PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
SUA GENTE

Prof. Benedito de Paula



Dito Potência


É assim que é conhecido o professor Benedito Paula. O apelido vem desde 1955, após ter ministrado aula sobre potenciação, no curso de Matemática do Departamento de Assistência Educacional (DAE) da FPV. Benedito Paula nasceu em Itajubá, em 16 de junho de 1928, um dos doze filhos do casal Francisco Marcelino de Paula e Maria Amélia da Conceição. A família mudou-se para Piquete em 1936, quando o pai foi convidado para trabalhar na construção da fábrica da "Base Dupla". Cursou o primário no antigo Grupo Escolar de Piquete e, por volta de 1940, foi matriculado no recém-criado Patronato da Fábrica, tendo feito parte da primeira turma a concluir o curso, em 1945. Formou-se mecânico de máquinas e passou a trabalhar na oficina de precisão. Transferiu-se, em seguida, para o Gabinete de Desenho, na Terceira Divisão da Fábrica. A rotina exigia-lhe muitos cálculos matemáticos, que lhe foram ensinados pelos superiores imediatos. Com a criação da Escola Normal, foi incentivado pelo chefe, Major Toledo, e pelo professor Leopoldo Marcondes de Moura Netto, a cursá-la, tendo em vista sua afinidade com as ciências exatas. Concluiu o curso em 1955.


Comemoração dos 40 anos de formatura da turma de 1955 -  Escola Normal Livre "Duque de Caxias. Agachado, primeiro à direita, prof. Benedito de Paula 

Foi transferido, então, para o DAE. Lecionou primeiramente no Ginásio da FPV. Depois, passou pela Escola Industrial, pelo Curso de Aprendizado e pela Escola Normal Livre Duque de Caxias. Mais tarde, aperfeiçoou-se em ensino secundário, passando a trabalhar também para o Estado. Aposentou-se como professor da FPV em 1975 e do Estado, em 1986. Foram mais de trinta anos de dedicação ao ensino da Matemática, a maior parte deles em três períodos do dia. Dito Potência encontrava tempo também para a comunidade: consta sua assinatura na ata de fundação da Associação dos Ex-Alunos da Escola Industrial, em 26 de agosto de 1946, iniciativa do professor João Ramos. Foi um de seus presidentes. Nessa Associação, colaborou com o informativo "O Profissional". Foi também o responsável pela organização da sua biblioteca. Participou, ainda, da criação da "Folha de Piquete", a partir de 1948. A Associação dos Ex-Alunos foi, por um longo período, referência em atividades sociais para os jovens piquetenses: manteve uma banda, organizava bailes, jogos, desfiles, concursos... Dito de Paula casou-se em 08 de janeiro de 1955 com Nair Vieira. 0 casal tem cinco filhos e quatro netos. Por ter dedicado toda sua vida ao Magistério, tornou-se personagem muito conhecida e querida na cidade. Não há quem não conheça o professor Dito Potência. De sua parte, recorda-se, com carinho, das inúmeras turmas que formou e, saudosamente, da excelência em educação oferecida àqueles jovens pelo DAE. Era um tempo em que havia mais civismo, mais amor e respeito por Piquete e pelo Brasil.

Seção "Gente da Cidade"
Jornal "O Estafeta" -  abril de 2004
Fotos escaneadas do Jornal "O Estafeta"

 

