Essas historinhas, que tanto encantaram a minha infância, resgatadas da Coleção Tesouro Infantil, da Editora Melhoramentos, foram recuperadas para comemorar o primeiro aniversário de meu netinho Guilherme Meton.

Que o meu ruivinho cacheado aprecie essas historinhas, é o desejo, com muito carinho,

da vovó

 

 

A CIDADE DOS ANÕEZINHOS - Parte II

Autor: William Donahey
Tradução: Mário Donato e Marcos Rei
Ilustrações do autor
Obs. Algumas ilustrações foram modificadas, coloridas e animadas por Maux

 

A GRANDE PESCARIA

O China gostava de pescar, mas, lembrando-se do furto dos morangos, não tinha coragem de ir divertir-se. Peralta sempre o convidava para uma pescaria, mas ele não aceitava.

- Não, não. Sou um homem muito mau. Furtei aqueles morangos, lembra-se? Tenho de ser castigado! respondeu a Peralta certo dia.

- Mas, disse Peralta, eu gosto de pescar com você. E você, para castigar-se a si próprio, está castigando a mim também.

- Está bem, disse o China. Eu não quero castigar você pelo que fiz. Por isso vou pescar com você. Já tive bom castigo, lavando a roupa que o cãozinho sujou. Irei.

- Então vamos, disse Peralta.

E os dois anões correram para a oficina onde apanharam uma vara com linha. Ao passar pela casa-sapato, viram o Comandante.



- Comandante, anunciou Peralta, faça o favor de avisar o Cozinheiro que teremos peixe para o jantar.

- Você parece estar muito convencido, disse, sorrindo, o Comandante. Trate primeiro de pescar, depois conte prosa.

- O senhor vai ver! respondeu Peralta. Eu e o China somos grandes pescadores!

- Então, felicidades! desejou o Comandante.

Peralta e o China se dirigiram para o riacho que corria pelo campo, à pequena distância da Cidadezinha dos Anões. Os dois homenzinhos, do tamanho do nosso dedo mindinho, seguiram por uma picada entre as flores silvestres e o capim. Peralta levava a vara como se fosse uma carabina e procurava pelo chão uma isca. Nesse momento, viu um besourinho e o caçou com o chapéu.

- Boa isca, disse o China. Os peixes gostam muito de besourinhos.

Os dois anõezinhos continuaram o seu caminho através do mato e só pararam junto a uma enorme pedra, quase do tamanho dum melão, que estava à beira do riacho. Amarraram a linha na ponta da vara, colocaram o besourinho no anzol e montaram a cavalo num tronco que se debruçava sobre as águas. Peralta deixou o anzol mergulhar no riacho.

- Peguei! Peguei! berrou ele.

Estava tão alegre que quase caiu n’água. O China ajudou-o a segurar a vara com firmeza, mas os dois juntos não tinham força para puxar o peixe fora d’água.

- Corra e traga auxílio! gritou Peralta. Ficarei segurando até que venha mais gente!

- Já estou correndo! gritou o China, e pôs-se a correr através do capinzal, com a sua trança esvoaçando no ar.

- Socorro! Socorro! Grande peixe! Muito grande! gritava ele, enquanto corria. Socorro!

- Que foi que houve? perguntou Tom Mix, que estava consertando uma canoa feita de vagem de ervilha.

- Peralta fisgou um peixe muito grande e precisa de auxílio, disse o Comandante, que já ouvira os gritos do China.

Imediatamente, acompanhado de vários anões, o Comandante marchou em direção do riacho. Já estavam todos eles subindo pela pedra acima quando viram que um enorme pássaro descia e avançava sobre o peixe. Num piscar de olhos, o pássaro desceu e agarrou o peixe com o bico. Peralta, que segurava fortemente a vara foi suspenso também. Por sorte, o anzol se desprendeu da boca do peixe, e o anãozinho caiu no riacho. Como era bom nadador, chegou depressa à margem. Mas estava muito zangado.

- Tomara que ele se engasgue com o peixe! disse Peralta, pingando água.

- Bem, afinal, ele tem tanto direito a comer o peixe quanto você! disse o Polícia.

- Não, senhor! berrou Peralta. Eu pesquei o peixe. O peixe era meu!

- Os peixes são daqueles que os levam para a terra, disse o Comandante, rindo. Ou, para ser mais exato: pertencem a quem os leva para o alto. Olhem o pássaro! E apontou para a ave, que agora estava empoleirada num galho próximo.

O fato é que o pobre pássaro estava passando apuros com o peixe que furtara. Como o peixe era muito grande, ele tinha de fazer milagres para poder engoli-lo. Sacudia a cabeça dum lado para outro, para frente e para trás; sacudia-se todo, sapateava, dançava sobre o galho da árvore, e não engolia o peixe. Embora os anõezinhos vissem a triste situação do pássaro, não podiam deixar de rir. A cena era mesmo muito engraçada! Até Peralta ria. 

Finalmente, quando o pássaro conseguiu engolir o peixe, todos os anões bateram palmas. O pássaro voltou-se para os anões e fez-lhes uma reverência, agradecendo ao mesmo tempo o peixe e os aplausos.

Peralta apanhou novamente a vara e, logo que o pássaro levantou voo tratou de pescar outro peixe. Fisgou logo um lambari e, com a ajuda dos companheiros, puxou-o para fora d'água. O peixinho dava para alimentar toda a população da Cidade. Depois de limpá-lo, o Cozinheiro preparou-o para o jantar. Todos os anões concordaram em dizer que nunca tinham comido melhor peixe em toda a sua vida. E concordaram também noutra coisa: que era melhor come-lo com garfo e faca do que da forma pela qual o passarinho comia.

UMA PISCINA DE INVERNO

O tempo começou a esfriar e os anões deixaram de frequentar a piscina. Essa piscina não passava duma terrina velha que haviam encontrado. Com muito sacrifício, fazendo-a deslizar sobre tocos de lápis, levaram-na para um lugar fresco, sob as árvores. Em cima, construíram uma plataforma e um trampolim. A terrina não era maior do que essas que usamos em nossas casas, mas para eles era tão grande como um oceano.

A chuva mantinha a terrina constantemente cheia d’água. E os anões se divertiam nela durante todo o verão, exceto uma vez, quando não choveu e um cachorro sedento bebeu toda a água. Mas agora estava muito frio e os anões não podiam banhar-se diariamente ao ar livre. A água foi tirada para fora, para que não gelasse. Quando a água gela precisa de lugar maior e isso faria quebrar a terrina. Todas as roupas de banho foram, por isso mesmo, guardadas.

Não muito longe da Cidade de gente grande havia um buraco onde jogavam fora coisas imprestáveis. Os anões frequentemente iam até lá e sempre achavam objetos de utilidade para eles. Com a tampinha de um frasco de molho podiam fazer ótima tina para a lavandaria do China, ou uma caçarola para o Cozinheiro. Pedaços de vidro serviam para fazer vidraças da casa-sapato. E de pregos velhos se faziam excelentes alavancas.



Certa manhã, Peralta e Tom Mix acharam uma velha xícara de chá. Era quase tão boa como uma nova, mas lhe faltava a asa, que fora quebrada.

- Amigos! exclamou Peralta, Tive uma ideia!

- Saia daí antes que você se machuque, recomendou Mix.

- Vamos levar esta xícara para a Cidade e fazer com ela uma piscina de inverno! acrescentou Peralta.

- Ninguém pode nadar dentro duma xícara, disse Tom.

- Mas é melhor uma xícara do que nada, argumentou o moleque. Podemos arrastá-la até perto do depósito e depois colocá-la sobre a lata de doces em calda. Basta abrir um buraco na lata e acender fogo dentro dela. E aí teremos uma piscina d’água quente!

