Essas historinhas, que tanto encantaram a minha infância, resgatadas da Coleção Tesouro Infantil, da Editora Melhoramentos, foram recuperadas para comemorar o primeiro aniversário de meu netinho Guilherme Meton.

Que o meu ruivinho cacheado aprecie essas historinhas, é o desejo, com muito carinho,

da vovó

 

 

A CIDADE DOS ANÕEZINHOS - Parte I

Autor: William Donahey
Tradução: Mário Donato e Marcos Rei
Ilustrações do autor
Obs. Algumas ilustrações foram modificadas, coloridas e animadas por Maux

 

Nossos Heróis

No subúrbio duma velha cidade existe uma rua que se vai estreitando, estreitando, e desemboca no campo. Logo adiante, ergue-se uma árvore enorme e, a poucos passos de distancia, estão as ruínas duma casa abandonada. O mato cresceu tanto nesse lugar que há muitos anos ninguém se aproxima dele. Antigamente havia ali um jardim bem cuidado, mas, agora, as roseiras bravas fecharam o lugar num círculo que ninguém penetra. E, dentro desse círculo, existe uma cidadezinha.

A cidade é realmente pequena, com poucas casas, também pequeninas. Uma das casas, por exemplo, é apenas um sapato de homem. Sobre o sapato foi construído um segundo andar, alpendre na frente. As janelas da casa, por onde entram a luz, não são maiores do que um selo do correio.

No calcanhar do sapato está a cozinha, onde se instalou um minúsculo fogão. Nas paredes estão penduradas as caçarolas. Algumas das panelas são tão diminutas que mal podem conter duas gotas d’água. Na prateleira veem-se sopeiras, pratos e copos feitos com caroços de cereja. Há também panelas um pouco maiores, feitas de tampinhas de frascos de molho inglês ou de potinhos de azeitonas. Nessas panelas maiores pode-se cozinhar um grão de feijão inteirinho.

Na parte principal dessa esquisita casa há tapetes, cadeirinhas e caminhas. As camas não são de molas, mas mesmo assim são macias e confortáveis, pois têm colchões de paina. Os cobertores, feitos de teias de aranha, são leves e quentes.

Desta casa-sapato partem vários caminhos atapetados de musgo, que passam sob as roseiras bravas. Um dos caminhos vai dar numa lata de café vazia, onde estão guardadas pequenas ferramentas. É ali que se fabricam mobílias e outras coisas de que necessitam os moradores da cidade.

Outro caminho leva à casa onde estão instaladas a Escola e a Casa da Câmara. Essa casa não passa dum chapéu de homem, pintado com tinta à prova d’água. Ao seu lado, existe uma colina que mede uns cinco centímetros de altura. Há uma escada da aba do chapéu até à porta. Em volta da copa do chapéu foram abertas muitas janelas, pois um prédio como esse precisa de muita luz. À noite ele é iluminado por lanterninhas feitas de sementes de frutas.

Atrás desse edifício há um velho bule de chá. É a lavanderia da cidade. Outro caminho vai dar num subterrâneo, que serve como celeiro, ou armazém. Este depósito foi cavado sob uma colina de uns quinze centímetros. Nele é que se encontram guardados os alimentos de toda a cidade, para o inverno.

As pessoas que vivem nesta cidade são muito pequeninas, O mais alto dos seus habitantes mede cinco centímetros, e todos os outros não são maiores que um palito de fósforo dos pequenos. E, tal qual no nosso mundo de gente grande, nessa cidade há homens, mulheres e crianças. As crianças são naturalmente bem pequeninas.

Meia casca de noz é suficiente para servir de cama para um menino ou uma menina nessa cidade de anõezinhos.

O chefe da cidade traja um uniforme e é chamado de Comandante. É muito boa pessoa e, por isso, todo o povo o estima.

Há um Doutor, que cuida da saúde da população.

Há um Velho Soldado, com uma perna de pau, e que é excelente mecânico.

Turco é o seu melhor ajudante.

O Polícia passa a maior parte do tempo espantando os besouros e vigiando Peralta.

Peralta não é um mau menino, mas vive inventando travessuras.

