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A
GRANDE PESCARIA

O
China gostava de pescar, mas, lembrando-se do furto dos morangos, não
tinha coragem de ir divertir-se. Peralta sempre o convidava para uma
pescaria, mas ele não aceitava.
- Não, não. Sou um homem muito mau.
Furtei aqueles morangos, lembra-se? Tenho de ser castigado! respondeu a
Peralta certo dia.
- Mas, disse Peralta, eu gosto de pescar com
você. E você, para castigar-se a si próprio, está castigando a mim
também.
- Está bem, disse o China. Eu não quero castigar você pelo
que fiz. Por isso vou pescar com você. Já tive bom castigo, lavando a
roupa que o cãozinho sujou. Irei.
- Então vamos, disse
Peralta.
E os dois anões correram para a oficina onde apanharam uma
vara com linha. Ao passar pela casa-sapato, viram o
Comandante.

-
Comandante, anunciou Peralta, faça o favor de avisar o Cozinheiro que
teremos peixe para o jantar.
- Você parece estar muito convencido,
disse, sorrindo, o Comandante. Trate primeiro de pescar, depois conte
prosa.
- O senhor vai ver! respondeu Peralta. Eu e o China somos
grandes pescadores!
- Então, felicidades! desejou o
Comandante.
Peralta e o China se dirigiram para o riacho que corria
pelo campo, à pequena distância da Cidadezinha dos Anões. Os dois
homenzinhos, do tamanho do nosso dedo mindinho, seguiram por uma picada
entre as flores silvestres e o capim. Peralta levava a vara como se fosse
uma carabina e procurava pelo chão uma isca. Nesse momento, viu um
besourinho e o caçou com o chapéu.
- Boa isca, disse o China. Os
peixes gostam muito de besourinhos.
Os dois anõezinhos continuaram
o seu caminho através do mato e só pararam junto a uma enorme pedra, quase
do tamanho dum melão, que estava à beira do riacho. Amarraram a linha na
ponta da vara, colocaram o besourinho no anzol e montaram a cavalo num
tronco que se debruçava sobre as águas. Peralta deixou o anzol mergulhar
no riacho.
- Peguei! Peguei! berrou ele.
Estava tão
alegre que quase caiu n’água. O China ajudou-o a segurar a vara com
firmeza, mas os dois juntos não tinham força para puxar o peixe fora
d’água.
- Corra e traga auxílio! gritou Peralta. Ficarei segurando
até que venha mais gente!
- Já estou correndo! gritou o China, e
pôs-se a correr através do capinzal, com a sua trança esvoaçando no
ar.
- Socorro! Socorro! Grande peixe! Muito grande! gritava ele,
enquanto corria. Socorro!
- Que foi que houve? perguntou Tom Mix,
que estava consertando uma canoa feita de vagem de ervilha.
-
Peralta fisgou um peixe muito grande e precisa de auxílio, disse o
Comandante, que já ouvira os gritos do China.

Imediatamente, acompanhado de vários anões, o
Comandante marchou em direção do riacho. Já estavam todos eles subindo
pela pedra acima quando viram que um enorme pássaro descia e avançava
sobre o peixe. Num piscar de olhos, o pássaro desceu e agarrou o peixe com
o bico. Peralta, que segurava fortemente a vara foi suspenso também. Por
sorte, o anzol se desprendeu da boca do peixe, e o anãozinho caiu no
riacho. Como era bom nadador, chegou depressa à margem. Mas estava muito
zangado.
- Tomara que ele se engasgue com o peixe! disse Peralta,
pingando água.
- Bem, afinal, ele tem tanto direito a comer o peixe
quanto você! disse o Polícia.
- Não, senhor! berrou Peralta. Eu
pesquei o peixe. O peixe era meu!
- Os peixes são daqueles que os
levam para a terra, disse o Comandante, rindo. Ou, para ser mais exato:
pertencem a quem os leva para o alto. Olhem o pássaro! E apontou para a
ave, que agora estava empoleirada num galho próximo.
O fato é que o
pobre pássaro estava passando apuros com o peixe que furtara. Como o peixe
era muito grande, ele tinha de fazer milagres para poder engoli-lo.
Sacudia a cabeça dum lado para outro, para frente e para trás; sacudia-se
todo, sapateava, dançava sobre o galho da árvore, e não engolia o peixe.
Embora os anõezinhos vissem a triste situação do pássaro, não podiam
deixar de rir. A cena era mesmo muito engraçada! Até Peralta ria.
Finalmente, quando o
pássaro conseguiu engolir o peixe, todos os anões bateram palmas. O
pássaro voltou-se para os anões e fez-lhes uma reverência, agradecendo ao
mesmo tempo o peixe e os aplausos.

Peralta apanhou novamente a vara e, logo que o
pássaro levantou voo tratou de pescar outro peixe. Fisgou logo um lambari
e, com a ajuda dos companheiros, puxou-o para fora d'água. O peixinho dava
para alimentar toda a população da Cidade. Depois de limpá-lo, o
Cozinheiro preparou-o para o jantar. Todos os anões concordaram em dizer
que nunca tinham comido melhor peixe em toda a sua vida. E concordaram
também noutra coisa: que era melhor come-lo com garfo e faca do que da
forma pela qual o passarinho comia.

UMA
PISCINA DE INVERNO
O tempo
começou a esfriar e os anões deixaram de frequentar a piscina. Essa
piscina não passava duma terrina velha que haviam encontrado. Com muito
sacrifício, fazendo-a deslizar sobre tocos de lápis, levaram-na para um
lugar fresco, sob as árvores. Em cima, construíram uma plataforma e um
trampolim. A terrina não era maior do que essas que usamos em nossas
casas, mas para eles era tão grande como um oceano.
A chuva
mantinha a terrina constantemente cheia d’água. E os anões se divertiam
nela durante todo o verão, exceto uma vez, quando não choveu e um cachorro
sedento bebeu toda a água. Mas agora estava muito frio e os anões não
podiam banhar-se diariamente ao ar livre. A água foi tirada para fora,
para que não gelasse. Quando a água gela precisa de lugar maior e isso
faria quebrar a terrina. Todas as roupas de banho foram, por isso mesmo,
guardadas.
Não muito longe da Cidade de gente grande havia um
buraco onde jogavam fora coisas imprestáveis. Os anões frequentemente iam
até lá e sempre achavam objetos de utilidade para eles. Com a tampinha de
um frasco de molho podiam fazer ótima tina para a lavandaria do China, ou
uma caçarola para o Cozinheiro. Pedaços de vidro serviam para fazer
vidraças da casa-sapato. E de pregos velhos se faziam excelentes
alavancas.

