|
Essas historinhas, que tanto encantaram a minha infância, resgatadas da Coleção Tesouro Infantil, da Editora Melhoramentos, foram recuperadas para comemorar o primeiro aniversário de meu netinho Guilherme Meton. Que o meu ruivinho cacheado aprecie essas historinhas, é o desejo, com muito carinho, da vovó
|
A CIDADE DOS ANÕEZINHOS - Parte I
Autor: William
Donahey
Tradução: Mário Donato e Marcos
Rei
Ilustrações do autor
Obs. Algumas ilustrações foram
modificadas, coloridas e animadas por Maux
|
Nossos Heróis
No subúrbio duma velha cidade existe uma rua que se vai estreitando, estreitando, e desemboca no campo. Logo adiante, ergue-se uma árvore enorme e, a poucos passos de distancia, estão as ruínas duma casa abandonada. O mato cresceu tanto nesse lugar que há muitos anos ninguém se aproxima dele. Antigamente havia ali um jardim bem cuidado, mas, agora, as roseiras bravas fecharam o lugar num círculo que ninguém penetra. E, dentro desse círculo, existe uma cidadezinha. A cidade é realmente pequena, com poucas casas, também pequeninas. Uma das casas, por exemplo, é apenas um sapato de homem. Sobre o sapato foi construído um segundo andar, alpendre na frente. As janelas da casa, por onde entram a luz, não são maiores do que um selo do correio.
No calcanhar do sapato está a cozinha, onde se instalou um minúsculo fogão. Nas paredes estão penduradas as caçarolas. Algumas das panelas são tão diminutas que mal podem conter duas gotas d’água. Na prateleira veem-se sopeiras, pratos e copos feitos com caroços de cereja. Há também panelas um pouco maiores, feitas de tampinhas de frascos de molho inglês ou de potinhos de azeitonas. Nessas panelas maiores pode-se cozinhar um grão de feijão inteirinho.
Na parte principal dessa esquisita casa há tapetes, cadeirinhas e caminhas. As camas não são de molas, mas mesmo assim são macias e confortáveis, pois têm colchões de paina. Os cobertores, feitos de teias de aranha, são leves e quentes. Desta casa-sapato partem vários caminhos atapetados de musgo, que passam sob as roseiras bravas. Um dos caminhos vai dar numa lata de café vazia, onde estão guardadas pequenas ferramentas. É ali que se fabricam mobílias e outras coisas de que necessitam os moradores da cidade. Outro caminho leva à casa onde estão instaladas a Escola e a Casa da Câmara. Essa casa não passa dum chapéu de homem, pintado com tinta à prova d’água. Ao seu lado, existe uma colina que mede uns cinco centímetros de altura. Há uma escada da aba do chapéu até à porta. Em volta da copa do chapéu foram abertas muitas janelas, pois um prédio como esse precisa de muita luz. À noite ele é iluminado por lanterninhas feitas de sementes de frutas.
Atrás desse edifício há um velho bule de chá. É a lavanderia da cidade. Outro caminho vai dar num subterrâneo, que serve como celeiro, ou armazém. Este depósito foi cavado sob uma colina de uns quinze centímetros. Nele é que se encontram guardados os alimentos de toda a cidade, para o inverno.
As pessoas que vivem nesta cidade são muito pequeninas, O mais alto dos seus habitantes mede cinco centímetros, e todos os outros não são maiores que um palito de fósforo dos pequenos. E, tal qual no nosso mundo de gente grande, nessa cidade há homens, mulheres e crianças. As crianças são naturalmente bem pequeninas.
Meia casca de noz é suficiente para servir de cama para um menino ou uma menina nessa cidade de anõezinhos.
O chefe da cidade traja um uniforme e é chamado de Comandante. É muito boa pessoa e, por isso, todo o povo o estima.
Há um Doutor, que cuida da saúde da população.
Há um Velho Soldado, com uma perna de pau, e que é excelente mecânico.
Turco é o seu melhor ajudante.
O Polícia passa a maior parte do tempo espantando os besouros e vigiando Peralta.
Peralta não é um mau menino, mas vive inventando travessuras.
O Cozinheiro prepara a comida para toda a cidade. E é um ótimo cozinheiro. Os seus pratos fazem a cidade inteira ficar com água na boca.