O Cozinheiro prepara a comida para toda a cidade. E é um ótimo cozinheiro. Os seus pratos fazem a cidade inteira ficar com água na boca.

O tintureiro, que tem o apelido de China, mora no bule de chá e lava toda a roupa que lhe levam.


Dona Grã-fina é uma senhora que vive na Cidade, uma grande costureira e anda sempre bem vestida. Seu trabalho é fazer as roupas dos anõezinhos.

Ali vive também um anão chamado Tom Mix, terrível domador de ratos e gafanhotos.

O Marinheiro passa a maior parte do seu tempo na água, no seu bote feito de uma vagem de ervilha. Bastião, um anão bem moreno, é bom alfaiate e cozinheiro.

Há muitos outros homens, mulheres e crianças na cidade, e todos vivem felizes naquele mundo de coisas tão pequenas. Os anõezinhos têm todo o cuidado em não se aproximar de gente do nosso tamanho, como nós teríamos cuidado em não chegar perto de gigantes com a altura de arranha-céus. Por isso, pouca gente conhece esse estranho povo e a sua cidadezinha.

PASSANDO O TEMPO

Era o primeiro dia da primavera. Os raios do sol filtravam-se pelas moitas de roseiras, desenhando manchas douradas sobre o musgo verde dos caminhos. Dona Grã-fina, sentada em sua cadeira de costura, na frente da casa, remendava um par de meias de Peralta. O Velho Soldado subira ao telhado da cozinha para consertar a chaminé. O Doutor e o Comandante jogavam uma partida de xadrez na sala de estar da casa-sapato. Vários anões estavam deitados no musgo, gozando a sombra das roseiras.

- Arre! exclamou Peralta. Precisamos descobrir alguma coisa que faça passar o tempo!

- Para quê? perguntou Bastião, espantando uma abelha que voava perto. O tempo passa depressa quando a gente fica deitado neste musgo macio.

- Ora, estou cansado de descansar! exclamou Peralta. Quero fazer alguma coisa!

- Vamos nadar no rio, lembrou o Turco.

- Não sou louco! respondeu Peralta. O rio está cheio de rãs e de caranguejos. Não quero perder uma perna!

- Um caranguejo não iria perder tempo com você, Peralta! disse, rindo, o Marinheiro. Você nem carne tem para servir de isca!

- Não! respondeu o moleque. E você que não tem carne para alimentar um mosquito?!

- Olhe, Peralta, disse o Turco. Se você quer fazer alguma coisa, vá-se embora e não aborreça os outros.

Peralta lançou aos companheiros um olhar cheio de raiva e afastou-se dali. Mas, não demorou muito, voltou correndo tão depressa quanto lhe permitiam as secas perninhas.

- Gente! Achei uma casca de banana! Está fresquinha e serve de rinque de patinação!

Uma casca de banana era sempre um achado para os anõezinhos, que gostam muito de patinar sobre ela. Três anões logo pularam ao ouvir a novidade e correram atrás de Peralta. A casca de banana estava perto da estrada que dava para a cidade da gente grande.

- Não podemos brincar neste lugar, disse Turco. Está muito perto da estrada. Muitas pessoas grandes costumam passar aqui. Vamos levar a casca de banana para um lugar seguro.

- Vamos arrastá-la até a casa-sapato, lembrou Marinheiro. Lá poderemos patinar à vontade.

Os anões agarraram firmemente a casca de banana e puseram-se todos a puxá-la. A casca era bem pesada para eles, e só depois de muito gemer e bufar é que conseguiram levá-la para perto da casa-sapato.

- Deus do céu! exclamou Dona Grã-fina, tirando os olhos da costura. Que é que vocês vão fazer com essa casca de banana, de cheiro tão desagradável?

- Vamos fazer um rinque de patinação, explicou Peralta.

