A Infecção Urinária

Completava vinte anos como médica ginecologista e obstetra em um ambulatório, quando Rosita das Conchas assumiu a chefia do órgão onde eu trabalhava. Ligada a várias cooperativas, resolveu afastar os médicos efetivos do setor, substituindo-os por profissionais cooperados. Claro que havia interesses pessoais dela em jogo, mas isso fica para outras histórias...

Éramos poucos médicos, remanescentes de uma maioria já aposentada, pois não acontecera nenhum concurso público preenchendo as vagas em aberto. Para alcançar seu intento, Rosita das Conchas precisava afastar todos nós de alguma forma. Recebemos um ultimato: procurarmos a transferência para um posto de saúde, pois ali não mais permaneceríamos.
O setor somente funcionaria com cooperativas. 

Sempre fui rebelde ao me sentir prejudicada, estando convicta dos meus direitos. Era médica efetiva do órgão e não sairia para nenhum posto de saúde.

José Piedoso, meu chefe imediato, ao receber minha resposta disse:

- "Ela vai te pressionar".

Respondi:

- "Ela me pressiona de cima para baixo e eu respondo à pressão de baixo para cima. Mas não saio daqui; ela não pode me obrigar."

Rosita das Conchas tentou de todas as formas me forçar à transferência. Muitos colegas já haviam cedido às pressões, mas eu realmente estava decidida a me manter no cargo.

Rosita seguiu de perto todos os meus atos e minhas condutas médicas, buscando encontrar alguma coisa errada. Dizia repetidamente, a quem quisesse ouvir, que me dobraria.

Um dia, recebi logo cedo um telefonema urgente. Rosita não queria "me encontrar" mais nas dependências do Instituto. Indaguei o motivo, recebendo como resposta que eu solicitara uma internação hospitalar, gritantemente desnecessária. Por conta de meu "despreparo" profissional, Rosita não me aceitava mais como médica no setor. 

Busquei saber a qual caso ela se referia. A funcionária de um setor de limpeza urbana, cujo ganho mal atingia o salário mínimo, aparecera com urina cor de coca-cola, dores na região lombar, febrícula. Atendida por um dos médicos credenciados de Rosita, recebera apenas a prescrição de analgésicos, o que conduzira à piora do caso. Uma parente sua conseguira que ela realizasse exames na Santa Casa local, sendo diagnosticada uma glomerulonefrite, quadro renal complicado. A Santa Casa, destinada aos carentes, não podendo gastar com quem possuía outra forma de tratamento, sabendo que ela possuía o "convênio" de saúde municipal, não a internara. A pobrezinha procurara por mim, pedindo ajuda na solução de seu problema. Sabendo que em sua casa, com seus parcos recursos, sem medicação, repouso e alimentação correta, a moça  não conseguiria ficar boa, solicitei sua internação hospitalar.

Essa solicitação de internação foi então transformada por Rosita das Conchas em "inoperância e despreparo profissional". José Piedoso orientou-me a não ir até lá, ela iria gritar comigo e me expulsar das dependências do órgão.

Rosita gritava, pintava e bordava com todo mundo. Mas ela realmente não me conhecia...

Telefonei para o presidente do Conselho Regional de Medicina e indaguei como deveria proceder. Ele me propôs oficializar a denúncia. Acontece que eu estava preocupada, em primeiro lugar, com a pobre paciente necessitada de atendimento. Rosita desejando me atingir e demonstrar autoridade não se incomodava em prejudicar a pobre mulher doente. Isso eu não podia permitir que acontecesse.

Dirigi-me ao Instituto, para falar com Rosita. Ela alegou estar ocupada e que não me atenderia. Afirmei que esperaria até o dia todo se fosse necessário, mas não sairia sem falar com ela. Estrategicamente, contei às atendentes que já consultara o Conselho Regional de Medicina e que se ela não resolvesse a questão da paciente, formalizaria a denúncia. Esperava que contassem para ela - e realmente foi o que ocorreu.

Cerca de duas horas depois a paciente, chamada por ela, chegou. Ficou cerca de quarenta minutos a sós com Rosita. Saiu sorrindo. Veio falar comigo, feliz, afirmando que já estava com a guia de internação.