- Mas onde arranjaremos água para encher a xícara? perguntou Tom Mix.

- No riacho, respondeu Peralta.

- Dará muito trabalho, disse Tom Mix. Teríamos de baldear sessenta ou setenta dedais d’água para encher a xícara.

- Sim, mas acho que a ideia é muito boa! Vou falar ao Comandante.

Naquela tarde mesmo Peralta falou ao Comandante a respeito da piscina de inverno. Ele ouviu todo o plano e sacudiu a cabeça.

- Não creio que isso dê certo, disse. A água gelaria e partiria a xícara, a não ser que o fogo da lata ficasse aceso durante todo o inverno. Mas, mesmo que fizéssemos fogo, ele não seria suficiente para aquecer a água com este frio.

- Ora, ora! exclamou Peralta. De qualquer jeito devemos experimentar.

- Vou dar-lhe uma ideia, disse o Doutor, com pena de Peralta. Ontem estive na casa dum homem grande, para medicar um rato que tomara veneno. E vi que a torneira da pia não funcionava bem, deixando gotejar água o dia inteiro. Os moradores da casa passam o dia fora. Basta tapar a pia para termos uma bela piscina à nossa disposição.

- O senhor nos deixa fazer isso? perguntou Peralta ao Comandante.

- Deixo, se vocês não fizerem estragos na casa, respondeu ele.

- Podemos ir agora? tornou a perguntar Peralta.

- Já é muito tarde, disse o Doutor. O rato me disse que a família sai de casa às oito e meia, mas volta às cinco e meia em ponto.

- Está bem. Iremos amanhã, concordou Peralta. E saiu levar a boa notícia aos amigos.

Na manhã seguinte, com as suas roupas de banho, os anõezinhos foram para a casa em companhia do Doutor. Passaram por baixo da porta e procuraram o banheiro. Foi muito difícil subir até a pia, mas Turco, que era verdadeiro atleta, subiu primeiro e, depois, ajudou os companheiros. As mulheres vestiram os seus trajes de banho atrás da torneira, enquanto os homens se trocaram atrás do sabonete. Quatro dos anões mais fortes taparam a pia e, depois duma longa espera, ela ficou cheia d’água. As torneiras da pia serviam de trampolins.

- Por que não tira o chapéu? perguntou o Soldado a Peralta quando este ia mergulhar.

- Eu, não, respondeu ele. Tenho medo de bater com a cabeça no fundo da pia.

- Nem que você quisesse, conseguiria isso, disse Tom Mix rindo. A pia tem quinze centímetros de profundidade.

Os pequenos nadadores tentaram várias vezes atingir o fundo da piscina, mas nenhum deles o conseguiu. Os anões todos se divertiram muito nessa nova piscina. Aquele dia seria perfeito se um menino não tivesse escorregado no sabonete e batido com a cabecinha na torneira. Quando se cansaram de nadar, o Comandante ordenou que destapassem a pia. Recomendava ele:

- Devemos deixar tudo direitinho como encontramos.

Mas a tampa tinha sido tão bem colocada que nem todos juntos conseguiam tirá-la. Só depois de muito puxarem é que ela saiu, e a água escorreu, esvaziando a pia.

Os anõezinhos voltaram a nadar muitas vezes naquela maravilhosa piscina. E os moradores da casa nunca pensaram que a pia de sua casa proporcionasse tão grande alegria àquela pequenina gente. Uma vez, Peralta esqueceu a sua roupa de banho pendurada na torneira. Mas a dona da casa, pensando que aquilo fosse um simples fiapo de pano, jogou-a fora. Mesmo que examinasse aquele fiapo, ela nunca descobriria que se tratava de um maiô de anãozinho.

DIA DE SORTE PARA OS ANÕES

O vento assobiava sobre a casa-sapato. Um raio de luz que saía da janela fazia os flocos de neve brilharem como enfeites de árvore de Natal. A noite estava gelada, mas dentro da casa- sapato havia calor e conforto.

- Não seria nada mau um bolo de nozes esta noite! disse o Doutor, atirando ao fogo da lareira uma lasca de madeira.



- Ou um belo pedaço de pão-de-ló coberto de açúcar! suspirou Peralta, deitado diante da lareira, sobre uma casquinha de besouro.

Dona Grã-fina levantou os olhos do lenço que estava bordando. O lenço não era maior que a quarta parte dum selo de carta.

- Eu prefiro um pedaço de sonho! disse ela, sorrindo.

- Bem, não adianta a gente querer doces que levam ovos, disse o Cozinheiro. Não temos nem cheiro de ovos em casa. Estão custando muito caro. Dona Galinha cobra cento e cinquenta grãos de milho por um ovo apenas!

  

- Tem razão, disse o Comandante. Não podemos pagar tão caro. Mas não seria nada mal se a gente pudesse comer um pedaço de ovo frito com uma fatia de presunto e biscoitos, nessas manhãs frias!

- Bem, continuem com essa conversa à toa, que eu vou para a cama, disse o Soldado. Tenho de levantar cedo para arranjar lenha.
E começou a subir a escada, fazendo um barulhão danado com a sua perninha de pau.

Durante todo o inverno a lareira permaneceu acesa, e isso dava trabalho. Os anõezinhos precisavam estar constantemente catando tocos e varetas, que partiam em pedacinhos para alimentar o fogo. Bem cedinho, todas as manhãs, saíam para arranjar lenha.

 

Um dia, antes do almoço, os anões já tinham empilhado vários pegadores de roupa e uma lasca de vassoura. Peralta, que trazia às costas um pincelzinho velho, andava depressa porque estava atrasado. De repente parou. Tinha ouvido o cacarejar de uma galinha.

De fato, Dona Galinha enfiava a cabeça pela cerca de arame. Os anões não sabem manter conversa com galinhas, mas conseguem entendê-las.

- Ela tem sede, resmungou Peralta. O frio gelou a água onde ela bebe. Pois que morra de sede! Nenhuma galinha que cobra cento e cinquenta grãos de milho por um ovo merece socorro!

E afastou-se rapidamente. Estava ansioso para chegar a casa, aquecer-se junto da lareira e contar a novidade aos companheiros.

- Bem feito para ela! Aquele traste velho com bico! resmungava ele, enquanto corria.

- Você me surpreende, Peralta! disse o Comandante, depois de ouvir a história. Você é um vizinho ruim. Se Dona Galinha está em apuros, temos de ajudá-la.

- Mas a danada bica a gente! exclamou o menino.

- Isso não será razão para que não a ajudemos. Depois do almoço iremos quebrar o gelo da panela para que Dona Galinha possa beber.

Todos concordaram com o Comandante e, depois de terem almoçado, foram para o local onde vivia Dona Galinha.

- Bom-dia, minha senhora, disse o Comandante, fazendo um profundo cumprimento. Viemos quebrar o gelo para que a senhora possa beber água.

Dona Galinha cacarejou durante alguns segundos, para demonstrar que compreendera e que estava agradecida. Os homenzinhos trouxeram uma escada comprida e um deles arranjou um machado. Num instante, o Turco fez um buraco no gelo. A galinha enfiou o bico no buraco e bebeu tanta água que os anões ficaram alarmados.

- Ela arrebenta já e já! disse Peralta, espantado com a sede da galinha.

