Prá não Acostumar...

  Rosita das Conchas conseguiu o que queria: saí do ambulatório de ginecologia e obstetrícia. Não podendo me mandar para outro órgão, "jogou-me" na Perícia Médica, com um ultimato: ou fica ai ou peça transferência para um posto de saúde qualquer.

Confesso que pensei em contestar tanto o ultimato quanto a transferência. Como a Perícia Médica e seu funcionamento interno me intrigava, resolvi descobrir o que acontecia ali.

Muitos médicos peritos já haviam se aposentado e os profissionais atuantes no setor, em sua maioria, pertenciam às cooperativas médicas. Nenhum desses médicos credenciados era perito de carreira.

Entre os médicos efetivos encontrava-se o diretor da Perícia, Lucinho Trancoso. Já próximo da aposentadoria, cansado, doente, aguardava apenas completar o tempo que lhe permitisse incorporar ao salário a gratificação de chefia. Era mandado por todos. Não lia nada que assinava, concordava com todos os pedidos que lhe faziam, através de ligações telefônicas e bilhetinhos de políticos ou de antigas namoradas. Pertencia àquela categoria de funcionário público que passa a vida atendendo e pedindo favores. Só não causava maiores estragos por conta de Lucinda Messias que, ao apurar seus erros, levava-lhe os documentos para que os corrigisse. Na verdade, às vezes alguma coisa escapava, mas não por falta da dedicação e do cuidado de Lucinda... 

Lucinda Messias, a fada-madrinha da Perícia Médica, funcionária de carreira, de nível médio, dedicara sua vida ao setor. Conhecia a fundo o seu funcionamento, as nuances mais detalhadas e complicadas. Nunca conseguira uma chefia, embora atuasse como se ocupasse o cargo. Mais de uma vez fora indicada para a função, sempre recebendo uma "rasteira", com a nomeação de pessoas indicadas pelo político do momento. Esses chefes, incompetentes ou não, caídos ali de pára-quedas, contavam sempre com a colaboração inestimável de Lucinda.

Encontrei na Perícia uma situação assim. Sandra Bompapo respondia pela chefia, mas não fazia absolutamente nada. Na verdade, não entendia nem sabia nada a não ser cuidar de politicagem rasteira. Lucinda realizava todos os trabalhos para ela, mas mesmo assim recebia ordens e humilhações da dita cuja.

 Entre os médicos peritos do setor havia Rui Seixo, homem bom e trabalhador, mas de inteligência limitada. Um tanto ingênuo, procurava sempre ser justo em suas perícias. Ali estava por conta de enorme dificuldade financeira. Investira um valor muito alto na construção de uma clínica, com consultórios onde pudesse trabalhar ao lado de seus filhos. Pretendia alugar as salas para outros profissionais médicos, de forma a cobrir as despesas com a reforma do imóvel, mas a localização inadequada do mesmo, somada a uma decoração duvidosa, afastava os candidatos.

João Temporão era também médico credenciado. Ginecologista e obstetra de formação, pai de uma prole numerosa, precisava desesperadamente manter sua renda. Dividia-se em múltiplas atividades. Conhecia ou parecia conhecer a legislação e os estatutos que regiam as perícias. Homem pequeno, engrossava a voz, talvez na tentativa de mostrar-se mais importante do que a sua insignificância demonstrava. Andava muito sujo; roupas amassadas e descuidadas evidenciando o pouco cuidado recebido da esposa. Algumas pessoas gostavam dele, talvez por sua fragilidade aparente e pelo contraste com a agressividade natural de sua mulher. Havia outras opiniões a seu respeito. Diziam que ele tripudiava e zombava dos pacientes periciados, chegando a rir e debochar de suas angústias e necessidades. 

Maria da Penha Temporão era funcionária efetiva. Rodara por muitos setores até ser lotada na Perícia. Ali descobriu o que mais gostava de fazer na vida: perseguir sadicamente as pessoas e ter poder sobre suas vidas. Mas Maria da Penha ainda será detalhada aqui, como personagem de muitas outras histórias...