Era o que eu desejava, mas também não podia ir embora assim. Afinal solicitara uma entrevista com Rosita e a gente precisava colocar os "pingos nos is".

Rosita das Conchas com toda a "cara de pau" que sempre a acompanhou me chamou imediatamente. Abraçou-me, de forma que todos no corredor assistissem a esse gesto amistoso.

- "Auxiliadora, minha querida, desculpe por ter feito você esperar tanto."

Quando a porta se fechou a amistosidade desapareceu:

- "Você está me desafiando. Eu já disse que não quero nenhum médico antigo aqui e você não toma um rumo na sua vida."

- "Não", respondi. "Eu não estou lhe desafiando. Estou apenas me defendendo de você! Sou médica efetiva desse instituto; você está aqui passando uma chuva. A funcionária sou eu. Não saio daqui! Mas o motivo da minha vinda hoje nada tem a ver com isso. Estou lutando por uma servidora municipal, uma pessoa humilde e doente que tem que ser tratada. Já comuniquei sua atitude ao CREMEC e, se não for resolvida a situação da paciente, estarei denunciando você oficialmente, hoje mesmo. Para me retaliar, você está comprometendo a saúde de uma pobre mulher, que nada tem a ver com isso. E vai responder por seus atos."

- "Auxiliadora, o que é isso... Eu já resolvi o problema da servidora; ela já foi encaminhada para internação. O problema foi todo causado pela Margarida Tampinha... Você pensa que ela é sua amiga, mas aquilo é uma falsa, uma cobra jararaca, que morre de inveja de você."

Rosita conseguiu me surpreender. Margarida Tampinha, médica pediatra, era uma pessoa sofrida, com uma vida pessoal conturbada, mas além de excelente profissional eu realmente a considerava minha amiga.

Margarida Tampinha já se aposentara. Por problemas financeiros, através de um credenciamento atuava como auditora no instituto, autorizando exames, consultas e internações. Eu ouvira rumores que Margarida, com esse poder nas mãos, deixara de ser a meiga e atenciosa pediatra que todos conheciam e amavam, transformando-se no terror dos funcionários adoecidos, negando tudo que era solicitado, humilhando-os de forma desnecessária e até maldosa. Mas o que fizera contra mim a Margarida Tampinha?

Rosita das Conchas esclareceu:

- "Eu estava cheia de problemas para resolver nessa manhã. Margarida Tampinha entrou na minha sala, trazendo um documento assinado por você. Disse-me que, para me provocar, você solicitara a internação de uma paciente com INFECÇÃO URINÁRIA. Fiquei indignada e mandei dizer que não lhe queria ver aqui mais. Depois, pensando em sua retidão e seriedade profissional, mandei chamar a paciente para tomar conhecimento do caso. Vi que você estava certa. Quero lhe pedir desculpas e avisar sobre a Tampinha; foi ela quem provocou isso tudo."

Sai dali sem saber a verdadeira responsável pela confusão, mas nunca falei com Margarida Tampinha sobre isso. Alguns anos passados, ocupando cargos de chefia, ela trabalhou sob minha direção. Percebi, então, ser Tampinha capaz de coisas piores do que aquela relatada por Rosita das Conchas. 

No entanto, Rosita continuou firmemente decidida a me retirar do ambulatório de ginecologia. Sai de férias uma semana depois desses acontecimentos. Ao retornar, recebi a comunicação de minha transferência para a Perícia Médica. Se eu não quisesse atuar ali, procurasse transferir-me para um posto de saúde.

A Perícia Médica pertencia ao nosso instituto. Rosita das Conchas me retirava do ambulatório, mas eu permanecia no mesmo órgão. Ela cedera, mas mudara minha função.

Eu nunca atuara como perita em toda a minha vida, mas tinha algumas contas a acertar com o setor... Então, resolvi aceitar o desafio e verificar o que acontecia por lá e que incomodava, não somente a mim, mas aos servidores municipais adoecidos.
Só que essa já é também outra história...

 




Três Décadas no Serviço Público
Autora - Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira (Maux)
Página formatada em 25 nov 2011

 

 

 

 

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