Depois de matar a sede, Dona Galinha fez aos anõezinhos sinal para que a acompanhassem e levou-os até à porta do seu ninho. Com muitos cacarejos de agradecimento, ofereceu-lhes um ovo. O Comandante, muito delicadamente, recusou, disse que não aceitariam nenhum pagamento pelo obséquio que lhe tinham prestado. Mas Dona Galinha insistiu tanto, que ficaria zangada se ele não aceitasse, que o Comandante enfim, concordou em levar o ovo para a Cidade.

O Comandante agradeceu o presente e disse a Dona Galinha que mandaria buscar o ovo. Os anõezinhos trouxeram um trenó ao terreiro e o fizeram passar através dum buraco que havia na cerca de arame. O ovo foi colocado sobre o trenó e coberto com várias peças de roupa dos anões, para que não partisse. Não foi fácil transportá-lo até à Cidade. Mas, finalmente o ovo chegou ao celeiro e foi guardado cuidadosamente.

O Cozinheiro fez bolo de nozes, pão de ló e sonhos, além de outras espécies de doces da predileção dos anões. O Comandante passou a comer ovo frito com presunto, como desejava.

E, todas as noites, quando havia reunião em torno da pequena lareira, os homenzinhos comiam doces e falavam da gentileza da galinha. Peralta, que comia mais do que devia, às vezes até ficava doente.

CAVALOS NÃO SOBEM EM ÁRVORES

A lareira dos anões era pequena, mas nem por isso deixava de devorar pilhas e pilhas de lenha. Os homenzinhos viviam continuamente à procura do que queimar. Perto da cozinha havia de reserva um grande monte de lenha, pois quando a neve cobria a terra não se encontravam pedaços de madeira nem galhinhos de árvore. Por isso, os anões estavam sempre procurando e rachando lenha.

Um dia, Turco encontrou um punhado de pegadores de roupa. Para os homens-mirins, um pegador de roupa era de tamanho descomunal e dava para alimentar a lareira muito tempo. O Comandante contratou dois ratos para que transportassem os pegadores. Depois, diante da casa-sapato, os anões racharam os pegadores em pedacinhos, para que coubessem na lareira.

Era uma verdadeira sorte terem encontrado esse carregamento de madeira, porque as chuvas se aproximavam e a terra estava completamente coberta pela neve. Nevava a noite toda e, de manhã, a casa-sapato parecia ter desaparecido sob a neve. Só se via a sua chaminé.

Dentro da casa, os anões precisavam acender as suas lanternas, pois a escuridão era tão grande, que nem distinguiam os alimentos no prato, na hora das refeições.

- Comi muito bem! exclamou o Comandante, sentado à mesa, sobre a qual se viam pães de milho, toucinho defumado e um bulezinho de chá. Vamos ter um trabalhão para remover toda essa neve!

Depois da refeição, os anões vestiram as suas roupas mais quentes e apanharam as pás no depósito. Por meio de uma escada subiram ao telhado, que estalava com o peso da neve acumulada. De lá de cima podiam ver o bico do velho bule de chá desprendendo fumaça. Isso queria dizer que o China não tinha morrido de frio.Os anões eram tão pequenos e leves que não afundavam na neve, como aconteceria com a gente grande. O Comandante subiu à parte mais alta do telhado para ver se o China precisava de auxílio. E dali viu que o China se levantara cedo e, com a sua pá, removera a neve da porta e das janelas, para que entrassem ar e luz na sua casa.



Com tantos anões trabalhando, o telhado, as portas e janelas da casa-sapato logo ficaram sem um pingo de neve.

Dona Grã-fina, com seu vestido de lã, subiu pela montanha de neve que os anões tinham feito ao lado da casa.

- Oh, como é lindo! exclamou ela. Bem que poderíamos dar um giro de trenó!

- E por que não? disse o Comandante. Temos um trenó e podemos pedir ao Ticho para puxá-lo.

Todos aprovaram a ideia e desenterraram o trenó da neve. O trenó não passava da tampa duma pequena caixa de papelão. Muitas vezes eles pediam ao Ticho, um pequeno esquilo, que o puxasse como se fosse um cavalinho. Tom Mix subiu à árvore onde Ticho morava e discutiu com ele os planos do passeio. E o esquilo concordou em puxar o trenó em troca de duas nozes e cinco grãos de milho. Era barato.

Enquanto isso, as mulheres trouxeram travesseiros, cobertores e mantas para forrar o trenó. Quando Ticho desceu da árvore, Tom Mix prendeu-o com os tirantes ao trenó. O esquilo gostava de brincadeiras quase tanto quanto os anõezinhos. Quando deram o sinal de partida, ele partiu rápido como um raio. Os anões riam e gritavam de contentamento.

Todos gostaram muito da corrida. Gostaram até do que aconteceu no caminho de volta, quando o trenó virou. A princípio, esse desastre os assustara. Mas como ninguém se machucou, acabaram achando graça. Foi assim que aconteceu. O Ticho estava correndo sob um arvoredo quando ouviu um latido. Como tinha muito medo de cachorros, procurou um lugar para esconder-se, esquecendo-se de que estava preso ao trenó. E sem que ninguém esperasse, subiu a uma árvore. O trenó virou e atirou todos os anões por terra. Por sorte, ninguém se feriu, e tudo acabou no meio de boas gargalhadas. Os anões juntaram novamente os travesseiros, cobertores e mantas. Mas não foi fácil convencer ao esquilo que descesse da árvore.

- Não gosto de puxar trenó quando há um cachorro atrás de mim, explicou o esquilo. Só descerei quando tiver a certeza de que não existe mais perigo.

Felizmente não se ouviram mais os latidos do cachorro, e Ticho saltou para o chão. Os anões subiram de novo no trenó, enquanto Tom Mix punha em ordem os tirantes que prendiam o esquilo.

- Se ouvirem outro latido, saltem logo para que eu possa subir pela árvore, avisou Ticho.

Quando chegaram à casa-sapato, os anões estavam mortos de fome. O Cozinheiro acendeu o fogo e preparou uma panela de sopa, feita de toucinho e três feijões. Assim que a sopa ficou pronta, serviu a todos, enchendo os seus pratinhos, que tinham sido fabricados com sementes de cereja. Todos os anões achavam que a corrida fora muito divertida. Mas esperavam, da próxima vez, contratar um cavalinho que não trepasse em árvores.

UVAS AZEDAS

Durante o inverno, os anões passavam a maior parte do tempo em torno da lareira. Como eram leves, podiam andar facilmente sobre a neve, mas preferiam ficar em casa. Alguns deles matavam o tempo trabalhando na oficina, instalada na lata de café.

Para conservar a oficina aquecida, Turco improvisara um fogãozinho dum centímetro de altura. Nessa oficina eles consertavam as suas mobílias e fabricavam as peças de que precisavam. O Doutor também costumava trabalhar lá. Era na oficina que preparava os seus remédios com ervas e raízes, pois os anõezinhos ficavam doentes como a gente grande. Não foram poucos os homenzinhos que adoeceram no inverno. O Doutor teve quatro casos gravíssimos de sarampo. Marinheiro ficou com caxumba. Outros tiveram dor de ouvidos.

- Creio que estamos comendo muitos bolos e coisas secas, disse o Doutor, uma tarde, falando sobre a saúde da população, diante da lareira.

- É verdade, disse o Cozinheiro. Todas as manhãs preparo um dedal de bolo e, na hora de dormir, vejo que não sobrou nada. Precisamos de menos bolos e mais frutas frescas.

- Exatamente, concordou o Doutor. Mas não podemos arranjar frutas frescas.

- Ainda nos restam algumas maçãs, não é? perguntou o Comandante.

- Temos muitas maçãs, mas ninguém quer comê-las, explicou o Cozinheiro.

- Estamos enjoados de maçã! gritou Peralta. Maçã frita, recheada, molho de maçã... Já estamos fartos de tanta maçã!

