Fim de Rua

Em meados da década de 80 uma reviravolta na política municipal deu a vitória a um "azarão". Capas de revistas nacionais, manchetes nos noticiários, a cidade era uma festa. Até quem não contribuiu com seu voto curtiu a vitória inesperada.

O ano político começou e com ele os problemas foram aparecendo. O partido que subira ao poder, tomou a vitória como sua e passou a ocupar todos os espaços da administração da cidade. Paulistas, gaúchos, cariocas,  invadiram a "Loura desposada do Sol". Nós, funcionários públicos assistíamos impotentes a essa invasão. À invasão e aos desmandos também, mas isso vai para outro capítulo...

Na ocasião eu trabalhava num ambulatório como ginecologista e obstetra. A marcação das consultas era feita no mesmo dia do atendimento. Os segurados - tratava-se de um serviço voltado exclusivamente para o servidor municipal e seus dependentes - chegavam às cinco horas da manhã para apanhar uma ficha. Se não conseguissem teriam que voltar no outro dia, da mesma forma, tentando a sorte.

Eu tinha muita pena dessa clientela e, vezes sem conta, solicitei a mudança na forma das marcações de consulta, sem obter êxito. Então, eu me dispunha a atender mais do que as dezesseis fichas diárias. Como às vezes os procedimentos podiam demorar mais do que o previsto, eu esperava atender a metade das minha pacientes com fichas, verificava o tempo que me restava e então me comprometia com mais quatro ou cinco extras. Minhas pacientes sabiam disso e esperavam pacientemente por mim, única mulher ginecologista do ambulatório.

Nessa nova ordem política municipal, onde todos queriam mandar, aproveitando a vitória do seu partido nas urnas, algumas vezes tive minha sala invadida por um cidadão. Ele afirmava ser irmão do nosso superintendente e assessor de gabinete da prefeita eleita. Trazia a mulher grávida para pré-natal comigo, sem ficha e passando na frente de todo mundo. Realizei o atendimento na primeira vez, solicitei os exames laboratoriais necessários e avisei que ao voltar deveria respeitar a marcação de consultas. Ele voltou com a esposa pela segunda vez, da mesma forma. Invadiu a minha sala, jogou uma pasta em cima da minha mesa, identificou-se com todos os seus poderes. Era um dia meio vago, realizei o atendimento. Reforcei a necessidade de conseguir uma ficha para que o atendimento fosse realizado em outros dias.

Numa manhã com muita gente, manhã chuvosa, daquelas chuvas torrenciais dos primeiros meses do ano, o cidadão repetiu o procedimento anterior. Dia conturbado, dessa vez fiquei muito zangada e lembrei a ele que já o havia avisado sobre a necessidade de apanhar uma ficha. Ele me respondeu que era irmão do superintendente, assessor de gabinete da prefeita. Disse-lhe que mesmo com todas essas referências, não realizaria o atendimento. Ele riu de mim.

Levantei-me da minha mesa, abri a porta e sai perguntando a cada uma das pessoas que  me esperavam, o horário que haviam chegado no ambulatório para conseguir uma ficha. Todas ali estavam desde as 5 horas da manhã, debaixo da chuva torrencial, pois o ambulatório não possuia espaço com toldo para abrigar os segurados. Então eu disse:

- "Esse cidadão que acabou de entrar na minha sala, afirma ser irmão do superintendente, assessor de gabinete da prefeita. É a terceira vez que ele me traz a esposa para ser atendida sem ficha. Nas duas vezes anteriores eu avisei que ele teria que fazer como vocês todas fazem. Mas a decisão será de vocês: permitem que eu realize esse atendimento sem ficha, na frente de todas?"

As pacientes gritaram um NÃO bem sonoro. Virei-me para ele e disse que a resposta era do povo, o partido dele prometia proteger esse mesmo povo e os trabalhadores. Então, atendendo à vontade das demais pacientes eu não realizaria o atendimento.
Ele saiu esbravejando que as coisas  não ficariam assim.

Minutos depois, a chefe do Departamento Médico - uma assistente social que caira de paraquedas no cargo há poucos dias, depois que o gaúcho que o ocupava deixara a função por conta de mil desmandos - entrou na minha sala aos gritos afirmando que eu iria atender imediatamente a mulher do "companheiro", irmão do superintendente.

Respondi que as pacientes haviam decidido que não permitiriam isso. Ela me mandou parar com "conversinhas" de final de rua e realizasse logo a consulta, pois ela somente sairia dali depois que eu atendesse à gestante.

Abri a porta novamente - ela não esperava por essa minha reação e se assustou tentando fechá-la. Dirigi-me novamente às pacientes:

- "Minha gente, essa senhora aqui é a nova chefe do Departamento Médico e veio exigir que eu realize aquele atendimento que vocês não autorizaram. Está me mandando parar com conversinhas de fim de rua. Vocês sabem que eu sou paulista, e embora morando no Ceará já há alguns anos, às vezes não entendo direito certas expressões daqui. Na minha terra, quando a gente se refere a fim de rua, estamos falando de zonas de prostituição. Aqui também é isso?"

Todas concordaram. Respondi:

- "Pois então minha senhora retire-se da minha sala agora mesmo, porque eu sou casada, uma mulher respeitável. Você me ofendeu e eu posso lhe processar por difamação e ofensa à minha honra e moral. Ofensa e difamação acontecidas no meu local de trabalho, estando eu no correto exercício de minha função como servidora pública."

Ela saiu indignada afirmando que ia me demitir, que eu seria posta para fora da prefeitura e outras ameaças desse tipo. Respondi que iriamos ver quem ia sair...

Não fiz nada, não contei o caso para ninguém, não processei ninguém. Naquele tempo não havia divulgação do que configurava um assédio moral e suas consequências...

Uma semana depois ela deixou a chefia do Departamento Médico. O seu partido foi derrotado nas urnas e ficamos livres da corja por mais ou menos duas décadas. Anos depois voltaram ao poder e foi outra novela, que fica para ser contada depois.

 




"Três Décadas no Serviço Público"
Autora - Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira (Maux)
Página formatada em 27 jan 2013

 

 

 

 

Voltar

Envie esta página para:

Digite o seu e-mail

Coloque seu nome

E-mail de quem a receberá