Professor sofre...

Tenho um carinho muito grande pela categoria dos professores primários. Minha mãe, Mariinha Mota, dedicou sua vida às crianças e, embora no final da carreira tenha lecionado para o segundo grau (inglês e português), afirmava que o melhor de sua vida acontecera quando atuara como professora primária. Numa trova antológica ela destacou:

"Duas coisas pedi a Deus
nessa vida tão sumária:
- Viver feliz junto aos meus.
- Ser professora primária."

Como era costume na minha época, embora tenha me preparado para o vestibular no curso científico, também conclui a antiga Escola Normal. Uma querida professora de Prática do Ensino, dona Ricarda Godoy, quando soube que eu não desistira do meu desejo de cursar medicina, anotou em meu livro de recordações uma frase que conservo até hoje:

"O pediatra forma a raça de atletas, mas o professor primário forma o homem de amanhã".

Por todas essas lembranças, o meu carinho pela categoria é muito grande e, sempre que pude, desenvolvi projetos de saúde voltados para as professoras.

Uma situação que sempre me incomodou foi a forma como em Fortaleza são historicamente escolhidos os diretores das escolas: apenas por indicações políticas. Muitas vezes  trata-se de pessoas rancorosas, bajuladoras, viciosas nas tentativas de manterem os cargos através das gestões que se sucedem. Chame a atenção de uma diretora dessas e ouvirá infalivelmente a afirmativa: sou gente do deputado ou vereador tal...

Como ginecologista, em um serviço voltado para o servidor municipal, por mais de vinte anos briguei com as diretoras das escolas. Nossas professoras não conseguiam um dia siquer de folga para uma consulta básica, como o exame preventivo ginecológico e de mamas. Pela imposibilidade de sair, deixavam tudo para as férias. Brincávamos sempre que se nossas atividades dependessem apenas da Secretaria de Educação só teríamos trabalho nos meses de férias. Era impossível, para nós, os poucos ginecologistas do instituto, sairmos também de férias nesses períodos.

No entanto, as professoras que deixavam seus exames para essa ocasião, as vezes não conseguiam marcar uma consulta; em outras situações precisavam levar os filhos para tratamentos médicos especializados e tratamentos dentários; a mãe adoecia, o pai, o marido - e elas sempre ficavam para segundo plano, para o ano seguinte, para as próximas férias. Testemunhei professoras acometidas de câncer de mama ou de colo de útero, que por falta de uma avaliação anual, provocada por todas essas situações acima, apenas procuraram tratamento com a doença já avançada. A justificativa era sempre a mesma: a diretora não deixa a gente sair...

Por conta disso, esbocei um projeto que nunca foi acolhido por nenhum superintendente de nosso instituto: através de unidade móvel realizaríamos exames anuais ginecológicos nas próprias escolas, sem que as professoras necessitassem perder o dia de aula. O projeto era simples e cobriria toda a rede municipal em um ano, podendo recomeçar no ano seguinte. Bastava uma única unidade móvel, poucos profissionais e o problema de nossas professoras no que se referia ao exame preventivo estava resolvido. Nunca consegui executar isso, estou me aposentando e ainda não percebi o olhar de nenhum gestor para esse fato, embora eu insista sempre...

Ao deixar o atendimento ambulatorial, ocupando cargos de chefia e gestão em saúde, prossegui na tentativa de ajudar essa categoria profissional, tão importante para o desenvolvimento de um país. Executamos programas de prevenção e tratamento das doenças ocupacionais, priorizamos o atendimento pré-natal, de prevenção do câncer ginecológico, controle da hipertensão arterial e diabetes. Os problemas de voz e psicológicos receberam atendimento e acolhimento. Infelizmente, mudam os gestores e destroem o que foi construido com tanto carinho. E volta tudo á estaca zero!

Em nossos trabalhos de prevenção e tratamento das doenças ocupacionais, mapeávamos os setores, utilizando as fichas da Junta Médica Pericial, que continham o histórico dos adoecimentos. Havia também uma busca ativa, no local de trabalho, tentando detectar patologias incipientes ou não, quase sempre desconhecidas pelos próprios portadores. Em alguns setores verificamos o adoecimento prestes a eclodir de forma grave, como nos casos de hipertensão arterial, que a cultura de nosso povo insiste em amenizar, até que um quadro maior se instale.
Como ao detectar os problemas encaminhávamos os servidores, de forma prioritária para o tratamento especializado, um ignorante "planejador", não pertencente a nenhuma área da saúde, criticava esse trabalho alegando que estávamos "inchando" e aumentando os custos do plano de saúde do servidor municipal. Várias vezes argumentei, sem encontrar eco, que era mais barato tratar um hipertenso do que pagar a internação em UTI de um enfarto ou de um AVC. Mas isso também é outra história...