   

Peralta tinha razão. Os anões estavam enjoados de tanta maçã. Mas a verdade é que não podiam escolher. Não podiam ir ao armazém, como fazemos nós. Tinham que guardar no celeiro quase todos os alimentos de que precisavam no inverno e as maçãs eram a única fruta de que dispunham. As cerejas e pêssegos tinham secado e não podiam ser consideradas frutas frescas. Peralta achava que todos tinham absoluta necessidade de frutas frescas, e ele, especialmente. E por isso resolveu procurar uma solução para o caso. Andou segredando com Bastião e quis falar também com China. Mas este, lembrando-se do caso dos morangos, não quis saber de conversas.

- O Doutor disse que precisamos de frutas frescas, argumentava ele. E nós estamos enjoados de tanta maçã. Proponho uma coisa: procuramos frutas frescas na casa dos homens grandes. Eles sempre têm frutas em casa. Um pedacinho de fruta não lhes faria falta, e a nós daria saúde e alegria!

- Não devemos fazer isso, disse Bastião. O Comandante vai ficar zangado se furtarmos frutas.

- O caso agora é diferente, replicava Peralta. Não vamos furtar para nós. Vamos tirar para salvar a vida dos anõezinhos. Não tiraremos nem um pedacinho para nós. Levaremos tudo ao Comandante.

- É claro que gosto de frutas frescas, disse Bastião. Mas gosto ainda mais de não ser repreendido pelo Comandante.

Mas as palavras de Peralta convenceram Bastião de que todos os anões morreriam de fome e fraqueza se não arranjassem frutas frescas imediatamente.

- Talvez você esteja com a razão, disse ele. Penso que esteja mesmo certo no que diz.

E se dirigiram para a casa dos homens grandes. Os dois anõezinhos visitaram muitas casas, até que, numa delas, sobre a mesa de jantar, encontraram um grande prato cheio de uvas. Peralta escolheu a maior delas.

- Vamos levar só um bago de uva, disse ele. Esta uva dará uma boa fatia para cada um de nós. Naturalmente que ganharemos uma fatia maior, em paga do nosso trabalho.

Peralta desceu a uva para o chão, com o auxílio de um barbante. E, depois de pô-la aos ombros, marchou para a casa-sapato, seguido de Bastião.

- Já temos fruta fresca! exclamou ele, entrando em casa.

- Onde arranjou essa uva? quis saber o Comandante.

- O Doutor disse que precisávamos de frutas frescas. Encontrei esta, por acaso, numa das casas grandes. Os moradores não notarão a sua falta. Mesmo que notassem, não se importariam, sabendo que dela depende a nossa saúde.

- Não queremos fruta furtada, disse o Comandante, suspeitando que Peralta estivesse mais interessado em satisfazer a sua gulodice do que salvar os anões. Ficamos muito agradecidos a você por se lembrar da nossa saúde, mas não queremos nada que não nos pertença. Leve a uva de volta!

Apesar de todos os argumentos de Peralta, o Comandante fez com que ele levasse a uva de volta para a casa donde a tirara. Mas Peralta não foi sozinho: acompanharam-no vários anões, inclusive o Comandante. E todos se divertiram muito, pois Peralta, volta e meia, repetia os seus argumentos a favor da uva e da saúde dos anões.



- Não sou capaz de levar a uva para cima da mesa! gemeu ele quando chegaram à casa. Ê muito pesada.

- Mas você foi capaz de descê-la, disse o Comandante. Agora faça o contrário.

Peralta amarrou uma ponta do barbante no cabinho da uva e, com a outra ponta entre os dentes, subiu na mesa, seguido de todos os outros anões. Puxou a uva e fez então o seu último apelo em favor da saúde da Cidade dos Anões.

- Não! disse o Comandante. Esta uva não é nossa. Coloque-a novamente no prato.

- Bem, disse Peralta. Se todos os anões ficarem doentes por falta de um pedacinho de fruta fresca, eu não sou o culpado.

- Eu me responsabilizo, disse o Comandante, fazendo sinal aos anões para que descessem da mesa.<

- Sinto muito, Peralta, disse ele, quando todos voltavam para a casa-sapato. Mas a uva não nos pertencia e não seria justo que ficássemos com ela.

- Está bem, Comandante, resmungou Peralta. Mas também aquelas uvas tinham jeito de ser muito azedas...

UM PIQUENIQUE

A entrada da primavera trouxera chuvas.

Chovera mais de uma semana sem parar e tudo, tudo na Cidade dos Anõezinhos estava ensopado de água.

Às vezes a chuva parava um pouco, mas logo em seguida voltava a cair com mais força. No entanto, as casinhas da Cidade ofereciam todo o conforto aos seus moradores, e os anões se distraíam com as suas diferentes ocupações. O velho Soldado de perna de pau serrava um palito de fósforo para com ele consertar uma cadeira da sala de jantar, que se quebrara. Turco e Bastião faziam novos arreios para ratos, aproveitando um pedaço de pele de rã bastante resistente, que haviam curtido no verão passado. Dona Grã-fina tecia um par de meias com fios de teia de aranha, e as outras mulheres remendavam roupas.

Tom Mix fazia uma sela nova para os ratos que costumava montar. Era do que ele mais gostava: montar um rato fogoso e sair em disparada pelo mato a dentro! As crianças brincavam. O Cozinheiro preparava deliciosos petiscos. Todos, porém, estavam aborrecidos com aquele descanso forçado e ansiosos para sair de casa. Isso, no entanto, era muito perigoso para eles, pois, como não eram maiores que um palito de fósforo, bastava uma gota para encharcá-los dos pés à cabeça.

- Ora bolas! dizia Peralta, olhando pela janela da sala de visitas da casa feita de um sapato. Está começando o aguaceiro de todos os dias. E você pensava que a chuva fosse parar...

- Parece que amanhã não choverá mais, disse o Doutor, aproximando-se da janela.

- Deus queira, disse Peralta. Quero passear pela floresta e ver as flores da primavera. Devem estar lindas!

- Eu também gostaria de ir, Peralta, disse Dona Grã-fina. Tenho a certeza de que os trevos e as violetas já se abriram.

- Um passeio nos fará bem, disse o Comandante. Logo que a chuva parar, faremos um piquenique no campo.

- Viva! bradou Peralta, acompanhado pelos companheiros, que eram doidos por piqueniques.

Realmente, parou de chover durante a noite, e a manhã despontou com um sol brilhante.

 

Dona Grã-fina e o Cozinheiro encheram as cestas com merendas.

Em uma das cestas ela pôs sanduíches de presunto de perna de sapo. Em outra cesta colocou ele bolos e pastéis. Levariam também três jarros feitos de sementes de cereja, cheios de molho, e meio dedal de chá.

- Onde faremos o piquenique? perguntou o Polícia, depois de tudo pronto.

- Em pleno bosque, é claro, disse Dona Grã-fina.

- Não é muito longe? tornou a perguntar ele.

- É longe, mas lá é que estão as flores mais belas, respondeu Dona Grã-fina.

- É mesmo, confirmou Peralta. Lá é que veremos trevos, bocas-de-leão e muitas outras flores! 

- Está bem, concordou o Polícia.

Ele e Bastião partiram carregando o dedal de chá.

Todos os demais companheiros foram atrás deles. Depois de uma boa caminhada, chegaram, afinal, ao bosque. Escolheram um belo lugar sombreado, junto de um tronco caído, para o piquenique.

Esconderam as cestas de comida debaixo dos galhos de um pé de morango, e foram à procura das flores. Tiveram sorte, pois acharam trevos, margaridinhas e moitas de violetas roxas, amarelas e brancas.