Certa
manhã, Peralta e Tom Mix acharam uma velha xícara de chá. Era quase tão
boa como uma nova, mas lhe faltava a asa, que fora quebrada.
-
Amigos! exclamou Peralta, Tive uma ideia!
- Saia daí antes que você
se machuque, recomendou Mix.
- Vamos levar esta xícara para a
Cidade e fazer com ela uma piscina de inverno! acrescentou
Peralta.
- Ninguém pode nadar dentro duma xícara, disse
Tom.
- Mas é melhor uma xícara do que nada, argumentou o moleque.
Podemos arrastá-la até perto do depósito e depois colocá-la sobre a lata
de doces em calda. Basta abrir um buraco na lata e acender fogo dentro
dela. E aí teremos uma piscina d’água quente!
- Mas onde
arranjaremos água para encher a xícara? perguntou Tom Mix.
- No
riacho, respondeu Peralta.
- Dará muito trabalho, disse Tom Mix.
Teríamos de baldear sessenta ou setenta dedais d’água para encher a
xícara.
- Sim, mas acho que a ideia é muito boa! Vou falar ao
Comandante.
Naquela tarde mesmo Peralta falou ao Comandante a
respeito da piscina de inverno. Ele ouviu todo o plano e sacudiu a
cabeça.
- Não creio que isso dê certo, disse. A água gelaria e
partiria a xícara, a não ser que o fogo da lata ficasse aceso durante todo
o inverno. Mas, mesmo que fizéssemos fogo, ele não seria suficiente para
aquecer a água com este frio.
- Ora, ora! exclamou Peralta. De
qualquer jeito devemos experimentar.
- Vou dar-lhe uma ideia, disse
o Doutor, com pena de Peralta. Ontem estive na casa dum homem grande, para
medicar um rato que tomara veneno. E vi que a torneira da pia não
funcionava bem, deixando gotejar água o dia inteiro. Os moradores da casa
passam o dia fora. Basta tapar a pia para termos uma bela piscina à nossa
disposição.
- O senhor nos deixa fazer isso? perguntou Peralta ao
Comandante.
- Deixo, se vocês não fizerem estragos na casa,
respondeu ele.
- Podemos ir agora? tornou a perguntar
Peralta.
- Já é muito tarde, disse o Doutor. O rato me disse que a
família sai de casa às oito e meia, mas volta às cinco e meia em
ponto.
- Está bem. Iremos amanhã, concordou Peralta. E saiu levar a
boa notícia aos amigos.

Na manhã
seguinte, com as suas roupas de banho, os anõezinhos foram para a casa em
companhia do Doutor. Passaram por baixo da porta e procuraram o banheiro.
Foi muito difícil subir até a pia, mas Turco, que era verdadeiro atleta,
subiu primeiro e, depois, ajudou os companheiros. As mulheres vestiram os
seus trajes de banho atrás da torneira, enquanto os homens se trocaram
atrás do sabonete. Quatro dos anões mais fortes taparam a pia e, depois
duma longa espera, ela ficou cheia d’água. As torneiras da pia serviam de
trampolins.
- Por que não tira o chapéu? perguntou o Soldado a
Peralta quando este ia mergulhar.
- Eu, não, respondeu ele. Tenho
medo de bater com a cabeça no fundo da pia.
- Nem que você
quisesse, conseguiria isso, disse Tom Mix rindo. A pia tem quinze
centímetros de profundidade.

Os
pequenos nadadores tentaram várias vezes atingir o fundo da piscina, mas
nenhum deles o conseguiu. Os anões todos se divertiram muito nessa nova
piscina. Aquele dia seria perfeito se um menino não tivesse escorregado no
sabonete e batido com a cabecinha na torneira. Quando se cansaram de
nadar, o Comandante ordenou que destapassem a pia. Recomendava
ele:
- Devemos deixar tudo direitinho como encontramos.
Mas
a tampa tinha sido tão bem colocada que nem todos juntos conseguiam
tirá-la. Só depois de muito puxarem é que ela saiu, e a água escorreu,
esvaziando a pia.
Os anõezinhos voltaram a nadar muitas vezes
naquela maravilhosa piscina. E os moradores da casa nunca pensaram que a
pia de sua casa proporcionasse tão grande alegria àquela pequenina gente.
Uma vez, Peralta esqueceu a sua roupa de banho pendurada na torneira. Mas
a dona da casa, pensando que aquilo fosse um simples fiapo de pano,
jogou-a fora. Mesmo que examinasse aquele fiapo, ela nunca descobriria que
se tratava de um maiô de anãozinho.

DIA
DE SORTE PARA OS ANÕES
O vento
assobiava sobre a casa-sapato. Um raio de luz que saía da janela fazia os
flocos de neve brilharem como enfeites de árvore de Natal. A noite estava
gelada, mas dentro da casa- sapato havia calor e conforto.
- Não
seria nada mau um bolo de nozes esta noite! disse o Doutor, atirando ao
fogo da lareira uma lasca de madeira.

- Ou um
belo pedaço de pão-de-ló coberto de açúcar! suspirou Peralta, deitado
diante da lareira, sobre uma casquinha de besouro.
Dona Grã-fina
levantou os olhos do lenço que estava bordando. O lenço não era maior que
a quarta parte dum selo de carta.
- Eu prefiro um pedaço de sonho!
disse ela, sorrindo.
- Bem, não adianta a gente querer doces que
levam ovos, disse o Cozinheiro. Não temos nem cheiro de ovos em casa.
Estão custando muito caro. Dona Galinha cobra cento e cinquenta grãos de
milho por um ovo apenas!

- Tem razão, disse o Comandante. Não podemos pagar
tão caro. Mas não seria nada mal se a gente pudesse comer um pedaço de ovo
frito com uma fatia de presunto e biscoitos, nessas manhãs frias!
-
Bem, continuem com essa conversa à toa, que eu vou para a cama, disse o
Soldado. Tenho de levantar cedo para arranjar lenha. E começou a subir
a escada, fazendo um barulhão danado com a sua perninha de
pau.
Durante todo o inverno a lareira permaneceu acesa, e isso dava
trabalho. Os anõezinhos precisavam estar constantemente catando tocos e
varetas, que partiam em pedacinhos para alimentar o fogo. Bem cedinho,
todas as manhãs, saíam para arranjar lenha.
  
Um dia,
antes do almoço, os anões já tinham empilhado vários pegadores de roupa e
uma lasca de vassoura. Peralta, que trazia às costas um pincelzinho velho,
andava depressa porque estava atrasado. De repente parou. Tinha ouvido o
cacarejar de uma galinha.
De fato, Dona Galinha enfiava a cabeça
pela cerca de arame. Os anões não sabem manter conversa com galinhas, mas
conseguem entendê-las.
- Ela tem sede, resmungou Peralta. O frio
gelou a água onde ela bebe. Pois que morra de sede! Nenhuma galinha que
cobra cento e cinquenta grãos de milho por um ovo merece socorro!
E
afastou-se rapidamente. Estava ansioso para chegar a casa, aquecer-se
junto da lareira e contar a novidade aos companheiros.
- Bem feito
para ela! Aquele traste velho com bico! resmungava ele, enquanto
corria.
- Você me surpreende, Peralta! disse o Comandante, depois
de ouvir a história. Você é um vizinho ruim. Se Dona Galinha está em
apuros, temos de ajudá-la.
- Mas a danada bica a gente! exclamou o
menino.
- Isso não será razão para que não a ajudemos. Depois do
almoço iremos quebrar o gelo da panela para que Dona Galinha possa
beber.
Todos concordaram com o Comandante e, depois de terem
almoçado, foram para o local onde vivia Dona Galinha.
- Bom-dia,
minha senhora, disse o Comandante, fazendo um profundo cumprimento. Viemos
quebrar o gelo para que a senhora possa beber água.

Dona
Galinha cacarejou durante alguns segundos, para demonstrar que
compreendera e que estava agradecida. Os homenzinhos trouxeram uma escada
comprida e um deles arranjou um machado. Num instante, o Turco fez um
buraco no gelo. A galinha enfiou o bico no buraco e bebeu tanta água que
os anões ficaram alarmados.
- Ela arrebenta já e já! disse Peralta,
espantado com a sede da galinha.
Depois de matar a sede, Dona
Galinha fez aos anõezinhos sinal para que a acompanhassem e levou-os até à
porta do seu ninho. Com muitos cacarejos de agradecimento, ofereceu-lhes
um ovo. O Comandante, muito delicadamente, recusou, disse que não
aceitariam nenhum pagamento pelo obséquio que lhe tinham prestado. Mas
Dona Galinha insistiu tanto, que ficaria zangada se ele não aceitasse, que
o Comandante enfim, concordou em levar o ovo para a Cidade.