Os anõezinhos estenderam a casca cuidadosamente no terreno plano e, depois, dando uma corridinha, deixavam-se deslizar sobre ela, como se patinassem no gelo. Logo, outros anões apareceram para brincar. E dali a pouco havia uma verdadeira multidão que escorregava sobre a casca de banana. Às vezes davam encontrões uns nos outros e caíam, rindo-se muito. Os outros anõezinhos que estavam por ali também se divertiam com a brincadeira. O Polícia sentou-se num banquinho armado em torno do tronco duma árvore e ria a ponto de fazer tremer todas as suas banhas. Salta-Salta, um pardal amigo dos anõezinhos, voou para o telhado da casa-sapato e dali ficou assistindo à diversão. Os anões escorregaram sobre a casca de banana até se cansarem. Depois, deitaram-se no musgo.

De repente, apareceu o Comandante à porta da casa-sapato e ordenou que levassem a casca de banana para longe dali.

- Ela não pode ficar aqui, disse ele. Com o calor, apodrecerá e terá mau cheiro.

- Mas nós estamos cansados, explicou Peralta. Não poderíamos deixar para amanhã?

- Não, respondeu o Comandante. Vocês precisam tirá-la daí antes do almoço. Ou me obedecem, ou ficam sem comer. E saibam que o Cozinheiro está fazendo uns pratos especiais para hoje.

Os anões sempre tinham muito apetite. Ainda mais nessa ocasião, em que haviam praticado tanto exercício! Assim, a casca de banana foi tirada dali em poucos minutos e levada para longe. Um anãozinho pode conformar-se com tudo, menos com a perda dum bom prato de comida!

BONS VIZINHOS

- Ainda sinto o cheiro da casca de banana, na qual vocês andaram patinando ontem, disse Dona Grã-fina, sentada em sua cadeirinha feita de uma semente de uva.

- Eu também, disse o Comandante. Assim que terminarem o almoço, alguns de vocês deverão levar a casca de banana para mais longe.

- Vamos levá-la até à velha macieira, perto da estrada, disse Peralta.

- Desapareçam com ela de qualquer jeito, disse o comandante. Não queremos sentir esse cheiro por aqui.

Depois que os anõezinhos almoçaram, e todos os pratos e panelas já tinham sido cuidadosamente lavados e enxutos, o Comandante ordenou que a casca de banana fosse removida para mais longe.

Ela foi então arrastada até perto do riacho e coberta com areia. Na volta, o Turco, que vinha na frente, parou de repente e ergueu a mão:

- Escutem! disse ele.

Os anões pararam e, prestando atenção, ouviram uns suspiros que vinham detrás dum arbusto.

Avançaram e viram uma ave azul pousada num galho. As lágrimas corriam dos olhos da ave, que parecia estar sofrendo muito.

- Desculpe, disse Turco, mas vemos que a senhora está muito triste. Podemos auxiliá-la em alguma coisa?

- Fui roubada, disse ela.

- Roubada?! exclamaram os anões.

Os anões podem entender quase tudo o que dizem os pássaros e outros pequenos animais. Mas, para não perder uma só palavra, aproximaram-se ainda mais.

- Sim, roubaram o meu lindo ninho. Era o meu primeiro ninho, e eu o tinha feito com todo o carinho.

- Quem foi o ladrão? quis saber Tom Mix.

- Dois moleques, respondeu o pássaro. Eu tinha feito o ninho num buraco da macieira. Agora vejo que fiz mal em construí-lo em lugar tão perto do chão. Os moleques viram o ninho e o roubaram.

- Foi muito malfeito! exclamou Peralta.

- Muito malfeito, lamentou a ave. Eu tinha colhido centenas de folhinhas de grama e escolhido só as mais macias... Desejava um ninho bonito e confortável.

- Talvez nós possamos ajudá-la a construir outro ninho, lembrou Marinheiro.

- Será uma grande gentileza de vocês, mas acho que não poderão ajudar-me. Mas foi boa a lição! Não se deve fazer um ninho perto do chão. Vou fazer outro em lugar mais alto, longe do alcance dos meninos sem coração.

- Mas nós sabemos trepar em árvores, disse Tom Mix, e podemos ajudá-la. Venha conosco. Vamos discutir a construção do ninho com o Comandante.