Maria da Penha detestava uma outra médica efetiva do setor: Linda Maria, uma dedicada perita com especialização em psiquiatria. Apesar da complexidade dos casos que atendia, Linda mantinha-se meiga e atenciosa com todos que a procuravam. Sabia ser forte e tomar decisões, com correção e coerência, nunca perdendo a calma e a gentileza. No entanto, Maria da Penha encarava a delicadeza de Linda como "falta de comprometimento" e sempre que podia criticava e denegria o seu trabalho.

Cheguei ali, nessa hora, no meio desses profissionais, para aprender a ser perita e descobrir porque o setor recebia tantas reclamações...

Ao iniciar minhas atividades na Perícia, recebi a colaboração dedicada de Lucinda, que me ensinou todo o funcionamento do setor. Eu era muito curiosa e desejava atuar bem.
Fui atrás das leis e dos estatutos que regiam a concessão dos benefícios; incomodei os advogados procuradores do órgão, solicitando informações sobre como deveria proceder nos casos mais complicados. Intrigou-me não haver uma normatização de condutas, uma padronização nas decisões. Quando indagava sobre o tempo que deveria conceder de benefício, a invariável resposta era que eu deveria julgar pela cara do periciado. Isso me horrorizava! Maria da Penha afirmava que se a periciada comparecesse de baton negava o benefício; orientava-se também pelo seu visível poder aquisitivo.

Eu me indagava se quem tem posses não adoece...

Continuando na minha busca de informações, indaguei ao procurador chefe do órgão porque as licenças para acompanhamento de familiar adoecido não podiam mais ser concedidas. Eu encontrara referência a esse benefício no estatuto do servidor, sem registro de cancelamento do mesmo. Ele me respondeu que a obtenção dessa licença ainda era um direito dos funcionários. 

Fiquei indignada!!! Há alguns meses atrás, meu marido submetera-se a uma cirurgia. Solicitei uma semana de licença para acompanhá-lo em sua recuperação. Atendida por João Temporão, ele negou-me a licença, afirmando que esse benefício não era mais concedido. Acreditei na informação recebida e como meu companheiro necessitava de cuidados, simplesmente faltei ao trabalho, sendo penalizada com os devidos descontos salariais.

Realmente muito zangada, após minha conversa com o advogado, procurei imediatamente por João Temporão:

- "João, há cerca de quatro meses eu compareci a essa perícia, por conta de uma cirurgia de meu marido. Solicitei uma semana de licença para acompanhá-lo e você me disse, na ocasião, que não poderia concedê-la, por não ser mais um benefício permitido por lei. Só que ele existe, está previsto no estatuto do servidor, artigo 67. Acabei de falar com o procurador geral e ele me garantiu a continuidade desse direito. No que você se fundamentou para me negar a licença?"

Temporão riu debochado, alisando a barriga, da mesma maneira que me fora relatada por outros periciados:

- "Neguei sim e negaria de novo. Eu disse que não havia esse benefício para você não me chatear. Quem coloca as regras na perícia somos nós que trabalhamos aqui. E nossa decisão é soberana!"

- "Você me negou um benefício garantido por lei. Não poderia ter feito isso; eu só acatei porque desconhecia os meus direitos. Você errou. Não procede essa afirmativa de nossa decisão ser soberana. As regras não são nossas; existem os estatutos e leis a cumprir. Porisso estou batalhando pela normatização de condutas nessa perícia... Agora você tem que me responder porque fez isso. Quero saber o motivo real da negativa."

- "Porque você tem dinheiro, vive bem, podia pagar alguém para cuidar de seu marido.
E, principalmente, para você não se acostumar com licença..."




Três Décadas no Serviço Público
Autora - Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira (Maux)
Página formatada em 26 nov 2011

 

 

 

 

Voltar

Envie esta página para:

Digite o seu e-mail

Coloque seu nome

E-mail de quem a receberá