Nem olhou na minha cara...

Uma das frases mais utilizadas por pessoas que desejam reclamar de atendimento médico no serviço público é “nem olhou na minha cara!”. A essa frase somam-se: “nem quis ver meus exames”, “nem me deixou falar”, “nem sabe o que eu tenho e já passou remédio”, "só sabe pedir exames"...

Em toda a minha vida, em qualquer setor onde estivesse trabalhando, procurei sempre ouvir, conversar, saber o que a pessoa sentia e precisava. Durante um certo período de tempo, trabalhei no mesmo horário que meu marido. Ele me contava que as pacientes, desconhecendo nossos laços familiares, saiam de minha sala para a dele e reclamavam de mim. Diziam que eu perguntava demais e que tinham vindo se consultar e não responder interrogatórios.

Vezes sem conta, quando eu me estendia mais tempo em uma consulta, as pessoas da sala de espera batiam na minha porta, dizendo agressivas: “está demorando demais”, “tenho mais o que fazer do que ficar aqui fora esperando” e outras frases semelhantes.

Como funcionária pública, eu atuava como ginecologista e obstetra num ambulatório municipal. Além dos profissionais efetivos que atendiam nas dependências do instituto, havia um arremedo de plano de saúde, destinado aos servidores municipais. Um grupo de médicos credenciados realizava atendimentos em seus consultórios particulares, uma vez que o nosso ambulatório não cobria a enorme demanda.

O mês de dezembro era conhecido pela intensa busca de mulheres, principalmente professoras, ao atendimento ginecológico. Nosso ambulatório e os consultórios credenciados ficavam lotados, com todas as vagas ocupadas.

Uma ginecologista amiga minha, credenciada pelo Instituto, adoeceu no início desse mês. Preocupada com o grande problema que causaria ao serviço, se desmarcasse todas as consultas, solicitou minha ajuda. Sendo eu médica funcionária do instituto pela manhã, perguntou-me se poderia atender essas pacientes, na parte da tarde, em seu consultório. Consultado o setor de credenciamento, recebi a autorização para realizar os seus atendimentos.

No primeiro dia em seu consultório, percebi logo ao chegar, na sala de espera, uma paciente acompanhada por mim há muitos anos.

Graça era uma pessoa contestadora. Reclamava de tudo, reivindicava prioridades as quais não tinha direito, batia na porta do consultório solicitando pressa. Sempre possuía um compromisso inadiável ou algum familiar necessitando de cuidados urgentes. Às vezes reclamava de muitas dores; em outra ocasião se apresentava com sangramento nunca confirmado ao exame: "deve ter parado por causa do sol". Enfim, sempre procurava uma desculpa para ser atendida antes das demais clientes.

Conhecendo as suas manobras, as atendentes médicas não atendiam suas reivindicações. Graça ao ver que não conseguiria seu intento, reclamava, ameaçava chamar a imprensa, denunciar o descaso no programa de televisão  "Barra Pesada".

Verificando que pela ordem de chegada seria a última paciente da tarde, julguei que causaria dificuldades. Para minha surpresa, ela permaneceu sentada todo o tempo, quietinha, assistindo televisão sem nenhuma reclamação ou resmungo.

Cerca de dezoito horas ela entrou no consultório. Preparei-me para saudá-la, quando ela me surpreendeu com um afável comentário introdutório:

-“Dra. Eliane, já ouvi falar muito bem da senhora. Dizem que é excelente médica e há muito tempo eu desejava me consultar com a doutora.”

Pensei que ela estava brincando, pois Eliane era o nome da colega que eu substituía. Mas Graça continuou:

- “Eu tenho me tratado com a dra. Auxiliadora esses anos todos, por falta de opção. Eu nem sabia que havia ginecologista mulher credenciada pelo instituto, mas agora não vou mais deixar a senhora”.

Olhando-me de frente, prosseguiu:

- “A dra. Auxiliadora é péssima médica. Nem olha na cara da gente, não deixa a gente falar, vai logo pedindo exames e passando remédios. Eu nem tomo, pois como vou acreditar nesse tratamento, se ela nem me escuta ou examina?”

Não me identifiquei, tentando perceber até onde Graça iria com suas reclamações:

- “É mesmo? Como pode uma médica agir assim como você está falando? Fez também pré-natal com ela ou só foi atendida em ginecologia?”

- “Doutora Eliane, tive três filhos e fiz os pré-natais todos com ela. Mas fiz só de dizer, porque ela nunca tirou minha pressão nem apalpou minha barriga, acredita? Nem me pesava nas consultas... Quando parei de ter os meninos foi ainda pior. Se não fosse o auto-exame das mamas, eu já podia estar com um câncer, porque ela nem nunca se dignou a me examinar. É fogo, doutora Eliane, médicas como essa tal dra. Auxiliadora.”

Cansada dos comentários sobre minha ineficácia profissional, passei a indagar sobre sua história ginecológica, já fartamente conhecida por mim. Examinei a paciente da mesma forma que sempre fiz, com a diferença que para ela eu era, naquele momento, a “maravilhosa” dra. Eliane.

Finda a consulta, perguntei:

- “E então, Graça, gostou do meu atendimento? É melhor do que o da dra. Auxiliadora?”

- “Sem comparação, dra. Eliane. Nunca mais eu volto para ela. Vou ser sua paciente sempre e trarei também minhas amigas para a senhora.”

- “Tudo bem Graça, será sempre bem vinda. Mas me diga uma coisa de verdade: dra. Auxiliadora nunca lhe deu atenção, não lhe examinou, nunca olhou mesmo na sua cara?”

- “Nunca, dra. Eliane. Acho que se ela me encontrar na rua nem sabe quem eu sou. E olhe que faz uns quinze anos que sou paciente dela.”

- “Graça, e você lembra-se de mim?”

- “Claro que não, dra. Eliane. Pois se é a primeira vez que estou vindo aqui.”

- “Tem certeza, Graça? Olhe bem para mim. Jura mesmo que não está me reconhecendo? Tem absoluta convicção que nunca me viu antes?”

- “Tenho sim. Nunca estive com a senhora, dra. Eliane. Não estou lhe dizendo que é a primeira vez que venho me consultar aqui? Sempre procurei a dra. Auxiliadora, mas  nunca mais volto para ela... Deus me livre!!! Ela é péssima.”

- “Graça, pois a coisa está meio esquisita mesmo. Você diz e confirma que a dra. Auxiliadora nunca olhou na sua cara, nem lhe reconheceria se a encontrasse na rua, mesmo sendo sua médica há quinze anos. Pois eu acho que você então tem que me explicar uma situação meio maluca...

Quem nunca olhou para a cara de quem mesmo? Graça, eu não sou a dra. Eliane! Sou sua médica e sei tudo de sua vida. Eu sou a dra. Auxiliadora...”




Três Décadas no Serviço Público
Autora - Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira (Maux)
Página formatada em 24 nov 2011

 

 

 

 

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