O tintureiro, que tem o apelido de China, mora no bule de chá e lava toda a roupa que lhe levam.
Dona Grã-fina é uma senhora que vive na Cidade, uma grande costureira e anda sempre bem vestida. Seu trabalho é fazer as roupas dos anõezinhos.
Ali vive também um anão chamado Tom Mix, terrível domador de ratos e gafanhotos.
O Marinheiro passa a maior parte do seu tempo na água, no seu bote feito de uma vagem de ervilha. Bastião, um anão bem moreno, é bom alfaiate e cozinheiro.
Há muitos outros homens, mulheres e crianças na cidade, e todos vivem felizes naquele mundo de coisas tão pequenas. Os anõezinhos têm todo o cuidado em não se aproximar de gente do nosso tamanho, como nós teríamos cuidado em não chegar perto de gigantes com a altura de arranha-céus. Por isso, pouca gente conhece esse estranho povo e a sua cidadezinha.
PASSANDO O
TEMPO
- Arre! exclamou Peralta. Precisamos descobrir alguma coisa que faça passar o tempo! - Para quê? perguntou Bastião, espantando uma abelha que voava perto. O tempo passa depressa quando a gente fica deitado neste musgo macio. - Ora, estou cansado de descansar! exclamou Peralta. Quero fazer alguma coisa! - Vamos nadar no rio, lembrou o Turco. - Não sou louco! respondeu Peralta. O rio está cheio de rãs e de caranguejos. Não quero perder uma perna! - Um caranguejo não iria perder tempo com você, Peralta! disse, rindo, o Marinheiro. Você nem carne tem para servir de isca! - Não! respondeu o moleque. E você que não tem carne para alimentar um mosquito?! - Olhe, Peralta, disse o Turco. Se você quer fazer alguma coisa, vá-se embora e não aborreça os outros. Peralta lançou aos companheiros um olhar cheio de raiva e afastou-se dali. Mas, não demorou muito, voltou correndo tão depressa quanto lhe permitiam as secas perninhas. - Gente! Achei uma casca de banana! Está fresquinha e serve de rinque de patinação! Uma casca de banana era sempre um achado para os anõezinhos, que gostam muito de patinar sobre ela. Três anões logo pularam ao ouvir a novidade e correram atrás de Peralta. A casca de banana estava perto da estrada que dava para a cidade da gente grande. - Não podemos brincar neste lugar, disse Turco. Está muito perto da estrada. Muitas pessoas grandes costumam passar aqui. Vamos levar a casca de banana para um lugar seguro. - Vamos arrastá-la até a casa-sapato, lembrou Marinheiro. Lá poderemos patinar à vontade. Os anões agarraram firmemente a casca de banana e puseram-se todos a puxá-la. A casca era bem pesada para eles, e só depois de muito gemer e bufar é que conseguiram levá-la para perto da casa-sapato.
- Deus do céu! exclamou Dona Grã-fina, tirando os olhos da costura. Que é que vocês vão fazer com essa casca de banana, de cheiro tão desagradável? - Vamos fazer um rinque de patinação, explicou Peralta.
Os anõezinhos estenderam a casca cuidadosamente no terreno plano e, depois, dando uma corridinha, deixavam-se deslizar sobre ela, como se patinassem no gelo. Logo, outros anões apareceram para brincar. E dali a pouco havia uma verdadeira multidão que escorregava sobre a casca de banana. Às vezes davam encontrões uns nos outros e caíam, rindo-se muito. Os outros anõezinhos que estavam por ali também se divertiam com a brincadeira. O Polícia sentou-se num banquinho armado em torno do tronco duma árvore e ria a ponto de fazer tremer todas as suas banhas. Salta-Salta, um pardal amigo dos anõezinhos, voou para o telhado da casa-sapato e dali ficou assistindo à diversão. Os anões escorregaram sobre a casca de banana até se cansarem. Depois, deitaram-se no musgo. De repente, apareceu o Comandante à porta da casa-sapato e ordenou que levassem a casca de banana para longe dali. - Ela não pode ficar aqui, disse ele. Com o calor, apodrecerá e terá mau cheiro. - Mas nós estamos cansados, explicou Peralta. Não poderíamos deixar para amanhã? - Não, respondeu o Comandante. Vocês precisam tirá-la daí antes do almoço. Ou me obedecem, ou ficam sem comer. E saibam que o Cozinheiro está fazendo uns pratos especiais para hoje.
