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PIQUETE -
CIDADE PAISAGEM |

Dona
Aurora
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Com olhar vivo e voz firme, numa conversa informal, dona Aurora Guedes, aos 95 anos de idade recria seu passado. Suas lembranças prendem-se ao Piquete antigo, à rua Major Carlos Ribeiro, artéria principal da cidade nos seus primeiros tempos. Aos poucos, quase sem esforço, suas lembranças ganham vida. É a mais idosa moradora de sua rua. Da varanda de sua casa assistiu ao passar do tempo e ao crescimento de Piquete. Em seu relato, a cidade emerge cheia de alma, com histórias pitorescas e personagens que enriqueceram o cotidiano. Dona Aurora nasceu a 3 de março de 1915, "no Piquete", como ela se refere ao núcleo urbano próximo à antiga Matriz de São Miguel, origem da cidade. Foi criada, porém, no Itabaquara. Neste bairro rural, os pais, Godofredo e Elisa Guedes, possuíam um sítio, vizinho às fazendas Santa Lydia, de Antônio Pelucio, e Itabaquara, de José Lúcio. Dona Aurora e os cinco irmãos ajudavam no trabalho da lavoura. A família produzia de tudo: "a terra era fértil, de maneira que a gente plantava roças de milho, arroz, feijão, mandioca, café, banana". Mantinham também uma horta, criavam vacas, porcos, galinhas e patos e, num engenho, produziam rapadura; no pomar, havia abundância de frutas. "Tudo o que sobrava, meu irmão Dico negociava na cidade; ele trazia para casa os três únicos produtos de que precisávamos: sal, fósforo e querosene". Faz questão de dizer que o cansaço do trabalho diário e o isolamento eram amenizados pelas horas ouvindo músicas no gramofone da família. Dona Aurora nos conta que o sítio se localizava próximo ao rio, no Itabaquara de cima. "Havia também o 'Itabaquara de baixo', onde ficavam a capelinha de São José e a escola que eu e minha irmã Alzira freqüentávamos". Cita a professora Alcina Rodrigues e o percurso que fazia com a irmã para assistir às aulas. "Todos os anos, em março, a igrejinha do bairro era enfeitada para a festa do padroeiro. Vinha gente de todo lugar; até do Piquete. Os festeiros eram sempre os vizinhos; minha mãe preparava vários frangos assados para os leilões". Em 1932, assistiu à chegada ao bairro dos soldados constitucionalistas. Diz que muitos ficaram nas redondezas e outros foram para o bairro dos Marins. "Eu tinha medo...", diz. Lembra que veio da cidade um casal com os filhos, fugindo da Revolução. Religiosa, dona Aurora conta que, quando adolescente, vinha aos domingos, participar da missa na Matriz de São Miguel. O pai nunca permitiu que as filhas saíssem sozinhas. Nesses dias, após a missa, faziam um passeio antes de retornar para casa. Foi num desses passeios que, em frente a um bar, chamou a atenção do proprietário - José Moreira da Silva. Logo ele foi até o ltabaquara e teve permissão para iniciar o namoro. Após dois anos, casaram-se em Aparecida, no dia da lmaculada Conceição, 8 de dezembro, em 1936; nesse mesmo dia, sua irmã Alzira, também se casou com João Guimarães. Dona Aurora e José Moreira foram morar em uma casa "novinha", em frente ao bar da família, à rua Major Carlos Ribeiro. Dos 74 anos de residência no mesmo local, recorda-se saudosa da três - vezes comadre, Mariquinha do seu Chiquinho Máximo, e de muitos moradores: Benedito Elias e dona Tide, seu Vidinho e dona Adelaide, Horácio e Lourdes Pereira Leite, João Guimarães e Alzira, Herculano Gonçalves, Zé Lemos e dona Cota... Conta que o local era movimentado, pois na Carlos Ribeiro ficava o Cine Glória; na rua de cima, a Matriz e a Praça do Coreto, onde aconteciam animadas quermesses, festas e apresentações da Banda do maestro José de Castro. Cita, ainda, os hóspedes do Hotel das Palmeiras, os romeiros e as procissões... Dona Aurora e Zé do Bar tiveram sete filhos, netos e bisnetos. Dona Aurora afirma que "se a gente pensa, então lembra; se não, esquece...". Por isso, a importância do incentivo à lembrança. Dona Aurora pensa e é memória viva de Piquete. Aos que cultivam a História, basta seguir o exemplo. Gente da
Cidade - Jornal "O Estafeta" |

Dona Aurora, Zé do
Bar e cinco dos sete filhos que tiveram.
Foto publicada no Jornal "O
Estafeta"
De todas as emoções que mensalmente me são suscitadas quando recebo o jornalzinho "O Estafeta", uma das mais intensas foi provocada por essa reportagem sobre dona Aurora. Em minhas lembranças mais recônditas ela está presente. O início de minha vida e de minha história aconteceu na Rua Major Carlos Ribeiro.
Todas as pessoas citadas por dona Aurora, no texto acima, foram intimamente ligadas aos meus primeiros passos e até ao meu respirar, pois nasci em uma de suas casas. Entre os casarões da Rua Major Carlos Ribeiro eu cresci.
Embora artéria principal da cidade, a rua ainda se apresentava sem pavimentação. De terra batida, por onde passavam os cavalos e as charretes deixando nitidamente os seus rastros, ela também ficou marcada pelos meus pezinhos de criança.
Nessa rua eu brinquei; sentei em suas calçadas, sorri, chorei, desfilei com minhas bonecas e meu velocípede. Sempre sob o olhar atento e carinhoso dos meus pais e avós e dos amigos da família...
Dona Aurora foi uma dessas pessoas amigas e bem próximas. Cresci com suas filhas Maria Aparecida e Maria Alice; estivemos juntas nas festas de aniversário da rua, nos batizados de nossas bonecas; fomos companheiras de escola.
Seu Zé do Bar, sempre com seu inesquecível boné, simpático e gentil... Buscando os sabores perdidos da infância, recordo-me com água na boca, de um docinho de coco com cravo da Índia e açúcar granulado, vendido em seu bar.
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