Cuidado para não abraçar uma conjuntivite...

Minha lua de mel com Rosita das Conchas acabou por conta de Carolina Fuad. Moça boa, servidora dedicada, casamento estável e feliz, teve de repente sua felicidade destruída por uma doença degenerativa que acometera seu esposo. O transtorno em sua vida, provocada por essa doença precoce, durou onze anos e, até hoje, apesar de já passados alguns anos do falecimento de seu companheiro, Carolina ainda não se refez desse sofrimento.

No início da doença, apresentando-se um quadro neurológico agressivo e progressivo, Carolina procurou a perícia para uma licença de acompanhamento familiar. Por cerca de três meses obteve o benefício, até que foi atendida por Maria da Penha Temporão.

Maria da Penha, apesar de não privar da amizade de Carolina, sabia os pormenores de sua vida. Não concedeu a licença, alegando que seria necessária uma visita médica domiciliar. Curiosa, compareceu pessoalmente à residência de Carolina, analisando cada detalhe de suas dependências e os visíveis sinais de largos recursos financeiros.

Assim que chegou da visita procurou Rosita das Conchas.

- "Não vou conceder a licença à Carolina Fuad. Ela é rica. Mora em um edifício de luxo, um apartamento ENORME, tem casa de praia, vive sempre muito bem vestida. Não precisa de licença de jeito nenhum".

Rosita das Conchas concordou com ela. Se a mulher tinha posses não precisava da licença. Chamou-nos e disse que estávamos proibidos de conceder benefícios à Carolina. Conhecendo o caso, tentei argumentar. Expus-lhe a história do casal, a doença inesperada, falei sobre os filhos ainda menores e os mais velhos morando fora do estado. Carolina ainda perdera recentemente a sua mãe. Funcionária da casa, sempre atuara de forma assídua e responsável. 

Rosita das Conchas fechou questão. Não seria concedida licença nenhuma a essa moça! Lucinho Trancoso, o diretor da perícia, concordou com Rosita:

- "Realmente, doutora! Ela é RICA!!!"

Nada podendo fazer por minha amiga, só pude lamentar a minha impotência. Carolina processou a perícia, solicitando a concessão do benefício, garantido nos estatutos. Eu me comprometi a ser sua testemunha, se necessário. Comuniquei isso à Rosita, afirmando que deporia em seu favor, caso fosse chamada em juízo. 

Não foi necessário. Carolina recebeu judicialmente a autorização para permanecer licenciada, enquanto seu marido vivesse e necessitasse de seus cuidados.

Por uma coincidência, o juiz que concedera a sentença, possuía nome e sobrenome parecidos com aqueles repetidos na família de meu marido, embora nenhum parentesco houvesse. Eu nem o conhecia, mas essa semelhança bastou para que Sandra Bompapo fosse dizer a Rosita das Conchas que "sabia de fonte limpa" que eu interferira junto ao juiz. 

Eu desconhecia essas fofocas e continuava o meu trabalho. Notei que Rosita andava de "cara fechada" comigo, respondia-me por monossílabos, mal me cumprimentava. Julguei que estava passando um momento desfavorável e deixei para lá.

Uma tarde, Lucinda Messias me telefonou, solicitando-me informações sobre um tratamento de saúde que sua mãe estava realizando. Sandra Bompapo ouviu-a falando comigo e foi imediatamente contar à Rosita das Conchas que Lucinda passava "a tarde no telefone com a dra. Auxiliadora, detalhando tudo que acontece na perícia em sua ausência".

Rosita das Conchas possuía um grande defeito: acreditava sempre nas histórias que ouvia pela primeira vez. Nós comentávamos que ela "se emprenhava pelos ouvidos"... Rosita foi imediatamente à perícia, aos gritos. Convocou os funcionários e humilhou Lucinda Messias na frente de todos, ameaçando transferi-la, chamando-a de incompetente e fofoqueira - e por ai afora.

A pobre moça não estava entendendo nada até que, embalada pela fúria, Rosita das Conchas gritou:

- "Em vez de cumprir com suas obrigações, você passa a tarde telefonando e fofocando com a Auxiliadora. Pensa que eu não sei? Eu sei de tudo que se passa por aqui".

A moça tentou explicar que me telefonara por conta de sua mãe. Sandra Bompapo instigava:

- "Pois é, dra. Rosita. Está vendo como eu sofro aqui com essas duas? Lucinda e dra. Auxiliadora tentam de todas as formas prejudicar o bom andamento do serviço."

Lucinda retrucou timidamente:

- "Eu não fiz nada, meu telefonema foi inocente, por interesse particular, por causa da minha mãe."

Enraivecida, Rosita virou-se para os funcionários e acrescentou:

- "Vocês pensam que eu não sei das coisas? Pois é bom tomar cuidado, porque coloquei escutas em todos os telefones e sei de tudo que vocês falam entre si, o que falam de mim e dessa administração."

Recebi vários telefonemas narrando-me como Lucinda fora humilhada, como meu nome fora citado e contando sobre o "grampo" dos telefones. Não acreditei neles, mas percebi que deveria passar essa informação adiante. Afinal tinha os meus contatos...

Três dias depois a notícia espocou num dos jornais mais lidos da cidade: Rosita das Conchas afirmara em altos brados que grampeava os telefones do serviço e controlava as conversas dos funcionários...

Fui trabalhar quietinha, sem comentar a notícia com ninguém. Cerca de 10 horas da manhã, Rosita das Conchas entrou na perícia aos gritos e brandindo o jornal:

- "Quero saber quem foi que passou essa notícia. Vou expulsar daqui. Vou demitir..."