Os anões sempre tinham muito apetite. Ainda mais nessa ocasião, em que haviam praticado tanto exercício! Assim, a casca de banana foi tirada dali em poucos minutos e levada para longe. Um anãozinho pode conformar-se com tudo, menos com a perda dum bom prato de comida!
BONS VIZINHOS - Ainda sinto o cheiro da casca de banana, na qual vocês
andaram patinando ontem, disse Dona Grã-fina, sentada em sua cadeirinha
feita de uma semente de uva.
Ela foi então arrastada até perto do riacho e coberta com
areia. Na volta, o Turco, que vinha na frente, parou de repente e ergueu a
mão:
Avançaram e viram uma ave azul pousada num galho. As
lágrimas corriam dos olhos da ave, que parecia estar sofrendo
muito. - Quem foi o ladrão? quis saber Tom Mix. Na manhã seguinte, logo cedo, continuariam o trabalho. O
revestimento do ninho seria feito com oleado. Os anões tinham esse
material num buraco onde os homens grandes atiravam as coisas que julgavam
imprestáveis.
FLORES SILVESTRES A ave, agora com seu novo ninho, sempre passava
voando sobre a Cidade. Estava atarefada com o transporte de fibras e
gramas para atapetar sua casa. Os anõezinhos acenavam para ela, muito
satisfeitos. O China, da lavandaria, até parava de trabalhar para
acompanhar o voo do pássaro com os olhos. O velhinho estava confortavelmente embrulhado num cobertor e, ao seu lado, num pote feito de casca de avelã, brotava uma arvorezinha anã.
Vovô só saía de casa quando chegava a primavera e
começava o bom tempo.
Ali, no bosque, eles estavam à vontade e caminhavam
dum lado para outro, admirando as flores que despertavam para a vida.
Havia flores de todas as espécies, e a respeito de cada uma delas o Doutor
dava uma explicação. De repente, o Comandante disse: A abelha certamente não ia molestar Peralta. Mas o
moleque provocou-a, e ela, voltando-se, voou em sua direção para picá-lo.
Uma picada de abelha é coisa muito séria para criaturas tão pequenas. Por
isso, os anões ficaram aterrorizados quando viram o enorme inseto
voltar-se contra Peralta.
UM SAPO NA HORTA O
tempo se tornara muito quente e, por isso havia uma infinidade de insetos
pelos arredores. O Polícia vivia atarefado em espantá-los. As portas e
janelas de todas as casas ficavam fechadas para que os bichinhos não
entrassem.
Um enorme besouro passou pela porta de Dona Grã-fina, e a pobre costureira quase morreu de medo. Os
anões afugentavam os insetos o dia inteiro, mas à noite a cidade ficava
coberta de perigosos besouros. Os besouros gostavam principalmente de voar
sobre a horta. Ora, a horta era lugar de muita importância para os anões.
Nela é que plantavam os vegetais que comiam ou guardavam para os dias de
inverno. O Doutor andava muito preocupado com isso. Aquela tarde mesmo, Peralta conduziu os anões ao
lugar onde o sapo vivia. Andando cautelosamente por entre as flores, logo
viram o enorme sapo sentado à sombra dum velho tronco de árvore, que ali
caíra. A
prisão do sapo deu um trabalhão. Mas eram tantos anões a puxar e repuxar o
bicho, que o pobre sapo, enfim, se entregou. Em seguida, levaram-no para a
horta da cidade, onde o deixaram amarrado a um tronco por um barbante
comprido. Assim, o sapo poderia saltar à vontade sobre os insetos que
estivessem estragando as plantas dos anõezinhos. A verdade é que a horta ficou limpa de insetos. Logo que aparecia um, o sapo dava cabo dele. Os anões eram muito bondosos com o bicho e não tardou muito que ele se sentisse como em sua casa. Depois de alguns dias, desamarraram o barbante para que o sapo ficasse em liberdade. Era um animal muito bem-educado. Mas, pelo sim, pelo não, os anões não deixavam que as suas criancinhas se aproximassem muito dele.