    

- Estou morto de fome, disse Peralta, logo que os companheiros se dispersaram pelo bosque. Não vamos comer agora?

- Ainda é cedo, respondeu o Cozinheiro. Se estiver mesmo com fome, vá apanhar dois bolinhos na cesta. Mas só dois, ouviu?

Peralta disparou para o lugar onde o lanche havia sido escondido. E chegou a tempo de ver um esquilo que ia escapando com as cestas de bolos e pastéis. O esquilo agarrava as alças das cestas com os dentes e saltava a toda à pressa.

- Pare! gritou Peralta. Você não pode fazer isso!

E deu um grito especial, que era o sinal usado para avisar que alguma coisa acontecera. Imediatamente surgiram anões correndo de todos os lados, e o esquilo, que decerto nunca vira homens tão pequeninos, correu para cima do tronco caído e parou, com os olhinhos arregalados de espanto. Mas não largou as cestas.

- Você furtou nossa merenda, disse o Comandante. E cercou o tronco com os anões. Se você levar a cesta não teremos o que comer. Mas se você quiser, pode ficar para almoçar em nossa companhia.

Os anões tinham um jeito especial para se fazerem entender pelos animais. O China, principalmente, entendia tudo quanto diziam os pássaros e os animais pequenos. E como o Comandante não se fazia compreender pelo esquilo, chamou o China para ver se ele se poderia fazer entender. O China, depois de conversar com o esquilo, transmitiu o seguinte aos companheiros:

- Ele disse que farejou nossa merenda e acabou por descobri-la escondida debaixo das folhas do pé de morango. Disse que não sabia que a merenda tinha dono. E pediu desculpas.

- Bem, diga-lhe que venha comer em nossa companhia, disse o Comandante. Será muito bem recebido.

O China repetiu essas palavras para o esquilo. E o bichinho mostrou claramente que teria prazer em aceitar o convite. Trouxe de volta a cesta e fez questão de colocá-la no lugar em que a havia encontrado. O Cozinheiro e Dona Grã-fina serviram a merenda e todos se sentaram no chão para comer. Estavam felizes com o piquenique. O esquilo comeu sete bolinhos e cinco pastéis. Não aceitou o sanduiche de rã, explicando ao China que ele nunca havia comido carne. Os homenzinhos se divertiram muito aquele dia e ficaram todos amigos do esquilo. O esquilo até levou Peralta às costas para dar uma voltinha, e prometeu que um dia iria visitar a Cidade dos Anõezinhos.

LIMPEZA DA CASA

Dona Grã-fina esperara impaciente a chegada da primavera para cuidar da limpeza da casa, pois nada pôde fazer durante aqueles dias de chuva. Quando parou de chover, os anõezinhos todos os dias davam uma desculpa para não ajuda-la na limpeza. A horta precisava ser tratada.Para isso contrataram um rato, que puxou o arado; depois, semearam. Terminado o trabalho na horta, Dona Grã-fina bateu os pezinhos e disse que a casa tinha de ser limpa sem demora.

- A casa está imunda! disse ela ao Comandante. Não a limpamos durante todo o inverno. Deixem de desculpas e ajudem-me na limpeza!

- Está bem, disse o Comandante. Nós, homens, estamos dispostos. Vocês poderão começar a limpeza amanhã cedo.

- Oh, que pena! exclamou Peralta. Ouçam, agora é a temporada de boa pesca e alguns de nós devem ir pescar!

- Esqueça a pescaria até que a casa esteja limpa, disse Dona Grã-fina. Os colchões têm de ser levados para fora a fim de tomar sol. Os tapetes precisam ser batidos. E a casa varrida do porão até ao sótão.

- Que tristeza! resmungou Peralta. Vocês mulheres só pensam em limpeza e não deixam que a gente tenha um pouco de sossego!

- Você quer morar numa casa suja? perguntou-lhe D. Grã-fina.

- Isso não! Mas podia muito bem morar aqui com um pouco menos de limpeza.
Na manhã seguinte os homens levantaram cedo e, depois de uma pequena refeição de feijões e presunto de sapo, começaram a limpeza. Todos os colchões foram levados para fora e pendurados em uma corda ou colocados sobre cavaletes para tomar sol.

 

Turco e Peralta bateram os tapetes a manhã toda com palitos. Os outros esfregaram o assoalho e lavaram as janelas. Até o Comandante tomou parte no trabalho. Trabalharam a manhã inteira, adiantando bastante a limpeza.

Logo depois do almoço, um pardal desconhecido baixou voo e apanhou um colchãozinho que estava ao sol. Apanhou o colchão e com ele no bico, voou para o teto da casa-sapato.

- Que ideia foi essa de furtar nosso colchão? Perguntou-lhe o velho Soldado, batendo no chão com a sua perna de pau.

- Seu, o quê? perguntou a ave, falando por um canto do bico.

- Nosso colchão, repetiu o Soldado. Esse é um dos melhores colchões que possuímos.

- Não sabia, disse o pardal. Voei para cá procurando fazer um ninho. Vi isso e achei que seria muito bom para forrar a minha casa.

- Sim, isso seria mesmo, disse o Soldado. Mas acontece que o colchão nos pertence.

- Oh! disse o pardal, então desculpe. Eu não sabia que o colchão tinha dono. Eu estava mesmo admirado de que não o tivessem levado daqui há mais tempo.

O pardal veio pôr o colchão no lugar donde o tirara, e começou a olhar os anõezinhos que logo o cercaram.

- Que coisa! exclamou ele. Como vocês são pequeninos!

- De fato, não somos gigantes, disse o Polícia.

- E aquele sapato? perguntou o pássaro, apontando com as asas. É a casa onde vocês moram?

- É uma das nossas casas, respondeu o Soldado. Aquele velho bule de chá é onde mora o China.

- E aquele edifício? perguntou o pardal, apontando para um chapéu não muito distante da casa-sapato.

- É a casa da Câmara, explicou Tom Mix. Lá é que nos reunimos para discutir e para dançar. É usada também como escola.

- E aquela lata de café? Para que serve? tornou a perguntar o pássaro.

- É nossa oficina, disse o Soldado. Lá é onde construímos nossas mobílias e tudo quanto se possa fazer em uma oficina.

- Vocês passam o inverno aqui? quis saber o pardal, muito admirado.

- Certamente, respondeu o Polícia. E porque não?

- Meu Deus! Exclamou o pardal. Como deve fazer frio naquele sapato durante o inverno!

- Sim, mas nós o conservamos bem aquecido, explicou o Comandante. Saiba você que temos fogão e lareira lá dentro. E sempre reservamos bastante lenha para atravessar o inverno.

- E quando neva como é que vocês se arranjam? Não entra neve no sapato?

- Bem, às vezes isso acontece, disse o Comandante. Ai nós passamos alguns maus momentos. Mas tomamos cuidado e até nos divertimos com a neve.

- Que gosto extravagante! exclamou o pássaro. Comigo nada de neve! No inverno sempre viajo para o sul. Lá não há neve e nunca faltam insetos para comer.

- Você pretende passar o verão aqui? quis saber o Comandante.

- Sim, respondeu o pardal. Estou construindo meu ninho aqui perto. Acho que seremos bons vizinhos e que vou gostar deste lugar.

- Você fará amizade com uns pássaros muito bem educados que vivem aqui. Nós nos damos muito bem com eles, disse o Comandante.

- Existem gaios azuis por aqui? perguntou o pardal. Não gosto de gaios. Eles são sempre aborrecidos.

