PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
SUA GENTE

Carlos Vieira Soares

 


Carlos Vieira e Dona Zezé, sua companheira de toda a vida
Foto publicada no Jornal "O Estafeta"

Há 82 anos, no dia 22 de maio de 1915, nascia no lar do casal José Vieira Soares e Maria José das Dores Soares o menino Carlos Vieira Soares. Quarto filho de uma tradicional família piquetense, o Sr. Carlos Vieira veio a ser um dos maiores batalhadores em prol de nossa cultura. Aos sete anos foi matriculado no Grupo Escolar de Piquete, onde concluiu o quarto ano. Em 1927 trabalhou como aprendiz de tipógrafo nas oficinas do jornal "O SENTINELA". Em 1929 foi admitido na Fábrica de Pólvora, onde se aperfeiçoou nos ofícios de latoeiro, encanador, soldador e mecânico ajustador. Em 1933 aprendeu música e em 1936, apresentou-se como voluntário no Exército. Voltando à Fábrica, foi readmitido como desenhista-projetista, desenhando mais de uma vintena de residências e várias capelas da cidade. Aposentou-se em 1959. Em 1938 casou-se com D. Maria José Pereira Soares (D. Zezé). Tem um filho, José Ribeiro P. Soares. Como músico, além da participação constante na Corporação Musical, foi organista, durante anos, da Igreja Matriz. É também compositor e arranjador. Com instrumentos emprestados da Escola Industrial, em 1948 fundou a Banda dos Ex-Alunos; em 1957, a Corporação Musical de Piquete e cooperou ainda na formação da Banda Feminina de Maria da Fé. Posteriormente formou a Lira da Juventude Piquetense, juntamente com um grupo de amigos.


Lira da Juventude Piquetense, fundada em 1970. Carlos Vieira Soares acompanhado de pessoas que colaboraram na criação da Lira: Luiz Vieira Soares, Osvaldo Cruz Coelho Nunes, D. Eunice Prado Nunes, D. Floripes e o vigário, Padre Pedro. Foto escaneada do jornal "O Estafeta"

Destaca-se na área ambientalista do município, há muitos anos guia de escaladas de nossos picos. Somente o Pico dos Marins, foi por ele escalado mais de setenta vezes, em companhia de grupos locais e de outras cidades. Embora com instrução primária, o Sr. Carlos Vieira sempre colaborou com os jornais locais, sob os pseudônimos de Vicar, Caviso, e Espiridião. Dono de um estilo solto, bem humorado, linguagem coloquial e irreverente, nos remete com seus artigos ao mais recôndito de sua memória. Guardião de nossas tradições, desfrutar de alguns momentos de prosa com o Sr. Carlos Vieira é instruir-se e enriquecer-se. Foi ele quem idealizou e criou o museu municipal, e é ele que conserva muito de nossa história. Em 1992 nos brindou com o livro "Folclore de Piquete (pequena contribuição)", no qual exteriorizou suas vivências, nos trazendo uma Piquete pitoresca, religiosa, provinciana e simples. Neste trabalho nos apresenta pessoas, paisagens e a beleza de nossa cidade. Surpreende com suas qualidades de pesquisador, cronista, historiador, memória viva de Piquete. Ao homenagear Carlos Vieira, nesta edição, estamos, na verdade, ratificando todas as anteriores já merecidamente feitas, porém a um homem que é um exemplo de amor a Piquete, não poderíamos deixar de o fazer.  

Jornal "O Estafeta" - Seção "Gente da Cidade" -  dezembro de 1997



Foto de capa do livro "Rememorando..."
O autor é o garoto em primeiro plano, que leva nas mãos uma bandeja de curau - 1928

Prefácio do livro "Rememorando..."

A memória de um povo é o reforço das bases geradoras da identidade e da cidadania. Os memorialistas, sendo portadores da referência afetiva que liga os moradores de um núcleo, são elos e fundamentos da sabedoria. A fruição saborosa de suas referências provê cada povo de alimento espiritual, isto é, concede-lhe alma. Povo tem de ter alma revelada. Somente os muito sensíveis, portadores de ideais, são capazes de detectar os reflexos dessa alma e soprar-lhe vida. Animar, recriar, traduzir, referenciar, expandir, comunicar, são seus dotes de ação. Carlos Vieira Soares é um destes. Vive aureolado de memórias. Faz ponto de honra revelá-las com autenticidade e segurança, dando testemunho, selando, exemplificando e, cordialmente, mostrando os valores de posse. Sua vida, sua casa, seu labor, sua família são provas do empenho de um guardião zeloso, portador, arauto e reprodutor de atestados de fé. Daí o seu empenho em criar e manter o museu da cidade. Aprendeu a boa lição familiar do respeito e da reverência. Mas não deixa de lado a observação arguta e crítica, na dosagem apurada dos sabores. Está presente, participa, interfere, age. Não fica nas cogitações. Mãos à obra, toma projetos sonhados em atividade concreta. A maquete projetiva para uma nova matriz revelou-se uma obra prima: ficou na maquete, mas registrou a ação. Ele é, certamente, quem conhece melhor os caminhos rústicos e montanhosos. Guia e incentivador, alcançou os picos de nossas montanhas com valor de causa. Atingiu o ponto mais elevado, o do Marins, várias vezes: são-lhe familiares as pedras dos caminhos e as vertentes íngremes, a vegetação, os pássaros, as feras, os ventos e o tempo atmosférico. Aqui estão as crônicas de Carlos Vieira Soares. Lê-las é rememorar a história de Piquete. É encontrar um homem forte, de raiz e de boa seiva, a presenciar, atestar, documentar, explicar e fazer amar. Poucos amam Piquete com tanta entrega! Poucos conseguem saborear tão bem o direito do pertencimento a um lugar! Numa cidade onde as lamentações superam as ações criativas, Carlos é lume vivo e estimulante. Nessas crônicas, Piquete desdobra- se por todo o século XX, entrando no novo milênio com vida plena. A prolongada existência dotada em Carlos faz dele, talentosamente, um significado para nossas aspirações mais caras. Não fora somente nosso memorialista atento, é ele também um poeta a pontuar, ao lado da beleza, a alma simples do povo. Músico, esportista, artesão, explorador, lutador incansável pelos direitos da gente piquetense, como vereador, ou congregado mariano, sertanista ou cronista, Carlos é, para nosso gáudio, o revelador de nossa autenticidade. Leiam Carlos, saboreiem suas lições, para, juntos com ele, sermos, com força e fé, piquetenses.

Dóli de Castro Ferreira
Maio de 2002

Página formatada em 02 out 2004

 

 

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