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PIQUETE -
CIDADE PAISAGEM |

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Lembro-me de
quando Celeste nasceu. Sei que foi num 1° de abril, mas não sei precisar o
ano. Um tempo em que eu era menina, acho que do Grupo Escolar, que ia
diariamente à casa dos pais dela, pois “seu” Christiano Rosa fornecia o
leite medido na hora, do latão recém-transportado da ordenha na fazenda ou
sítio, e para o qual eu portava uma caneca grande para um litro.Dona
Aída, mãe de Celeste, e Dona Ana, a avó materna, recebiam-me com muito
carinho. Contaram-me do nascimento da Celeste, e quando ouvi o nome que
lhe deram, curiosa que sempre fui quanto ao significado das palavras,
pensei – se é Celeste o nome da menina, significa que veio do céu.
Imaginei Celeste descendo do céu, onde teria brincado com os anjinhos,
pois além de tudo, remetia-me a um filme estrelado pela menina Shirley
Temple, com seus cachinhos louros emoldurando o rosto angelical, cuja
temática era essa, a dos bebês que, antes de nascer, eram criaturas
celestes. Acho que o filme se chamava “O Pássaro Azul”. Pois bem. Celeste
veio e agora voltou para lá, deixando um rastro de luz. Viveu iluminada
pelo trabalho, ótimas idéias, o espírito empreendedor que herdou do pai, a
doçura da mãe e as mãos dedicadas ao trabalho manual criativo da avó. Mas
também valorizou muito a cultura, as pesquisas, a descoberta das razões
que envolvem o espaço físico e o reconhecimento das questões ambientais,
na valorização do local onde nasceu. Da História, cultivou os documentos,
consultou-os atentamente e se dedicou aos que poderiam, de alguma maneira,
alimentar sua dialógica busca. Visitei Celeste, muitas vezes, e ela,
sempre envolvida com as pesquisas, era uma grande interlocutora. O
espírito empreendedor canalizou as idéias geradoras e gerenciais, e a fez
criar estabelecimentos de comércio que valorizam nossa cidade. Neles
encontramos o resumo de Celeste Aída Antônia da Rosa, cujo nome já é um
poema delicado e harmônico. Nunca vi pessoa tão interessada em nossa
História fundadora. Cultora do ideário e da natureza, criou mostra
fotográfica e iconográfica de nossas belezas naturais, dos rios e
cachoeiras às montanhas, às flores e aos pássaros. Estimulava todos os
produtores culturais e de arte. Divulgava e comercializava as obras dos
piquetenses, expondo-as em destaque nas suas vitrines. Cultuava a Pedra do
Piquete, a propósito da qual promoveu uma reunião cultural e científica
entre amigos e de que escrevi um artigo. O artigo é uma homenagem a ela.
Foi tudo documentado. Espero que essa memória esteja guardada e seus
herdeiros a conservem. Conservem o rico arquivo da Celeste. Há muito o que
falar dela, e cada um tem de Celeste um reflexo. Pois, do lugar para onde
retornou, quer do retorno ao berço natal, após cumprir profissionalmente
sua missão, ao celeste ponto que se lhe destinou o espaço vital em que
viveu entre esses dois focos, Celeste vive e ilumina. |
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Foto de nosso Santo
Cruzeiro ao amanhecer, obtida por Celeste, juntamente com Adenauer
Porto,
numa tentativa de registrar os nossos equipamentos
culturais.
Eu me recordo de Celeste pré-adolescente, um ano a menos que eu; estudávamos em séries diferentes, mas conversávamos muito, antes das aulas e nos recreios. Alvas e de pernas sensíveis, reclamávamos sempre dos "borrachudos" que as picavam, deixando marcas vermelhas e elevadas, além de terrivelmente pruriginosas. Celeste me ensinou que molhando os sabonetes e passando-os nas pernas e braços estaríamos protegidas dessas picadas, pois atuariam como repelentes dos insetos. Infelizmente, nem sempre funcionava... Nossa amizade teve início numa festividade da Casa Um, no aniversário de um Coronel da Fábrica Presidente Vargas (Cel. Ribas?). Eu representava os estudantes do Departamento Educacional, escolhida pelo Prof. Leopoldo Marcondes; Celeste era a filha do Prefeito Cristiano Rosa; Ilce Nunes também lá estava por conta de seu pai Oswaldo, fazendeiro e homem de destaque em nossa cidade. Celeste e Ilce eram mais "molecas" do que eu, menina comportada e tranqüila. Mas eu as acompanhei nas brincadeiras de sobe e desce, pelas escadarias da Casa Um. A partir dessa data, tornamo-nos amigas. A alvura de sua pele, maior que a minha, destaca-se em minhas recordações; sua simplicidade e ingenuidade encantavam-me mais ainda. Falar de ingenuidade nos anos 60... Se EU, considerada pelas amigas uma "pomba lesa" pensava assim dela, imaginem como Celeste era encantadora e pura. Os anos passaram, eu deixei nossa cidade e ela também. Mas Celeste voltou... Quando iniciei minha homepage e essa sessão de resgate de nossa história e nossos costumes, ela me enviou muito material: textos, fotos preciosas. Numa de minhas idas a Piquete fui visitá-la em sua loja, juntamente com meu marido. Celeste nos conduziu ao seu "refúgio", como chamava um recanto próximo da Praça da Bandeira onde montara um quarto-escritório. Contou-nos de sua vida, de suas viagens, de seus planos e sonhos futuros. Reencontrei a pureza e o idealismo daquela amiga, mantida através e apesar dos anos passados e das vivências. Soube de seu falecimento e, como sempre acontece, na nossa faixa etária, as perdas nos mostram que estamos na linha de frente dos embarques definitivos. Doce Celeste, findo o seu sofrimento, descanse em paz, e até um dia... Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira |
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