Os anõezinhos caminharam para a cidade, e o pássaro, saltando de árvore em árvore, acompanhou-os  até a casa-sapato. Logo que chegaram, o Comandante saiu à porta e ouviu com interesse a história da ave roubada. Depois de muita conversa, ficou decidido que a ave escolheria a árvore onde se deveria construir o ninho. Depois teria de voar com os anões nas costas para levá-los até o topo da árvore escolhida. E teria de transportar as cordas e carretilhas com que eles puxariam para cima da árvore o material para a construção do ninho. O pássaro levantou voo e foi à procura duma árvore que lhe parecesse boa. Poucos minutos depois voltou com a notícia de que encontrara o que queria.

- É bem perto daqui, disse ela. Quero morar perto de vocês. Acho que seremos bons vizinhos.


- Obrigado, disse o Comandante, tirando o chapéu de penas e fazendo uma profunda reverência. Gostaremos muito de ter a senhora como vizinha.



Os anõezinhos lançaram-se ao trabalho imediatamente. Alguns deles apanharam as ferramentas, enquanto outros colocavam junto da árvore o material para a construção do ninho. A ave fez vários voos ao topo da árvore, transportando anões, cordas e carretilhas. Marinheiro fixou uma carretilha num galho bem forte da árvore, e os anões, no solo, amarravam na ponta da corda o material que devia ser levado para o alto. O pássaro transportava as coisas mais leves, como ferramentas e baldes d’água, feitos de cascas de nozes. Era água para beber. O dia estava quente e os anõezinhos tinham muita sede. Trabalharam sem descanso o dia todo. Ao anoitecer, já tinham construído a armação e o teto do ninho.

 

Na manhã seguinte, logo cedo, continuariam o trabalho. O revestimento do ninho seria feito com oleado. Os anões tinham esse material num buraco onde os homens grandes atiravam as coisas que julgavam imprestáveis.

- Não sei como lhes agradecer, disse a ave, quando a casa ficou pronta. E nem sei como lhes pagar tudo quanto fizeram por mim!

- Não queremos pagamento, disse o Comandante. Tivemos muito gosto em ajudá-la.

- Aceitam um par de minhocas bem gordinhas? Ofereceu a ave.

   

- Não, muito obrigado, respondeu o Comandante. Somos vegetarianos.

- Pois bem, disse o pássaro. Quando precisarem de mim, já sabem: basta chamar-me.

Os anõezinhos recolheram as suas ferramentas e voltaram para a cidade, enquanto a ave atapetava o seu ninho com musgo e grama, a fim de ali botar os seus ovinhos.

FLORES SILVESTRES

A ave, agora com seu novo ninho, sempre passava voando sobre a Cidade. Estava atarefada com o transporte de fibras e gramas para atapetar sua casa. Os anõezinhos acenavam para ela, muito satisfeitos. O China, da lavandaria, até parava de trabalhar para acompanhar o voo do pássaro com os olhos.

- A primavera chegou, dizia a Peralta, apontando com seu dedinho a ave que passava. Ela está concluindo o ninho. É sinal de que a primavera chegou.

- Grande novidade! exclamou Peralta. Olhe lá, disse apontando para a porta da casa-sapato, onde estava sentado o anão vovô.

O velhinho estava confortavelmente embrulhado num cobertor e, ao seu lado, num pote feito de casca de avelã, brotava uma arvorezinha anã.

Vovô só saía de casa quando chegava a primavera e começava o bom tempo.

- Pessoal! gritou Peralta. As flores silvestres estão se abrindo. Vamos dar uma olhadela ao bosque?

Um passeio pelo bosque era sempre grande divertimento para eles. Nem bem Peralta lançara a idéia, já um grupo de anõezinhos se dirigia para o bosque, em procura das flores silvestres.

- Espero que acharei um trevo de quatro folhas, disse Dona Grã-fina. Isso dá sorte!

- Pois acharei um para a senhora, anunciou Peralta, que gostava de agradar à costureira.

Finalmente, os anões chegaram ao meio do bosque. Lindas flores se abriam em volta deles. Era mais fácil caminhar no bosque do que no campo, onde a relva atrapalhava os passos dos anões.

    

Ali, no bosque, eles estavam à vontade e caminhavam dum lado para outro, admirando as flores que despertavam para a vida. Havia flores de todas as espécies, e a respeito de cada uma delas o Doutor dava uma explicação. De repente, o Comandante disse:

- Escutem! Ouvi uma voz.

