Vida sem Alegria

Natércia e Adolfo não se conheceram antes de casar. A época em que namoro e noivado deveriam ter acontecido perde-se nas dobras do tempo. A união deles foi acertada quando ainda se arrastavam pelo assoalho de tábuas largas da fazenda do pai da moça, num dia de festejos de São João. Anos se passaram... E um belo dia começam outros festejos, os de um matrimônio em que os envolvidos ficavam ruborizados quando seus olhares se encontravam. Mas era o costume, e assim partiram para a casa recém construída na fazenda dos pais de Adolfo. Sem viagem de luz de mel, sem maiores preparativos, só com a cara e pouquíssima coragem.

Da primeira noite Natércia ficou apenas com as dores imensas como lembrança e essas foram se juntar às da segunda, terceira, e muitas outras, até que finalmente cessaram. A partir daí, a lembrança passou a ser simplesmente a sujeira a ser lavada no desconforto de uma bacia com água. Sensações, orgasmos? Qual o quê... Nada! Adolfo era de um despreparo impossível de ser descrito. Fazia como via os jegues fazerem e pronto! Nada de preliminares e depois do ato virava e roncava a noite inteira. No início, Natércia ficava insone, pensando que casamento era realmente uma grande porcaria. Esperava apenas pelo dia em que sua barriga cresceria para poder finalmente começar a parir como via acontecer tanto na sua família quanto na do marido. Porém de barriga... Nada!

Conforme os anos se passavam a parentela dava Natércia como mulher de ventre seco e ela não se conformava. Sentia inveja das mulheres que via segurando, amamentando, abraçando e beijando seus bebês. A ela não havia carinho a ser enviado ou recebido. Sua vida era um mar de coisa nenhuma... Sem emoções, sem expectativas, sem absolutamente coisa alguma a que desse realmente importância. E assim foram vivendo. Ela comandava a cozinha, determinava o que os empregados iriam comer durante o dia. Criava receitas de doces e conservas e sua fabriqueta ia de vento em popa. O comércio local absorvia sua produção, rapidamente, devido à alta qualidade dos produtos. E ela ia guardando o que, no entender do marido, eram apenas uns trocados.

Certo dia foi com Adolfo num leilão e adorou a surpresa dele quando arrematou uma bela boiada. Era agora senhora de suas reses, ufanava, não se cabia em si de alegria pela primeira vez na vida. Passou a ser respeitada e elogiada pelo marido. Este era seu único contentamento enquanto olhava as mulheres com suas barrigas imensas... E ela ali, de ventre, tetas e braços vazios. Anos se passaram, o marido não quis mais viver na fazenda. Com o saldo bancário dava para viverem tranqüilos, sem aperreios, durante os anos que lhes restassem de vida. Arrendaram as terras, venderam o gado e compraram casa na cidade. A vida transcorria serena, mas sem alegrias.

Natércia arrumou uma empregada, Adélia, moça forte, bonita e decidida. Vinha de família paupérrima e tudo que mais queria era ir para a capital, estudar e ser professora. Meios de realizar o sonho? Não tinha. Via o marido de olho espichado para as pernas da empregada. E um plano foi se delineando em sua mente. Acalentou-o por alguns dias e numa certa noite, sentada com o marido, logo após o jantar, pediu  à moça se juntasse a eles. Iniciou contando a história de sua vida, antes e após o casamento, concluindo:

- Adélia, tudo que você precisa para ser feliz é de dinheiro para que possa ir para a capital e se estabelecer por lá, estudar e conseguir seu diploma. Para mim será fácil organizar sua vida. Compro uma casa para você, onde quiser, mobílio a seu gosto e ainda lhe dou dinheiro suficiente para viver tranqüila por alguns anos. Depois será com você.
-
Mas que tenho que fazer para merecer dona Natércia?
-
Se deitar com meu marido. Ter um filho dele e colocar em meus braços a criança, que será minha, desde que estiver em seu ventre. O nome dele eu darei e o sobrenome será o meu e de meu marido. Será nosso filho para todo e qualquer efeito.
-
Natércia! Que conversa mais destrambelhada é essa, mulher?
-
Não, Adolfo, esta é uma conversa das mais sérias que tive em minha vida. Quero criar um bebê e que seja seu filho. Estamos com pouco mais de cinqüenta anos. Somos fortes, saudáveis, o que nos falta mesmo é uma criança para alegrar nossos dias e para quem possamos deixar o fruto de nosso trabalho.

                E ficaram acertados. O casal se recolheu e Adélia foi se preparar para receber o patrão. Natércia aproveitou para conversar com ele sobre sua malfadada noite de núpcias. Falou sobre o despreparo de ambos, a grosseria dele, as dores imensas e a falta de prazer que até agora sentia. Adolfo ficou envergonhado. E assim que pode escapuliu para o quarto de Adélia.

Na manhã seguinte Natércia via uma Adélia feliz, lançando olhares “risonhos” a Adolfo. À noite, o marido saiu novamente para o “outro quarto”, deixando a mulher sozinha. Os dias passavam e o acerto continuava. Fim do primeiro mês. Cessam as visitas do marido ao “outro quarto”. A mulher vê os olhares tristes do marido quando Adélia passa. Ouve seus suspiros. Vê o roçar do braço dela quando passa perto de Adolfo. Deixa o tempo passar. Em menos de três semanas a moça começa a vomitar.

Cumpre-se o prazo, nasce uma menina. Linda, os traços mal lembram a mãe, saiu ao pai. Os mesmos olhos verdes, a pele clara, os cabelos lisos... Será uma bela moça. Natércia manda o marido com Adélia para a capital, fica com Ana Luiza, que acaba de completar seis meses. Eles saem alegres, vão comprar e mobiliar a casa e abrir a poupança de Adélia, conforme o combinado. Ela acena dando adeus segurando a mãozinha da menina.

Natércia olha para a moça que vem a galope, está com dezenove anos, linda, sedutora, indomável. Lembra do prazer imenso que foi criá-la, educá-la, compartilhar a vida com ela. Vê quando desmonta antes mesmo que o cavalo pare. Sorri em retribuição ao largo sorriso que lhe é dirigido. Conseguiu ter nesta vida a alegria da maternidade. Recebe entre as suas as mãos da filha, que é quem agora administra a fazenda, e em seu íntimo agradece por ter sido tão feliz no decorrer de todos aqueles dezenove anos. Sabia que havia sido feita para a maternidade, pensa que certamente foi um engano da mãe natureza não ter providenciado meios para que isso acontecesse mais cedo.

Adolfo? Nunca mais teve notícias dele. Ri quando pensa que ele não fez falta. Não sabe se ainda vive e nem mesmo se continua com Adélia. Na troca, tem certeza de ter auferido o melhor resultado.

Autora: Malva Barros
Página formatada em 20 mar 2004

 

 

 

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