O
Comandante agradeceu o presente e disse a Dona Galinha que mandaria buscar
o ovo. Os anõezinhos trouxeram um trenó ao terreiro e o fizeram passar
através dum buraco que havia na cerca de arame. O ovo foi colocado sobre o
trenó e coberto com várias peças de roupa dos anões, para que não
partisse. Não foi fácil transportá-lo até à Cidade. Mas, finalmente o ovo
chegou ao celeiro e foi guardado cuidadosamente.
O Cozinheiro fez
bolo de nozes, pão de ló e sonhos, além de outras espécies de doces da
predileção dos anões. O Comandante passou a comer ovo frito com presunto,
como desejava.

E, todas
as noites, quando havia reunião em torno da pequena lareira, os
homenzinhos comiam doces e falavam da gentileza da galinha. Peralta, que
comia mais do que devia, às vezes até ficava doente.

CAVALOS NÃO SOBEM EM ÁRVORES
A
lareira dos anões era pequena, mas nem por isso deixava de devorar pilhas
e pilhas de lenha. Os homenzinhos viviam continuamente à procura do que
queimar. Perto da cozinha havia de reserva um grande monte de lenha, pois
quando a neve cobria a terra não se encontravam pedaços de madeira nem
galhinhos de árvore. Por isso, os anões estavam sempre procurando e
rachando lenha.

Um dia,
Turco encontrou um punhado de pegadores de roupa. Para os homens-mirins,
um pegador de roupa era de tamanho descomunal e dava para alimentar a
lareira muito tempo. O Comandante contratou dois ratos para que
transportassem os pegadores. Depois, diante da casa-sapato, os anões
racharam os pegadores em pedacinhos, para que coubessem na
lareira.

Era uma
verdadeira sorte terem encontrado esse carregamento de madeira, porque as
chuvas se aproximavam e a terra estava completamente coberta pela neve.
Nevava a noite toda e, de manhã, a casa-sapato parecia ter desaparecido
sob a neve. Só se via a sua chaminé.

Dentro da
casa, os anões precisavam acender as suas lanternas, pois a escuridão era
tão grande, que nem distinguiam os alimentos no prato, na hora das
refeições.
- Comi muito bem! exclamou o Comandante, sentado à mesa,
sobre a qual se viam pães de milho, toucinho defumado e um bulezinho de
chá. Vamos ter um trabalhão para remover toda essa neve!

Depois da
refeição, os anões vestiram as suas roupas mais quentes e apanharam as pás
no depósito. Por meio de uma escada subiram ao telhado, que estalava com o
peso da neve acumulada. De lá de cima podiam ver o bico do velho bule de
chá desprendendo fumaça. Isso queria dizer que o China não tinha morrido
de frio.Os
anões eram tão pequenos e leves que não afundavam na neve, como
aconteceria com a gente grande. O Comandante subiu à parte mais alta do
telhado para ver se o China precisava de auxílio. E dali viu que o China
se levantara cedo e, com a sua pá, removera a neve da porta e das janelas,
para que entrassem ar e luz na sua casa.

Com
tantos anões trabalhando, o telhado, as portas e janelas da casa-sapato
logo ficaram sem um pingo de neve.
Dona
Grã-fina, com seu vestido de lã, subiu pela montanha de neve que os anões
tinham feito ao lado da casa.
- Oh, como é lindo! exclamou ela. Bem
que poderíamos dar um giro de trenó!
- E por que não? disse o
Comandante. Temos um trenó e podemos pedir ao Ticho para
puxá-lo.
Todos aprovaram a ideia e desenterraram o trenó da neve. O
trenó não passava da tampa duma pequena caixa de papelão. Muitas vezes
eles pediam ao Ticho, um pequeno esquilo, que o puxasse como se fosse um
cavalinho. Tom Mix subiu à árvore onde Ticho morava e discutiu com ele os
planos do passeio. E o esquilo concordou em puxar o trenó em troca de duas
nozes e cinco grãos de milho. Era barato.
Enquanto isso, as
mulheres trouxeram travesseiros, cobertores e mantas para forrar o trenó.
Quando Ticho desceu da árvore, Tom Mix prendeu-o com os tirantes ao trenó.
O esquilo gostava de brincadeiras quase tanto quanto os anõezinhos. Quando
deram o sinal de partida, ele partiu rápido como um raio. Os anões riam e
gritavam de contentamento.

Todos
gostaram muito da corrida. Gostaram até do que aconteceu no caminho de
volta, quando o trenó virou. A princípio, esse desastre os assustara. Mas
como ninguém se machucou, acabaram achando graça. Foi assim que aconteceu.
O Ticho estava correndo sob um arvoredo quando ouviu um latido. Como tinha
muito medo de cachorros, procurou um lugar para esconder-se, esquecendo-se
de que estava preso ao trenó. E sem que ninguém esperasse, subiu a uma
árvore. O trenó virou e atirou todos os anões por terra. Por sorte,
ninguém se feriu, e tudo acabou no meio de boas gargalhadas. Os anões
juntaram novamente os travesseiros, cobertores e mantas. Mas não foi fácil
convencer ao esquilo que descesse da árvore.
- Não gosto de puxar
trenó quando há um cachorro atrás de mim, explicou o esquilo. Só descerei
quando tiver a certeza de que não existe mais perigo.
Felizmente
não se ouviram mais os latidos do cachorro, e Ticho saltou para o chão. Os
anões subiram de novo no trenó, enquanto Tom Mix punha em ordem os
tirantes que prendiam o esquilo.
- Se ouvirem outro latido, saltem
logo para que eu possa subir pela árvore, avisou Ticho.
Quando
chegaram à casa-sapato, os anões estavam mortos de fome. O Cozinheiro
acendeu o fogo e preparou uma panela de sopa, feita de toucinho e três
feijões. Assim que a sopa ficou pronta, serviu a todos, enchendo os seus
pratinhos, que tinham sido fabricados com sementes de cereja. Todos os
anões achavam que a corrida fora muito divertida. Mas esperavam, da
próxima vez, contratar um cavalinho que não trepasse em
árvores.

UVAS
AZEDAS
Durante o inverno, os anões passavam a maior parte do
tempo em torno da lareira. Como eram leves, podiam andar facilmente sobre
a neve, mas preferiam ficar em casa. Alguns deles matavam o tempo
trabalhando na oficina, instalada na lata de
café.