De fato, ouvia-se uma voz. Parecia um chamado: Iu-úúú! Iu-úúú!...

- Parece um mocho, disse Dona Grã-fina. Mas pode ser o Peralta. Acho que ele está escondido atrás daquelas plantas. Espero que tenha encontrado outro trevo de quatro folhas.

Ouviu-se o chamado outra vez. Dessa vez, os anões correram todos em direção da voz, saltando sobre as folhas como se fossem formigas. E logo encontraram Peralta empoleirado num arbusto.

- Que linda flor! suspirou Dona Grã-fina.

- Se a senhora quiser, posso cortá-la com meu canivete, gritou Peralta.

- Oh, não! disse Dona Grã-fina. As flores silvestres não se conservam. Uma vez cortadas, logo secam. Não a corte, não.

- Muito bem, disse o Doutor. Se você arrancar a flor, ela secará e morrerá. E ninguém poderá admirá-la mais. Se alguém a tivesse arrancado, não a estaríamos vendo agora.

- Ela tem perfume? quis saber Dona Grã-fina.

- Não, gritou Peralta. Tem até cheiro bem desagradável.

Nisso, o Doutor interveio para explicar que certas flores tem um aroma especial para atrair os insetos que lhes levam o pólen de outras flores. Esse aroma é agradável para os insetos, não para o olfato das pessoas.

- Cuidado, Peralta! Vem vindo uma abelha! gritou o Polícia. Cuidado! Ela poderá picá-lo!

A abelha certamente não ia molestar Peralta. Mas o moleque provocou-a, e ela, voltando-se, voou em sua direção para picá-lo. Uma picada de abelha é coisa muito séria para criaturas tão pequenas. Por isso, os anões ficaram aterrorizados quando viram o enorme inseto voltar-se contra Peralta.

- Salte! ordenou o Comandante.

Peralta estava trepado no talo da flor, a um palmo do chão. Seria perigoso saltar de tamanha altura, mas assim mesmo ele saltou. Foi a sua salvação. Caiu num berço de flores e escondeu-se ali até que a abelha fosse embora. Quando não havia mais perigo, os anões puxaram Peralta para fora. Não estava machucado não, mas ficara bastante amedrontado com o perigo que correra.

- Creio que agora ele não terá mais vontade de gritar Iu-úúú! disse o Comandante.

- Nunca, nunca mais treparei em arbustos, dizia Peralta, ainda trêmulo do susto. Posso admirar as flores sem sair do chão. É mais seguro...

UM SAPO NA HORTA

O tempo se tornara muito quente e, por isso havia uma infinidade de insetos pelos arredores. O Polícia vivia atarefado em espantá-los. As portas e janelas de todas as casas ficavam fechadas para que os bichinhos não entrassem.

Um enorme besouro passou pela porta de Dona Grã-fina, e a pobre costureira quase morreu de medo.

 

Os anões afugentavam os insetos o dia inteiro, mas à noite a cidade ficava coberta de perigosos besouros. Os besouros gostavam principalmente de voar sobre a horta. Ora, a horta era lugar de muita importância para os anões. Nela é que plantavam os vegetais que comiam ou guardavam para os dias de inverno. O Doutor andava muito preocupado com isso.

Certa manhã, disse ao Comandante:

- Saiba, Senhor Comandante, que os insetos liquidaram outro tomateiro!

- Que calamidade! exclamou o Comandante. Se não acabarmos com os insetos, os insetos acabarão com a nossa horta!

- É verdade. Que devemos fazer?

- Devemos reunir um exército e guardar as plantas, disse o Comandante.

- Um sapo seria melhor, disse o Doutor.

- Um sapo? perguntaram os anões.

- Sim, um sapo, confirmou o Doutor. Os sapos procuram alimentos durante a noite. E o seu alimento são os insetos.

- Eu sei onde poderemos caçar um sapo, disse Peralta, saltando alegremente. Ele vive no mato, debaixo dum velho tronco de árvore.

- Vamos caçá-lo, disse Turco, que também ouvia a conversa.