- Há poucos gaios nesta redondeza, explicou o Comandante. A maioria deles vive em paz conosco. Mas há um que é um grande desordeiro. Na verdade, não é má pessoa, mas sempre nos dá trabalho com as suas brincadeiras. Chama-se Zeca, e nós o apelidamos de Arreliento. Logo você o ficará conhecendo.

- Não, se puder evitá-lo, disse o pardal. Estou muito satisfeito por conhecer todos vocês. Voltarei para visitá-los em outra ocasião.

E, levantando voo, desapareceu atrás da moita de roseiras bravas.

- Creio que já podemos recolher os colchões, disse Dona Grã-fina. Já tomaram bastante sol e pode ser que haja mais pássaros desconhecidos por aqui, procurando ninhos prontos.

Os anõezinhos estavam exaustos quando se deitaram aquela noite, estavam contentes porque era um prazer ver a casa inteiramente limpa. Até Peralta concordou que era bom morar numa casa asseada, apesar do trabalho que isso dava.

 

ZECA, O ARRELIENTO

Os anõezinhos eram muito amigos de todos os pássaros e animaizinhos da vizinhança. Bons amigos, ajudavam-se todos, uns aos outros.

    

  

Como os anões os auxiliavam em tudo que podiam, os pássaros lhes serviam de jornal, levando-lhes as notícias que colhiam em suas viagens pelos arredores. E, quando os anões precisavam fazer uma viagem às pressas, os pássaros os transportavam num instante. Era muito cômodo.

 

Às vezes, o rato puxava o arado dos anões e os ajudava a carregar lenha.

Ticho, o esquilo, também muito bom vizinho, dava uma mão nas colheitas de nozes e no transporte delas para o celeiro. Os anõezinhos, por sua vez, auxiliavam-no a ajuntar o seu suprimento de nozes. E, dessa maneira, uns eram úteis aos outros.

Embora os gaios azuis, por natureza, sejam incômodos, nem por isso aborreciam os anões. Mas havia um, chamado Zeca, que gostava de aborrecê-los. Ele não fazia isso por mal, mas dava trabalho. Muitas vezes, quando os anões estavam na oficina ele aparecia e lhes roubava as ferramentas. A verdade é que deixava as ferramentas num lugar onde os anões pudessem encontrá-las. E, assim, tudo acabava em paz. Os anões apelidaram esse gaio de Zeca, o Arreliento. Logo que eles ouviam o seu vozeirão, recolhiam as ferramentas e guardavam-nas, para que o gaio não lhes pregasse mais uma peça. Zeca sumiu durante muito tempo. Mas, quando apareceu, deu muito trabalho aos anõezinhos.

Desde o dia da limpeza da casa, Peralta andava insistindo com o Comandante para que ordenasse a limpeza e a reabertura da piscina. Mas ele sempre lhe respondia que ainda era cedo para nadar e que seria necessário esperar que o tempo ficasse mais quente.

- Mas não podemos limpar a piscina? perguntava Peralta. Assim ela estará pronta quando chegar o dia.

- Não, tornou a dizer o Comandante. Se limparmos a piscina e a enchermos de água, você quererá entrar nela. E ainda está muito frio para a natação. Não queremos gente resfriada por aqui.

- Ora bolas! exclamou Peralta. Que adianta termos piscina se não podemos usá-la?

- E isso não é tudo, disse o Comandante, com cara de poucos amigos. Não quero que nenhum rapazinho daqui vá nadar no riacho. A água ainda está gelada.

O Comandante tinha razão. A água ainda estava muito fria para que se pudesse nadar, embora os dias já fossem mais agradáveis. Mas Peralta não se conformou com isso. Estava com muita vontade de nadar. Pensou no caso e chamou Bastião para seu confidente.

- Vamos dar um mergulho no riacho, disse ele. Não nos fará mal. Nem o Comandante precisará saber que fomos lá.

- Também eu tenho vontade de nadar, disse Bastião, Mas se o Comandante souber vai ficar muito zangado!

- Ah! Você está com medo! exclamou Peralta.

- Não, não tenho medo, mas não gosto de desobedecer ao Comandante. Ele sempre nos aconselha para o bem.

- Nesse caso, vou sozinho, disse Peralta. Já que você está com medo, venha comigo apenas para me ver nadar.

- Bem, não sei, não, resmungou Bastião. Quando vejo água fico com vontade de cair nela...

- Ora, vamos, disse Peralta, encaminhando-se para o riacho.

- Acho que ver não faz mal, disse Bastião, seguindo atrás do companheiro.

Chegando ao riacho, Peralta tirou a roupa e saltou dentro d'água. Bastião sentou-se na margem e ficou olhando para ele. Peralta mergulhou e começou a nadar. E aí, Bastião não resistiu mais. Tirou a roupa também e saltou n’água. A água não estava quente, mas, com o exercício, os dois não sentiam frio.

De repente, ouviu-se um bater de asas, e Zeca, o gaio arreliento, pairou sobre a margem do regato e apanhou no bico as roupas dos dois nadadores. Parou um pouco, pousado num galho de árvore, depois soltou um grito e voou em direção da Cidade dos Anõezinhos com as roupas no bico.

- Acudam! gemeu Bastião. Aquele malvado vai nos obrigar a voltar sem roupa!

- Ele não levará as roupas longe daqui, disse Peralta. Vamos procurá-las que logo as acharemos. Não se assuste!

Os dois voltaram à margem do regato e puseram-se a procurar as roupas. Procuraram, procuraram, mas não acharam nem Zeca nem as roupas. Como estava muito frio, começaram a espirrar.

- Nossa Senhora! gaguejou Bastião. Vamos para casa, se não ficaremos resfriados.

- Talvez a gente possa entrar em casa sem que o Comandante nos veja, gaguejou Peralta, por sua vez.

- Mas nós não podemos voltar sem roupa, disse Bastião. Não fica bem!

- Podemos embrulharmos em folhas de árvore, sugeriu Peralta.



E os dois rapazinhos, embrulhando-se, cada um, num par de folhas, tomaram o rumo da casa-sapato. Tentaram entrar sem ver vistos, mas não tiveram sorte, e o Comandante veio a saber de tudo. O Doutor foi examiná-los, pois ambos estavam roxos de frio. A sua receita foi um banho bem quente, preparado pelo Cozinheiro num dedal, e uma boa dose de chá, muito amargo, quase fervendo. No dia seguinte, Peralta e Bastião amanheceram muito resfriados. Foi um merecido castigo por terem desobedecido.

- Vocês tiveram por si mesmos o castigo, disse o Comandante. Creio que foi o bastante por esta vez.

Um pardal amigo dos anõezinhos encontrou as roupas dos rapazes num galho de árvore, onde Zeca, o Arreliento, as deixara penduradas. E depois deste incidente, Peralta e Bastião acharam que seria melhor esperar a época apropriada para a natação.

CAVALGANDO RATOS

Dom Sapo foi namorar,
sim, senhor!
Dom Sapo foi namorar
a ratinha do pomar,
sim, senhor!
Foi só chegar e falar,
sim, senhor!
Foi só chegar e falar.
“Vamos nos casar?”
sim, senhor!
"Onde vai ser a festa do noivado?”
sim, senhor!
“Onde vai ser a festa do noivado?”
sim, senhor!

Bastião é quem cantava esta esquisita cantiga, ao mesmo que esfregava uma tampa de garrafa de gasosa. Tinha sido uma das melhores panelas do Cozinheiro, mas se estragara num dia em que o mestre-cuca se esqueceu de pôr mais água no feijão.



- Ora bolas! exclamou Peralta, que enxugava os pratos utilizados no almoço. Gostaria de ter um rato para montar. Há tanto tempo que não monto um rato, que até devo estar destreinado!

