Não cuspa pra cima...

Diz o ditado: “Não cuspa para cima porque cai de volta na sua testa”. Nunca vi nem ouvi verdade tão verdadeira. Comprovei isso há poucos anos atrás, com um fato que envolveu diretamente a mim, Sandra Bompapo e Lucinda Messias.

Como já contei em outras páginas, Lucinda Messias dedicou sua vida ao setor pericial de seu instituto. Separada do marido bem novinha, educou com muito carinho a filha que lhe restou desse casamento mal sucedido. Felizmente, a moça correspondeu aos cuidados que lhe foram dedicados por sua mãe, tornando-se uma pessoa de boa índole, trabalhadora e estudiosa como ela.

Lucinda sempre foi preterida nas escolhas para ocupar cargos de chefia, embora atuasse sempre, resolvendo todos os problemas do setor, como se o comandasse. Sem ela a perícia médica tornava-se um caos. Mesmo decepcionada e sofrendo com o descaso que recebia daqueles que com a caneta na mão somente favoreciam conchavos políticos, continuava corrigindo os erros dos incompetentes.
Se não fosse por ela, Lucinho Trancoso que assinava tudo sem ler, sem a menor responsabilidade e cuidado, teria se metido em muitas encrencas...

Quando cheguei na Pericia Médica, Sandra Bompapo “chefiava“ o setor. Percebi logo que ela não sabia nada, não tinha compromisso com o serviço e se escorava em Lucinda. Até ai, nada de novo no serviço público, mas Sandra Bompapo ainda possuia um sadismo inexplicável, buscando humilhar Lucinda de todas as formas que podia. A troco de que? Quem sabe a natureza das maldades e dos defeitos de personalidade das pessoas?

Sandra, às vezes, cismava com as pessoas que dela necessitavam. Os segurados, em busca de um benefício, se não a paparicassem, não lhe trouxessem presentes, não a bajulassem, eram maltratados, sem dó nem piedade.

Certa feita, uma professora necessitando de uma licença médica por graves problemas psiquiátricos, foi perseguida insanamente por ela. Chegou a apresentar denúncias e pareceres falsos do diretor da escola a respeito da pobre moça, alegando que ela trabalhava na rede privada, estando licenciada no município - pareceres e denúncias essas que eu tive o prazer de desmascarar, tornando-me a próxima perseguida por ela.

Como médica efetiva ela quase nada podia fazer contra mim, a não ser criar armadilhas que eu precisava sempre desfazer. Uma chateação!

A moça em questão era portadora de uma psicose grave, anorética, com várias tentativas de suicídio através da ingestão de veneno de rato e arma de fogo. A perseguição acontecia porque o psiquiatra que a acompanhava e concedia seus atestados, primo do marido da pobre moça, era desafeto de Sandra. Ele acompanhava o caso em um hospital psiquiátrico do estado, por ser chefe de serviço. Como primo, tentava ajudar a família sem posses, da forma que podia, numa situação tão dolorosa. A moça, infelizmente, acabou obtendo êxito em uma de suas tentativas de suicídio...

Por outro lado, Sandra era vergonhosa e descaradamente protetora de todos que lhe fossem encaminhados através de pedidos políticos, principalmente aqueles enviados pelo deputado Mamá Teixado, que diziam ser o “dono” do Instituto.

Na ocasião, os políticos loteavam os órgãos públicos e ostensivamente decidiam quem seria beneficiado e quem não teria suas reivindicações atendidas. Essas divisões do "bolo" eram inclusive comentadas sem pejo nos noticiários locais e na imprensa escrita.
Hoje em dia essas coisas ainda acontecem, mas de uma forma mais discreta, não tão às claras como no passado.

Rosita das Conchas querendo colocar-se de forma íntegra e moralizadora, embora eu não possuisse nenhum cargo de chefia, solicitou-me que realizasse uma apuração das pessoas que se encontravam com prolongadas e talvez indevidas licenças. Comecei a avaliação desses casos, solicitando históricos e exames médicos. Encontramos muita gente em situação irregular. Alguns por ostensiva má fé e favorecimentos; outros por descaso dos médicos peritos na busca de solução para as suas situações funcionais. Encontramos pessoas licenciadas há muito tempo, reconhecidamente necessitadas de uma aposentadoria imediata, sem que ninguém cuidasse delas.

Eu e Lucinda Messias nos reuníamos com Rosita das Conchas semanalmente para discutirmos e buscarmos, juntas, soluções efetivas e imediatas para esses segurados.

Dentre essas avaliações, chamou-me a atenção um servidor sempre atendido pelo então diretor da Perícia Lucinho Trancoso. Há muito tempo já, as licenças lhe eram concedidas por longos períodos de 120 dias, por conta de atestados médicos fornecidos por uma mesma clínica de cardiologia em Maceió, alegando em todas as vezes internação hospitalar por problemas cardíacos. Desconfiei da irregularidade.

Pedi ao serviço social que telefonasse para Maceió e colhesse informações sobre a clínica e essas internações constantes. Apuramos que não se tratava de um hospital, mas de uma clinica com consultórios médicos apenas. O fornecedor do atestado, segundo a recepcionista era cunhado do servidor licenciado e ele não era seu paciente.

O servidor morava em Maceió onde possuia atividades empresariais na área de construção civil e mantinha o emprego da prefeitura de Fortaleza, através dessas licença médicas. Tratava-se de um evidente caso de atestado médico falso e licenciamento indevido.