Voltemos à ação nefasta dos dirigentes das escolas municipais...

Ao chegar na Perícia Médica verifiquei que os laudos dos benefícios concedidos, encaminhados para as Secretarias, indicavam o diagnóstico do servidor. Era impossível ser mantido isso. Não se pode divulgar mesmo que através de códigos as patologias das pessoas, algumas contrangedoras como distúrbios psicológicos e doenças infecciosas como a AIDS. Consegui retirar essa informação dos laudos, pois mesmo que o diagnóstico se apresentasse em código, facilmente seria encontrado na internet o nome real da patologia.

Para que uma Secretaria necessitaria saber o motivo do afastamento do seu servidor? No entanto, professores desavisados e ingênuos continuavam apresentando aos seus diretores os atestados médicos e permitindo que os xerocassem. Embora tenhamos tentado o esclarecimento aos professores da ilegalidade dessa prática, isso acontece até os dias de hoje, por mais que se oriente. A justificativa dessa gente sofrida é sempre que os diretores exigem isso dos servidores adoecidos.

O cômico aconteceu em uma reunião organizada com os diretores de escola. Havia muitas queixas sobre a divulgação na comunidade dos professores e até mesmo para os pais dos alunos, dos diagnósticos e tratamentos realizados pelos professores, devido a essas irregularidades como cópias dos atestados apresentados e até mesmo das receitas médicas. Quando a nossa equipe apresentou isso, expondo a irregularidade grave por eles cometida com esses procedimentos, os dirigentes das escolas irritaram-se, alegando que não faziam isso, eram denúncias falsas, professoras que queriam derrubá-los do cargo, e outras desculpas desse tipo.

Foi então que entrou no recinto, com pose de diva no tapete vermelho, a diretora Mariana Firmeza. Tratava-se de uma conhecida nossa de longa data, mantendo-se no cargo há muitos anos, perseguidora das professoras que lhe faziam frente e beneficiando de forma irregular aquelas que a apoiavam. Muitas queixas recebíamos dela, mas conseguia sempre permanecer no cargo, por ser protegida do deputado Mamá Teixado, já citado em outra página.

Mariana entrou sem pedir desculpas pelo atraso, indagando porque não havíamos esperado por ela. Eu ri... Disse-lhe que a reunião já ia avançada, mas que gostaria de saber se trouxera alguma colaboração para a nossa equipe. Não citei os temas já discutidos nem as negativas dos diretores sobre a divulgação das causas dos afastamentos das professoras.

Mariana veio à frente e depois de se promover com uma infinidade de auto elogios, passou a falar das suas dificuldades com professoras "complicadas".

- "Tenho duas professoras muito difíceis que vivem de licença médica. Quando não estão de licença vão atrás de readaptação, querendo ficar fora da sala de aula. E a Junta Médica ainda dá isso para elas. Tentei impedir, fui até falar com a senhooooooora dra. Auxiliadora, por mais de uma vez e a senhora me disse que é melhor ficar readaptada do que em casa sem fazer nada, que elas podem ser úteis e querem trabalhar. Eu é que sei !!! Ficam na escola cheias de direitos, afrontando minha autoridade, discutindo até a qualidade da merenda escolar. Tudo por causa dessa tal de readaptação. Se estivessem na sala de aula não teriam tempo para se meterem na minha vida. Eu sei o que é melhor para a escola..."

Interrompeu sua exposição e olhou firmemente para a platéia, esperando receber o apoio dos colegas, o que não aconteceu, mas também não a intimidou. Prosseguiu em seu discurso:

- "Um absurdo, gente assim tem é que cair fora da prefeitura para não atrapalhar a vida dos outros. Elas são é doentes da cabeça, tomam remédio controlado, aqueles da receita azul. Tenho aqui tudo comprovado".

Abriu uma pasta, apresentando uma série de cópias de atestados médicos, cujos originais estavam retidos na Junta Médica. Outra coleção mostrava cópias dos receituários, tanto do bloquinho azul como dos carbonados. Mariana continuou, sem perceber o constrangimento cada vez maior dos seus colegas diretores:

- "Essas duas são loucas, doentes mentais. Não tenho condição de ficar com elas lá. Se querem que elas fiquem readaptadas coloquem em outra escola, não na minha!!! Elas enganam os médicos peritos dizendo que podem voltar ao trabalho. Só que eu não vou aceitar essa decisão calada. Já me movimentei. Entreguei cópias de todos esses atestados e receitas aos pais dos alunos, eles estão com tudo isso nas mãos, na dúvida ainda, mas vão fazer o que eu quero. Mandei que organizassem um abaixo-assinado, pedindo a saida dessas duas professoras de lá. Só assim poderei ficar em paz..."

Três Décadas no Serviço Público
Autora - Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira (Maux)
Página formatada em 15 jan 2012

 

 

 

 

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