PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
SUA GENTE

Prof. Antônio César Dória
Trinta anos de saudade




Prof. César Dória
Arquivo Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira

 

"Professor Dória" como era conhecido por alunos e professores, nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), no bairro de Botafogo, em 11 de setembro de 1903. Filho caçula de José César Dória (português de nascimento) e de Maria Joaquina de Portugal, trazia no sangue a paixão pela arte. Esta alma de artista, ele a recebeu como herança de seu bisavô - o famoso escultor genovês Silvestre Dória que, em 1775, foi convidado pelo Marquês de Pombal a residir em Portugal e ajudar na reconstrução da cidade de Lisboa, semi-destruída por um terremoto. Silvestre Dória não mais retornou à Itália (sua terra natal e de seus antecedente nobres como o Papa Inocêncio IV, o Papa Adriano V e o Almirante Andréia Dória - herói nacional) fixando sua residência em Castro-Doire, distrito de Viseu, onde vieram a nascer Bernardino César Dória e José César Dória, respectivamente avô e pai do nosso querido mestre. Antônio César Dória iniciou seus estudos ao seis anos de idade, na Escola Modelo "Basílio da Gama" e, logo depois, aprendeu o ofício de fabricar gaiolas. Rapidamente dominou a arte de fabricar gaiolas; seu pai, preocupado com o futuro do filho, arranjou- lhe outro ofício: o de barbeiro. Exerceu a profissão de barbeiro até completar 17 anos, e durante esse período teve a oportunidade de conviver com o ilustre brasileiro Ruy Barbosa (que muito o estimava e a quem permitia acesso aos seus livros). Dando continuidade aos seus estudos, fez o curso preparatório para a Escola Superior no Colégio Pedro II e, em 1925, contrariando a vontade de seu pai, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes, onde foi laureado com a "Medalha de Ouro". Nessa escola teve a oportunidade de conviver com Cândido Portinari, Orlando Teruc e Cândido Fausto de Souza, com o qual dividiu um atelier durante algum tempo. Foi aluno do célebre artista Rodolpho Bernardelli, de quem se tornou grande amigo e a quem sempre se referia como "meu mestre Bernardelli". De vastíssima cultura, dedicava-se à leitura dos grandes poetas, das obras clássicas da literatura e da história universal. Foi poeta, músico (tocava violino), pintor, mas foi como escultor que se notabilizou, deixando extravasar toda a sensibilidade de sua alma.


Sala de visitas do Prof. Dória onde ele reunia os amigos para saraus. Fila de trás, da esquerda para a direita: Dircéa e Dircenéa Alves do Amaral, Léa Motta Silvia, Auxiliadora Mota, Marila Motta Silvia e Francionil Alves do Amaral. Na fila da frente, duas não identificadas ladeiam Darciléa Alves do Amaral
Arquivo Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira.

 

Aos trinta e dois anos de idade firmou-se como artista famoso, através de seu trabalho "A PÁTRIA", uma homenagem ao seu antigo mestre Bernardelli. Participou, em 1934, da exposição do "Conselho Nacional de Belas Artes", quando foi premiado com uma "Menção Honrosa", e em 1939, com a apresentação de uma estatueta de Rodolpho Bernardelli, ganhou como prêmio uma viagem a Portugal (viagem esta que nunca fez). Casou-se com D. Guiomar Dutra, em 18/03/1940, com quem viveu 32 anos e que lhe deu 4 filhos: Vinícius (falecido em 1945, com 3 anos de idade), Fabiano  Dutra César Dória (Professor em Guaratinguetá), Thenius Dutra César Dória (que herdou do pai a alma de artista e dedica-se ao piano e ao violino) e Maria José Dutra César Dória de Souza (conhecida como Mariazinha), professora em Guaratinguetá. Em 1940, Portugal convidou o Brasil a participar da Exposição Histórica que iria realizar, em comemoração de mais um centenário - o oitavo. Para o Brasil foi montado um pavilhão e nomeada uma comissão que recebeu o nome de "Comissão Brasileira dos Centenários de Portugal". Entre as obras selecionadas por essa comissão encontrava-se uma placa de bronze intitulada "Caramuru", de autoria do Professor Dória, e foi com ela que o Brasil recebeu a "Medalha de Prata" da exposição. Mais adiante, detalharemos essa obra magnífica. Ainda no início de sua carreira, César Dória colaborou com vários clubes cariocas, na confecção de carros alegóricos, que eram verdadeiras obras de arte. Em 1941, o jornal "Correio da Tarde", em sua edição de nº 974, divulga "... o governo mandou abrir pelo Ministério da Agricultura, concurso para confecção da herma de Euzébio de Oliveira, tendo obtido o primeiro lugar o brilhante escultor César Dória, autor do trabalho artístico que será inaugurado amanhã". Em 29 de janeiro de 1942, o jornal "Correio do Brasil", em reportagem sobre os trabalhos carnavalescos que estavam sendo desenvolvidos no barracão do Clube dos Fenianos, referiu-se ao jovem artista César Dória com as seguintes palavras "...é um artista brasileiro que honra a sua arte e muito concorre para elevar a nossa cultura artística e para engrandecer o Brasil". Vários outros jornais publicaram elogios ao artista, por ocasião dos festejos de Momo, em 1942. Foi ainda em 1942 que aconteceu no Rio de Janeiro uma exposição do Exército Nacional. Para essa exposição foi confeccionada nas oficinas da Fábrica Presidente Vargas uma grande maquete. No deslocamento de Piquete para o Rio de Janeiro essa maquete se danificou e o então Major Monte, responsável pela missão, foi à Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, à procura de alguém que pudesse fazer a recuperação do trabalho. O Diretor da Escola indicou ao Major Monte aquele que considerava um dos melhores e mais competentes artistas do momento, e que estava trabalhando em um atelier: o jovem César Dória. Após recuperar a maquete, com exatidão, César Dória foi convidado a trabalhar na Fábrica Presidente Vargas, como contratado. De comum acordo com a esposa, resolveu mudar-se para o Vale do Paraíba, afim de ter um emprego fixo e, conseqüentemente, melhores condições de criar e educar os filhos. Em 21 de novembro de 1942, partiu de trem do Rio de Janeiro para Lorena, onde alugou uma casa; e no dia 18 de dezembro chegou em definitivo, trazendo a família. Foi o início de uma nova fase na vida de todos. Foi admitido na Fábrica na Divisão de Construção, como Operador especializado e sob as ordens do Major Monte que com o correr do tempo se tornou seu grande amigo e admirador. A 14 de abril de 1947, foi transferido para o Departamento de Assistência Educacional (DAE) , onde, com alegria, modéstia, sabedoria e muita paciência, ensinou aos jovens estudantes do Ginásio Industrial, por três gerações, valores éticos, morais e cívicos, que permanecem nos corações daqueles que tiveram a felicidade de com ele conviver. Seu exemplo de vida era a maior lição. Jamais poderemos nos esquecer dos esforços por ele despendidos quando das festividades cívicas, na organização dos desfiles e na composição das alegorias, apresentando ao público verdadeiras aulas de civismo e de História do Brasil. 


