas não sei. 
- Como não sabe? 
- Olha vou confessar a verdade. Não sei mesmo, sempre tive a maior curiosidade em saber o que você tinha me dito pra fazer eu voltar. Mas não sei. 
- Mas você me disse que doía, que a verdade doía, que verdade foi essa que eu disse. 
- Olha meu bem, eu sei que era uma verdade, mas não sei qual era essa verdade. Esqueceu que jamais permitiu que eu voltasse ao assunto? 
- Como assim, não estou entendendo. 
- Bem, é que naquele dia que você me ligou, quer dizer, eu apenas tinha a impressão que você tinha me ligado, porque realmente eu não sabia, só tive a certeza quando confirmou, lembra? 
- Sim, mas continuo não entendendo. 
- Bem, é que era meu aniversário, estávamos rompidos e eu tomei um porre de fazer dó. Não me lembro de nada, nem do seu telefonema, quanto mais do que me disse. Mas sei que me disse alguma coisa, porque quando acordei do porre, achei que você tinha toda a razão e tive a convicção absoluta de que você era a mulher da minha vida.
 Ela ainda teve forças pra olhar pra ele, carinhosamente, mas a  vida despediu-se dela, negando-lhe a última gargalhada!

Sandra Falcone
Página formatada em 09 set 2007

 

 

 

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