Para
conservar a oficina aquecida, Turco improvisara um fogãozinho dum
centímetro de altura. Nessa oficina eles consertavam as suas mobílias e
fabricavam as peças de que precisavam. O Doutor também costumava trabalhar
lá. Era na oficina que preparava os seus remédios com ervas e raízes, pois
os anõezinhos ficavam doentes como a gente grande. Não foram poucos os
homenzinhos que adoeceram no inverno. O Doutor teve quatro casos
gravíssimos de sarampo. Marinheiro ficou com caxumba. Outros tiveram dor
de ouvidos.
- Creio que estamos comendo muitos bolos e coisas
secas, disse o Doutor, uma tarde, falando sobre a saúde da população,
diante da lareira.
- É verdade, disse o Cozinheiro. Todas as manhãs
preparo um dedal de bolo e, na hora de dormir, vejo que não sobrou nada.
Precisamos de menos bolos e mais frutas frescas.
- Exatamente,
concordou o Doutor. Mas não podemos arranjar frutas frescas.
-
Ainda nos restam algumas maçãs, não é? perguntou o Comandante.
-
Temos muitas maçãs, mas ninguém quer comê-las, explicou o
Cozinheiro.
- Estamos enjoados de maçã! gritou Peralta. Maçã frita,
recheada, molho de maçã... Já estamos fartos de tanta
maçã!
Peralta
tinha razão. Os anões estavam enjoados de tanta maçã. Mas a verdade é que
não podiam escolher. Não podiam ir ao armazém, como fazemos nós. Tinham
que guardar no celeiro quase todos os alimentos de que precisavam no
inverno e as maçãs eram a única fruta de que dispunham. As cerejas e
pêssegos tinham secado e não podiam ser consideradas frutas frescas.
Peralta achava que todos tinham absoluta necessidade de frutas frescas, e
ele, especialmente. E por isso resolveu procurar uma solução para o caso.
Andou segredando com Bastião e quis falar também com China. Mas este,
lembrando-se do caso dos morangos, não quis saber de conversas.
- O
Doutor disse que precisamos de frutas frescas, argumentava ele. E nós
estamos enjoados de tanta maçã. Proponho uma coisa: procuramos frutas
frescas na casa dos homens grandes. Eles sempre têm frutas em casa. Um
pedacinho de fruta não lhes faria falta, e a nós daria saúde e
alegria!
- Não devemos fazer isso, disse Bastião. O Comandante vai
ficar zangado se furtarmos frutas.
- O caso agora é diferente,
replicava Peralta. Não vamos furtar para nós. Vamos tirar para salvar a
vida dos anõezinhos. Não tiraremos nem um pedacinho para nós. Levaremos
tudo ao Comandante.
- É claro que gosto de frutas frescas, disse
Bastião. Mas gosto ainda mais de não ser repreendido pelo
Comandante.
Mas as palavras de Peralta convenceram Bastião de que
todos os anões morreriam de fome e fraqueza se não arranjassem frutas
frescas imediatamente.
- Talvez você esteja com a razão, disse ele.
Penso que esteja mesmo certo no que diz.
E se dirigiram para a casa
dos homens grandes. Os dois anõezinhos visitaram muitas casas, até que,
numa delas, sobre a mesa de jantar, encontraram um grande prato cheio de
uvas. Peralta escolheu a maior delas.
- Vamos levar só um bago de
uva, disse ele. Esta uva dará uma boa fatia para cada um de nós.
Naturalmente que ganharemos uma fatia maior, em paga do nosso
trabalho.

Peralta desceu a uva para o chão, com o auxílio de um
barbante. E, depois de pô-la aos ombros, marchou para a casa-sapato,
seguido de Bastião.
- Já temos fruta fresca! exclamou ele, entrando
em casa.
- Onde arranjou essa uva? quis saber o
Comandante.
- O Doutor disse que precisávamos de frutas frescas.
Encontrei esta, por acaso, numa das casas grandes. Os moradores não
notarão a sua falta. Mesmo que notassem, não se importariam, sabendo que
dela depende a nossa saúde.
- Não queremos fruta furtada, disse o
Comandante, suspeitando que Peralta estivesse mais interessado em
satisfazer a sua gulodice do que salvar os anões. Ficamos muito
agradecidos a você por se lembrar da nossa saúde, mas não queremos nada
que não nos pertença. Leve a uva de volta!
Apesar de todos os
argumentos de Peralta, o Comandante fez com que ele levasse a uva de volta
para a casa donde a tirara. Mas Peralta não foi sozinho: acompanharam-no
vários anões, inclusive o Comandante. E todos se divertiram muito, pois
Peralta, volta e meia, repetia os seus argumentos a favor da uva e da
saúde dos anões.

- Não
sou capaz de levar a uva para cima da mesa! gemeu ele quando chegaram à
casa. Ê muito pesada.
- Mas você foi capaz de descê-la, disse o
Comandante. Agora faça o contrário.
Peralta amarrou uma ponta do
barbante no cabinho da uva e, com a outra ponta entre os dentes, subiu na
mesa, seguido de todos os outros anões. Puxou a uva e fez então o seu
último apelo em favor da saúde da Cidade dos Anões.
- Não! disse o
Comandante. Esta uva não é nossa. Coloque-a novamente no prato.
-
Bem, disse Peralta. Se todos os anões ficarem doentes por falta de um
pedacinho de fruta fresca, eu não sou o culpado.
- Eu me
responsabilizo, disse o Comandante, fazendo sinal aos anões para que
descessem da mesa.<
- Sinto muito, Peralta, disse ele, quando
todos voltavam para a casa-sapato. Mas a uva não nos pertencia e não seria
justo que ficássemos com ela.
- Está bem, Comandante, resmungou
Peralta. Mas também aquelas uvas tinham jeito de ser muito
azedas...


UM
PIQUENIQUE
A entrada da primavera trouxera
chuvas.

Chovera mais de uma semana sem parar e tudo, tudo na
Cidade dos Anõezinhos estava ensopado de
água.

Às vezes a chuva parava um pouco, mas logo em
seguida voltava a cair com mais força. No entanto, as casinhas da Cidade
ofereciam todo o conforto aos seus moradores, e os anões se distraíam com
as suas diferentes ocupações. O velho Soldado de
perna de pau serrava um palito de fósforo para com ele consertar uma
cadeira da sala de jantar, que se quebrara. Turco e Bastião faziam novos
arreios para ratos, aproveitando um pedaço de pele de rã bastante
resistente, que haviam curtido no verão passado. Dona Grã-fina tecia um
par de meias com fios de teia de aranha, e as outras mulheres remendavam
roupas.

Tom Mix fazia uma sela nova para os ratos que
costumava montar. Era do que ele mais gostava: montar um rato fogoso e
sair em disparada pelo mato a dentro! As crianças brincavam. O Cozinheiro
preparava deliciosos petiscos. Todos, porém, estavam aborrecidos com
aquele descanso forçado e ansiosos para sair de casa. Isso, no entanto,
era muito perigoso para eles, pois, como não eram maiores que um palito de
fósforo, bastava uma gota para encharcá-los dos pés à cabeça.

- Ora bolas! dizia Peralta, olhando pela janela da
sala de visitas da casa feita de um sapato. Está começando o aguaceiro de
todos os dias. E você pensava que a chuva fosse parar...
- Parece
que amanhã não choverá mais, disse o Doutor, aproximando-se da
janela.
- Deus queira, disse Peralta. Quero passear pela floresta e
ver as flores da primavera. Devem estar lindas!
- Eu também
gostaria de ir, Peralta, disse Dona Grã-fina. Tenho a certeza de que os
trevos e as violetas já se abriram.
- Um passeio nos fará bem,
disse o Comandante. Logo que a chuva parar, faremos um piquenique no
campo.
- Viva! bradou Peralta, acompanhado pelos companheiros, que
eram doidos por piqueniques.
Realmente, parou de chover durante a
noite, e a manhã despontou com um sol
brilhante.

Dona Grã-fina e o Cozinheiro encheram as cestas com
merendas.

Em uma das cestas ela pôs sanduíches de presunto de
perna de sapo. Em outra cesta colocou ele bolos e pastéis. Levariam também
três jarros feitos de sementes de cereja, cheios de molho, e meio dedal de
chá.
- Onde faremos o piquenique? perguntou o Polícia, depois de
tudo pronto.
- Em pleno bosque, é claro, disse Dona
Grã-fina.
- Não é muito longe? tornou a perguntar ele.
- É
longe, mas lá é que estão as flores mais belas, respondeu Dona
Grã-fina.
- É mesmo, confirmou Peralta. Lá é que veremos trevos,
bocas-de-leão e muitas outras flores!
- Está bem, concordou o
Polícia.
Ele e Bastião partiram carregando o dedal de
chá.

Todos os demais companheiros foram atrás deles.
Depois de uma boa caminhada, chegaram, afinal, ao bosque. Escolheram um
belo lugar sombreado, junto de um tronco caído, para o
piquenique.

Esconderam as cestas de comida debaixo dos galhos de
um pé de morango, e foram à procura das flores. Tiveram sorte, pois
acharam trevos, margaridinhas e moitas de violetas roxas, amarelas e
brancas.
- Estou
morto de fome, disse Peralta, logo que os companheiros se dispersaram pelo
bosque. Não vamos comer agora?
- Ainda é cedo, respondeu o
Cozinheiro. Se estiver mesmo com fome, vá apanhar dois bolinhos na cesta.
Mas só dois, ouviu?