Curiosamente, no dia da colheita das informações deparei-me com uma noticia em badalada coluna social de um jornal de Fortaleza registrando que o dito cujo viera de Maceió, onde morava, por conta do casamento de uma pessoa de sua família. Coincidentemente, seu irmão era um dos secretários municipais, pertencente ao mesmo partido  político de Mamá Teixado.

Entendi o que acontecia: Lucinho estava concedendo pessoalmente essa licença médica irregular, por conta de seu apadrinhamento político. Hesitei, sem saber como agir. Rosita também era protegida de Mamá Teixado, mas me pedira para apurar as licenças irregulares e eu precisava lhe dar um retorno. Decidi entregar o caso a ela, como me fora solicitado. Retive o prontuário comigo até a chegada de Rosita que estava viajando e somente chegaria dali a alguns dias.

Sandra e Lucinho ficaram desesperados. Lucinho me chamou às falas. Queria que eu lhe devolvesse o prontuário, colocasse uma pedra sobre o assunto, pois não sabia com quem estava lidando. Disse-me que eu tinha que aprender como o serviço público funcionava, que nós éramos obrigados a atender aos pedidos dos poderosos, senão seríamos "engolidos" pela máquina. Afirmou que Rosita ia ficar muito zangada comigo, por me “meter onde não era chamada”. Respondi-lhe que apresentaria o caso a ela e a decisão seria sua, pois a apuração desses casos só acontecera por determinação dela. Não temia ser "engolida", nada tinha a temer e só estava cumprindo o meu dever.

Sandra passou os dias me agredindo verbalmente, zombando de mim e de Lucinda, dizendo que eu só podia estar querendo aparecer. Na ocasião, eu levara uma queda e machucara muito o joelho, puxando de uma perna. Dois anos fiquei nessa situação até que consegui debelar o problema. Por conta disso, ela somente se referia a mim, como a “manquinha” da Perícia Médica. Pensando que Lucinda fora a responsável pela minha descoberta, também a atacava e resolveu faze-la sofrer.

Lucinda estava apaixonada, a primeira vez depois da separação traumática de seu marido.
O rapaz, bem apessoado, era motorista terceirizado do instituto, responsável pela condução de Sandra. Maurício e Lucinda haviam marcado encontro num show de música sertaneja, num início de namoro que agradava a todos nós amigos dela, por conta de sua alegria. Sandra soube desse encontro e resolveu interferir, destruindo a felicidade incipiente de Lucinda. De moral muito duvidosa, diferente da moça comportada e respeitável que Lucinda era, Sandra conseguiu que Maurício a levasse ao show e “ficou” ostensivamente com ele na frente da pobre moça. Seguiu Lucinda ao banheiro da casa de shows e disse-lhe rindo:

-“Não tenho culpa de ser mais gostosa do que você. Mas depois eu devolvo ele para você. Só o quero para uns amassos”.

A moça chorou muito, decepcionada e destruída e todos nós sentimos muito por ela.

Quando Rosita chegou de sua viagem, Sandra e Lucinho falaram com ela antes de mim, contando a história sei lá como. Estava atendendo meus pacientes quando ouvi o grito histérico de Rosita pela janela do andar de cima, onde ficava sua sala:

- “Auxiliadora, venha aqui urgente”.

Apanhei toda a papelada e subi. Encontrei-me na escada com Lucinho e Sandra e ela zombou:

- “Foi cutucar a onça com vara curta, agora aguente...”

Rosita estava de cara fechada, zangada, como se eu tivesse cometido uma grande falta. Antes que ela falasse qualquer coisa, entreguei-lhe o material da pesquisa e disse-lhe que cumprira o que havia me pedido e que agora a decisão seria sua. Quando ela folheou o material que lhe apresentei, ficou extremamente pálida. Dispensou-me, alegando que veria como resolver o caso.

Nunca mais tocou no assunto, retendo o prontuário do servidor até o final de seu mandato. Quando Rosita deixou o cargo, curiosa, localizei o prontuário: ela o mantivera licenciado todo o tempo. Antes de deixar a superintendência concedera sua aposentadoria por invalidez, com valores integrais, conservando gratificações e incorporações de chefia.

Como, graças a Deus, sempre acontece, houve mudança de partido, de prefeito, dos nomes no poder. Mamá Teixado não se reelegeu, Sandra perdeu a chefia e foi devolvida ao seu órgão de origem, como auxiliar administrativo, num hospital de urgência.

O tempo passou, Lucinho Trancoso aposentou-se. Lucinda Messias foi então reconhecida pela primeira vez, nomeada chefe da Pericia. Eu assumi o cargo de Diretora do setor.

Certo dia, Sandra Bompapo apareceu: obesa, de bengala. Com os joelhos muito comprometidos, não mancava: arrastava-se... Lenço na cabeça por conta de uma queda de cabelos provocada pela quimioterapia, queimaduras acontecidas em sessões de radioterapia, humilde e assustada. Acometida de um câncer de mama com metástases ósseas, empobrecida, recebendo apenas um salário mínimo por mês, abandonada pela filha que se casara e não queria saber dela. Enfim, necessitava da minha ajuda e da Lucinda.

Nós cumprimos o nosso dever. Sandra foi muito bem atendida, resolvemos suas pendências, encaminhamos seus pedidos com presteza e atenção. Sandra saiu agradecida e, tenho certeza, profundamente envergonhada, por ter sido acolhida pelas pessoas que ela tanto maltratou e humilhou no passado.

 




Três Décadas no Serviço Público
Autora - Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira (Maux)
Página formatada em 27 jan 2013

 

 

 

 

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