PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
SUA GENTE

Daniel Meireles Brasilino

 

Daniel Meireles Brasilino é mineiro de Maria da Fé, onde nasceu a 3 de janeiro de 1925. É o mais velho entre os nove filhos de Antônio Brasilino e Mariana Meirelles Brasilino. Com um ano de idade, a família mudou-se para Lorena. O pai veio trabalhar na Fábrica, em Piquete. Em Lorena, em 1926, nasceu seu irmão Dogmar. Em 1930, vieram para Piquete. Residiram por muitos anos na Vila São José, às ruas Cel. Pederneiras e Capitão José de Brito. A Piquete de sua infância era muito acanhada. As ruas eram todas descalças. A vila em que morava contava poucas casas. O adensamento maior ficava próximo à antiga Matriz de São Miguel, núcleo original da cidade. "Havia, ainda, a Vila da Estrela, o lugar mais bonito da cidade". "O resto era pasto", conclui... Recorda-se de, todas as manhãs, buscar leite na fazenda do capitão Zé de Brito: "o curral ficava onde hoje está a igreja de São Benedito; o casarão ficava perto do rio...". Daniel cita também o rancho de Maria Silva, onde hoje fica a Vila Célia, e de um outro, maior, no alto do Araçá, onde tropeiros, provenientes de Minas, pernoitavam. "Eram muitas tralhas e jacás cheios de marmelo, pêra, pêssego, galinhas e porcos... era uma festa pra garotada". Outra recordação é da jardineira da família Malerba, que, a partir dos anos 30, cortava a cidade rumo a Itajubá. O episódio da revolução paulista de 1932 também o marcou: o pai, mineiro, passou por certa hostilidade, o que o fez ir para Minas, deixando a mulher e os dois filhos. Retomou a Piquete somente após o conflito. Cita saques e casas incendiadas. Freqüentou o antigo Grupo Escolar do Piquete, à rua Cel. Luiz Relvas. O diretor era o professor Aureliano; as professoras, Alcina Rodrigues, Leonor Guimarães. "Tinha, também, o bedel Arlindo de Moura". Em novembro de 1939, Daniel e um grupo de meninos ingressaram no Patronato da Fábrica, sob orientação do cabo Marinho. Esses alunos iriam, mais tarde, para o Aprendizado Industrial. Do Industrial, cita, reverente, o professor Lutgardes de Oliveira. Com 17 anos, foi para o quartel, em Itajubá - "lá eu era o único que conhecia ordem unida, que aprendi no Patronato". Dispensado, voltou a Piquete, para ajudar na propriedade da família, o "Bar dos Volantes", na Praça da Bandeira. Em 1943, o pai, inicia a construção do Hotel Brasilino, inaugurado em 1945. Ele e os irmãos passaram a ajudar empreendimento. O Hotel tornou-se referência de bom atendimento. "Por essa época, conta, sonhei que estava vendendo revistas...". Colocou, então, uma banca no hotel. Como não era possível conciliar os dois trabalhos, decidiu abrir o seu próprio negócio: a Papelaria Saturno, à rua do Piquete, "onde hoje fica a Frangolândia...". No início, vendia jornais e revistas; mais tarde, passou a comercializar discos também. Em 1960, adquiriu um terreno à rua comendador Custódio, onde construiria seu ponto de comércio e residência. O prédio foi inaugurado em 1970. A Papelaria Saturno era uma das maiores da região. Daniel conta que o primeiro jornal que distribuiu foi O Globo; depois vieram O Dia, Jornal do Brasil e Folha de São Paulo; "as revistas tinham boa saída: a campeã era O Cruzeiro, mas havia também a Manchete, Seleções, Capricho, gibis e palavras cruzadas". No único período em que se afastou do comércio, deixou como responsável o irmão Diógenes, "que me ajudou muito". Aposentou-se em 1981. Manteve a papelaria até 1985. Daniel casou-se a 3 de janeiro de 1950, com a piquetense Maria Cenira dos Santos Brasilino. Enviuvou em 1975, tendo tido oito filhos. Em 1976, casou-se novamente com Alta Ivani da Silva Brasilino, falecida em 2007, com quem teve mais dois filhos. Espiritualizado, considera-se uma das pessoas mais felizes do mundo: "estando com Deus, não temos como ficar infeliz. Eu não tenho tempo para tristeza", diz, mesmo com duas pernas amputadas desde 2000, o que não lhe tira o otimismo e o bom-humor no dia-a-dia. "O segredo é fazer o bem sempre. Estamos em constante evolução".

"Gente da Cidade" - Jornal "O Estafeta" 
Piquete, SP - fevereiro de 2010

 


Na fila de trás, nos extremos da esquerda para a direita, Daniel e seu irmão Dogmar.
No centro, sentados o patriarca Antonio e sua esposa Mariana.
Foto publicada no jornal "O Estafeta".

Minha Homenagem à Alegria e ao Amor pela Vida

Destacar Daniel Brasilino é homenagear a alegria, o sorriso, a delicadeza, a descontração. É também valorizar uma família incorporada a nossa história e aos nossos costumes, participando efetivamente de nossa vida. "Seu" Brasilino e filhos atuaram no comércio da cidade, de forma marcante. Daniel, com suas revistas e jornais, trazia-nos o relato do mundo além dos nossos morros. As lentes de Dogmar Brasilino registraram minuciosamente, através das décadas, a memória fotográfica de Piquete: nossas conquistas, festas e alegria. Desenvolvendo essa página, não pude deixar de lembrar de uma fileira de "Brasilinosinhos", danados, ativos e inteligentes: os filhos do Daniel. Onde estão esses meninos e o que fizeram de suas vidas? Homens feitos, com filhos, nem devem se lembrar de suas estripulias infantis... Em minha memória, mantenho registrado os seus rostinhos travessos, ouvindo quietinhos as historinhas que eu contava na Escola Dominical do Centro Espírita "Deus e Caridade". Suas cabecinhas acompanhavam os movimentos das minhas dramatizações, com os olhinhos brilhando, numa pausa de suas brincadeiras. E eu me sentia muito importante, por conseguir daqueles meninos agitados, tanta atenção...

Maux

 

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