SEIS MESES EM SEIS ANOS!?

Márcia cresceu em um lar que cultivava a honestidade, a sinceridade, o patriotismo e o amor ao próximo. Ao escolher a Medicina, seu objetivo maior era ajudar às pessoas carentes. Dedicou-se à profissão com amor e carinho.

Mais do que a ciência e os ganhos financeiros, o que lhe importava eram as pessoas. Os mais sofridos, os mais carentes, os mais necessitados recebiam dela maior dedicação. O trabalho desenvolvido nas instituições públicas gratificavam-na mais do que em seu consultório, pois nelas cuidava daqueles que nada possuíam.

Quando seus filhos optaram pela mesma carreira alertou-os: deveriam em primeiro, segundo, terceiro, quarto e quinto lugar priorizar as pessoas; depois poderiam se preocupar com pesquisa, prestígio e dinheiro. Se assim não fosse, melhor seria escolherem outra profissão. Não a Medicina!

Servidora pública por mais de vinte anos, Márcia jamais aceitou cargos de chefia. Nunca se esqueceu do que lhe ensinara uma amiga mais velha, professora universitária, no início de sua carreira: "No serviço público a gente deve ser soldado raso, sem lutar por cargos. O que quiser obter, conquiste fora dali, pois não vale a pena ser chefe de nada".

Márcia preferia a linha de frente dos atendimentos, nos ambulatórios, junto ao povo. Isso lhe dava liberdade suficiente para discordar dos desacertos e combater as condutas erradas.

Aproximando-se da aposentadoria, recebeu o convite para comandar um serviço. Vitoriano de Pádua, um homem bom, desejava acertar e precisava de colaboração. Márcia podia ajudar! Conhecia todos os setores desse órgão público; era amiga de todos os funcionários, dos mais humildes aos mais graduados.

Aceitou o desafio e fez o que podia. Implantou programas de medicina preventiva, de reabilitação e colocou ordem na casa. Sentiu-se muito útil, embora realizando um trabalho que nunca lhe  interessara antes. O PODER, pura e simplesmente nunca a fascinara, mas ajudar as pessoas sim - era o que importava para Márcia e ela procurou fazer isso, agora do outro lado da mesa...

No entanto, nada acontece em paz no serviço público. Existem múltiplos interesses, conflitos com aqueles que desejam retirar vantagens dos cargos que ocupam. Embora com o apoio recebido de Vitoriano de Pádua, Márcia lutou contra opiniões contrárias e desinformadas. Por não ser de seus interesses, rotulavam os serviços criados como "programas sociais desnecessários". Desconheciam as nuances de seu trabalho e misturavam os programas de reabilitação com aqueles voltados para a prevenção de doenças. Pensavam que era tudo a mesma coisa... Os "programas" eram tratados de forma jocosa e zombeteira, considerados cabides de emprego dispensáveis.

Márcia seguia em frente, feliz com o trabalho desenvolvido, sem se preocupar com essas opiniões. Lembrava-se sempre de Ibrahim Sued: "Os cães ladram e a caravana passa"...

Após alguns anos de atividades, Vitoriano de Pádua, por interesses próprios, deixou o cargo. Foi substituído interinamente por Fernandel Distinto, o maior opositor dos "programas" de saúde implantados por ela. Márcia pensou em solicitar sua exoneração, uma vez que conhecia o pensamento daquele que se tornaria seu chefe. No entanto, pediram-lhe que permanecesse no cargo, alegando que Fernandel não teria tempo para interferir em seu trabalho. Esperava-se que permanecesse na função apenas um mês.

Fernandel Distinto convidou Márcia para uma entrevista particular. Usando toda a sua sedução, tentou manipulá-la. Pediu-lhe ajuda:

- "Vamos colocar uma pedra sobre nossas desavenças profissionais passadas, trabalhar em paz e juntos, enquanto eu estiver aqui. Não posso prescindir de sua colaboração. Você é preciosa e não posso dispensar seu apoio".

Márcia comprometeu-se a colaborar com Fernandel, em prol de algo maior e mais importante do que seus conceitos pessoais. E cumpriu sua palavra. Mal sabia que a falsidade de Fernandel Distinto era a sua arma e que esperava apenas uma oportunidade para atacá-la.

Uma medida impopular, adotada por Fernandel, fez com que um sindicato o procurasse, por conta de uma denúncia sobre suas ações. Como em uma reunião de diretoria, Márcia discordara da adoção da medida que desencadeara o protesto, Fernandel a acusou de insuflar os sindicalistas contra ele. Em sua prepotência, julgou talvez que ela seria a única pessoa capaz de enfrentá-lo...