- Precisamos esperar que chegue a noitinha, disse o Doutor. Os sapos raramente saem da toca com a luz do sol. Tenham paciência.

Aquela tarde mesmo, Peralta conduziu os anões ao lugar onde o sapo vivia. Andando cautelosamente por entre as flores, logo viram o enorme sapo sentado à sombra dum velho tronco de árvore, que ali caíra.

- Agora, murmurou o Comandante, alguns de vocês terão de se aproximar do sapo. Vão rastejando. O Tom Mix jogará o laço e todos então avançarão sobre ele para segurá-lo.

- Como? protestou Peralta. Tenho medo de que ele me morda!

- Sapos não mordem, disse o Doutor, rindo. Eles não têm dentes.

- Bem, mas eu não quero apanhar verrugas!

- Tolice, Peralta, disse o Doutor. Nunca ninguém teve verrugas por mexer com sapos.

Silenciosamente os caçadores esconderam-se sob uns cogumelos bem pertinho do sapo. A um sinal do Comandante, Tom Mix arremessou o laço à cabeça do sapo e puxou a corda até senti-lo seguro. O sapo piscou os olhos e deu um pulo. Mas Tom Mix, Marinheiro e o Polícia seguravam a corda com todas as suas forças.

- Muito bem! Firme! bradou o Comandante.

O China, o Turco e Peralta então avançaram contra o bicharoco. Mas, logo que lhe puseram a mão, o sapo saltou no ar. Peralta, que estava segurando numa de suas patas dianteiras, voou sobre os companheiros. Turco não largava a outra pata do bicho, mas o China, depois de olhar a cara feia do sapo, saiu correndo o mais depressa que pôde.

- Não quero conversa com esse monstro, disse ele ao Soldado, que pretendia impedi-lo de fugir.

A prisão do sapo deu um trabalhão. Mas eram tantos anões a puxar e repuxar o bicho, que o pobre sapo, enfim, se entregou. Em seguida, levaram-no para a horta da cidade, onde o deixaram amarrado a um tronco por um barbante comprido. Assim, o sapo poderia saltar à vontade sobre os insetos que estivessem estragando as plantas dos anõezinhos.

A verdade é que a horta ficou limpa de insetos. Logo que aparecia um, o sapo dava cabo dele. Os anões eram muito bondosos com o bicho e não tardou muito que ele se sentisse como em sua casa. Depois de alguns dias, desamarraram o barbante para que o sapo ficasse em liberdade. Era um animal muito bem-educado. Mas, pelo sim, pelo não, os anões não deixavam que as suas criancinhas se aproximassem muito dele.



- Vocês compreendem, explicava o Comandante. Um menininho dos nossos não é muito maior que uma minhoca. E como o sapo não tem vista muito boa, de repente... Vocês compreendem, não?

OS MORANGOS


Com o auxílio do sapo, e vigiando sempre a horta, os anõezinhos conseguiram livrar-se dos insetos e salvar a maior parte da colheita. Os bichos que atacavam as batatas é que eram mais difíceis de ser atacados.

Os anõezinhos tinham de combatê-los com as suas lanças, feitas de palitos pelo Soldado da perna de pau. Havia também uma espécie de vermes que atacavam os tomateiros e que davam muito trabalho aos anõezinhos. O único jeito de liquidá-los foi inventado por Tom Mix. Ele laçava a cabeça do bicho e, com a ajuda dos companheiros, puxava-o para fora. Quando chegou o outono, a horta começou a pagar os trabalhos que tinha dado, e todos os anões se sentiram orgulhosos.

      

Mas houve uma planta que não se desenvolveu: o pé de morangos. Alguma coisa acontecera com ela. Os anões estavam muito desapontados, pois gostavam de morangos e, principalmente, dos bolos que o Cozinheiro fazia com eles. Esses bolos eram feitos com grande cuidado. Não eram maiores que os doces que se vendem nas confeitarias das nossas cidades. Mas, para os anões, pareciam enormes. A massa dos bolos era assada em duas tampinhas de garrafa de leite. Quando a massa estava no ponto, o Cozinheiro espalhava sobre ela uma manteiga inventada pelos anões. Em seguida, um morango partido ao meio era posto sobre o bolo e coberto com mel de abelhas do mato. Finalmente, o segundo bolo era deitado sobre o primeiro, formando uma espécie de sanduíche de morango. Não será preciso dizer que quando um desses bolos era servido, ninguém chegava atrasado para o jantar!