OS MORANGOS Com o auxílio do sapo, e vigiando sempre a horta, os anõezinhos conseguiram livrar-se dos insetos e salvar a maior parte da colheita. Os bichos que atacavam as batatas é que eram mais difíceis de ser atacados.
Os anõezinhos tinham de combatê-los com as suas lanças, feitas de palitos pelo Soldado da perna de pau. Havia também uma espécie de vermes que atacavam os tomateiros e que davam muito trabalho aos anõezinhos. O único jeito de liquidá-los foi inventado por Tom Mix. Ele laçava a cabeça do bicho e, com a ajuda dos companheiros, puxava-o para fora. Quando chegou o outono, a horta começou a pagar os trabalhos que tinha dado, e todos os anões se sentiram orgulhosos.
Mas
houve uma planta que não se desenvolveu: o pé de morangos. Alguma coisa
acontecera com ela. Os anões estavam muito desapontados, pois gostavam de
morangos e, principalmente, dos bolos que o Cozinheiro fazia com eles.
Esses bolos eram feitos com grande cuidado. Não eram maiores que os doces
que se vendem nas confeitarias das nossas cidades. Mas, para os anões,
pareciam enormes. A massa dos bolos era assada em duas tampinhas de
garrafa de leite. Quando a massa estava no ponto, o Cozinheiro espalhava
sobre ela uma manteiga inventada pelos anões. Em seguida, um morango
partido ao meio era posto sobre o bolo e coberto com mel de abelhas do
mato. Finalmente, o segundo bolo era deitado sobre o primeiro, formando
uma espécie de sanduíche de morango. Não será preciso dizer que quando um
desses bolos era servido, ninguém chegava atrasado para o
jantar! Os
anões não se conformavam com a falta de morangos, principalmente Peralta e
Bastião. Certo dia, os dois estavam falando sobre o assunto com o China e
o Pardal, quando Teo-teo, um danado dum rato que vivia nos arredores, se
intrometeu na conversa. Os
três correram para essa casa, passaram pelo vão da porta e procuraram a
mesa onde Teo-teo dissera que estavam os morangos. Foi fácil subirem na
mesa, pois todos os anões fazem muita ginástica. De fato, um grande prato
cheio de morangos estava sobre a mesa. Os anõezinhos arregalaram os olhos
de admiração.
Nesse instante, o Comandante, o Polícia e os outros
anõezinhos saíram detrás do prato. O Comandante estava muito zangado.
Ordenou imediatamente que os três anõezinhos repusessem o morango no
prato. MAIOR DO QUE UM ELEFANTE
O China era um anão muito bom.
Trabalhava o dia todo, lavando a roupa da população da cidade e se
comportava corretamente. Era muito raro praticar algum ato mau. E quando
procedia mal, ficava muito arrependido. A repreensão que o Comandante lhe
passou entristeceu-o tanto que, durante muitos dias, não saiu de seu velho
bule de chá. E o anãozinho, juntando tudo quanto podia ser lavado na cidade, passava dias e noites esfregando e torcendo. Quando o sol despontava, punha a roupa no varal para secar. Vários pedaços de lápis foram fincados na terra para estirar os varais de roupa. Finalmente, num belo dia de sol, pendurou no varal as últimas peças de roupa lavada. Trabalhara tanto que nem podia ficar em pé. Sentou-se para descansar um pouco, mas acabou pegando no sono. De repente, foi acordado por um tremendo latido e pelas vozes indignadas dos anõezinhos.
Correu para fora do bule, que era a sua
casa, e viu um cachorrinho que, para ele, parecia maior que um elefante. O
cachorrinho tinha abocanhado um varal e vários anões queriam impedi-lo de
levar a roupa. Os lápis saltavam do chão, e as peças de roupa e os
pegadores estavam espalhados. O Comandante chegou correndo e pôs-se a
gritar com o cachorro: Os anões juntaram as peças de roupa
espalhadas pelo chão. Alguns foram ajudar o China a lavá-las, enquanto
outros colocavam os varais. Uma camisa do Comandante estava rasgada, uma
toalha também. Afinal, os estragos não tinham sido tão grandes. Se o
cachorrinho não tivesse sido repreendido por sua mãe, não se salvaria uma
peça de roupa da Cidade dos Anõezinhos.
|
CONTINUA: A CIDADE DOS ANÕEZINHOS - PARTE II