- Bem, você não tinha muito que esquecer, disse Tom Mix, rindo-se dele. Mas, agora já não será fácil arranjar um rato para montar. Estão cobrando muito caro e, além disso, ainda querem queijo do bom. Eles pedem um pedaço de queijo do tamanho duma noz por uma hora de montaria. É uma exploração!

- Uma exploração! repetiu Bastião. Isso não se faz! Esse preço é exagerado!

- Mas se os ratos encontrarem o queijo antes de você, aí é que não! tornou a dizer Tom Mix, rindo-se de Bastião.

Tom Mix era doido para cavalgar ratos, por isso vivia pelas casas de gente grande, procurando pedaços de queijo. Um dia teve sorte: encontrou um pedaço de queijo tão grande que foram necessários quatro robustos anões para levá-lo até ao celeiro

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Perto da casa-sapato havia muitos ratos de boa educação que podiam ser contratados. Um deles era excelente para montaria. Corria que dava gosto e era cuidadoso, a não ser que lhe aparecesse um gato pela frente. Ao desconfiar da presença dum gato, enfiava-se no primeiro buraco que visse. E isso era perigoso para o anãozinho que no momento estivesse montado em suas costas. Esse rato se chamava Berimbau. Uma vez, quando Peralta o cavalgava, Berimbau sentiu cheiro de gato e meteu-se num buraco. O buraco era pequeno, e Peralta, atirado de pernas para o ar, machucou-se bastante.

Tom Mix fez uma linda sela de couro de rã e um freio com um pedaço de palito. Montava que era uma maravilha! Ele deixava que todos os companheiros montassem, mas, depois do desastre que houve com Peralta, ninguém se animava mais a cavalgar Berimbau.

- Eu montaria se o rato fosse seguro, disse Peralta. Mas no Berimbau é que não monto. Ele tem muito medo de gatos. Garanto que você não passa com o Berimbau perto duma touceira de unhas-de-gato!

- Ora! respondeu Tom Mix. Berimbau é seguro, para quem saiba montá-lo!

- Pois fique com ele, retorquiu Peralta. Prefiro dar uma volta montado num pardal. É assim que se viaja hoje em dia. Montar ratos é coisa fora de moda. Quando preciso ir dum lugar para outro, não gosto de ir devagar. Quero rapidez!

- Pois com o Berimbau isso é fácil: basta que ele sinta cheiro de gato! disse Tom Mix, rindo.

Depois disso, Tom Mix contratou outro rato, e ele e Dona Grã-fina deram vários passeios pela vizinhança. A verdade é que Tom Mix procurava não passar perto de gatos e mochos. Só assim se evitaria um desastre. Um dia, entretanto, Tom Mix também sofreu um acidente, embora não por causa dum gato.



É que ele, montado, foi fazer uma visita ao coelho, muito amigo dos anõezinhos. O coelho estava com reumatismo e não podia sair de casa. Tom Mix esteve um bom tempo em casa do coelho e depois voltou para a Cidade dos Anões. Os companheiros o rodearam para pedir notícias do doente. E, nesse momento, um enorme besouro saiu detrás duma árvore e deu uma ferroada no rabo do rato que Tom Mix montava. Ah, não lhes digo nada! O rato deu um grunhido e saltou no ar. Tomado de surpresa, Tom Mix foi arremessado para fora da sela e caiu de cabeça diante da porta da cozinha. O rato apavorado disparou com o besouro agarrado ao seu rabinho. Depois de longa perseguição, Tom Mix, afinal, apanhou o rato. O besouro já lhe soltara o rabo, mas Berimbau não havia meios de sossegar. O cavaleiro teve um trabalhão acalmá-lo e não foi fácil levá-lo de volta para a casa-sapato.

- Espero que não se tenha machucado, disse o Comandante.

- Apenas um galo na testa, disse Tom Mix. Mas Berimbau ficou muito nervoso. Diz ele que o seu rabinho inchou.

- Como assim? perguntou Peralta, em tom de caçoada. Você não disse que Berimbau era uma montaria segura?

- Ele é seguro, afirmou Tom Mix. Conforme as circunstancias, ele é tão educado como um qualquer de nós!

- Talvez, mas agora há pouco ele não foi nada educado! disse Peralta.

- Nem você seria educado se tivesse rabo e um besouro lhe desse uma mordida! respondeu indignado, Tom Mix.

UM SAPATO PERDIDO

Havia algumas casas de gente grande perto da Cidade dos Anõezinhos, e eles as conheciam todas. Sempre que os donos das casas andavam fora, os anões apareciam. Às vezes visitavam as casas até quando eles estavam. Mas, de qualquer forma, tinham muito cuidado para não serem vistos. Os anõezinhos não tinham medo dos homens grandes, mas os evitavam a conselho do Comandante, que costumava dizer:

- Um anão é tão anão e um homem grande é tão grande, que... Bem, é melhor que não se misturem!

Várias crianças moravam nessas casas. Os anões conheciam todas elas, mas nunca tinham sido vistos. Havia uma encantadora menina de três anos, chamada Elisabete, que os anõezinhos admiravam muito.

 

Era mesmo uma linda menina, mas tinha um péssimo costume: saía sozinha de casa. Os anões se aborreciam com esse mau hábito de Elisabete. Mas não eram eles os únicos que se preocupavam isso. Alguns pássaros, e também o Ticho, o esquilo, que moravam perto da Cidade, andavam sempre tomando conta dela. Salta-Salta, o pardal, muito amigo dos anões, muitas vezes guiou Elisabete de volta para casa, quando ela dava seus longos passeios.

Salta-Salta, o pardal, via quase tudo o que acontecia nos arredores da Cidade dos Anões. Um dia viu Elisabete indo apressadamente, com seus passinhos incertos, em direção do riacho. Salta-Salta ficou alarmado, pois o riacho estava cheio e a correnteza tão rápida que Elisabete poderia morrer se caísse nele.

- Logo pensei na morte quando a menina se aproximou do riacho, contou Salta-Salta. Sua mãe não estava. E alguma coisa tinha de ser feita bem depressa, para que Elisabete não fosse adiante.

- Que é que você fez? perguntou Dona Grã-fina.

- Bem, eu pousei no chão, diante dela, fingindo que estava com a asa ferida. Elisabete, naturalmente, tentou pegar-me. Mas todas as vezes que ela se aproximava, eu voava. E, assim consegui levá-la de volta para a casa.

- E ela chegou sã e salva? quis saber o Doutor.

- Sim, mas perdeu um sapatinho na lama da estrada. Um sapatinho novo. Se algum carro passar por lá, o sapatinho de Elisabete será esmagado.

- É pena, disse o Comandante. Talvez possamos tirá-lo do caminho antes que algum carro o estrague.

- Certamente que podem, aprovou Salta-Salta. E será uma boa ação, pois hoje em dia os sapatos custam muito dinheiro.

Os anõezinhos correram para onde estava o sapatinho de Elisabete. O Soldado, que era excelente engenheiro, disse que não seria fácil desenterrá-lo da lama.

- Mas nós precisamos tirar o sapatinho daí, disse o Comandante. Precisamos ao menos tirá-lo do meio do caminho, para que um carro não o esmague. Com toda a certeza a mamãe da Elisabete virá procurá-lo e o levará para a menina.

- É melhor começarmos o trabalho imediatamente! Disse o Soldado, batendo com a sua perna de pau. Pode passar um carro a qualquer momento. Vamos!