Os anões não se conformavam com a falta de morangos, principalmente Peralta e Bastião. Certo dia, os dois estavam falando sobre o assunto com o China e o Pardal, quando Teo-teo, um danado dum rato que vivia nos arredores, se intrometeu na conversa.

- Amigos, disse ele, sei onde há um grande prato de morangos. Está em cima da mesa daquela casa de tijolos na rua dos homens grandes. São morangos grandes, maduros e deliciosos.

- Não queremos coisas que não nos pertençam, disse Peralta, voltando as costas ao rato e afastando-se.

Teo-teo não era um rato bem-educado. Perdera o pai e a mãe numa ratoeira quando era ainda muito pequenino e não tivera ninguém que o educasse. Crescera por isso com péssimos costumes. Bem que ele gostava de pôr os anões em apuros. Mentia sempre. Uma vez contara que tinha entrado numa casa e roera um queijo inteirinho. E era um queijo estrangeiro!

- Aposto que Teo-teo está mentindo com essa história de morangos, disse Peralta, logo que deixaram o rato.

- Eu também aposto, concordou Bastião.

- Então vamos até à casa de tijolos para ver se ele está mentindo ou não, sugeriu Peralta.

- Vamos, disse o China.

Os três correram para essa casa, passaram pelo vão da porta e procuraram a mesa onde Teo-teo dissera que estavam os morangos. Foi fácil subirem na mesa, pois todos os anões fazem muita ginástica. De fato, um grande prato cheio de morangos estava sobre a mesa. Os anõezinhos arregalaram os olhos de admiração.

- Desta vez aquele mentiroso disse a verdade! sussurrou Bastião.

- É mesmo! exclamou Peralta, que subira no prato. E são morangos de primeira qualidade!

Os morangos estavam deliciosamente maduros. Peralta não soube como resistir à tentação de furtar um deles, embora soubesse que o Comandante não aprovaria o seu ato. E começou a puxar um dos morangos para fora do prato.
- Cuidado aí embaixo! gritou. Há um morangão quase caindo do prato!

Nisso, deu um empurrão no morango, e a fruta caiu de mesa. Bastião subiu no morango e cortou um pedaço dele com o canivete que trouxera consigo.

Nesse instante, o Comandante, o Polícia e os outros anõezinhos saíram detrás do prato. O Comandante estava muito zangado. Ordenou imediatamente que os três anõezinhos repusessem o morango no prato.
- Agora, disse ele ao Polícia, leve esses três moleques para casa e meta-os na cama. Esta noite eles ficarão sem jantar. E saibam que Salta-Salta nos trouxe morangos e que o Cozinheiro está preparando um bolo com eles.

- Eu só queria saber como foi que o Comandante nos descobriu, disse Peralta a Bastião, quando iam para casa.

- Aposto que Teo-teo contou, disse Bastião. Aquele danado complica a vida da gente mesmo quando diz a verdade.

MAIOR DO QUE UM ELEFANTE

O China era um anão muito bom. Trabalhava o dia todo, lavando a roupa da população da cidade e se comportava corretamente. Era muito raro praticar algum ato mau. E quando procedia mal, ficava muito arrependido. A repreensão que o Comandante lhe passou entristeceu-o tanto que, durante muitos dias, não saiu de seu velho bule de chá.

- Andei muito mal, dizia ele constantemente. E, como castigo, devo trabalhar dia e noite. Só lavando depressa toda a roupa da cidade é que me reabilitarei.

E o anãozinho, juntando tudo quanto podia ser lavado na cidade, passava dias e noites esfregando e torcendo. Quando o sol despontava, punha a roupa no varal para secar. Vários pedaços de lápis foram fincados na terra para estirar os varais de roupa. Finalmente, num belo dia de sol, pendurou no varal as últimas peças de roupa lavada. Trabalhara tanto que nem podia ficar em pé. Sentou-se para descansar um pouco, mas acabou pegando no sono. De repente, foi acordado por um tremendo latido e pelas vozes indignadas dos anõezinhos.