Peralta disparou para o lugar onde o lanche havia
sido escondido. E chegou a tempo de ver um esquilo que ia escapando com as
cestas de bolos e pastéis. O esquilo agarrava as alças das cestas com os
dentes e saltava a toda à pressa.
- Pare! gritou Peralta. Você não
pode fazer isso!
E deu um grito especial, que era o sinal usado
para avisar que alguma coisa acontecera. Imediatamente surgiram anões
correndo de todos os lados, e o esquilo, que decerto nunca vira homens tão
pequeninos, correu para cima do tronco caído e parou, com os olhinhos
arregalados de espanto. Mas não largou as cestas.
- Você furtou
nossa merenda, disse o Comandante. E cercou o tronco com os anões. Se você
levar a cesta não teremos o que comer. Mas se você quiser, pode ficar para
almoçar em nossa companhia.
Os anões tinham um jeito especial para
se fazerem entender pelos animais. O China, principalmente, entendia tudo
quanto diziam os pássaros e os animais pequenos. E como o Comandante não
se fazia compreender pelo esquilo, chamou o China para ver se ele se
poderia fazer entender. O China, depois de conversar com o esquilo,
transmitiu o seguinte aos companheiros:
- Ele disse que farejou
nossa merenda e acabou por descobri-la escondida debaixo das folhas do pé
de morango. Disse que não sabia que a merenda tinha dono. E pediu
desculpas.
- Bem, diga-lhe que venha comer em nossa companhia,
disse o Comandante. Será muito bem recebido.
O China repetiu essas
palavras para o esquilo. E o bichinho mostrou claramente que teria prazer
em aceitar o convite. Trouxe de volta a cesta e fez questão de colocá-la
no lugar em que a havia encontrado. O Cozinheiro e Dona Grã-fina serviram
a merenda e todos se sentaram no chão para comer. Estavam felizes com o
piquenique. O esquilo comeu sete bolinhos e cinco pastéis. Não aceitou o
sanduiche de rã, explicando ao China que ele nunca havia comido carne. Os
homenzinhos se divertiram muito aquele dia e ficaram todos amigos do
esquilo. O esquilo até levou Peralta às costas para dar uma voltinha, e
prometeu que um dia iria visitar a Cidade dos Anõezinhos.

LIMPEZA DA
CASA

Dona Grã-fina esperara impaciente a chegada da
primavera para cuidar da limpeza da casa, pois nada pôde fazer durante
aqueles dias de chuva. Quando parou de chover, os anõezinhos todos os dias
davam uma desculpa para não ajuda-la na limpeza. A horta precisava ser
tratada.Para isso contrataram um rato, que
puxou o arado; depois, semearam. Terminado o trabalho na horta, Dona
Grã-fina bateu os pezinhos e disse que a casa tinha de ser limpa sem
demora.
- A casa está imunda! disse ela ao Comandante. Não a
limpamos durante todo o inverno. Deixem de desculpas e ajudem-me na
limpeza!
- Está bem, disse o Comandante. Nós, homens, estamos
dispostos. Vocês poderão começar a limpeza amanhã cedo.
- Oh, que
pena! exclamou Peralta. Ouçam, agora é a temporada de boa pesca e alguns
de nós devem ir pescar!
- Esqueça a pescaria até que a casa esteja
limpa, disse Dona Grã-fina. Os colchões têm de ser levados para fora a fim
de tomar sol. Os tapetes precisam ser batidos. E a casa varrida do porão
até ao sótão.
- Que tristeza! resmungou Peralta. Vocês mulheres só
pensam em limpeza e não deixam que a gente tenha um pouco de
sossego!
- Você quer morar numa casa suja? perguntou-lhe D.
Grã-fina.
- Isso não! Mas podia muito bem morar aqui com um pouco
menos de limpeza. Na manhã seguinte os
homens levantaram cedo e, depois de uma pequena refeição de feijões e
presunto de sapo, começaram a limpeza. Todos os colchões foram levados
para fora e pendurados em uma corda ou colocados sobre cavaletes para
tomar sol.

Turco e Peralta bateram os tapetes a manhã toda com
palitos. Os outros esfregaram o assoalho e lavaram as janelas. Até o
Comandante tomou parte no trabalho. Trabalharam a manhã inteira,
adiantando bastante a limpeza.

Logo depois do almoço, um pardal desconhecido baixou
voo e apanhou um colchãozinho que estava ao sol. Apanhou o colchão e com
ele no bico, voou para o teto da casa-sapato.
- Que ideia foi essa
de furtar nosso colchão? Perguntou-lhe o velho Soldado, batendo no chão
com a sua perna de pau.
- Seu, o quê? perguntou a ave, falando por
um canto do bico.
- Nosso colchão, repetiu o Soldado. Esse é um dos
melhores colchões que possuímos.
- Não sabia, disse o pardal. Voei
para cá procurando fazer um ninho. Vi isso e achei que seria muito bom
para forrar a minha casa.
- Sim, isso seria mesmo, disse o Soldado.
Mas acontece que o colchão nos pertence.
- Oh! disse o pardal,
então desculpe. Eu não sabia que o colchão tinha dono. Eu estava mesmo
admirado de que não o tivessem levado daqui há mais tempo.
O pardal
veio pôr o colchão no lugar donde o tirara, e começou a olhar os
anõezinhos que logo o cercaram.
- Que coisa! exclamou ele. Como
vocês são pequeninos!
- De fato, não somos gigantes, disse o
Polícia.
- E aquele sapato? perguntou o pássaro, apontando com as
asas. É a casa onde vocês moram?
- É uma das nossas casas,
respondeu o Soldado. Aquele velho bule de chá é onde mora o
China.
- E aquele edifício? perguntou o pardal, apontando para um
chapéu não muito distante da casa-sapato.
- É a casa da Câmara,
explicou Tom Mix. Lá é que nos reunimos para discutir e para dançar. É
usada também como escola.
- E aquela lata de café? Para que serve?
tornou a perguntar o pássaro.
- É nossa oficina, disse o Soldado.
Lá é onde construímos nossas mobílias e tudo quanto se possa fazer em uma
oficina.
- Vocês passam o inverno aqui? quis saber o pardal, muito
admirado.
- Certamente, respondeu o Polícia. E porque não?
-
Meu Deus! Exclamou o pardal. Como deve fazer frio naquele sapato durante o
inverno!

- Sim, mas nós o conservamos bem aquecido, explicou
o Comandante. Saiba você que temos fogão e lareira lá dentro. E sempre
reservamos bastante lenha para atravessar o inverno.
- E quando
neva como é que vocês se arranjam? Não entra neve no sapato?
- Bem,
às vezes isso acontece, disse o Comandante. Ai nós passamos alguns maus
momentos. Mas tomamos cuidado e até nos divertimos com a neve.
-
Que gosto extravagante! exclamou o pássaro. Comigo nada de neve! No
inverno sempre viajo para o sul. Lá não há neve e nunca faltam insetos
para comer.
- Você pretende passar o verão aqui? quis saber o
Comandante.
- Sim, respondeu o pardal. Estou construindo meu ninho
aqui perto. Acho que seremos bons vizinhos e que vou gostar deste
lugar.
- Você fará amizade com uns pássaros muito bem educados que
vivem aqui. Nós nos damos muito bem com eles, disse o Comandante.
-
Existem gaios azuis por aqui? perguntou o pardal. Não gosto de gaios. Eles
são sempre aborrecidos.
- Há poucos gaios nesta redondeza, explicou
o Comandante. A maioria deles vive em paz conosco. Mas há um que é um
grande desordeiro. Na verdade, não é má pessoa, mas sempre nos dá trabalho
com as suas brincadeiras. Chama-se Zeca, e nós o apelidamos de Arreliento.
Logo você o ficará conhecendo.
- Não, se puder evitá-lo, disse o
pardal. Estou muito satisfeito por conhecer todos vocês. Voltarei para
visitá-los em outra ocasião.
E, levantando voo, desapareceu atrás
da moita de roseiras bravas.
- Creio que já podemos recolher os
colchões, disse Dona Grã-fina. Já tomaram bastante sol e pode ser que haja
mais pássaros desconhecidos por aqui, procurando ninhos prontos.
Os
anõezinhos estavam exaustos quando se deitaram aquela noite, estavam
contentes porque era um prazer ver a casa inteiramente limpa. Até Peralta
concordou que era bom morar numa casa asseada, apesar do trabalho que isso
dava.