Minha Homenagem

Estávamos no início da década de 60 quando ingressei no Ginásio da FPV. Na cabeça um sonho no qual apenas eu acreditava: estudar Medicina. Os sons internacionais do rock de Elvis Presley, Neil Sedaka, Bill Halley e seus Cometas e tantos outros embalavam o início da nossa adolescência. Tantas fantasias sobre o que nos esperava na vida... Quase crianças, egressos dos grupos escolares, deparávamo-nos com uma nova maneira de estudar: um professor para cada matéria - e eram tantas: onze ao todo no primeiro ano ginasial. Sentíamos que nos exigiam mais seriedade e responsabilidade. O ensino do latim e do francês nos mostrava definitivamente que a infância acabara e que teríamos que nos preparar para seguir o nosso destino. Outra novidade a divisão dos sexos: o colégio funcionando com turma masculina pela manhã e feminina à tarde, revelava-nos que os rapazes passariam a ter um curioso significado em nossa vida. Em meio a tantas modificações de valores e comportamento, imperava - absoluta - a inspetora de alunos, Dona Helena. Sisuda, controlava nossas cadernetas e uniformes, mas quando necessitávamos mostrava-se  terna e prestativa. A clássica história do "cão que late, não morde". Nosso simpático e bonachão diretor Prof. Augusto e tantos mestres queridos completavam o espaço que freqüentaríamos por quatro anos e que contribuiria na formação de nossa personalidade. Como em todo paraíso tem que haver um Lúcifer, o nosso chamava-se Benedito de Paula, o temido Dito Potência, todo-poderoso professor de Matemática...


Turma de 1963 do Ginásio da FPV - diurno e noturno
Arquivo Marlene Machado

A maioria de nós, inclusive eu, não conseguia absorver suas aulas; temerosos do "carrasco" pensávamos que ele só desejava nos reprovar. Notas vermelhas na caderneta, briga em casa e a raiva do Dito Potência - estes acontecimentos marcaram nossos primeiros meses no Ginásio da FPV. Enchíamos a boca com seu apelido que, diziam, ele detestava, vingando-nos assim das notas vermelhas. Um dia, ele teria que nos ensinar essa matéria. Havia histórias de alunas que não conseguiram controlar as risadas e que haviam sido expulsas de sala. No dia esperado, o mestre ao iniciar sua aula, calado, escreveu no quadro-negro bem grande a palavra POTENCIAÇÃO. Voltando-se para nós afirmou, vermelho como um pimentão: "Podem começar a rir. Eu sei bem qual é o meu apelido." Realmente, aquelas mocinhas bobas que éramos fizeram isso. O professor Benedito ficou calado ouvindo as risadinhas. Após algum tempo, afirmou sério: "Já riram. Agora chega e comecem a prestar atenção para não chorarem depois..." E prosseguiu em sua aula. Nesse momento senti que a sua dimensão mudou para mim. Não sei se aquele dia foi tão importante para minhas colegas - mas a partir daquele instante comecei a admirar e respeitar o Prof. Benedito de Paula. Atenta as suas explanações, passei a absorver seus ensinamentos e descobrir o gosto pela matemática. Ele ainda foi meu professor no científico e na Escola Normal. 


Turma de 1963 do Ginásio da FPV - diurno e noturno
Arquivo Marlene Machado

Em São Paulo, durante o ano preparatório para o vestibular, em 1967, verifiquei como aprendera matemática com ele. Durante todo este ano, as únicas matérias que eu apenas precisei sedimentar, não tendo nada para aprender a mais do que me havia sido ensinado em Piquete, foram: Matemática, brilhantemente repassada pelo nosso Dito Potência e Português, ensinado pela Profª Abigayl Léa. Grandes e maravilhosos mestres.


Alunos do 1º ano da Escola Normal Duque de Caxias - 1964
Arquivo Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira

Há alguns anos, indo a Piquete visitar meus pais, encontrei-me com o Prof. Benedito na rua. "Então, você conseguiu mesmo ser médica", disse ele. "E seus ensinamentos me foram preciosos, para poder chegar lá", respondi. Ele seguiu simplesmente seu caminho, carregando uma sacola de frutas e verduras, e eu fiquei com vontade de falar mais, de lhe contar a importância que teve para mim aquela tarde de 1960. Permaneci calada e insatisfeita, acompanhando seu vulto subindo a ladeira da Praça da Bandeira. Frustrada, senti pairar no ar frio da manhã, a sensação decepcionante de não ter revelado o que sentira por toda uma vida... Destaco isso agora, agradecendo a este mestre tão temido, a dedicação e carinho com que suportou adolescentes chatas, que nada conheciam da vida...

Obs. Agradeço à querida amiga Marlene Machado pelo envio dessas fotos de nossa adolescência. Como me disse sua filha, são "as relíquias" de Marlene que ela nos disponibilizou. Obrigada, amiga...
Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira

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