Carro alegórico condutor das bandeiras, criado pelo Professor Dória, para o desfile de comemoração da Independência do Brasil, em 1960, com alunos do
Ginásio e da Escola Industrial da FPV, simbolizando as nações indígenas.
Foto de Dogmar Brasilino - Arquivo Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira

 

 Paralelamente às suas atividades frente ao Ginásio Industrial, o Professor César Dória se dedicava a confeccionar novas obras (muitas delas encomendadas pelo Exército Brasileiro), bem como dava vazão ao seu espírito brincalhão, introduzindo na pequena Piquete hábitos e tradições da sua cidade natal. Foi assim que fez acontecer em Piquete, durante os festejos carnavalescos, a "Primeira Batalha de Confetes". A partir de 02 de fevereiro de 1950, começou a residir em nossa cidade, e podemos afirmar, com toda a segurança, que poucos fizeram tanto por Piquete. A 15 de março de 1961, foi incluído o nome do Prof. Dória no Quadro de Honra da FPV. Em 2 de dezembro de 1968, a Câmara Municipal de Piquete, através do Projeto de Resolução n° 4/68 outorgou-lhe o título de Cidadão Piquetense. Posteriormente, no dia 15 de maio de 1969, recebeu do Ministro do Exército, como homenagem especial pela grande colaboração prestada aos eventos e datas festivas da FPV, a Medalha de Pacificador . São inúmeros os trabalhos do Prof. Dória: busto de D. Pedro II (ornamento do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), retrato e busto de João Pessoa, estatueta do Conde Paulo de Frontain, busto do Gal. Euclides Espíndola do Nascimento (erigida no Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro), busto do Mal. Emílio Luiz Mallet (parque de artilharia da AMAN - Resende), máscara carnavalesca do teatrólogo Procópio Ferreira, estátuas para túmulos, etc. Em Piquete, encontramos o busto do Mal. Waldemar Brito de Aquino, do Gal. Augusto Maria Sisson, de Nobel, do Cel José Pompeu Monte (homenagem em vida), entre outros, todos localizados em praças ou departamentos da FPV (atual IMBEL). Sobre o túmulo do Gal. Monte, no cemitério de Piquete, existe outra obra sua, uma homenagem póstuma ao seu velho amigo. Encontramos, ainda, na Matriz de São Miguel, três imagens de sua autoria (São Miguel, São José e Nossa Senhora), as únicas em estilo modernista. 

 


Esculturas da Matriz de São Miguel
Fotos de Lety

O Prof. Dória foi definhando aos poucos, por força de um enfisema pulmonar. Dia-a-dia respirava com mais dificuldade. O falar, o caminhar , já o cansavam, mas, mesmo assim, continuava trabalhando. No dia 26 de agosto de 1972, Deus o levou para modelar as nuvens do céu; deixou esculpido, ainda no barro, sua última obra: o busto do Mal. Rondon. Neste opúsculo, queremos nos dedicar a detalhar, de forma especial, duas obras suas que enfeitam e dignificam a cidade de Piquete. São dois pontos turísticos de inegável importância cultural, que, por sua relevância no cenário histórico e artístico do país, merecem a nossa atenção, o nosso carinho e o nosso cuidado: o baixo-relevo denominado Caramuru e o Pórtico da Fábrica Presidente Vargas.

Fontes:
- Dados fornecidos pela família ,
- Piquete - O pequeno mundo de um artista
Autor - Cap. Jacy Eleotério da Costa
Jornal "O Labor" de 01/09/1972
Texto transcrito da Revista Comemorativa "A Cidade - Piquete"
Conselho Municipal de Turismo de Piquete
Gestão Fevereiro2001/2003

 

Mais obras do Prof. César Dória
Clique aqui:

PÓRTICO DA FPV

CARAMURU

 

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