ZECA, O
ARRELIENTO
Os anõezinhos eram muito amigos de todos os pássaros
e animaizinhos da vizinhança. Bons amigos, ajudavam-se todos, uns aos
outros.


Como os anões os auxiliavam em tudo que podiam, os
pássaros lhes serviam de jornal, levando-lhes as notícias que colhiam em
suas viagens pelos arredores. E, quando os anões precisavam fazer uma
viagem às pressas, os pássaros os transportavam num instante. Era muito
cômodo.
Às vezes, o rato puxava o arado dos anões e os
ajudava a carregar lenha.

Ticho, o esquilo, também muito bom vizinho, dava uma
mão nas colheitas de nozes e no transporte delas para o celeiro. Os
anõezinhos, por sua vez, auxiliavam-no a ajuntar o seu suprimento de
nozes. E, dessa maneira, uns eram úteis aos outros.
Embora os gaios
azuis, por natureza, sejam incômodos, nem por isso aborreciam os anões.
Mas havia um, chamado Zeca, que gostava de aborrecê-los. Ele não fazia
isso por mal, mas dava trabalho. Muitas vezes, quando os anões estavam na
oficina ele aparecia e lhes roubava as ferramentas. A verdade é que
deixava as ferramentas num lugar onde os anões pudessem encontrá-las. E,
assim, tudo acabava em paz. Os anões apelidaram esse gaio de Zeca, o
Arreliento. Logo que eles ouviam o seu vozeirão, recolhiam as ferramentas
e guardavam-nas, para que o gaio não lhes pregasse mais uma peça. Zeca
sumiu durante muito tempo. Mas, quando apareceu, deu muito trabalho aos
anõezinhos.
Desde o dia da limpeza da casa, Peralta andava
insistindo com o Comandante para que ordenasse a limpeza e a reabertura da
piscina. Mas ele sempre lhe respondia que ainda era cedo para nadar e que
seria necessário esperar que o tempo ficasse mais quente.
- Mas não
podemos limpar a piscina? perguntava Peralta. Assim ela estará pronta
quando chegar o dia.
- Não, tornou a dizer o Comandante. Se
limparmos a piscina e a enchermos de água, você quererá entrar nela. E
ainda está muito frio para a natação. Não queremos gente resfriada por
aqui.
- Ora bolas! exclamou Peralta. Que adianta termos piscina se
não podemos usá-la?
- E isso não é tudo, disse o Comandante, com
cara de poucos amigos. Não quero que nenhum rapazinho daqui vá nadar no
riacho. A água ainda está gelada.
O Comandante tinha razão. A água
ainda estava muito fria para que se pudesse nadar, embora os dias já
fossem mais agradáveis. Mas Peralta não se conformou com isso. Estava com
muita vontade de nadar. Pensou no caso e chamou Bastião para seu
confidente.
- Vamos dar um mergulho no riacho, disse ele. Não nos
fará mal. Nem o Comandante precisará saber que fomos lá.
- Também
eu tenho vontade de nadar, disse Bastião, Mas se o Comandante souber vai
ficar muito zangado!
- Ah! Você está com medo! exclamou
Peralta.
- Não, não tenho medo, mas não gosto de desobedecer ao
Comandante. Ele sempre nos aconselha para o bem.
- Nesse caso, vou
sozinho, disse Peralta. Já que você está com medo, venha comigo apenas
para me ver nadar.
- Bem, não sei, não, resmungou Bastião. Quando
vejo água fico com vontade de cair nela...
- Ora, vamos, disse
Peralta, encaminhando-se para o riacho.
- Acho que ver não faz mal,
disse Bastião, seguindo atrás do companheiro.
Chegando ao riacho,
Peralta tirou a roupa e saltou dentro d'água. Bastião sentou-se na margem
e ficou olhando para ele. Peralta mergulhou e começou a nadar. E aí,
Bastião não resistiu mais. Tirou a roupa também e saltou n’água. A água
não estava quente, mas, com o exercício, os dois não sentiam
frio.

De repente, ouviu-se um bater de asas, e Zeca, o
gaio arreliento, pairou sobre a margem do regato e apanhou no bico as
roupas dos dois nadadores. Parou um pouco, pousado num galho de árvore,
depois soltou um grito e voou em direção da Cidade dos Anõezinhos com as
roupas no bico.
- Acudam! gemeu Bastião. Aquele malvado vai nos
obrigar a voltar sem roupa!
- Ele não levará as roupas longe daqui,
disse Peralta. Vamos procurá-las que logo as acharemos. Não se
assuste!
Os dois voltaram à margem do regato e puseram-se a
procurar as roupas. Procuraram, procuraram, mas não acharam nem Zeca nem
as roupas. Como estava muito frio, começaram a espirrar.
- Nossa
Senhora! gaguejou Bastião. Vamos para casa, se não ficaremos
resfriados.
- Talvez a gente possa entrar em casa sem que o
Comandante nos veja, gaguejou Peralta, por sua vez.
- Mas nós não
podemos voltar sem roupa, disse Bastião. Não fica bem!
- Podemos
embrulharmos em folhas de árvore, sugeriu
Peralta.

E os
dois rapazinhos, embrulhando-se, cada um, num par de folhas, tomaram o
rumo da casa-sapato. Tentaram entrar sem ver vistos, mas não tiveram
sorte, e o Comandante veio a saber de tudo. O Doutor foi examiná-los, pois
ambos estavam roxos de frio. A sua receita foi um banho bem quente,
preparado pelo Cozinheiro num dedal, e uma boa dose de chá, muito amargo,
quase fervendo. No dia seguinte, Peralta e Bastião amanheceram muito
resfriados. Foi um merecido castigo por terem desobedecido.
- Vocês
tiveram por si mesmos o castigo, disse o Comandante. Creio que foi o
bastante por esta vez.
Um pardal amigo dos anõezinhos encontrou as
roupas dos rapazes num galho de árvore, onde Zeca, o Arreliento, as
deixara penduradas. E depois deste incidente, Peralta e Bastião acharam
que seria melhor esperar a época apropriada para a
natação.

CAVALGANDO
RATOS
Dom Sapo foi namorar, sim, senhor! Dom
Sapo foi namorar a ratinha do pomar, sim, senhor! Foi só chegar e
falar, sim, senhor! Foi só chegar e falar. “Vamos nos
casar?” sim, senhor! "Onde vai ser a festa do noivado?” sim,
senhor! “Onde vai ser a festa do noivado?” sim,
senhor!

Bastião é quem cantava esta esquisita cantiga, ao
mesmo que esfregava uma tampa de garrafa de gasosa. Tinha sido uma das
melhores panelas do Cozinheiro, mas se estragara num dia em que o
mestre-cuca se esqueceu de pôr mais água no
feijão.