 
 

Vários anões correram para a oficina e voltaram com pás, picaretas, enxadas e roldanas. Outros vestiam roupas de banho, o que foi uma boa ideia, pois o buraco de lama era fundo. Outros ainda preparam alavancas para ajudar a suspender o sapato.

- Precisamos de duas alavancas bem compridas para erguer o sapato, disse o Soldado, de machado em punho.

Dois galhinhos de árvore foram enfiados sob o sapato. Depois, uma corda bastante resistente foi passada ao redor dele. As duas pontas da corda foram presas a um par de carretilhas que estavam, por sua vez, amarradas ao tronco duma árvore. Vários anõezinhos puxaram a corda, enquanto o Marinheiro e Tom Mix ajudavam a empurrar o sapatinho. Aquilo deu um trabalhão! E muita gente gemeu e suou até que o sapatinho de Elisabete fosse para fora da lama.

- Vamos deixá-lo aqui mesmo, disse o Comandante, apontando um lugar seco ao lado da estrada. O sapato precisa ficar num lugar bem visível, para que a mãe de Elisabete possa encontra-lo.

- Não seria melhor escrever uma carta para a mamãe de Elisabete: perguntou Dona Grã-fina. Na carta diríamos o lugar exato onde se acha o sapato. Salta-Salta poderá levar a carta.

- Não será necessário, respondeu o Comandante. O sapato é novo e a mamãe de Elisabete o procurará mesmo sem carta alguma.

Os anõezinhos jantaram muito tarde naquela noite, pois o seu fogão não era lá muito grande e o Cozinheiro teve de aquecer cinco dedais d’água para os banhos, antes de servir a refeição. Muitos anões estavam terrivelmente sujos e precisavam dum bom banho. Poucas horas depois do salvamento do sapatinho, a mamãe de Elisabete veio procurá-lo. Ficou muito contente quando o achou, mas não desconfiou de nada. No entanto, se ela examinasse com cuidado o sapatinho, encontraria nele as marcas dos dedos sujos de lama do Marinheiro e de Bastião.

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ROUBADOS!

- Senhor Comandante, disse o Cozinheiro, uma tarde, estamos sem ovos!

- Sem ovos? exclamou o Comandante. Como, se não faz mais do que três meses que compramos um?!

- Três meses e sete dias, completou o Cozinheiro.

- E nós comemos um ovo tão depressa? perguntou o Comandante.

- Sim, respondeu o Cozinheiro. É preciso não esquecer que eu faço dois bolos por semana, sem falar nas omeletes todas as manhãs e nos ovos fritos para o jantar. Até acho que não gastamos muito.

- Bem, talvez você tenha razão, disse o Comandante, que gostava muito de omelete ao almoço. Infelizmente, acho que não dispomos de grãos de milho suficientes para comprar outro ovo.

Graças a um processo secreto que conheciam, os anões guardavam um ovo de galinha sem estragar-se durante meses e meses, Mas, apesar de pequeninos, comiam bastante, e um ovo não durava a vida inteira.

Na manhã seguinte, o Comandante e o Cozinheiro contaram todos os grãos de milho que estavam no celeiro. Restavam-lhes apenas cinquenta grãos, e somente dentro de três semanas os novos grãos estariam maduros. Havia, ainda, um pouco de grãos de arroz e de trigo, mas as galinhas, geralmente, só faziam negócio com grãos de milho. Além disso, os anõezinhos usavam o milho, também para fazer pão.

- Podemos arranjar um ovo com uma das galinhas da casa de Elisabete, lembrou o Cozinheiro.

- Aquelas galinhas são muito careiras, disse o Comandante. Elas pedem um preço muito alto por cada ovo. Mas, de qualquer maneira, vamos ver o que podemos fazer.

   

Depois do jantar, o Comandante e vários anões se dirigiram ao terreiro da casa de Elisabete, onde começaram a conversar com as galinhas. Muitas delas disseram que não tinham ovos para vender, mas uma, com olhar malicioso, mostrou-se disposta a fazer negócio.

- Quanto você quer por um ovo de tamanho regular? quis saber o Comandante.

- Bem, disse ela, como a vida está cara, quero sessenta grãos de milho.

- Mas você não acha que é um preço muito alto? Quis saber o Comandante.

- Por um ovo bom como os meus, não acho, respondeu a velha galinha. Qual é a sua oferta?

- Parece-me que trinta e oito grãos seriam um preço razoável, disse o Comandante, que sabia pechinchar.

- Misericórdia! exclamou a galinha. Seria o mesmo que dar o ovo de graça!

- Bem, daremos trinta e oito grãos e meio, disse o Comandante.

- Deus do céu! tornou a exclamar a galinha. O senhor quer que eu morra de fome?

- Não, disse o Comandante, mas não temos muito milho e também não queremos morrer de fome.

- Mas não morrerão de fome se levarem o ovo, não é? disse ela, abrindo e fechando as asas.

O Comandante viu que a galinha era sabida e acabou oferecendo quarenta grãos de milho, seis grãos de arroz e quatro grãos de trigo. A galinha recusou essa oferta, mas, finalmente, concordou em vender o ovo por quarenta grãos de milho, oito de arroz, sete de trigo, dois gafanhotos e quatro minhocas e meia.

O Comandante prometeu voltar dois dias mais tarde com o pagamento, e a Galinha prometeu, por sua vez, que lhe guardaria um ovo.

    

Não foi fácil para os anões desenterrarem as minhocas.

   

Quanto aos gafanhotos, não foi difícil caçá-los, pois havia muitos por ali. Quando os anões voltaram ao terreiro com o pagamento, a galinha já botara o ovo. Era um ovo grande, tão grande que o Comandante achou que tinha feito bom negócio.

- Se encontrarem um galo ruivo com uma enorme crista, fujam dele, avisou a galinha, quando os anões se puseram a empurrar o ovo. Ele também gosta de ovos e poderá roubar este de vocês.

Os anões abriram bem os olhos para evitar o tal galo ruivo, mas não viram nem sinal dele até à metade do caminho. Mas, de repente, quando pararam para tirar algumas pedras da estrada, surgiu o galo.

- Quero esse ovo aí, disse ele.

- Mas o ovo é nosso, respondeu o Comandante. Acabamos de comprá-lo.

- Sumam daqui! berrou o galo. E olhou feio para os anões, que então saíram correndo.

Os pobrezinhos, escondidos atrás dumas folhas, viram o galo quebrar a casca do ovo com o bico e comê-lo inteirinho. Ficaram aborrecidíssimos com a perda do ovo. Haviam gasto mais grãos de milho do que podiam e, agora, já não tinham o suficiente para comprar outro.

- Que pena! exclamou o Comandante. Agora precisamos passar sem ovos até que as espigas fiquem maduras.

Mas, não se sabe como, a galinha veio a saber da história por intermédio dum pardal conhecido, mandou dizer aos anões que botaria outro ovo, e de graça. O Comandante achou que isso era delicadeza até demais.

 

Quando os anões receberam a notícia de que o segundo ovo já fora botado pela galinha, pediram ao Ticho, o esquilo, e também ao coelho, que fossem em sua companhia para protegê-los.

- O galo não nos roubará outra vez se vocês forem conosco, disse o Comandante. E não ficaremos novamente sem ovo.

Os anõezinhos, na volta, passaram perto do galo. O ladrão os viu, mas viu também o coelho e o esquilo, e não disse uma só palavra. Os anões deram um suspiro de alívio quando viram que o galo não tentara atacá-los. E ficaram muito gratos aos dois amigos pela ajuda que eles deram.

- Às vezes, vale a pena ser grande! disse Peralta.

CONTINUA: CIDADE DOS ANÕEZINHOS - PARTE III

 

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