Culpou-a publicamente das denúncias. Leu para um grupo de profissionais trechos do documento encaminhado pelo sindicato e inventou outros, com referência à influência de Márcia na elaboração do incidente. A médica conseguiu junto ao sindicato o texto original na íntegra, percebendo como Fernandel mentira e manipulara a denúncia recebida, acusando-a.
O objetivo de Fernandel era claro: desejava retirá-la do cargo que ocupava, de forma degradante, parecendo que Márcia é que o havia atacado primeiro.

Ostensivamente, afastou Márcia de um dos programas sob o seu comando, o de maior visibilidade, voltado às doenças ocupacionais. Ofereceu o cargo a um jovem e inexperiente profissional não médico.

Ferdinando Buscapé, deslumbrado com a oferta inesperada, mesmo sem receber nenhum aumento de salário, deixou-se ser usado de forma vil, sem respeito e integridade.
Iniciou sistematicamente uma campanha de descrédito sobre o trabalho de sua antecessora, desfazendo em pouco tempo tudo que fora construído nos últimos anos, de forma irresponsável e leviana. Utilizando Ferdinando, Fernandel Distinto procurou denegrir Márcia de todas as formas possíveis.

A campanha de difamação, nesses tempos de internet, chegou ao Orkut. Ferdinando Buscapé, acompanhado de outras pessoas que pensavam assim manter seus empregos terceirizados e chefias, postou mensagens jocosas e agressivas a respeito de Márcia, em uma comunidade do órgão em que trabalhavam.

O "dono" da comunidade, Francisco Bisneto, não mais trabalhava no setor, mas demonstrando apreço por Márcia e não concordando com a utilização indevida do espaço, apagou a comunidade. Mas só o fez após Márcia salvar todas aquelas mensagens indignantes, conservando-as como sinal da ingratidão e leviandade das pessoas.

Os meses passavam e Fernandel Distinto mantinha-se no cargo, sua substituição sendo adiada por conta de negociações políticas dos partidos, com vistas à reeleição do mandatário local. Julgando-se fortalecido e acreditando que permaneceria em sua posição, recrudesceu seus ataques contra Márcia.

Claro que a campanha não era realmente contra ela. O objetivo, na realidade, era desacreditar o antigo chefe, Vitoriano de Pádua, candidato a uma função no Legislativo, querido e respeitado por todos.

Fernandel Distinto também precisava demonstrar desesperadamente a sua pretensa competência para convencer os que detinham o poder sobre a necessidade de sua efetivação. Cercou-se de pessoas que dependiam de uma chefia, de uma gratificação e outras benesses assim.

Uma das poucas pessoas que não cederam aos seus gritos e prepotência, Márcia continuava sem se curvar, defendendo sempre seus princípios. Para Fernandel Distinto, exonerar uma pessoa que o enfrentava não bastava. Era preciso humilhá-la, pisoteá-la, torná-la alvo de chacota. No entanto, todas as suas tentativas foram por terra, pois Márcia sempre conseguia desvencilhar-se de suas manobras.

O agravo final aconteceu numa data de relevância. Na comemoração do Dia Internacional da Mulher, Márcia deveria proferir uma palestra. Preparou-se para isso com carinho. Na véspera do evento, foi avisada, pelo Setor de Imprensa que colaborava na sua organização, que Fernandel Distinto decidira proibir sua fala, sob pena de cancelar as festividades. Ao receber a comunicação da proibição Márcia nada fez, embora considerando essa decisão uma arbitrariedade inexplicável e sem medida.

As notícias correm como fogo no capim seco, no serviço público. No dia seguinte, o Comando de Mulheres compareceu ao evento para desagravar Márcia. Com poder na esfera governamental, queriam que Márcia fizesse uso da palavra.

Ela não concordou com isso, por respeito à hierarquia. No entanto, ao discursar, a representante desse Comando deixou bem claro que falava em nome de Márcia, tecendo a ela uma série de elogios. Quem desconhecia o que estava acontecendo não entendeu nada, pois foi uma ação discreta, mas Fernandel Distinto sabia os motivos da presença do Comando de Mulheres no local. E isso lhe bastou para o seu próximo passo...

Horas depois, Márcia foi convocada para uma reunião de urgência. Presa às festividades do dia, não pode comparecer e Fernandel Distinto remarcou a reunião. Ele havia convocado todos os chefes do setor comandado por Márcia, até mesmo aqueles que ocupavam os cargos mais subalternos. Tomando conhecimento disso por uma amiga que comparecera à reunião adiada, Márcia entendeu que ele desejava exonerá-la em público, na frente de todos os funcionários do órgão e de forma degradante. Decidiu que isso não aconteceria e resolveu não atender à convocação.