-
Ora bolas! exclamou Peralta, que enxugava os pratos utilizados no almoço.
Gostaria de ter um rato para montar. Há tanto tempo que não monto um rato,
que até devo estar destreinado!
- Bem, você não tinha muito que
esquecer, disse Tom Mix, rindo-se dele. Mas, agora já não será fácil
arranjar um rato para montar. Estão cobrando muito caro e, além disso,
ainda querem queijo do bom. Eles pedem um pedaço de queijo do tamanho duma
noz por uma hora de montaria. É uma exploração!
- Uma exploração!
repetiu Bastião. Isso não se faz! Esse preço é exagerado!
- Mas se
os ratos encontrarem o queijo antes de você, aí é que não! tornou a dizer
Tom Mix, rindo-se de Bastião.
Tom Mix era doido para cavalgar
ratos, por isso vivia pelas casas de gente grande, procurando pedaços de
queijo. Um dia teve sorte: encontrou um pedaço de queijo tão grande que
foram necessários quatro robustos anões para levá-lo até ao
celeiro
.
Perto da
casa-sapato havia muitos ratos de boa educação que podiam ser contratados.
Um deles era excelente para montaria. Corria que dava gosto e era
cuidadoso, a não ser que lhe aparecesse um gato pela frente. Ao desconfiar
da presença dum gato, enfiava-se no primeiro buraco que visse. E isso era
perigoso para o anãozinho que no momento estivesse montado em suas costas.
Esse rato se chamava Berimbau. Uma vez, quando Peralta o cavalgava,
Berimbau sentiu cheiro de gato e meteu-se num buraco. O buraco era
pequeno, e Peralta, atirado de pernas para o ar, machucou-se
bastante.

Tom Mix fez uma linda sela de couro de rã e um freio
com um pedaço de palito. Montava que era uma maravilha! Ele deixava que
todos os companheiros montassem, mas, depois do desastre que houve com
Peralta, ninguém se animava mais a cavalgar Berimbau.
- Eu montaria
se o rato fosse seguro, disse Peralta. Mas no Berimbau é que não monto.
Ele tem muito medo de gatos. Garanto que você não passa com o Berimbau
perto duma touceira de unhas-de-gato!
- Ora! respondeu Tom Mix.
Berimbau é seguro, para quem saiba montá-lo!
- Pois fique com ele,
retorquiu Peralta. Prefiro dar uma volta montado num pardal. É assim que
se viaja hoje em dia. Montar ratos é coisa fora de moda. Quando preciso ir
dum lugar para outro, não gosto de ir devagar. Quero rapidez!
-
Pois com o Berimbau isso é fácil: basta que ele sinta cheiro de gato!
disse Tom Mix, rindo.
Depois disso, Tom Mix contratou outro rato, e
ele e Dona Grã-fina deram vários passeios pela vizinhança. A verdade é que
Tom Mix procurava não passar perto de gatos e mochos. Só assim se evitaria
um desastre. Um dia, entretanto, Tom Mix também sofreu um acidente, embora
não por causa dum gato.

É que
ele, montado, foi fazer uma visita ao coelho, muito amigo dos anõezinhos.
O coelho estava com reumatismo e não podia sair de casa. Tom Mix esteve um
bom tempo em casa do coelho e depois voltou para a Cidade dos Anões. Os
companheiros o rodearam para pedir notícias do doente. E, nesse momento,
um enorme besouro saiu detrás duma árvore e deu uma ferroada no rabo do
rato que Tom Mix montava. Ah, não lhes digo nada! O rato deu um grunhido e
saltou no ar. Tomado de surpresa, Tom Mix foi arremessado para fora da
sela e caiu de cabeça diante da porta da cozinha. O rato apavorado
disparou com o besouro agarrado ao seu rabinho. Depois de longa
perseguição, Tom Mix, afinal, apanhou o rato. O besouro já lhe soltara o
rabo, mas Berimbau não havia meios de sossegar. O cavaleiro teve um
trabalhão acalmá-lo e não foi fácil levá-lo de volta para a
casa-sapato.
- Espero que não se tenha machucado, disse o
Comandante.
- Apenas um galo na testa, disse Tom Mix. Mas Berimbau
ficou muito nervoso. Diz ele que o seu rabinho inchou.
- Como
assim? perguntou Peralta, em tom de caçoada. Você não disse que Berimbau
era uma montaria segura?
- Ele é seguro, afirmou Tom Mix. Conforme
as circunstancias, ele é tão educado como um qualquer de nós!
-
Talvez, mas agora há pouco ele não foi nada educado! disse
Peralta.
- Nem você seria educado se tivesse rabo e um besouro lhe
desse uma mordida! respondeu indignado, Tom
Mix.

UM SAPATO
PERDIDO
Havia algumas casas de gente grande perto da Cidade
dos Anõezinhos, e eles as conheciam todas. Sempre que os donos das casas
andavam fora, os anões apareciam. Às vezes visitavam as casas até quando
eles estavam. Mas, de qualquer forma, tinham muito cuidado para não serem
vistos. Os anõezinhos não tinham medo dos homens grandes, mas os evitavam
a conselho do Comandante, que costumava dizer:
- Um anão é tão anão
e um homem grande é tão grande, que... Bem, é melhor que não se
misturem!
Várias crianças moravam nessas casas. Os anões conheciam
todas elas, mas nunca tinham sido vistos. Havia uma encantadora menina de
três anos, chamada Elisabete, que os anõezinhos admiravam
muito.
Era mesmo uma linda menina, mas tinha um péssimo
costume: saía sozinha de casa. Os anões se aborreciam com esse mau hábito
de Elisabete. Mas não eram eles os únicos que se preocupavam isso. Alguns
pássaros, e também o Ticho, o esquilo, que moravam perto da Cidade,
andavam sempre tomando conta dela. Salta-Salta, o pardal, muito amigo dos
anões, muitas vezes guiou Elisabete de volta para casa, quando ela dava
seus longos passeios.

Salta-Salta, o pardal, via quase tudo o que acontecia
nos arredores da Cidade dos Anões. Um dia viu Elisabete indo
apressadamente, com seus passinhos incertos, em direção do riacho.
Salta-Salta ficou alarmado, pois o riacho estava cheio e a correnteza tão
rápida que Elisabete poderia morrer se caísse nele.
- Logo pensei
na morte quando a menina se aproximou do riacho, contou Salta-Salta. Sua
mãe não estava. E alguma coisa tinha de ser feita bem depressa, para que
Elisabete não fosse adiante.
- Que é que você fez? perguntou Dona
Grã-fina.
- Bem, eu pousei no chão, diante dela, fingindo que
estava com a asa ferida. Elisabete, naturalmente, tentou pegar-me. Mas
todas as vezes que ela se aproximava, eu voava. E, assim consegui levá-la
de volta para a casa.
- E ela chegou sã e salva? quis saber o
Doutor.
- Sim, mas perdeu um sapatinho na lama da estrada. Um
sapatinho novo. Se algum carro passar por lá, o sapatinho de Elisabete
será esmagado.
- É pena, disse o Comandante. Talvez possamos
tirá-lo do caminho antes que algum carro o estrague.
- Certamente
que podem, aprovou Salta-Salta. E será uma boa ação, pois hoje em dia os
sapatos custam muito dinheiro.

Os anõezinhos correram para onde estava o sapatinho
de Elisabete. O Soldado, que era excelente engenheiro, disse que não seria
fácil desenterrá-lo da lama.
- Mas nós precisamos tirar o sapatinho
daí, disse o Comandante. Precisamos ao menos tirá-lo do meio do caminho,
para que um carro não o esmague. Com toda a certeza a mamãe da Elisabete
virá procurá-lo e o levará para a menina.
- É melhor começarmos o
trabalho imediatamente! Disse o Soldado, batendo com a sua perna de pau.
Pode passar um carro a qualquer momento. Vamos!