Espumava de raiva, mas gritava apenas nos corredores; não entrou em minha sala nem me afrontou. Claro que ela sabia que eu era uma das poucas pessoas que podia ter vazado a notícia para a imprensa, mas não teve coragem de me acusar. Em pé mesmo, solicitou que todos os médicos da perícia se reunissem com ela no corredor. Ordenou que os funcionários de nível médio e de apoio abandonassem as dependências do setor. Começou gritando, sem dirigir-se a ninguém. Eu me mantive calada. 

- "Vou descobrir quem passou essa notícia e tomarei medidas disciplinares com quem tiver feito isso."

Resolvi cutucar a onça...

- "Rosita", falei calmamente, contrastando com a sua atitude raivosa, "você não tem que procurar quem fez isso. Nós temos cerca de 300 funcionários e você gritou com toda a força de seus pulmões, que grampeava os telefones. Foi você a responsável. Eu nem estava aqui e soube do fato por uma multidão de pessoas, cada qual com uma versão. Acha que, aproximando-se o ano eleitoral, isso não seria explorado?"

Rosita virou-se contra mim.

- "Eu sei muito bem do que você é capaz. Usa tudo o que pode para me destruir. Conheço a sua laia, desde o caso da Carolina Fuad, quando você influenciou o juiz, para ela ganhar o processo..."

Balançava o dedo em riste contra mim, chegando-o quase ao meu nariz. Nesse momento o seu tom de voz já estava muito acima do que os meus ouvidos desejavam ouvir, mas a minha garganta superou a dela... Muito zangada com as inverdades afirmadas, gritei mais alto do que Rosita:

- "Primeiro tire o dedo do meu nariz! Depois, de que você está falando? Pensa que é chegar e ameaçar? Que eu vou ficar calada? Não tenho medo de você, ainda não percebeu isso? Prove o que está dizendo a meu respeito, porque senão essa notícia também vai parar no jornal."

- "O juiz do caso da Carolina é Fulano de Tal, seu parente!!! Pensa que eu não sei? Diga ai Sandrinha, diga, você que o conhece..."

Sandra Bompapo, branca e trêmula, como toda fofoqueira covarde, arriscou:

- "O dr. Fulano de Tal não é parente de seu marido, doutora?"

Minha raiva passou, imediatamente, frente ao ridículo da situação. Comecei a rir:

- "Você nem parece ser uma mulher inteligente, Rosita, acreditando nas futricas dessa 'coisa' aqui."

Apontei Sandra com  desdém, que se encolheu, baixando a cabeça.

- "Dr. Fulano de Tal não é parente do meu marido, o nome e sobrenome são uma tremenda coincidência. Eu não o conheço, nunca nem vi o branco do olho dele. Carolina é uma mulher bem relacionada, rica, como vocês dizem, não precisaria de mim para obter essa sentença. Depois, estava protegida pelos nossos estatutos."

Rosita, embora com as faces ainda avermelhadas pela cólera, começou a se acalmar, provavelmente pensando como sair da situação que ela mesma criara. 

- "Fiquei muito enraivecida, mas já estou mais calma. Está tudo esclarecido agora, foi um mal-entendido. Espero continuar contando com o apoio de todos vocês. Estou sobre muita pressão, esse cargo é muito complicado. Me desculpem por qualquer palavra mais agressiva, vamos continuar amigos. Conto com vocês todos e com você também, Auxiliadora."

- "Com o meu trabalho você e qualquer chefe que eu tiver pode contar sempre, Rosita. Agora, existem funcionários lá fora que precisam de uma explicação. Com certeza escutaram os nossos gritos, tanto os seus como os meus. Para evitar fofocas maiores é melhor que você os reúna, da mesma forma que os reuniu há três dias atrás e esclareça a situação. Tem outra coisa: você humilhou Lucinda, na frente dos colegas, por uma mentira que lhe contaram. Ela havia me telefonado porque meu filho está acompanhando o tratamento da sua mãe no Hospital das Clínicas. Esse telefonema nada tinha a ver com o instituto nem com a perícia. Penso que você deve desculpas públicas a ela."

- "Vou fazer isso agora mesmo, reunirei todos e pedirei desculpas à Lucinda."

Rosita, mais calma, chamou ao salão de recepção todos os funcionários. Os outros médicos não participaram da reunião, mas é claro que eu fui até lá...
Rosita começou com um lenga-lenga de trabalho em conjunto, de amizade, de respeito, enrolando... Disse que havia acabado de fazer uma reunião com os médicos e todas as arestas haviam sido aparadas. Lucinda estava próxima dela, mas ela nem se dirigia à moça. A conversa fiada já me irritando, quando notei que Rosita não se desculpava, já se preparando para encerrar a reunião, tomei a palavra:

- "Dra. Rosita, há pouco, lá dentro, com a equipe médica reunida, esclarecemos vários pontos. A senhora disse-nos que convocaria essa reunião com os demais funcionários e pediria desculpas à Lucinda, na frente de todos, pela forma como a tratou, também na frente de todos que aqui estão, noutro dia à tarde." 

Acuada, Rosita nada pode fazer. Pediu, oficialmente, desculpas à Lucinda pela injustiça e abraçou-a, beijando sua cabeça...

Acontece que Lucinda estava com uma conjuntivite purulenta, daquelas brabas. Rosita das Conchas nem percebeu isso; também para sua sorte não se contaminou. No entanto, o acontecido ficou registrado entre as histórias da instituição.

Toda vez que alguém desrespeita outra pessoa, relembramos o fato, dizendo:

- "Cuidado para não ter que abraçar uma conjuntivite... Você pode ter menos sorte que Rosita das Conchas..."




Três Décadas no Serviço Público
Autora - Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira (Maux)
Página formatada em 26 nov 2011

 

 

 

 

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