Correu para fora do bule, que era a sua casa, e viu um cachorrinho que, para ele, parecia maior que um elefante. O cachorrinho tinha abocanhado um varal e vários anões queriam impedi-lo de levar a roupa. Os lápis saltavam do chão, e as peças de roupa e os pegadores estavam espalhados. O Comandante chegou correndo e pôs-se a gritar com o cachorro:

- Pare com isso! Você vai estragar toda a nossa roupa!

O cachorrinho olhava zangado para o Comandante e puxava ainda com mais força. E deu um puxão tão forte no varal que Tom Mix e o Polícia foram atirados longe. Os dois se levantaram e voltaram a segurar o varal, mas era só o que podiam fazer. Outros anões vieram ajudar e, logo mais, quase toda a população da cidade estava procurando arrancar o varal da boca do cão. Mas o cachorrinho tinha muita força.

- E’ melhor largarmos o varal, disse o Comandante, vendo que o cãozinho se movia em direção da lavandaria. Ele pode tropeçar no velho bule e isso será pior.

Os anões imediatamente largaram o varal. Aí o cãozinho deu uma violenta sacudidela com a cabeça e as roupas voaram em todas as direções. Era uma pena! As roupinhas dos anõezinhos ficariam completamente estragadas se aquele cachorro não se fosse embora. Nesse instante os anões ouviram um ruído atrás da lavanderia e viram aparecer a cabeça duma cadela entre os arbustos. Ela deu um latido e o cachorrinho largou o varal. Latiu outra vez, e os anões compreenderam que se tratava da mãe do cãozinho, que o estava repreendendo pelo estrago que fizera. O cachorrinho desapareceu atrás dos arbustos. Sua mamãe, olhando para os anões, latiu novamente. Estava pedindo desculpas pela malcriação do filhinho. E logo em seguida, desapareceu também, latindo ainda, como se passasse um “pito” no malcriado.

- Creio que ela está dando uma boa lição àquele maroto! disse o Comandante, quando cessaram os latidos da cadela.

- Que cachorrinho mau! choramingava o China. Toda a roupa está suja de novo! Tenho de lavar tudo outra vez! E eu já estava bastante castigado pelo furto dos morangos!

- Não se aborreça, disse o Comandante, tranquilizando-o. Vamos ajudá-lo a lavar a roupa novamente. Poremos os varais nos seus lugares em poucos minutos.

Os anões juntaram as peças de roupa espalhadas pelo chão. Alguns foram ajudar o China a lavá-las, enquanto outros colocavam os varais. Uma camisa do Comandante estava rasgada, uma toalha também. Afinal, os estragos não tinham sido tão grandes. Se o cachorrinho não tivesse sido repreendido por sua mãe, não se salvaria uma peça de roupa da Cidade dos Anõezinhos.

- Foi uma sorte aquele moleque não ter visto a casa-sapato! disse Tom Mix.

- E’ verdade, concordou o Polícia. Não sobraria muita coisa dentro dela depois dumas sacudidelas!

Ao cair da tarde, Salta-Salta, o pardal, veio pousar no beiral da casa-sapato. Salta-Salta era o jornal dos anões. Voava sobre todos os arredores e colhia as novidades.

- Houve um desastre aqui, disse ele. A mãe do cachorrinho me contou tudo. Ela ficou tão aborrecida com o caso, que passou um “pito” no malcriado. É uma boa mãe. Acho que o cachorrinho nunca mais lhes dará aborrecimentos.



- Nós sabíamos que o cãozinho estava apenas brincando, disse o Comandante. Mas essa brincadeira poderia acabar com a nossa cidade se ele voltasse aqui mais vezes.

- A mãe dele vai vigiá-lo, explicou Salta-Salta. Prometeu-me que ele não voltará mais.

- Será muito bom! exclamou o China. Eu não estou mais de castigo.

CONTINUA: A CIDADE DOS ANÕEZINHOS - PARTE II

 

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