No dia seguinte, cinco minutos depois da hora marcada para o início da reunião, Márcia avisou que não poderia comparecer, certa que todos já estariam presentes e que Fernandel nada mais poderia fazer... Quando soube que Márcia não estaria presente, naquela que deveria ser sua humilhação pública e a conseqüente demonstração de seu poder absoluto Fernandel enraiveceu-se.

Não teve outra saída a não ser demitir Márcia de sua chefia, apesar de sua ausência. Alegou que o setor onde ela atuava era um feudo e que Márcia era o "rei"; ele a estava demitindo porque ali somente poderia haver um rei: ELE!!! Dirigindo-se às pessoas presentes, afirmou que se alguém concordasse com Márcia, podia tomar seu rumo, numa evidente ação ditatorial e de assédio moral.

Quando se referiu ao "feudo" ele não questionou o ridículo de sua afirmativa. Não se tratava de um feudo a liderança de Márcia sobre a equipe. Era fruto de uma vida inteira de lutas e trabalho. Os funcionários públicos vivem juntos por décadas, com os mesmos objetivos. Choram e riem lado a lado; batalham e enfrentam disputas comuns; conhecem os problemas e as dificuldades de cada um.

Márcia participara da vida da faxineira, da atendente de enfermagem, do motorista, do dentista, do médico, assim como eles vivenciaram sua vida também. Sabiam das dores e das alegrias, das derrotas e das conquistas uns dos outros. Ali não existia um feudo nem era propriedade de ninguém; o órgão público pertencia realmente àqueles que o construíram e trabalharam por ele. A relação entre os funcionários estabelecia uma parceria de amor e luta; existências vividas em comum, sem interesses passageiros ou apego ao poder momentâneo.

Governadores, prefeitos, deputados, vereadores, secretários, superintendentes, chefes - vem e vão. Os servidores públicos permanecem no exercício de suas funções. Nem feudo, nem rei, nem rainha: amigos apenas, enfrentando juntos a arrogância dos déspotas e ditadores fugazes, com seus quinze minutos momentâneos de benesses e poder passageiro...

 A desconstrução maquinada por Fernandel Distinto foi terrível! Desfez compromissos, subtraiu responsabilidades,  deixou os profissionais sem atividades de forma ostensiva, parecendo realmente que formavam um extenso "cabide de empregos". Proibiu que as enfermeiras de um programa voltado ao tratamento e prevenção das doenças hipertensivas, controlassem a pressão arterial dos usuários. O mesmo em relação aos programas destinados à mulher: impediu atividades de orientação e palestras sobre o câncer de mama e ginecológico; não podiam mais auxiliar nos pré-natais, na puericultura... Sem nenhuma atuação efetiva, os funcionários permaneciam sentados sem realizar nenhum trabalho.

Todos os arquivos mantidos nos computadores, registrando as atividades desses programas - inclusive os de prevenção e reabilitação para o trabalho dos servidores adoecidos -, os atendimentos realizados, o mapeamento das doenças ocupacionais, os benefícios obtidos pelos funcionários adoecidos junto à pericia médica, um trabalho primoroso desenvolvido nos últimos anos, foi irresponsável e totalmente apagado. Fernandel e seus assessores destruíram tudo que se referia ao trabalho árduo, realizado por uma equipe comprometida.

Três meses após a demissão de Márcia, agora por sua vez exonerado, Fernandel Distinto deixou o cargo ocupado interinamente por seis meses. Na posse do novo chefe efetivo, Márcia sentou-se na primeira fila, estrategicamente de frente a Fernandel Distinto, testemunhando a sua queda.

Despedindo-se do cargo, tentando ainda mostrar-se competente e importante, Fernandel gaguejou ridiculamente que durante seu curto período no cargo construíra seis meses em seis anos...

Tentara dizer "seis anos em seis meses", imitando o slogan do presidente Juscelino, mas talvez a derrota lhe doesse demais! Faltou-lhe o brilho e a verve. Num castigo de Deus, enrolou-se com suas palavras. Na verdade, a seqüência da frase estava correta, tendo Fernandel Distinto apenas trocado o verbo. Em sua atuação de seis meses conseguira DESCONSTRUIR seis anos...

Infelizmente, quem perdeu mais uma vez, por conta dos prepotentes e despreparados para o poder, foi o servidor público carente. Mas isso já é outra história...

 




Três Décadas no Serviço Público
Autora - Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira (Maux)
Página formatada em 28 nov 2011

 

 

 

 

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