Vários anões correram para a oficina e voltaram com
pás, picaretas, enxadas e roldanas. Outros vestiam roupas de banho, o que
foi uma boa ideia, pois o buraco de lama era fundo. Outros ainda preparam
alavancas para ajudar a suspender o sapato.
- Precisamos de duas
alavancas bem compridas para erguer o sapato, disse o Soldado, de machado
em punho.
Dois galhinhos de árvore foram enfiados sob o sapato.
Depois, uma corda bastante resistente foi passada ao redor dele. As duas
pontas da corda foram presas a um par de carretilhas que estavam, por sua
vez, amarradas ao tronco duma árvore. Vários anõezinhos puxaram a corda,
enquanto o Marinheiro e Tom Mix ajudavam a empurrar o sapatinho. Aquilo
deu um trabalhão! E muita gente gemeu e suou até que o sapatinho de
Elisabete fosse para fora da lama.
- Vamos deixá-lo aqui mesmo,
disse o Comandante, apontando um lugar seco ao lado da estrada. O sapato
precisa ficar num lugar bem visível, para que a mãe de Elisabete possa
encontra-lo.
- Não seria melhor escrever uma carta para a mamãe de
Elisabete: perguntou Dona Grã-fina. Na carta diríamos o lugar exato onde
se acha o sapato. Salta-Salta poderá levar a carta.
- Não será
necessário, respondeu o Comandante. O sapato é novo e a mamãe de Elisabete
o procurará mesmo sem carta alguma.
Os anõezinhos jantaram muito
tarde naquela noite, pois o seu fogão não era lá muito grande e o
Cozinheiro teve de aquecer cinco dedais d’água para os banhos, antes de
servir a refeição. Muitos anões estavam terrivelmente sujos e precisavam
dum bom banho. Poucas horas depois do salvamento do sapatinho, a mamãe de
Elisabete veio procurá-lo. Ficou muito contente quando o achou, mas não
desconfiou de nada. No entanto, se ela examinasse com cuidado o sapatinho,
encontraria nele as marcas dos dedos sujos de lama do Marinheiro e de
Bastião.

;
ROUBADOS!

- Senhor Comandante, disse o Cozinheiro, uma tarde, estamos
sem ovos!
- Sem ovos? exclamou o Comandante. Como, se não faz mais
do que três meses que compramos um?!
- Três meses e sete dias,
completou o Cozinheiro.
- E nós comemos um ovo tão depressa?
perguntou o Comandante.
- Sim, respondeu o Cozinheiro. É preciso
não esquecer que eu faço dois bolos por semana, sem falar nas omeletes
todas as manhãs e nos ovos fritos para o jantar. Até acho que não gastamos
muito.
- Bem, talvez você tenha razão, disse o Comandante, que
gostava muito de omelete ao almoço. Infelizmente, acho que não dispomos de
grãos de milho suficientes para comprar outro ovo.
Graças a um
processo secreto que conheciam, os anões guardavam um ovo de galinha sem
estragar-se durante meses e meses, Mas, apesar de pequeninos, comiam
bastante, e um ovo não durava a vida inteira.

Na manhã seguinte, o Comandante e o Cozinheiro contaram
todos os grãos de milho que estavam no celeiro. Restavam-lhes apenas
cinquenta grãos, e somente dentro de três semanas os novos grãos estariam
maduros. Havia, ainda, um pouco de grãos de arroz e de trigo, mas as
galinhas, geralmente, só faziam negócio com grãos de milho. Além disso, os
anõezinhos usavam o milho, também para fazer pão.
- Podemos
arranjar um ovo com uma das galinhas da casa de Elisabete, lembrou o
Cozinheiro.
- Aquelas galinhas são muito careiras, disse o
Comandante. Elas pedem um preço muito alto por cada ovo. Mas, de qualquer
maneira, vamos ver o que podemos fazer.
Depois do jantar, o Comandante e vários anões se dirigiram
ao terreiro da casa de Elisabete, onde começaram a conversar com as
galinhas. Muitas delas disseram que não tinham ovos para vender, mas uma,
com olhar malicioso, mostrou-se disposta a fazer negócio.

- Quanto você quer por um ovo de tamanho regular? quis saber
o Comandante.
- Bem, disse ela, como a vida está cara, quero
sessenta grãos de milho.
- Mas você não acha que é um preço muito
alto? Quis saber o Comandante.
- Por um ovo bom como os meus, não
acho, respondeu a velha galinha. Qual é a sua oferta?
- Parece-me
que trinta e oito grãos seriam um preço razoável, disse o Comandante, que
sabia pechinchar.
- Misericórdia! exclamou a galinha. Seria o mesmo
que dar o ovo de graça!
- Bem, daremos trinta e oito grãos e meio,
disse o Comandante.
- Deus do céu! tornou a exclamar a galinha. O
senhor quer que eu morra de fome?
- Não, disse o Comandante, mas
não temos muito milho e também não queremos morrer de fome.
- Mas
não morrerão de fome se levarem o ovo, não é? disse ela, abrindo e
fechando as asas.
O Comandante viu que a galinha era sabida e
acabou oferecendo quarenta grãos de milho, seis grãos de arroz e quatro
grãos de trigo. A galinha recusou essa oferta, mas, finalmente, concordou
em vender o ovo por quarenta grãos de milho, oito de arroz, sete de trigo,
dois gafanhotos e quatro minhocas e
meia.
O Comandante prometeu voltar dois dias mais tarde com o
pagamento, e a Galinha prometeu, por sua vez, que lhe guardaria um
ovo.
Não foi fácil para os anões desenterrarem as
minhocas.
 
Quanto aos gafanhotos, não foi difícil caçá-los, pois havia
muitos por ali. Quando os anões voltaram ao terreiro com o pagamento, a
galinha já botara o ovo. Era um ovo grande, tão grande que o Comandante
achou que tinha feito bom negócio.

- Se encontrarem um galo ruivo com uma enorme crista, fujam
dele, avisou a galinha, quando os anões se puseram a empurrar o ovo. Ele
também gosta de ovos e poderá roubar este de vocês.

Os anões abriram bem os olhos para evitar o tal galo ruivo,
mas não viram nem sinal dele até à metade do caminho. Mas, de repente,
quando pararam para tirar algumas pedras da estrada, surgiu o
galo.
- Quero esse ovo aí, disse ele.
- Mas o ovo é nosso,
respondeu o Comandante. Acabamos de comprá-lo.
- Sumam daqui!
berrou o galo. E olhou feio para os anões, que então saíram
correndo.
Os pobrezinhos, escondidos atrás dumas folhas, viram o
galo quebrar a casca do ovo com o bico e comê-lo inteirinho. Ficaram
aborrecidíssimos com a perda do ovo. Haviam gasto mais grãos de milho do
que podiam e, agora, já não tinham o suficiente para comprar
outro.
- Que pena! exclamou o Comandante. Agora precisamos passar
sem ovos até que as espigas fiquem
maduras.
Mas, não se sabe como, a galinha veio a saber da história
por intermédio dum pardal conhecido, mandou dizer aos anões que botaria
outro ovo, e de graça. O Comandante achou que isso era delicadeza até
demais.

Quando os anões receberam a notícia de que o segundo ovo já
fora botado pela galinha, pediram ao Ticho, o esquilo, e também ao coelho,
que fossem em sua companhia para protegê-los.
- O galo não nos
roubará outra vez se vocês forem conosco, disse o Comandante. E não
ficaremos novamente sem ovo.
Os anõezinhos, na volta, passaram
perto do galo. O ladrão os viu, mas viu também o coelho e o esquilo, e não
disse uma só palavra. Os anões deram um suspiro de alívio quando viram que
o galo não tentara atacá-los. E ficaram muito gratos aos dois amigos pela
ajuda que eles deram.
- Às vezes, vale a pena ser grande! disse
Peralta.

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